1001 cartas para chegar até você
16 Capítulo 16 – Abrindo janelas para a alma
Não é para desesperar, mas onde está o maldito caderno?! DC procurou mais uma vez nas gavetas, na mochila, debaixo da cama, no guarda-roupa, no banheiro, atrás da máquina de lavar roupa, teria olhado até dentro do aquário se eles tivessem um. Mas nada. Nenhuma sombra dele. Calma! Deve ter caído no chão. Onde? Quando? Na segunda, depois da aula? Não, ele sempre guarda as coisas com calma. Até porque Denise exige que ele escute com atenção tudo o que ela fala. Ele pode ter até deixado cair na sala, enquanto ela falava sobre uma baboseira qualquer, porque ele estava bem distraído pensando no trabalho de literatura. Será que tinha levado para a biblioteca? Não, porque ele faria isso? Era fato de que ele não tem um caderno para literatura como tudo mundo que é normal, mas ele anotou no caderno de Física sobre o trabalho... Ok, talvez ele tenha pegado sem querer junto do caderno certo enquanto Mônica Souza o puxava pelo braço... Ah, sim... Ele o arrastou para fora da sala sem nem perguntar se o braço dele estava doendo: doía, mas valeu a pena. Foco! Ele não se lembra exatamente de ter levado o caderno para a biblioteca. Se ele não estava em casa, devia ter caído em algum chão, talvez o da sala de aula.
De manhã, chegou antes que tudo mundo e averiguou a cena do crime. Nenhuma pista. Olhou novamente na mochila. Entre os cadernos, as tralhas da escola e mais bobagens necessárias, viu a edição de A mão e a luva cuja capa era preta também. Não era muito maior que um A5, era fina como seu próprio caderno... Não. Não, isso não aconteceu. Claro que não aconteceu! Ele começou a gargalhar em pânico. Ele não faria isso, é muito tolo. Trocar os livros?! Além disso, se ele pegou o livro que é idêntico ao caderno, quem teria pegado? Não! Ela não faria isso. Se Mônica Souza tivesse confundido o caderno com o livro, ela teria devolvido imediatamente e pedido desculpas pelo engano, porque é uma boa menina. E se tivesse descoberto só depois do ensaio? Em sua casa, de noite, antes de dormir... A primeira coisa que ela faria no dia seguinte é entrar pela aquela porta entregando a ele o caderno. Ela não leria, né? Claro que não, ela não teria motivos para isso. Além do mais, ela era certinha demais para fazer uma indelicadeza dessas.
A turma toda em sala. A aula começou. Mônica não falou do caderno. Pânico. Se ela for na verdade uma menina má que não devolveria seu caderno sem antes ler tudo que está escrito nele? Ela não pode fazer isso. Ela não vai fazer isso. Se ela ler, ele está acabado. Morto. Trucidado. Não somente está descrito o andamento da história, como também está alguns planos de “correio aleatório”. E os poemas? O coração dele caiu, descendo até o estômago. A cor da face sumiu. Se ela ler, acabou a brincadeira. Por que ele foi levar aquela merda incriminatória para a escola justo no dia do trabalho em dupla?! Porque ele é um imbecil! Porque ele não tem dois neurônios funcionando! Se ela viu o caderno, por que não falou nada no ensaio? Por que ela não falou com ele até agora? A aula começou e ela nem perguntou se por acaso aquele caderno que não era dela talvez, por alguma razão, fosse na verdade dele. E ele pode perguntar? E se ele só deixou na biblioteca? Ótimo, é possível que ele mesmo tenha os confundido e tenha colocando-o no lugar do exemplar. Acontece, ele estava distraído, os dois são parecidos, ele é um idiota... Normal.
Decisão final: ir para a biblioteca assim que o sinal bater para o intervalo. Sem problema. E então é claro que ela aparece na frente dele. Seria um anjo?
– Bom dia, DC, pronto para a gente continuar o trabalho? – claramente um demônio o tentando.
Maldita oferta irrecusável. E por que ele disse sim? Porque Mônica se ofereceu de ir com ele para a biblioteca. E ele já ia para lá, por que não juntar o dever ao prazer? Sentaram-se no mesmo lugar do dia anterior. Detalhe que não lhe passou despercebido. Com sorte, o caderno ainda estava lá. Disfarçando, procurou pelo objeto desaparecido. Nada. Sorte o escambau. Despistando, ele diz que vai ao banheiro. Claro que com sua fama, ele pode dar uma volta bem maior sem parecer esquisito. Ele só precisa conferir a estante rapidinho, nada suspeito. E nada de caderno. Pergunta para a bibliotecária? Claro que ele pensaria nisso depois que o intervalo acabasse. Por que ele não pensou nisso antes? Porque ele não queria se afastar dela. E porque ele é um imbecil. Analisando a situação, uma coisa o consolou: Mônica não estava com raiva, portanto ela claramente não leu os poemas do caderno. Caso contrário, ele seria um homem morto, ou melhor, um rapaz cuja juventude fora encurtada por um golpe de azar e uma coelhada mortal. E ela ainda teve a coragem de perguntar sobre Machado de Assis? Claro, é o trabalho, é por isso que eles estavam ali. Foco!
Eles deviam fazer o trabalho. Ela trouxe suas anotações, mas nenhum dos dois conseguiu fazer nada. Por sorte o trabalho é bem mais simples. A estrutura do texto estava pronta, era só rechear. Ela não teria pego o caderno sem dizer nada, isso não era algo que a Dona da Rua, a certinha, faria. Se ela tivesse visto o caderno, teria dito. Mônica podia ser impulsiva e bastante curiosa, por isso até daria uma olhadinha, mas o anjinho de seu ombro jamais a deixaria ficar com o caderno que não lhe pertence e ainda ler coisas tão confidenciais...
– DC, o que você acha dessa frase? – ah, o trabalho! Presta atenção!
Ele lê, sugere, age como um bom menino. No entanto, sua cabeça não para de martelar... Foi burrice usar o caderno de confessionário. A decisão mais estúpida do mundo é fazer registro gráfico de seus fantasmas interiores, dos dramas de seu coração. Devia ser segredo, e segredos não têm razão para serem anotados, registrados para consultas futuras, foi erro de principiante. Segredos são para serem levados para o túmulo... Talvez estivesse surtando à toa, talvez tenha esquecido na garagem.
E se Mônica tiver pegado distraída, ela o perguntaria... Com certeza? Não deve ter pego, ele deve ter deixado no armário, em casa, na garagem, a mãe vive dizendo que ele só não perde a cabeça, porque nasceu grudada ao corpo... Olharia de novo na mochila, no quarto, debaixo da vasilha do cachorro, se eles tivessem um...
E se ela desobedecesse a seu anjinho e lesse? O coração saltou. Se ela lesse, seria o fim. Ela saberia a verdade, ela o confortaria, esfregaria na cara dele com raiva por ele ter mentido, ficaria furiosa ao ler os poemas que ele escreveu motivado pela mágoa e ciúmes, e seria o fim... A não ser que ela também seja do contra e curta essa brincadeira... Até então, ele não sabe lê-la. Mônica podia ser um livro aberto, mas às vezes estava escrito em hieróglifos. Se fosse Japonês, até mesmo chinês ele teria mais sorte.
O que ele não sabia mesmo é como ela reagiria aos poemas de amor... Será que ela gostaria? Acharia brega? Ele recitaria para ela, dedilharia uma melodia enquanto recitava-os como se fossem apenas canções, diria ao pé de seu ouvido... O trabalho! Guiomar. Luís Alves. O tonto do Estevão. E ele? Seria quem? A luva perfeita que encaixa perfeitamente nas mãos nada delicadas de Mônica Souza ou o idiota romântico cujo fim é ter sua existência dissolvida e desaparecer sem importância, mas não sem antes levar foras descomunais... Porque se tem uma coisa que dói é o desprezo que a Guimar tem por Estevão... O próprio autor não tem por ele apresso algum. A moça escolheu. Ao desprezado, sobra apenas resignar-se a sumir da vida de sua amada. Se o destino juntava Mônica e Cebola, fazia isso tornando-os a mão e a luva? Mas em uma mão cabem tantas luvas, como um pé pode calçar vários tipos de sapato: chinelo, salto alto, tênis, com cadarço, sem cadarço... O problema de entregar seu coração e deixar na mão do outro a decisão é que não se tem controle algum sobre ela... Mas nada disso importa na análise da obra dentro de sua escola literária... O sinal toca.
A aula passa. No fim, ele procura pela bibliotecária para perguntar de seu caderno e nada. Desesperado, ele refaz os passos até a casa, buscando pistas como um cão que fareja. Ela deve ter o caderno. Se não estiver com Mônica, estaria com Denise? O coração dele saiu pela boca. Deus, o inferno está tão próximo. Se bem, que talvez fosse menos pior... Ou não. Fofoqueira do jeito que ela é já estaria na primeira página do blog dela: “O diferentão da turma faz poemas de amor clichês: quem diria que o Do Contra é só um garoto normal, bem, mais meloso que o normal” E então Mônica leria os poemas, gostaria de uns, detestaria os outros (e como detestaria...) e boom! Se um dia foi pedra, no segundo é o coelho atômico. Mas não, ele conferiu no celular de emergência que a mãe o obrigou a ter: nada no blog – bem nada que o interessasse. Suspirou.
E o bando chegou. Como perguntar? Como se denunciar? Com sorte, talvez ela pense que o caderno é de outra pessoa. Por que ele não escreveu em japonês? Ele é fluente! Ou de trás para frente? Ou de cabeça para baixo? Até o Da Vinci escreveu o caderno para ser lido de frente para um espelho, por que o idiota foi escrever como um menino normal?! Bem, está aí um argumento para se defender e dizer que nunca viu aquele caderno na vida....
- DC, presta atenção! – Magali o chamou.
Sim, capitão! Foco! Ele precisa focar. Ele precisa não pensar no pobre caderno, perdido na sarjeta, em algum lugar do mundo, com a chance de Denise ou Mônica encontrá-lo antes dele. O barulho da guitarra o irrita, as vozes das meninas o perturbam, a bateria o enlouquece, mas ninguém pode saber. Na pior das hipóteses, ele nega, jura que nunca viu aquele caderno, declara que nunca escreveu poemas de amor, confirma que nunca arquitetou planos infalíveis, já que isso é marca registrada do Cebola e ele não pagaria direitos autoriais, fala que nunca gostou da Mônica... Essa mentira é a que será mais difícil de dizer, mas é só pensar que os sons que saíram da boca dele são só sopros de ar, nada mais que isso e que, portanto, não são perversos ou dolorosos.
- De novo! – cobra Magali – agora se concentra, DC, por favor.
Claro. De que adianta pensar na morte, se ela é inevitável? Suspirou e esforçou-se ao máximo para pensar em tão somente acordes, notas, músicas...
Ao fim do ensaio, Mônica foi a primeira a querer ir embora. Tão suspeita que ele quis interrogá-la. Segui-la para... Lembrou-se de que tinha se esquecido da carta. Não era culpa dele, ele tinha pensamentos demais na cabeça. Magali queria conversar, perguntar se estava tudo bem. Claro que não. Mas ele não falaria de problemas e sentimentos, isso é tão clichê. DC não abriria o coração com receio de que vejam o quanto seu coração está tomado pela Mônica. Para esquivar-se, segurou o ombro de Magali, disse uma mentira qualquer, qualquer coisa que a tirasse do pé dele: está tudo beleza, despreocupa e vai estudar que eu vou também. É uma mentira boa, que não machuca ninguém.
Fechou a garagem. Foi para o quarto procurar a carta pronta dentro de uma caixa de sapatos... Só poderia ser pior se alguém descobrisse, mas especificamente Nimbus. Eles precisam de um aquário urgentemente, onde mais ele guardaria suas cartas?! Sentou-se na cama, ficou olhando o teto por um tempo. Tinha que esperar como sempre a hora certa. Sem pistas, sem testemunhas... Até quando?
A rua já estava vazia naquele início de noite. Talvez alguém ainda conferisse a caixa de correio... De preferência que ela não estivesse na sacada de tocaia. Pedalou até a casa dela, colocou o envelope depressa e voltou para casa. Não teve tempo de reparar que Mônica pôs a cabeça para fora do portão e viu para onde ele ia embora distraído.
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De volta para casa, Mônica só pensava no caderno e no comportamento peculiar de DC. Bem, mais peculiar do que o normal. Seria parte do plano? E o que ele queria que ela lesse no caderno? Chegando em casa, procurou pela carta. Primeiro na caixa de correio, agora sua cúmplice e prioridade. Nada. Depois, olhou na mesa da entrada, onde a mãe costumava deixar as cartas. Também nada. Sua mãe, adivinhando sua inquietação, disse que hoje o correio falhou. Nenhuma carta para Mônica. A jovem sorriu triste para mãe e subiu para o quarto. Sem carta? Então é no caderno que está a continuação? Talvez entre um monte de anotações confusas... A letra dele era, em parte, sofrível, e os muitos rabiscos confundiam-se... Se há algo que ele quer que ela leia, não fez questão de se tornar inteligível. O que não a surpreendia vindo dele. O sacrífico valia a pena. Lá estavam as informações que ela buscava!
Pegou-o debaixo do travesseio. Em sua defesa, Mônica pensou sim em devolver. Se DC perguntasse do caderno, ela diria que estava com ela. Procuraria na mochila como se ela o tivesse levado pra escola. No entanto, com a cara espantada, diria que esqueceu em cima da escrivaninha, junto dos cadernos das matérias da segunda que não se repetem na terça, enfim... Prometeria levar para o ensaio com um sorriso de anjo. E ele perguntaria se ela leu? Talvez não, mas se perguntasse, ela diria que não, só procurou pelo nome do dono, só isso! Contudo, apesar das diversas oportunidades, DC não falou nada. Era estranho que o rapaz não tenha perguntado por ele, certo? É como se ele não fizesse questão de tê-lo de volta. Isso a fez ter certeza de que ele o deixou propositalmente, como a música no pendrive. Então era dever dela ler o caderno, quer dizer, era isso que ele queria que acontecesse. O debate moral ainda a perturbava enquanto ela passava as páginas, procurando onde tinha parado no dia anterior. Sem carta, restava a ela ler mais um pouco do caderninho...
No entanto, queria a carta! Ela não conseguia pensar em outra coisa. Por isso ficou na porta de casa, com a desculpa de que o calor daquele dia seria bom estudar do lado de fora. Sentou-se na varanda da entrada, com o caderno de matemática, resolvendo muito pouco concentrada as equações do livro. Ficou esperando inquieta até que a caixa de correio deu a ela exatamente o que ela queria: a carta e a visão ao longe do rapaz na bicicleta se afastando dali. Pegou o envelope e leu:
***
A Princesa Layla Al-Jamilla não conseguira dormir. Seu coração aflito pensava no pedido do mercador. Seria algo modesto como um punhado de ouro? Seria algo petulante como um título real e um hárem? Seria algo indecente e ultrajante como seu primeiro filho? Ou seria ainda mais ultrajante e pediria a ela seu coração? Refletindo, havia algo em Halam Al-Hakim que atraía seu afeto. A história dele fascinava-a, a voz dele soava como a gentil melodia dos melhores músicos da corte, os olhos dele brilhavam como a chamas das velas, a pele dele tinha a mesma cor do chá favorito da Princesa... Imaginava o contorno do rosto dele, concentrando-se principalmente nos olhos altivos que se fixavam nela enquanto contava a narrativa...
Durante o encontro daquela tarde, a Princesa Layla Al-Jamilla observou o contador de histórias atentamente: os trajes modestos eram mais refinados do que a simples roupa cotidiana de um mercador – provavelmente porque a etiqueta obrigá-lo-ia a vestir-se com regalia diante da Corte Real. Seus olhos eram âmbar e cintilavam como duas estrelas, e os cílios longos eram perfeitas cortinas para eles. O rosto era jovem e belo, sem as pisadas do tempo... Seus gestos eram como passos de uma dança delicada. Seus lábios tinham a cor manchada por alguma fruta vermelha, molhados por um gole de chá...
Então ocorreu à Princesa uma pergunta que não hesitou em fazer: “Halam Al-Hakim, mercador de Zenóbia, diante de tudo que lhe é oferecido, por que se contenta em comer apenas uma mordida e sorver apenas um gole?” Sorrindo para a princesa, o rapaz colocou a xícara de volta na bandeja e replicou: “Vossa Alteza, agradeço toda gentileza que recebo e, em momento algum, quero parecer ingrato ou abusar da hospitalidade. Quando a ampulheta me oferece uma parte ínfima do vosso precioso tempo, não julgo de bom tom abusar da generosidade desperdiçando-o com o supérfluo. Contudo, aceito um gole e uma mordida, que são o quanto me bastam.”
A resposta do mercador lhe soou tola; achava até graça que Halam Al-Hakim quisesse assim poupar o tempo da corte, considerando o quanto ele demorava com seu conto. Não fugiu dele a ironia, demonstrando com o olhar o quanto também se divertia com a situação e fazia do hábito um jogo. Com um tom atrevido e jocoso, o mercador perguntou solenemente se deveria retomar naquele instante a história... Sorrindo ante a petulância dele, a Princesa sinalizou para que a ampulheta desse a ele mais um pouco de seu tempo:
Na manhã seguinte ao retorno de Farhad Al-Naim, a vila inteira acordou com a música alegre de uma caravana que chegava com os primeiros raios de sol. Primeiro vinham inúmeros servos, vestidos com tanto ouro e diamantes quanto possível. Cada um guiava um camelo, que por sua vez carregava no dorso dois baús repletos de tesouros. Músicos e dançarinas vinham logo atrás, juntos faziam um belíssimo espetáculo e convidavam para a festa todos pelo caminho. Sedas dançantes voavam sedutoras, tambores ruflaram imponentes, sinos tilintavam sapecas, flautas envolviam tal como fitas, todos em sintonia harmoniosa de festa.
Pequenas crianças, espalhadas pela caravana, corriam e pulavam arremessando moedas, diamantes e pérolas como se fossem confetes. No centro, vinha um imponente elefante, branco como o próprio marfim, a equilibrar no dorso uma leiteira coberta de seda. As cores vibrantes que o adornavam cintilavam com tanto ouro. Atrás, vinham mais servos e camelos, trazendo mais tesouros e comida farta. As jovens servas carregavam tabuleiros enormes de prata, mas não pareciam cansadas com o trabalho, na verdade dançavam e cantavam tão alegres quanto os próprios músicos. O cheiro que exalava das comidas convidava a todos que quisessem participar do banquete. A multidão aproveitava o alvoroço do cortejo e seguiam até a casa do sapateiro. Em formação, fizeram paragem diante da humilde porta de entrada, onde Farhad Al-Naim manteve-se imóvel, ao lado de seus pais.
Os músicos tomaram o lado direito da porta, enquanto os servos com os baús se enfileiraram à esquerda. No caminho livre, o elefante aproximou-se mais e abaixou-se por si só. Usando a tromba, colocou delicadamente no chão a leiteira que carregava. Duas servas abriram a cortina de sedas, assim descobrindo uma belíssima mulher que lentamente saía de seu esconderijo. Eram ricas suas vestimentas, os bordados de seu longo vestido azul eram de fios de ouro, adornados por grandes safiras e rubis. Um véu de seda tampava seu fino rosto, escondendo os belos contornos. Os cabelos claros estavam estilizados com uma longa trança que vinha até sua cintura. Uma tiara de diamantes e flores branca adornavam o topo de sua cabeça. Diante de Fahad Al-Naim, a mulher ajoelhou-se pedindo-o que a aceitasse como sua esposa.
O ar tinha escapado dos pulmões do jovem sapateiro ao mesmo tempo que sua pele se arrepiava. Apenas o vento daquela manhã se atrevia a fazer algum barulho, tamanho era o silêncio naquela ocasião. Aproximou-se da moça, cauteloso. A mulher tinha a testa encostada no chão, as duas mãos apoiadas ao seu lado, em sinal de respeito e humildade. Farhad Al-Naim, de frente para ela, ajoelhou-se. “Senhora, dizei-me se acaso me ofereceis matrimônio em sinal de gratidão apenas, dando-me vossa mão como me entregais tantos tesouros... Se for o caso, não posso aceitar vossa oferta. Dou a vós a liberdade, evitando assim de prender-vos a quem não amais... No entanto, se vosso pedido é fruto do afeto de vosso coração, se me ofereceis vossa mão com esperança e desespero de um amor que arde em vosso peito, então aceito o que me ofereceis e também vos ofereço ardente, desesperado amor. Mas dizei a verdade olhando em meus olhos...”
Com uma mão gentil, ergueu o rosto da mulher, a quem bem conhecia. Os olhos dela brilhavam, iluminados por uma forte emoção, como também por lágrimas: “Ó, Farhad Al-Naim, de novo ofereceis-me provas de vossa grandiosidade e confirmais a razão de minha escolha. Meu coração, que por todo o tempo da viagem clamou por vosso retorno, alegra-se de ver-vos são e salvo. Se venho até vós, é porque, meu senhor, eu vos amo. Nada mais desejo que partilhar convosco a vida que me oferecerdes. Beijo vossas mãos feridas das batalhas por gratidão. Trago vos o tesouro que mereceis em retribuição a vosso sacrifício. Busco vossa presença, por necessidade. Entrego-vos meu coração e tudo que me pertence por amor. Ajoelho-me diante de vós humilde a pedir que aceiteis o que vos ofereço.” De novo, abaixou a cabeça. Novamente Farhad Al-Naim levantou seu rosto, expôs a face retirando véu e beijou a tez da Fada. Seu coração desgovernado batia tanto que mal pôde ouvir o som dos aplausos e da música que voltou a tocar.
Farhad Al-Naim ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar e guiou-a até os pais, a quem apresentou a Fada Jandira Al-Nour como sua noiva. A Fada beijou as mãos dos pais do seu marido, como manda a tradição. As servas e servos organizaram o banquete na frente da pequena casa do sapateiro. A leiteira do casal se tornou a tenda dos noivos, onde Farhad Al-Naim e Jandira Al-Nour assistiam às festividades. Diante deles, o farto banquete foi servido em cima de um tapete quilométrico. Os músicos animavam junto das dançarinas e crianças a pular alegres. A vila inteira se reuniu em volta do tapete onde todos foram servidos regiamente. Alguns foram prestar homenagens ao casal, desejando-lhes bençãos e trazendo presentes humildes, depois sentavam-se convidados a partilhar da generosa refeição. Esperavam três dias inteiros de festa, como manda a tradição.
Rostos conhecidos também passaram por lá: o ferreiro Mannu e sua esposa vieram contentes celebrar as bodas, trazendo presentes numerosos; a Fada Harb Sayida, com um corpo mais humano, trouxera os diamantes mais belos para a prima. Até mesmo Muhtal Al-Jinni viera a convite de Farhad Al-Naim, que serviu pessoalmente o vinho na taça do gênio maligno, que o presenteou com a promessa de que não faria mal ao casal enquanto vivessem, ainda que isso lhe fosse um sacrifício grande demais. Tudo era tão feliz e coroava a vitória do herói e a liberdade da Fada.
Dentro da tenda, após terem recepcionado cada um dos numerosos convidados, o casal comia e bebia feliz, enquanto o pôr do sol coloria o céu de um dia tão ameno e gentil. Ouviam do lado de fora o quanto os convivas tinham ânimo para festejar ainda, a música incessante e o alegre cortejo a acompanhar. Deitada ao lado do marido, a Fada Jandira Al-Nour contou a ele que o maior presente que daria ao marido seria torna-se humana por uma vida, já que abdicara de seus poderes. Assustado, Farhad Al-Naim perguntou-a se estava certa disso. Segredando-o, disse: “Lembro que já ter feito algo parecido uma vez antes; quando amaldiçoada a amar-vos, Dária convencera-me a entregar ao amor. Arranjei um corpo humano para usar... Nunca experimentei felicidade maior nem dor mais tenebrosa como naquela ocasião. Quando escutei vosso pedido, senti o coração dilacerar ante a memória daquele tempo. Refleti racional durante vossa viagem, no entanto a emoção era quem me governava: o medo de perder-vos, a ansiedade por vosso retorno, a angústia por vossos sacrifícios, o receio de não ser mais amada, a saudade e principalmente a esperança de vosso triunfo que vos traria novamente para mim! Se não vos amei por medo da dor de vos perder, ignorava o prazer de vossa companhia. Sei que me doerá vossa perda, mas, até o dia da nossa separação, viverei dias de tanta felicidade; será a memória deles que me acalentará em vossa ausência. Farhad Al-Naim, querido esposo, deixemos o futuro de lado e aproveitemos o presente.” Pegando a mão do marido, Jandira Al-Nour levantou-a até os lábios e beijou-a respeitosa. Contou a ele que quando viesse a hora certa, ela recuperaria seus poderes, e assim despediram-se para sempre. Segredou a ele onde estaria escondido seus poderes como um sopro em silêncio de modo que ninguém mais além dos dois saberiam. Farhad Al-Naim beijou a mão da esposa e prometeu que não seria o sacrifício dela em vão, que ele faria de tudo para que ela sempre fosse feliz.
O cair da noite parecia tranquilo como se despedisse preguiçoso da comemoração agitada e excitante daquele dia. Instrumentos de corda embalavam as canções melancólicas de amor. A dança deu lugar à calmaria. Repentinamente, viu-se um relâmpago atroz cortar o manto estrelado do céu. Um urro infernal se fez ouvido e provocou um tremor no coração de todos os presentes. A Fada Jandira Al-Nour elevou o tronco agitada, apertando ansiosa a mão, que estava entrelaçada nos dedos de Farhad Al-Naim. O rapaz repetiu o gesto da esposa, assustado com a reação dela. As pessoas do lado de fora da leiteira gritavam desesperadas ao invés de entoarem a canção melodiosa que agora pouco acompanhavam. Todo o ar satisfeito e contente foi substituído por gritos de pavor, o som dos pés em correria desesperada.
A Fada Jandira Al-Nour levantou-se de forma brusca, avançou logo para fora de tenda onde deparou-se com um rosto que ela conhecia, mas detestava. Farhad Al-Naim, seguindo a esposa, encontrou-se com uma figura gigantesca e pavorosa que nunca vira antes, nem nos pesadelos. Encaravam o casal dois pares de olhos felinos em um rosto coberto por escamas pontiagudas esverdeadas e escuras. Com características reptilianas, o corpo era o mesmo de um lagarto gigantesco. As garras proeminentes brilhavam como adagas curvas de ônix. Os chifres no topo da cabeça pesavam sobre os olhos mais altos e enroscavam-se como os de um carneiro. A boca se abria em um sorriso grotesco e podia-se ver duas fileiras de dentes bastante afiados e a língua bifurcada. A estatura imponente da criatura media três vezes a Fada Jandira Al-Nour, mas isso não parecia intimidá-la, que fazia de tudo para impor-se entre o monstro odioso e seu amado marido. Ao perceber a presença do rapaz ao lado dela, a criatura abriu a boca e emitiu um grito estridente, insuportável de ouvir.
Ouviu-se um assovio pavoroso cortar o céu. Ao olhar para o alto reparam na imensa nuvem escura marcada por diversos relâmpagos a cortarem o céu. Analisando melhor a imagem, Farhad Al-Naim notou que os raios na verdade eram dragões e vários deles rodeavam alto o perímetro da vila. Os trovões que tremiam o ar anunciavam a aproximação deles. Jandira Al-Nour avançou um passo, gentilmente empurrando o marido para atrás de si. Não demorou muito para que outro aterrizasse na frente do primeiro, que deu alguns passos para trás. O segundo dragão era maior e mais cinza. Os olhos tinham a íris bastante amarela, a pupila retraída e a esclera preta. As escamas mais proeminentes tinham o aspecto de uma carapaça densa. As asas substituíam os braços, sendo acoplados nos membros dianteiros filamentos compridos, como se fossem dedos de uma mão gigantesca, ligados pela membrana alar. No topo das asas, sobressaía uma garra curvada que o mostro usava para se locomover: fincando-a no chão, usava-a para impulsionar o corpo para frente. Diante do peso, Farhad Al-Naim sentia a terra tremer e seu coração batia aflito. Diante dele, percebia que a Fada Jandira Al-Nour não vacilou um passo, apertava firme as mãos e mantinha-se altiva a encarar o dragão a sua frente.
Por alguns instantes, os dois se encararam. Os quatro olhos monstruosos estavam fixos na figura da fada, que por sua vez também não desviou o olhar. O dragão acinzentado aproximou o rosto ao dela, que novamente não hesitou. O monstro fungou uma vez, expelindo em forma de densa fumaça o ar que saía de seus pulmões ardentes. Sem titubear, a Fada Jandira Al-Nour deu um passo para frente, sem tirar os olhos do dragão diante de si. Com uma expressão enigmática, o monstro tomou a palavra: “Fada Jandira Al-Nour, apesar deste disfarce irreconhecível, é ainda risível a vossa inocência ao supor que eu não vos encontraria... Agora que sei que estais livre de odiosa maldição, não vejo motivo para não vos desposar, querida.” A declaração da criatura fez o coração de Farhad Al-Naim estremecer, ainda que a Fada diante de si estivesse impassível.
A voz dela soou doce mesmo que carregasse um tom de severidade: “Abu Omar Haidar Al-Khaled, filho do céu, neto do tempo, poderoso senhor dos dragões, o motivo óbvio para que eu recuse mais uma vez vosso pedido é que encontrastes me justo no dia do meu matrimônio. Há pouco festejávamos as bodas que contraí no nascer do dia. Não creio que vós quereis partilhar conosco das festividades, portanto resta-nos a despedida. Sede gentil e parti.” Com escárnio o dragão retribuiu aproximando ainda mais o rosto ao da Fada. “Dize, por acaso havíeis perdido o bom senso?! E quem no mundo poderia ser um noivo mais digno de vós senão eu? Não me escondei, Fada Poderosa. É este verme que se refugia atrás de vós?! Não me provocais o riso.” Elevando o tronco, o dragão impunha sua magnânima estatura sobre o casal. Mesmo que Farhad Al-Naim tentasse avançar contra ele, a Fada Jandira Al-Nour o impedia a todo custo de enfrentar o monstro, impedindo-o de dar um passo sequer.
Rindo-se divertido, o dragão continuou: “Casastes com um mero mortal?! Vós? Fada Jandira Al-Nour, maravilhosa estrela da manhã, brilho de diamantes infinitos... O que poderia ter feito esta mísera criaturinha para merecer vosso apreço?” Esboçando um ataque, ameaçou golpear o jovem, mas a fada interveio. Ante os comentários maldosos, ela apenas respondeu: “Farhad Al-Naim, filho de Nerum, neto de Samael, sapateiro de Girah, é o homem que jurei amar e a quem desposei. Abu Omar Haidar Al-Khaled, poderoso senhor dos dragões, uma promessa feita ao vento não tem menor valor que a lei escrita em pedra; prometi e cumprirei. Surpreende-me ver-vos aqui, considerando que já recusei vosso pedido há tantos séculos. Ainda que eras passaram e a maldição que me governava o coração agora é extinta, continuou a rejeitar vossa proposta. Não é iluminando-a à luz de novo tempo que mudarei minha decisão. Abu Omar Haidar Al-Khaled, nada no mundo me faria aceitar seu pedido. Ide em paz, sede feliz nos caminhos que trilhardes e não fazei mal aos inocentes. Parti.”
Após escutar as duras palavras da Fada, o dragão urrou feroz e descontrolado. Aproximando o rosto raivoso da face dela, replicou voraz: “Jandira Al-Nour, pretendeis me rejeitar em favor de um reles mortal?” Sua voz estrondosa sacudiria até mesmo os alicerces de uma montanha, assim como fazia facilmente o chão tremer. No entanto, a Fada não vacilou por um instante: “Minha palavra tem o peso de uma sentença e não pretendo me curvar ao sopro de uma ordem vossa.” Erguendo a cabeça o dragão vociferou, deixando que o ar quente dos pulmões se convertesse em raios que ele atirou indiscriminadamente ao redor da Fada, ainda que evitasse atingi-la. Brandando uma voz violenta, disse: “Há tempos espero, cansei de vossa recusa! Tenho sido paciente, suportei o peso da maldição e aguardei ansioso vossa liberdade... Agora que estais livre, ainda me recusais? Se nada vos impedis, por que ainda me rejeitais?”
A Fada vociferou: “Abu Omar Haidar Al-Khaled, de novo repito o que há tanto já vos dissera: não posso amar quem quer que eu me ajoelhe submissa. Não me comprareis com tesouro algum, não serei vencida pelo cansaço, não serei coagida pela violência; seguirei somente os anseios do meu coração, aonde ele quiser me levar. E a vós, meu coração rejeita com veemência como sempre rejeitou. Vossa demonstração de força bruta não serve de persuasão a vosso favor. Se ainda insistis em exigir de mim amor por capricho do vosso orgulho, nada mais me resta que repetir por séculos e séculos não vos amo e nem desejo tornar-me vossa esposa. Agora parti.”
Encarando-o a nos olhos, lançou um olhar fatal de ódio. Raivoso, o dragão recuou diante do olhar gélido e determinado da Fada. Desviando o olhar, encarou o rapaz que ela tanto queria proteger. invejoso, debochou: “Pois logo vejo quem é meu rival. O mesmo cheiro do verme humano que há séculos vos amaldiçoou. Pois agora casastes com o mesmo homem que vos aprisionou. Vejo que vosso coração se amansa com o tempo e cede aos caprichos do cativeiro. Do mesmo modo, sendo minha prisioneira, farei com que por mim vos apaixoneis.”
Violento e impulsivo, o dragão avançou sobre a Fada. Na falta de seus poderes mágicos, ela não teve como revidar. Sua única reação foi de empurrar a tempo o marido, a fim de protegê-lo da fúria do animal feroz. Farhad Al-Naim caiu dentro da leiteira, quando o monstro lançou as garras traseiras contra a Fada, jogando-a no chão. Percebendo que ela não revidava como antes faria, o dragão riu satisfeito com a fácil vitória. Abriu as asas enormes, alçou voo antes mesmo que Farhad Al-Naim pudesse reagir. Deixou para trás ruína e tristeza...
A ampulheta decretou o silêncio e Halam Al-Hakim, seu obediente servo, calou-se. A Princesa Layla Al-Jamilla, curiosa por natureza, quis saber se assim terminava o conto, se o jovem Farhad Al-Naim aceitaria a derrota, o que seria da Fada... Tantas perguntas que o contador de história só poderia responder se lhe dessem mais um dia para contar...
***
Voltou para o quarto para ler a carta mais aconchegada. O rapto da Fada era inquietante, mas o dilema da Princesa não era menor. O que pediria o mercador? E por que ele aumentou a história?! Ele não quer que isso acabe nunca?! Mônica pega o caderno e procura pelas informações da história: planejamento dos capítulos, número de cartas/capítulos, um resumo bem genérico da estrutura, mas que está incompleta. Oi? Por que ele não planejou isso direito?! A curiosidade a consome.
Folheando nervosa as páginas, em busca de uma continuação, um sentido, alguma pista, Mônica se deu conta de uma coisa: apesar de ter as provas das quais precisa, as repostas que ela mais quer não estão ali, nem nas cartas, nem na intenção do remetente, o que ela quer mais saber é a reposta da Princesa. E ela quer dar o coração ao mercador? É essa a mesma pergunta que o remetente das cartas faz ao destinatário. E Mônica ainda não sabia o que responder. As intenções dele agora eram óbvias. Por que ele fazia isso? Porque ele queria deixar pedaços de si, porque ele queria que ela pensasse nele quando lesse a história... Mas e ela? O que ela quer? Somente o final da história?
O fato de Mônica ter encontrado o caderninho dele, era isso acaso ou golpe? Se o caderno tinha sido deixado de propósito, por que ele queria contar a ela os esquemas? “se eu pedir a estranhos que colocassem a carta, não poderia repetir a pessoa sem causar suspeitas. No entanto, colocar de quando em vez na caixa de correio da vizinha dela daria uma ótima cumplice secreta. A senhora não se importou de consertar o erro do carteiro”. Por que ela precisava de saber como funciona o trânsito das cartas? O que ele fazia para colocar no correio, seus possíveis cúmplices... Horários, dias... Planejamento para as cartas que ele já tinha escrito e mandado... Ali estava o planejamento, mas nada do final da história... Provas de que era ele mesmo por trás do plano. Por quê? Passava aflita as páginas do caderno.
Procurava algo que ela não viu, que passou desapercebido. Encontrou um poema que chamou sua atenção:
Escreveria uma carta de amor para você
Mesmo que eu não saiba como começar
Nem saiba expressar
ou resumir tudo o que sinto
Não sei o que você quer ler
Duvido que queria saber
A quantas batidas por minuto
meu coração bate
ou quantas vezes
ele para ao te ver
Eu escreveria uma carta de amor para você
Diria o quanto seus olhos brilham
E que me tragam como ressaca
Que têm o brilho de todas estrelas do céu
Como muitos outros haveriam dito
Repetiria como faminto
Que seus lábios devem ser feitos de
Néctar divino, saboroso e melado
Grudam como mel com beijos molhados
E tem o gosto da salvação
Ainda que eu só me perca neles...
Eu escreveria uma carta de amor para você
Insistindo que não há
Lugar melhor que seu abraço
Nem mais confortável que
A maciez do seu regaço,
Escreveria sobre sua pele macia,
seu cheiro de flor,
seu sorriso de anjo,
seus Nem sei mais o quê...
Uma carta até clichê,
como deveria ser
Para que você não tenha dúvida
de que é uma carta de amor
Eu escreveria uma carta de amor para você
Jurando amor eterno, mesmo que eu
não tenha uma eternidade para oferecer
Prometeria que todo dia seria
feliz só por te ter
Ao lado, teu corpo colado ao meu
Ao alcance das mãos...
mas melhor não
Eu escreveria uma carta de amor para você
Porque eu te amo
Mas não me atrevo a escrever
Por receio de não ser correspondido
Por não ser o preferido entre
Todos os candidatos que
você tem para escolher
Além disso, não posso prometer
Que eu seria melhor para você
Eu escreveria uma carta de amor para você
Mas temo que você não iria ler
Por mais que gostasse do tema,
e suspirasse a cada frase clichê
Ao chegar ao remetente
Seu sorriso contente iria se desfazer
Porque como sabe, eu não sou quem
Seu coração parece querer.
Mônica fechou o caderno atordoada. As cartas poderiam ser o jeito mais maluco de fazer “uma carta de amor a estilo do contra” e elas não a deixavam encabulada. Não quanto aquele poema, que era escancaradamente uma “carta de amor”. Ele a amava? O coração dela palpitava como um louco dentro de seu peito. O rosto queimava vermelho e ela não sabia o que sentir. O único pensamento que ela tinha era que queria ouvir isso dos lábios dele...
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