11ª Geração - Saga Jigoku
8 Uma pequena briga, o começo de um passado
Pelo corredor do colégio Namimori uma calopsita voava segurando uma trouxinha de bentô. As pessoas paravam e olhavam confusas para aquela ave se dirigindo à sala 1-5.
— Manju?! – Miu se assustou ao ver sua calopsita entrando, do nada, na sua sala – o que tá fazendo aqui? – e correu para receber sua mascote.
— Fiuu – Manju piou colocando o pacote sobre a mesa da dona.
— Ahh! Muito obrigada – ela agradeceu pegando seu almoço.
— O que foi isso? — perguntou Ran ao ver a inusitada situação.
Antes que Miu pudesse explicar, porém, um tumulto começa a se formar no corredor, mas nada tinha a ver com a ave carregando a comida e sim com uma briga.
Miu e Ran viram as gêmeas correndo em direção da saída para o pátio. Já Maya parou em frente à sala das mais novas para chamá-las.
— Venham logo!
— O que houve? – perguntou Ran com voz de menininha indefesa preocupada.
— Stevan e Ken arrumaram briga – a mais velha respondeu como se fosse óbvio.
As mais novas se entreolharam enquanto a outra já saía correndo.
— Vocês vêm ou não? – ela gritou sem parar de correr.
No pátio interno da escola, Tessei Ken e O´Neill Stevan estavam parados, encarando três rapazes que estavam a sete passos de distância deles.
— Vocês são tão ridículos... – o garoto que estava mais a frente falou com deboche.
Os dois guardiões não falavam uma palavras sequer.
— Essa capinha preta com esse chapeuzinho e bengala – outro garoto, que estava à esquerda do primeiro, dizia com escárnio bastante aparente na voz enquanto apontava para os adereços de Ken.
— Até parece bicha – o terceiro completou, – seu boneco de plástico metrossexual – fazendo referência assim ao boneco Ken da Barbie.
Os rapazes riam das próprias piadas, enquanto todos que observavam ficavam cada vez mais tensos.
— E esse aí – apontaram para Stevan – todo metidinho porque fica lendo outros livros nas aulas, aposto que é yaoi – e continuaram a rir.
A cada chacota, a cada piada que faziam, o ar ficava mais e mais pesado. Alguns alunos já estavam gritando “Briga! Briga!”, enquanto outros já estavam bem longe dali. E os que ficavam quase que se encolhiam, prevendo o resultado da situação, afinal, bastava olhar para as expressões de Stevan e Ken para saber o resultado daquela briga que ainda nem havia começado.
Do terraço, Reborn e Corolleno assistiam a cena.
— Nossa, ele é tão zoado quanto o Tsuna, Kora!– o Arcobaleno da Chuva comentou.
— Mas há uma grande diferença entre eles – foi o único comentário que o outro bebê fez, sem tirar os olhos do pátio.
Ken e Stevan trocaram olhares. Ran se escondia atrás de Maya e Miu enquanto as gêmeas quase que pediam para que a briga ocorresse logo. Oda, que estava sentando em um banco mais afastado, tocava uma música que as poucos se tornava mais e mais tensa.
O que portava a bengala olhou na direção Maya e disse:
— Per favore, segure-a – e entregou o objeto para a garota.
A guardiã do Trovão olhou com receio para Tessei.
— Sei que posso confiá-la a ti – ele olhou nos olhos dela, com um olhar de quem sabia o que dizia. Maya simplesmente pegou-a, entendo os sentimentos do companheiro, Ken segurou o chapéu e assentiu com a cabeça de maneira quase imperceptível.
Logo após entregar os bens para a companheira, Tessei disse:
- Não preciso de uma arma para derrotar esses lixos que estão aqui.
E nenhuma palavra a mais fora proferida da boca dos Vongola. Apenas investiram na direção dos três tão rapidamente que um piscar de olhos seria o suficiente para perder sua evasiva.
Ran assustada se encolheu, Oda agora tocava uma melodia que lembrava à espanhola, com acordes rápidos e fortes, dando mais emoção à briga. Amarilis e Amarantha passavam por entre as pessoas que assistiam a briga, com cesto em mãos, gritando:
- Façam suas apostas! Quem ganhará? Os estrangeiros? Ou os veteranos? Vamos! Façam suas apostas!
Miu já tinha ido embora para comer seu bentô e Maya ainda estava ali, segurando as coisas do que lutava.
Stevan avançou contra o da direita e antes mesmo que seu adversário pudesse levantar a guarda o acertou com um direto de direita exatamente no nariz seguido de uma rasteira, fazendo com que este adversário caísse de costas no chão.
Simultaneamente, Ken — que parecia coordenar cada passo, movimento e golpe com a música conferindo-lhe assim graça e beleza mesmo com tão brutais golpes, — acertou o da esquerda na lateral da mandíbula com o cotovelo direito, se inclinou para frente e o nocauteou com um uppercut de esquerda na boca do estômago, que arrancou o adversário do chão, jogando-o para trás.
Com uma agilidade quase sobre-humana, Ken partiu para cima do terceiro, o “líder” do pequeno bando, mas este já tinha guarda armada, o que na verdade não se tornou um problema para Tessei, pois deu um direto com giro, assim desfazendo a guarda do oponente e acertando-o com toda a força, o jogando para trás. Nisso Stevan investiu por trás do agredido, golpeando-o com uma joelhada na altura da costela. O rapaz se contorcendo foi ao chão.
Toda essa ação havia durado poucos segundos, todos os presentes, até mesmo as gêmeas e Maya, estavam impressionados. Os três estavam no chão, o da esquerda desacordado, o da direita sem ar e o líder implorando por clemência.
— Agora vamos ver quem é o bonequinho metrossexual – Ken disse com escárnio, olhando de cima os derrotados.
Stevan abaixou-se, chegando bem perto do rosto do líder deles, e disse:
— Jamais, na sua vida, se meta em nosso caminho novamente – seus olhos ameaçadores fizeram com que o derrotado apenas pedisse perdão por ter nascido, nada mais.
O guardião da Tempestade levantou-se e foi embora. Tessei caminhou para perto de Maya e disse, pegando sua bengala com gentileza.
-Grazie tante – murmurou ele caminhando na mesma direção de O´Neill e ao passar por Oda levantou um pouco a aba do chapéu em reverência, – bela música.
Depois da limpeza das salas, Ran encontrou Amarilis e Amarantha saindo do colégio.
— Ei, é Ran o seu nome, né? – Amarilis perguntou, olhando para a mais nova.
— É sim – essa respondeu timidamente.
— Nós estávamos indo na loja de conveniências comprar chocolate, quer vir junto? – Amarilis, mesmo que não parecesse, era simpática.
Os olhos de Ran brilharam. Ela gritou um “Haiiii” e saiu correndo atrás das gêmeas.
O céu estava pintado em tons de laranjas e rosas, o sol começava a se pôr. Ran andava olhando para cima, para os lados, observando cada detalhe da paisagem enquanto Amarilis e Amarantha conversavam entre si sobre como tinha sido produtiva aquelas apostas, afinal, todos do colégio achavam que os veteranos iriam ganhar.
Ao chegarem à loja de conveniências, Amarantha correu para a parte de chocolates e Amarilis foi ver as revistas sobre psique e assassinos em série. Ran parou em frente à prateleira de Pocky, com os olhos a brilhar, afinal aquilo era algo que ela amava comer, mas como era difícil de encontrar em Roma, não podia comer o tempo inteiro.
Ran saiu com uma cara muito feliz, mastigando com satisfação cada um dos pockys e Amarantha roía sem parar as barras de chocolate que havia comprado.
Depois de andarem algumas quadras, Ran parou repentinamente. Amarilis também parou e olhou confusa para ela.
— Esqueci minha carteira! – a italiana gritou e saiu correndo.
As gêmeas param e se olham com expressões confusas, não entendendo muito bem o que estava acontecendo.
— Bom, de qualquer maneira vamos esperar aqui. – Amarilis fala.
— Tá – Amarantha respondeu, sem parar de roer seu chocolate.
Quinze minutos se passaram e Ran ainda não havia voltado.
— Mana – a chocólatra chamou a irmã.
— Fale.
— Quero mais chocolate! – ela disse mostrando as três embalagens de chocolate recém-compradas vazias.
— De novo? – a mais velha olhou para a outra com um olhar reprovador – ainda vamos ficar pobres só por causa desses chocolates – e se colocaram a andar em direção à loja de conveniências novamente.
Iriam comprar chocolate e aproveitariam para ver onde diabos a Ran tinha se metido.
Chegando próximo ao estabelecimento, as gêmeas viram, na entrada de um beco, os rapazes que até outrora estavam sendo quase massacrados por Stevan e Ken. Eles olhavam para baixo, falando com alguém. Mais próximo podia-se notar um vulto encolhido, tremendo, jogado no chão.
— Eu sei que você é amiga daqueles merdas! Não adianta negar! – um deles disse, chutando o vulto.
— Mas que pena, você é indefesinha, não é? – o que era o líder do trio segurou a garota pelos cabelos, obrigando-a a olhá-los.
Era Ran, que já estava com sua carteira na mão, quem estava encolhida no beco escuro.
— Assim não tem graça brincar! – disse o terceiro. – Você tem que gritar pra ficar divertido.
Ela não respondia. Apenas desviava o olhar, com a mão direita segurando nas costas por cima do ombro esquerdo. Tremia como se fosse à noite mais gélida de inverno, seus olhos vagos fugiam da realidade.
As gêmeas olharam a cena e, ao invés de gostarem de ver a garota sofrendo – o que normalmente elas sentiam quando qualquer um sofria – sentiram raiva daqueles que a faziam sofrer. Quando notaram, já tinham envolvido os três em uma ilusão, na qual a cena daquela tarde ficava se repetindo na mente deles.
— Vamos – disse baixinho Amarilis para Ran.
Porém essa não respondia. Apenas continuava ali, imóvel. As gêmeas se olharam, com expressões de quem não sabe o que fazer, então cada uma segurou-a de cada lado, apoiando-a sobre seus ombros.
Ao chegarem ao hotel, as gêmeas colocaram-na sobre uma das camas de solteiro do quarto. Ran já estava mais consciente, mas ainda sim não respondia quase nada. Miu também estava no hotel, uma vez que encontrou as outras no caminho, por coincidência.
— Des-desculpa – Ran murmurou.
— Quê? – elas perguntaram, já que não tinham entendido o que a ferida tinha dito.
— Desculpa... – Ran falou agora um pouco mais alto – Eu... sou fraca...
Miu só a fitou com um olhar gélido. Ela odiava pessoas desse tipo.
— Eu luto, mas... – Ran continuava com aquela cara de coitada, menininha desolada – eu não consigo...
As outras três se olharam. Notava-se no rosto de cada uma delas a vontade de segurar a garota e espancá-la mais ainda. Toda aquela história de se fazer de “coitadinha” irritava-as profundamente. Entretanto elas se controlaram. Nada falaram, apenas continuaram a escutar o desabafo da mais “fraca”.
Ran estava sentada sobre uma das duas camas que estavam no quarto e olhava fixamente para um espelho que havia na parede ao lado.
— Meninas... – ela começou falando com hesitação na voz.
— O quê? – perguntou Amarilis, sem muito controlar sua irritação na voz.
— Se eu mostrar uma coisa pra vocês, vocês prometem não contar para ninguém?
Elas apenas assentiram.
A guardiã do Sol virou de costas para as outras e, com hesitação, levantou lentamente sua blusa. As demais guardiãs, que até a pouco estavam irritadas com toda aquela história da ferida, se assustaram. Cicatrizes de cortes cobriam as costas da Gokudera.
— Que que é isso? – Miu perguntou, após ter passado o susto.
— Cicatrizes, não tá vendo? – respondeu com ar de brincadeira, Amarantha.
Miu só a encarou.
— É o motivo de eu não ter reagido quando os três vieram pra cima de mim – Ran respondeu com uma mescla de dor, sofrimento e decepção na voz.
Amarilis, que estava sentada na outra cama, sentou-se ao lado da garota que agora abaixava sua própria blusa. Os olhos azuis da gêmea fitaram os olhos cinza de Ran, como se estivessem lendo a alma desta. Na verdade, era exatamente isso que ela estava fazendo.
Apesar de ambas as gêmeas serem ilusionistas, cada uma tinha sua “especialidade”: Amarantha era a melhor em criar as ilusões, enquanto Amarilis tinha como preferência ler a mente das pessoas.
As cenas da infância de Ran iam passando pelos olhos daquela que liam sua mente. Cenas de uma garotinha loira sendo mal-tratada por colegas de sala, rabiscos em sua carteira em letras garrafais diziam: “SAIA DAQUI SUA MAFIOSA NOJENTA”. A última cena era de Ran sendo jogada contra a janela do segundo andar por duas garotas quaisquer. O vidro se quebrando lentamente nas costas dela, seu corpo em queda livre, a expressão de pura dor pouco antes de desmaiar.
Amarilis agora tinha voltado a si. Amarantha olhou incrédula para a irmã, uma vez que essa conseguia ver o que aquela lia nas mentes alheias. Miu era a única que não entendia a situação direito e também não parecia interessada em entender.
Porém, meio que a contra vontade, Amarilis mandou por telepatia as memórias que tinha lido para Miu, afinal, já que ela estava ali, que ela soubesse o que estava acontecendo.
— Por favor – Ran disse para elas após notar que já haviam entendido a situação – Não contem pra ninguém... Eu tenho... vergonha...
Fuuka fitou a italiana com seu típico olhar, virou-lhe as costas, e enquanto rumava para a porta do quarto, disse:
— Não ache que é só você que tem um passado triste e traumático.
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