Mary segura no braço de John, parecendo ansiosa quando ele chega na praça em que tinham marcado para se reencontrar.

- Você fez tudo certo? Conseguiu usar o celular de Lestrade?

- Sim, Mary. Acalme-se. A mensagem foi enviada, não haverá falhas. Você conseguiu convencê-la de ir ao encontro às cegas?

Agora a loira parece empolgada com a ideia, sorrindo e esfregando as mãos de modo conspiratório.

- Sim! Molly está aceitando qualquer coisa para tentar esquecer Sherlock. — Mary suspira satisfeita. — Isso vai ser demais!

Os começam a caminhar para a casa, rindo e sabendo que tinham aprontado uma grande confusão que talvez desse certo.

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Sherlock entra no restaurante de maneira tensa, perguntando-se o que seria tão importante para Lestrade enviar uma mensagem urgente pedindo para se encontrarem em um restaurante francês no meio da cidade para jantar? Um restaurante francês! Mas que ideia. Discutir um crime em um restaurante francês!

Eu nem ao menos gosto de comida francesa.

- Mesa 37, por favor. — Ele diz ao maître que aguarda na porta do elegante restaurante.

- Senhor Sherlock Holmes? Acompanhe-me, por favor.

O detetive ficou ainda mais sem entender quando foi levado para uma ala mais... Digamos... Reservada. As mesas ali eram dividas em pequenas cabines. Ok, fazia sentido se Lestrade queria discutir um crime importante.

Sim, faria sentindo, se quando ele entrou no compartimento não estivesse Molly Hooper sentada ali ao invés de Lestrade. E, para completar, ela pareceu extremamente envergonhada em vê-lo ali. Como se não o esperasse.

Molly, na verdade, abaixou a cabeça e murmurou "não, não pode ser, Mary não fez isso". Sim, ela fez. Tentou se recompor e ergueu o olhar para cumprimentar Sherlock, que já começava a falar.

- Hum... Oi Molly... Não sabia que Lestrade iria mandar você para cá também.

Ah, foi assim que enganaram ele. Devia saber que Sherlock nunca viria em um encontro às escuras.

Espere, Molly não está aqui para um crime. Ele para por um instante a analisando, seus olhos se arregalando a cada constatação que fazia. Molly está aqui para um encontro, mas quem ela veio encontrar? Não, não, não. Ela não veio encontrar a mim!

Molly riu quando percebeu, pelas caretas de Sherlock, que ele já tinha descoberto que fora enganado. Pobre Sherlock. Ele se jogou no assento em sua frente, encarando-a incrédulo.

- Você fez isso, Molly?

Agora ela não sabia se ria ainda mais dele ou ficava com raiva, e quase se engasgou com a água que bebia.

- Claro que não! Mary me disse que eu iria encontrar um amigo dela. É... Tecnicamente, ela não mentiu, se analisar por outro ângulo. — Molly diz, pensativa.

Sherlock sentiu o monstrinho do ciúme que vivia dentro dele abrir um dos olhos e começar a se espreguiçar.

Entendi errado ou Molly Hooper estava tentando me esquecer? Ela sairia com qualquer um que nem ao menos conhecia? Por que raios ela não sai comigo? Ok, eu nunca havia chamado. Talvez fosse por isso.

Ele gostava de Molly, mas sempre adiou o momento em que assumiria. Às vezes usava a desculpa da falta de tempo, e quando não era isso, ficava tão sem jeito que desistia. Pensou por um instante e chegou a conclusão que talvez John tivesse percebido isso. E percebido também que ele perderia Molly Hooper se algo não fosse feito. Bom, pelo jeito seus amigos decidiram agir e agora ele não poderia recuar, talvez fosse a chance que esteve esperando.

- Já que estamos aqui, penso que devemos jantar. O que acha Molly?

A médica pareceu ser pega de surpresa por essa atitude de Sherlock. Na verdade, ela imaginava que ele iria dar uma desculpa e sairia dali o mais rápido possível. Sorriu quando ele pegou o cardápio e começou a fazer uma careta a descrição de cada prato que lia.

- Tudo bem... Mas... Você gosta de comida francesa, Sherlock?

Ele ergueu a cabeça do cardápio, vendo Molly sorrir para ele.

- Não, na verdade eu odeio.

- Ótimo! Porque eu também! Conheço uma pequena cantina italiana aqui perto, o que acha? — Molly via finalmente a oportunidade de jantar com Sherlock, mesmo que tivesse sido armado de uma forma pouco convencional. Tentaria fazer o possível para que a noite fosse agradável, e quem sabe ele passasse a gostar um pouco dela. Já começava a voar longe com o pensamento do que poderia acontecer.

- Sim... Acho que posso lidar com comida italiana.

Eles se levantaram e Sherlock se ofereceu para pagar a água que Molly tomara, e descobriu que o jantar já estava pago. Pensando bem, talvez eles deveria ter aproveitado mais a oportunidade e tomado algum vinho, explorar um pouco os Watson não seria de todo mal depois do que eles aprontaram. O maître ficou decepcionado quando eles saíram pedir nada.

♫ ♪ ♫

I had a dream so big and loud

I jumped so high I touched the clouds

Os dois caminharam pelas ruas acompanhados de um pouco de constrangimento. Quando chegaram na pequena cantiga aconchegante, Sherlock percebeu que Molly era uma velha conhecida ali. Os donos, dois italianos de ossatura larga e vozes poderosas, vieram correndo abraçá-la, fazendo-a dar uma pirueta.

- Como você está magra! Aposto que não está comendo direito! Daremos um jeito nisso já. Luigi, prepare já uma massa para essa menina! — A grande senhora falava sem parar e Molly riu sem graça para Sherlock, dando de ombros. — Mas quem é esse, Molls? É seu namorado?! Ahhhhhh estou tão feliz por você! Colocaremos vocês na nossa melhor mesa!

Os dois foram levados para uma mesa em um canto escuro, onde velas foram acesas. Sherlock tentava reprimir o riso ao ver que Molly ficava cada vez mais vermelha. Ela tentou negar que os dois tinham um relacionamento, mas a grande senhora, que agora ele sabia chamar Rita, não deixou que ela o fizesse.

- Desculpa, eu... — Ela tentou dizer quando eles ficaram a sós.

- Não se preocupe, Molly. — Sherlock segurou uma das mãos dela com carinho e viu seus olhos ficarem do tamanho de um pires, precisando se conter para não rir ainda mais da reação dela. Sherlock não pode deixar de se sentir aquecido ao ser confundido como namorado de Molly.

A comida foi servida e ele foi obrigado a concordar que Molly tinha bom gosto. Se pegou pensando que estava realmente se divertindo. Conversar com Molly era fácil, principalmente depois que ela ficou mais solta ao tomar vinho. O clima, a música e os donos do restaurantes eram animados, deixando a descontração no ar. Será que algum dia Sherlock havia se divertido assim antes, com coisas tão simples? Achava que não. Ele ria verdadeiramente e sentia-se livre. De repente imaginou como seria sua vida se pudesse ter mais tempo assim como Molly. Descobriu que era uma ideia que o agradava muito. Talvez ele não quisesse mais ser confundido com o namorado dela, e sim ser o namorado dela.

A conta fora paga e eles caminharam por um tempo, sem rumo. Pararam em uma grande praça. Os dois não queriam ir pra casa, ainda que não dissessem. O vinho tinha dado sua contribuição e os dois agora estavam extrovertidos e sorridentes. Molly ensaiava uns passos da música que ouviu no restaurante, arrancando mais risadas ainda de Sherlock.

I stretched my hands out to the sky

We danced with monsters through the night

- Dance comigo, Sherlock!

Ele segurava a mão dela enquanto ela se remexia e dava voltas, rodando através dele. As risadas dela eram audíveis e ele se divertia em vê-la se chacoalhar totalmente sem jeito.

- Ufa, cansei. Você nem se mexeu! – Ela se jogou na grama, sentando-se com as pernas esticadas.

Sherlock sentou-se em seguida, sacudindo a cabeça e ainda sorrindo sem acreditar. Molly fazia com que ele se esquecesse de quem era.

Hoje é a minha chance com ela, e eu não posso perdê-la.

- Devia ter falado para John armar essa situação antes, assim, de forma alguma eu ficaria entediado. — Ele deixou que o corpo caísse para trás, deitando na grama.

- É, até que você não é tão chato, Sherlock. Pensei que você fosse ficar desanimado como um cacto em um ambiente úmido, mas até que você me surpreendeu.

Molly escuta a risada dele escapar pelo nariz e sorri abertamente, deitando-se ao lado dele.

- Você está vendo aquelas estrelas, Molly? É uma constelação muito importante.

Ela olhava interessada, tentando identificar de que raios ele estava falando.

- Chama-se "Mauvaise Nourriture".

- Ahn... E quer dizer o que?

- Comida ruim, em francês.

Agora é a vez de Molly deixar que uma gargalhada escape.

- Sherlock! — Ela consegue dizer em meio as risadas. — Isso não existe, não é?

- Não. – Sherlock pisca para ela.

I'm never gonna look back

Woah, never gonna give it up

No, please, don't wake me now

- Idiota!

Ele sorri de modo enviesado e vira-se para encará-la.

- Eu ainda serei um idiota se roubar um beijo seu?

Molly sente uma manada de búfalos desgovernados fugindo de leões ensandecidos invadirem seu estômago. Céus, ele disse mesmo isso?

- Talvez eu possa repensar, nesse caso. – O sorriso dela era tudo que ele precisava para se aproximar ainda mais.

Ela só teve tempo de ver o intenso brilho que vinha dos olhos dele, antes que ele a beijasse com cuidado, segurando-a pela cintura. O beijo é doce e delicado, mas mesmo assim é muito mais do que ela esperou por todo o tempo, desde que conheceu Sherlock.

- Ok, talvez você não seja tão idiota assim, mas eu preciso conferir de novo. — E agora é ela que se joga para cima dele, pegando-o de surpresa e imprimindo um ritmo mais profundo ao beijo, sentindo as mãos dele se fecharem em suas costas.

The stars were burning so bright

The sun was out 'til midnight

I say we lose control

- Sabe, Sherlock, — ela diz ainda em cima dele, tendo dificuldades com a respiração ofegante — eu faço um café delicioso, e acho que talvez você deva prová-lo lá na minha casa.

Ele sorri, tentando recuperar o fôlego e deixa que sua cabeça caia para trás, de volta à grama.

- Acho que talvez eu deva provar mesmo.

Os dois riem e voltam a se beijar. Com relutância, ela sai de cima dele e ele a ajuda a se levantar. Antes que eles comecem a caminhar, Sherlock digita uma rápida mensagem para os Watson: "O crime vai bem. Investigarei o corpo agora. SH"

A mensagem faz Molly se divertir mais ainda, e de seu próprio celular ela envia outra mensagem: "Não gostei do seu amigo e o troquei por um crime com Sherlock. Iremos investigar os corpos. MH"

De mãos dadas eles caminharam entre muitos beijos até o apartamento de Molly, onde é desnecessário dizer que eles dispensaram o café.

This is gonna be the best day of my life

My life

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