123 Contando sexta-feira
1 Rosa
José se arrumava para a festa junina. Em frente ao espelho, ele ajeitava o cabelo, aparava a barba, mas deixava o bigode. Havia colocado um par de jeans azulado e um blusão xadrez vermelho como suco de morango. Após colocar suas botas, sentado na cama, ele observou o criado mudo. Nele, repousava uma foto dele e de Rosa na beira do lago que ficava no interior da cidadela onde viviam, no Ceará. Lembrou-se, com genuína saudade no coração, dos momentos que havia vivido com sua amada namoradinha, que havia sido amiga de infância por tanto tempo. Com o porta-retratos em mãos bambas e os olhos marejados, lembrou-se, infelizmente, de seus últimos suspiros. Ele estava sentado ao lado de seu leito hospitalar, segurando os seus dedos com força. A mão dela estava fria e alva como leite empedrado, o que deixava a situação pior. Ouviu desalentado quando a máquina deixava claro com um “pi” prolongado e infernal, que a vida de Rosinha, agora, pertencia a outro plano; a leucemia a vencera.
Chacoalhou a cabeça, afastando aquelas memórias fúnebres. Gostava de levar ao pé da letra o famigerado clichê de que “ela não ia querer vê-lo desse jeito”. Convenceu-se disso ao longo dos dois anos que havia enfrentado sem a presença dela.
Rapidamente, seus pais e seus irmãos trataram de empurrá-lo pra dentro da caminhonete e eles seguiram em direção à tal festinha. Ao chegar e descer do carro, José pôde sentir o espírito da coisa. O vento soprava calmo, moroso, enquanto as pessoas se divertiam. Havia de tudo por ali. Inúmeras barraquinhas vendiam de tudo do bom e do melhor, desde cocada, até shots de aguardente. Crianças serelepes corriam pra tudo que é lado, com suas roupinhas combinadas à felicidade estampada em suas gargalhadas agudas. Havia um grupo de sanfoneiros tocando ao vivo, dando vida àquela noite. Um grupo de adolescentes se apresentava dançando a quadrilha de forma bem animada. Foi impossível José não se lembrar de quando esteve ali, dançando com Rosa e eles davam selinhos escondidos do pessoal da escola.
— Vocês se espalhem e façam o que quiserem. Sua mãe e eu vamos naquelas barracas porque hoje a gente quer se esbaldar — disse o pai de José.
A mãe se aproximou e colocou a mão no ombro de José. Ela teve de olhar pra cima pra encontrar o olhar acastanhado de seu filho.
— Zé, quero que aproveite essa noite e que se divirta. Fique de olho em seus irmãos, mesmo que de longe, só por precaução. Mãe ama ocê — disse, ficando nas pontas dos pés pra alcançar a bochecha do rapaz. E logo depois, se foi.
Luciano e Rangel haviam ficado. José combinou com eles que eles não iam se meter em balbúrdia e eles concordaram. Deu-lhes dinheiro e eles se foram, subitamente. José agora tinha a noite para desfrutar, mas se a noite era uma criança, ele não tava a fim de brincar. Sentou-se próximo a um chafariz onde podia ter uma boa visão geral da festança. Observou enquanto seus pais bebiam copinhos oriundos da garrafa de 51. Após um gole, seu pai fizera uma cara tão azeda que José soube que limão era brincadeira de criança perd’aquilo. Também viu Rangel com uma vara na mão, tentando pescar algo e Luciano em volta da fogueira junto de uma moçoila de sua altura, mostrando alguma coisa, enquanto ambos degustavam maçãs do amor. “que sugestivo”, pensou José.
O céu estava bonito, tingido de sombras, mas com marquinhas luminosas proporcionadas por estrelas simpáticas. A luz conjunta da lua cheia à distância e da fogueira, dava uma paleta de cor dourada e prateada à noite festeira.
— E porque está cá longe da festa, moço? — perguntou alguém ao seu lado.
José olhou em direção à pessoa que falou com ele. Abismou-se ao ver uma jovem idêntica a Rosa. Mesmo que os cabelos estivessem presos em bonitas maria-chiquinhas, ela era parecidíssima. Seus olhos cor de mel estudavam seu rosto com curiosidade, enquanto ela aguardava uma resposta.
— Tu me destes um susto — José disse, recuperando todo o fôlego que lhe escapara ao olhar pra a jovem ao seu lado.
— Pude ver. Mas fiquei preocupada... Algo na minha aparência lhe incomoda? — disse a jovem, segurando as pontas do vestido e dando uma volta suave.
— Não, não é isso — disse José. — É só que cê me lembra alguém que eu conheço.
— “Não, não é isso” — ela repetiu fazendo aspas invisíveis no ar. — Se isso quer dizer que achas que estou bonita, é só o que importa.
— E por que diz isso?
— Simples... Estou a fim de você — a moça lhe disse, sorrindo. Da forma que falou, José viu o rosto de Rosa em sua expressão.
— Mas... Não nos conhecemos e você nem me disse seu nome — José disse, ainda embasbacado. — Não está sendo nada tradicional.
A jovem levantou e caminhou à frente de José.
— Te vi de lá do outro lado da festa. Meu pai é um dos sanfoneiros, oxe. E pra que serve ser tradicional, homem? Tradicional é uma mistura de passado com moda. É algo que não dá pra mudar e algo que maioria das pessoas só engole mesmo. Não quer dizer que todos precisemos — ela disse. — Agora, você vem comigo ou vai perder a chance de me beijar no dia de São João?
Desde que Rosa foi embora, José não havia sequer pensado em ficar com alguma outra moça. Mas havia algo de diferente nessa... Era como se ele estivesse gostando dela à primeira vista, mesmo que não acreditasse nessas coisas. Então, levantou e ficou próximo da moça, pronto para beijá-la, quando ela colocou o dedo fino e singelo em seus lábios, como se silenciasse a alma de José através da boca.
— Não aqui, meu pai não pode ver isso — ela disse e saiu correndo, entrando no pequeno ajunte de árvores que flanqueava o local. — Vem comigo!
***
Rangel queria cobrir de sopapos o atendente da barraquinha de pesca-pesca. Ele era um homem gordo que exibia um sorrisinho seboso, pura falsidade. Mas apenas devolveu a vara e voltou a andar pela festa. Colocou as mãos no bolso e, sinceramente, não estava com clima pra festa, principalmente agora que havia sido feito de trouxa naquela pesca. Pensou em procurar o irmão mais novo, Luciano, mas tinha certeza de que ele estava em algum lugar com aquela rapariga, Clara e não queria interromper, nem queria ver. Passou na barraquinha de cachorro-quente e comprou um, pois pensou que comer ajudaria. Por dentro, ele se repreendeu, pois estava pensando besteira, mas não conseguia parar. Estava bastante preocupado com o irmão mais velho, Zé. Desde que sua namoradinha havia morrido, ele virara outro cabra. Seus olhos eram sempre opacos, como se ele nem estivesse realmente vivo. A pança cresceu um pouco, já que ele havia parado de frequentar a academia que ficava em Fortaleza e seu cabelo parecia sempre o lar ideal pra fuinhas e isso não é algo bom. Eles não tinham fuinha, afinal. Mas o problema real é que Rangel entendia isso, a perda, a falta que ela fazia pro seu irmão, mas ele nunca gostou daquela garota. Ela sempre lhe lançara olhares estranhos e esbugalhados e, quando Zé estava perto dela, ele parecia preso em um transe. E num tinha a ver com o que eles faziam às escondidas dentro de casa, não. Ele parecia outro cabra, falava coisas nada a ver o cu com as calças. Um dia, ele pegou os dois falando sobre algo relacionado a amor eterno.
— Nem a morte vai nos separar — disse Rosa.
Zé, com um sorriso bem “digno de coringa”, disse: — Pode crer, pitanga. E logo, se beijaram.
Quando voltou à realidade da festança ao seu redor, Rangel estava em frente à fogueira. Ele olhou na direção do chafariz e viu quando seu irmão mais velho saiu correndo pras árvores, animado como não parecia nos últimos anos. “mas o que?” pensou Rangel. Logo, correu e foi falar com a mãe. Ela já se encontrava alta como a fumaça da fogueira.
— O Zé? O nosso Zé? Num pode ser, Rangel — ela disse, distraída.
— Vou atrás dele — disse simplesmente, Rangel e correu, logo entrando na pequena floresta.
***
Na floresta, parecia que o calor que a fogueira espalhava havia sumido por completo e José ficou com frio. Continuou indo em frente, só seguindo os sons que a moça fazia à sua frente, mesmo sem poder vê-la. Em seus pés, folhas dançavam ao serem pisoteadas e com esses sons, José acabou lembrando-se de quando ele esteve ali da última vez. Rosa e ele tinham fugido da festa junina e ficaram ali, aos beijos e algumas carícias a mais que teve apenas as árvores como testemunhas. Ele prosseguiu e saiu da floresta.
— Oxe! — disse José.
O local onde a floresta dava era uma clareira pequena, onde a lua cheia se apresentava, banhando tudo à sua frente em uma luz de uma brancura inimaginável. Porém, não muito à frente, havia um barranco que parecia bem profundo, mesmo que Zé não tivesse a coragem suficiente para olhá-lo de frente. Mas a moça tinha. Com os braços dispostos às costas, ela estava olhando a grande lua.
— Zé, eu sabia que você viria — ela confessou, ainda de costas.
José achou isso estranho, pois só seus familiares o chamavam de...
— Zé! — disse Rangel, saindo da floresta à direita da clareira.
— Rangel? — José perguntou, estranhando que o irmão estivesse ali.
— Zé, o que é isso? — Rangel disse, apontando pra frente de Zé.
José voltou sua atenção pra garota e então, notou. A luz da lua passava direto por ela. Ou... havia uma estranha sombra ao redor dela. De repente, ela tirou seus pés do chão, levitando e José hesitou, indo para trás. E ela virou de frente. O rosto estava completamente devastado por chagas vermelhas onde algumas partes do crânio eram claramente visíveis. Seus cabelos foram de lindos e loiros pra uma palha doentia. A boca cadavérica da garota abriu-se, exalando uma fumaça fria na noite, enquanto tanto José quanto Rangel estavam paralisados de medo.
— Zé, eu disse que nem a morte iria nos separar — disse a garota com uma voz seca.
— Rosa? — Zé perguntou. — Como assim?
— Você concordou comigo que nem a morte iria nos separar — ela disse. — Então eu voltei para te levar comigo.
***
Rangel não podia acreditar no que ele estava vendo. A versão morta de Rosa, agora, pairava em frente ao seu irmão e queria levá-lo. Rangel estava com medo e toda a tremedeira do seu corpo denunciava isso, mas Zé estava numa situação pior. Seus olhos estavam presos na imagem de Rosa e ele não se movia, mesmo com ela se aproximando lentamente. Então, Rangel correu. Chegando perto do irmão, não acreditou naquilo, tinha certeza que o cabra gostaria disso, mas acertou um tapa na fuça dele.
— Zé! Vamos, temos que correr dessa doida! — Rangel gritou.
***
José voltou a si com o golpe de seu irmão mais novo e mesmo não gostando daqui, agradecido, disse: — Vamos!
José e Rangel entraram na floresta, mas logo ouviram, às suas costas:
— Você não pode fugir de mim e você não vai! — disse Rosa-morta.
Eles eram, agora, uma confusão de medo entre folhas e troncos. José não conseguia acreditar naquilo, mas principalmente, não entendia como eles não conseguiam sair da floresta. Então, do nada, viu quando seu irmão foi jogado pra longe, caindo no chão e batendo fortemente a cabeça.
— Rangel! — gritou José.
Rosa ficou próxima de Rangel e abaixou pra suspender o jovem com uma de suas mãos, olhando-o de uma forma sanguinária.
— Rosa, não! — José disse, contido. — Você disse que nós íamos ficar juntos. Meu irmão não tem nada a ver com isso. Deixe-o.
Rosa hesitou, olhando entre os dois irmãos, mas no fim, ela largou Rangel que já acordava. Ela se aproximou, levitando, de Zé. Passou a mão na bochecha dele.
— Meu Zé — disse ela, emocionada.
— Só seu — disse José, enquanto começava a ser suspenso por ela.
***
— Zé... Não... — gaguejou Rangel. Mas foi tarde demais, pois ele assistiu aterrorizado, enquanto Rosa arrancava o coração de seu irmão. Ele viu um contorno claro, quase translúcido, ao redor do coração. A alma do seu, agora falecido, irmão. Rangel estendeu a mão na direção deles, mas, com lágrimas preenchendo sua visão, observou enquanto Rosa saía de cena com o coração de seu irmão.
***
Sgt. Ramalho fazia sua ronda de sempre na prisão que ficava no centro de Acopiara, Ceará. Não havia muito mais do que cinquenta presos, mas era preciso sempre ficar de olho, já que ali só tinha cabra safado. Entretanto, o último meliante que chegou era curioso. Um jovem de família que fora acusado de assassinar o próprio irmão na noite de São João. Ramalho se lembra de quando o garoto chegou. Ele foi tratado por todos com dureza, mas Ramalho achava que havia algo de diferente no garoto. Seja no refeitório ou no pátio, o garoto estava sempre sozinho e quando andava, olhava sempre sobre o ombro, como se esperasse que um fantasma aparecesse. Ramalho até mesmo havia conversado com o garoto, em uma ocasião e seu instinto, que nunca havia lhe traído, dizia que aquele garoto não era culpado do que diziam. Pensou, então, em ir visitar a cela do rapaz, ver como ele estava. Desceu algumas escadas e andou por alguns corredores. Ao chegar às grades dos aposentos de Rangel, Ramalho logo pegou seu rádio.
— Corram pra cá, agora! E chame uma ambulância — ele disse, soturnamente, ainda que aflito.
Ele entrou na cela e viu o corpo do garoto, pendurado do teto com um pedaço de lençol, morto. Na parede, escrito com sangue, havia os dizeres “Deixe minha família em paz”.
— Ai égua! Que merda é essa, Ramalho? — disse Souza.
— Não sei o que aconteceu... Mas é isso. Temos que chamar os pais dele.
***
Luciano estava triste. De pé, agora, em frente à lápide do irmão, Rangel, ele segurava o choro. O enterro havia sido devastador pra sua mãe, que não estava bem, desde a noite em que acharam Zé e Rangel ensopados em sangue em meio à floresta. Ela nunca acreditou que havia sido Rangel e Luciano concordava com ela, mas agora? Ele não sabia o que pensar. Por que seu irmão iria se matar? Clara estava ao seu lado.
— Vamos? — disse Clara.
— Bora... não aguento mais ficar aqui.
Assim que se viraram, uma outra jovem se aproximava, de cabelos loiros e roupa escura. Ela passou por eles e deixou uma única rosa na lápide. Luciano observou-a todo tempo e então, sabendo que ela não estivera no enterro, desconfiado, perguntou:
— Quem é você?
A moça virou pra ele, sorriu e disse:
— Ah, só alguém que prometeu paz ao seu irmão.
E apesar de Clara estar ao seu lado, o coração de Luciano bateu mais forte... Havia se apaixonado pela estranha.
— E qual é o seu nome? — perguntou à garota.
— Me chamo Rosa.
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