10 coisas que eu odeio em você

5 Motivo 5: Você tem um sorriso encantador.


— Ainda não estou acreditando que você me convenceu a isso de novo. Primeiro aquela convenção de Geeks, agora essa feira medieval. E ainda nem são nove horas da manhã, eu te odeio Sakura. – Tenten não parava de falar, tentando arrumar sua armadura.

— Eu falei pra você que a roupa de plebeia era mais confortável, Tenten. – Hinata falou tentando acalmar a amiga.

— Gente, eu também não queria estar aqui, mas eu preciso do Sasuke na festa amanhã, e essa foi a condição.

— Tudo bem, mas eu não me lembro de nós estarmos incluídas no acordo de vocês.

— Vocês são minhas melhores amigas, Tenten, como eu poderia fazer qualquer coisa sem vocês? – Ela revirou os olhos. Arrumei meu vestido de princesa e nós fomos em direção à tenda para inscrição.

A feira medieval foi montada em um parque enorme, diversas pessoas usavam fantasias da idade média, alguns vestidos como plebeus, outros de guerreiros ou nobres. Tinha até um cara grandão vestido de dragão.

Bizarro.

Haviam várias tendas com os mais variados tipos de aperitivos e bugigangas para vender. E havia também um restaurante enfeitado para parecer com uma taverna no lado esquerdo da entrada.

Como eu nunca havia ouvido falar em um evento desse tamanho?

Sasuke estava segurando as fichas de inscrição na tenda que se encontrava no lado direito da entrada do parque. Ele usava uma roupa viking com um escudo nas costas e uma espada na cintura.

— Você realmente veio, – Ele falou sorrindo. — e ainda vestida de princesa da Disney.

— Eu imaginei que uma feira medieval precisaria de uma rainha.

— É claro... – Ele me passou as fichas de inscrição e eu preenchi meus dados e os das meninas.

— Cuidem de suas armas! Estejam alerta. – Um homem gritou para um pelotão de guerreiros atrás de mim.

— O que está havendo? – Tenten perguntou.

— Hoje o reino de Kirigakure entrou em guerra pelo trono de Sunagakure. A luta vai acontecer a qualquer momento. Um é bandeira vermelha e ou outro azul. Vocês precisam escolher um lado e colocar no campo de observação da ficha.

— Qual reino é maior? – Perguntei. – Qualquer um pode requerer o trono?

— Bom, acho que Sunagakure tem mais inscritos, mas isso não faz muita diferença já que nem todos são soldados. E sim, qualquer um pode requerer um dos tronos, mas sem um exército é impossível, e o exército da Temari é bem maior.

— Interessante. – Falei.

— O que você já está aprontando, Saky? – Hinata perguntou e eu sorri.

— Só existem dois tipos de pessoas no mundo, Hinata, as que entretêm e as que observam. Está na hora desse lugar ter uma governante que se prese.

— Você me dá medo. – Naruto falou retirando seu capacete de guerra.

— Você veio, meu amor! – Hinata o abraçou.

— Claro que sim, e se minha donzela ficasse em perigo?

— Eu acho que vou vomitar! – Tenten disse e eu concordei.

— Olha gente, aqui na LARP, Live Action Role Play, os personagens são levados à sério, então não se assustem ao verem pessoas realmente interpretando. – Sasuke entregou um pergaminho para cada um de nós. – Seu pergaminho detalha a missão do seu personagem, mas o objetivo é um só, conquistar alguma coisa, por mais simples que seja.

— OK. – Respondemos em uníssono.

— Ah, principalmente, se vocês levarem um golpe fatal aceitem a derrota e se divirtam nas barraquinhas, não será permitido retornar à ação.

— Então se eu levar um golpe fatal agora eu posso ir embora? – Tenten falou de mau humor.

— Basta vocês verem o que os outros estão fazendo e se divertir. – Sasuke disse ignorando Tenten. – Alguma pergunta? Não? Ótimo, vou terminar aqui e encontro vocês.

Entramos oficialmente na feira. Naruto e Hinata foram os primeiros a se dispersarem. Ficamos de nos encontrar ao final da feira na barraca de bugigangas número 03.

— Ótimo, Tenten, somo só você e eu.

Eu mal tinha terminado de falar quando um cara de cabelos grandes, vestido de guerreiro e usando um capacete bateu com a espada na perna esquerda dela só para provocá-la e saiu correndo.

— Quem esse idiota pensa que é? – Tenten saiu correndo atrás do desconhecido erguendo a espada e prometendo que tiraria sangue do coitado.

Melhor assim. Quem sabe um pouco de violência não a acalma.

Já eu estava mais interessada nessa tal reino de Sunagakure, mais inscritos significava mais súditos.

Do lado norte da feira havia a parte da frente de um castelo, até bem feito para o lugar, onde se podia ver um trono lindo que brilhava à luz do sol e ficava super dourado. Em cima dele havia uma garota loira com um penteado estranho que pareciam quatro pompons e uma coroa maravilhosa na cabeça.

Se o objetivo era conquistar alguma coisa, qual era a recompensa de quem conquistava todo um reino?

— Ei, você! – Falei com o cara vestido de dragão.

— Olha só se não é a moça vestida de pantera-cor-de-rosa. – O cara grandão falou e eu o reconheci como a árvore que guardava um kit de costura em algum lugar que eu prefiro nem saber.

— Groot! – O cumprimentei. – Você por acaso saberia como eu consigo uma audiência com a rainha?

— Eita, alguém de Kirigakure tentou invadir sua propriedade ou te fez algum outro mal? – Ele perguntou com um semblante sério.

Esse pessoal realmente levava esse jogo a sério...

— Digamos que é sim um problema territorial e que somente uma rainha de verdade pode resolver.

— Pois bem, ela vai começar a atender os súditos e eu posso conseguir uma audiência para você.

— Obrigada! – Eu o segui passando pela multidão de pessoas de vermelho que corriam pra lá e pra cá atacando os outros de azul.

Atrás do trono havia um enorme estandarte vermelho e um som portátil tocando uma música celta.

Entrei em uma fila enorme de pessoas que iam fazer petições imaginárias à monarca. Era nítido que ela era uma péssima governante.

— Próximo. – A rainha, que eu descobrir se tratar de Temari, me chamou.

— Excelência, eu-

— Alteza. – Ela me cortou. – Não sou juíza.

— Ótimo, mas eu não vou te chamar disso. – Ela já estava começando a me irritar. – Eu estou aqui para te desafiar em um duelo pela coroa.

Ela começou a gargalhar como se eu tivesse feito uma piada.

— Essa foi boa. – Ela limpou uma lágrima. – Fazia tempo que eu não ria tanto.

— Falo bem sério. Você não acha mesmo que eu vim aqui para ser só mais uma súdita, não é?

— Quanta insolência, tirem essa plebeia da minha frente. – Ela se virou para um de seus “guardas”, um garoto ruivo que estava ao seu lado.

— Querida, esse vestido é do Elie Saab, um designer, tipo, super famoso, ou seja, é mais da realeza do que o seu, e as regras são bem claras, qualquer um pode requerer um dos tronos, o que inclui o seu. – Me aproximei dela. – Ou você está com medo?

Todos os telespectadores que estava ouvindo fizeram o som de UUUHHH, e então era como se toda a feira tivesse parado para prestar atenção.

Eu realmente estava contando com a pressão do público para que esse plano desse certo.

— Se você não aceitar, vai passar uma péssima imagem para os seus súditos, não acha?... A rainha covarde... Não soa muito bem, na minha opinião.

Ela estava com o rosto vermelho de raiva quando respondeu:

— Eu não sei quem você é e já não gosto de você! – Ela se levantou do trono. – Eu sou da realeza, não sujo minhas mãos, mas eu proponho que meu melhor homem lute conta o seu, se é que você tem algum soldado à sua disposição, plebeia.

Mais uma vez a multidão fez o UUUHHH, e eu admito que não havia pensado nessa parte.

— Sakura, porque não me surpreende toda essa algazarra ser por sua culpa? – Sasuke apareceu atrás de mim. – O que você está fazendo?

— Aceito! – Falei. – Uchiha Sasuke irá lutar por mim, e que vença o melhor!

— EU VOU O QUE? – Ele arregalou os olhos.

— Ah, qual é Sasuke, é só uma brincadeira.

— Então porque você não vai?

— Porque eu sou uma dama e deixo você ser o conselheiro real se ganhar.

— Uau, sou eu quem vai lutar pelo trono e isso é tudo o que eu vou ganhar?

— Quer ser meu rei? – Dei um sorriso de canto e ele ficou vermelho como um tomate.

— Vai ter o duelo ou não? – Temari perguntou voltando a se sentar no trono.

— Eu te dou duas opções. – Falei de volta. – O Sasuke pode usar essa espada falsa e seu guarda finge que morre e eu pego a sua coroa, ou ele vai dar um soco nele de verdade, e o ruivinho vai cair de verdade e eu pego a sua coroa.

— Sakura, não se pode usar violência de verdade aqui. – Sasuke falou sussurrando.

— Bom, então que seja a primeira opção.

As pessoas fizeram uma roda ao redor de Sasuke e do outro menino, que mais tarde eu descobri se chamar Gaara.

— Não me decepcione, bonitão. – Falei piscando para Sasuke.

— Considere já sua essa coroa. – Ele falou e nós fizemos um “high five”.

— Que todos ouçam o que sua rainha tem a dizer. – Temari falou se posicionando no trono e pegando um cetro. – Hoje teremos um duelo pela coroa e pelo meu trono. Eu fui desafiada por uma estranha que provavelmente nunca pisou em uma feira medieval antes, pois ninguém chega assim desafiando os outros. Tsc. Mas que seja. Que isso sirva de lição para todos os que ousarem me desafiar.

Todos na feira pararam para observar o espetáculo que se formava.

— Que os combatentes bebam a poção ritualística. – Um cara vestido de mago falou. – É uma garrafa, na verdade, de suco de maçã, mas é só usar a imaginação.

Sasuke deu um gole e passou a garrafa pra mim.

— Você precisa beber também. Eu estou te representando e essa poção me garante alguns benefícios, é coisa de RPG.

Eu não entendi nada, mas bebi, parecia ser importante.

— Agora que Sir Uchiha está juramentado à você pela poção compartilhada, o duelo pode começar. – O mago falou e todos se posicionaram.

O desenrolar dos eventos foi bem intenso, mas estava claro que o vencedor levaria a cora.

...

— Eu nunca havia comido um “Pourcfelet farci” antes, mas confesso que é o melhor porco assado da minha vida. – Falei me deliciando com a comida medieval, o menu de almoço do restaurante foi todo personalizado para a feira.

— Tem gosto de vitória. – Sasuke deu mais uma golada em seu vinho. – À rainha! – Ele gritou e todos do restaurante o acompanhou no brinde. – Essa foi a feira medieval mais louca que eu já participei.

— Fala sério, você se divertiu, vai. – Falei ajeitando minha coroa.

— Foi incrível e eu realmente nunca vou me esquecer!

— Eu também amei. A melhor parte foi o cara tropeçando e caindo de bunda no chão. Você deu sorte.

— Sorte? Assim você me ofende. Eu acabei com ele!

— Bom, a única coisa que importa é que meu cavaleiro juramentado venceu. Entreterei meus súditos com este conto por muito e muito anos.

— Você realmente entrou no personagem. – Ele sorriu.

— Obrigada por ter me convidado, só espero que você apareça amanhã também na festa.

— Sabe, agora que você é a rainha de Sunagakure, você tem um dever moral com o seu povo de voltar na feira ano que vem comigo.

— Combinado, mas se alguém desafiar o meu trono, é melhor você defendê-lo.

Ele sorriu novamente, mostrando aqueles dentes perfeitos, e eu percebi que gostava de ser a responsável por isso.

— Você realmente gosta dessas coisas estranhas, eim?

— Bom, ninguém nesse lugar já escreveu a palavra “perdedor” e colou no retrovisor do meu carro ou jogou minha mochila no lixo. – Ele deu um suspiro. – O ensino médio está cheio de pessoas assustadas que precisam depreciar outras para se sentirem melhor, mas aqui... – Ele olhou pela janela do restaurante. — Aqui, ou “essas coisas estranhas”, como você mesmo fala, é como se fosse o melhor repelente de babacas de todo o reino animal.

— Sinto muito que as coisas sejam tão ruins para você na escola.

— Já está quase acabando, então não tem muita importância.

— Tem sim, eu sei como é se sentir sozinho com pessoas ao seu redor. Olha meus pais, por exemplo, eles me dão tudo, sem exceção, mas nunca estão presentes e, como se isso não fosse suficiente, ainda se divorciaram e me colocaram no meio de um fogo cruzado.

— Nossa...

— Nem tudo é um mar de rosas. – Peguei meu copo e encarei a bebida. – Bom, eu nunca tinha falado sobre isso com ninguém. Acho que voc-

— SAKURA, COMO ASSIM?! Eu te deixo sozinha por um minuto e você já dá um golpe na monarquia e vira a rainha? – Tenten falou se sentando ao meu lado, cortando o assunto, ela chegou com o cabelo todo bagunçado e a armadura suja.

— Você me conhece... – Dei de ombros. – Mas o que houve com você?

— Uns idiotas de Kirigakure estavam ameaçando uns aldeões e eu não podia deixar o reino desprotegido, então entrei na luta.

— Olha só, parece que não foi só eu que entrou no personagem.

— Esse lugar é perigoso, mexe com a cabeça da gente, parece que eu estou na série Westworld, mas sem a parte sinistra, é claro.

— Pelo visto eu vou te ver aqui ano que vem também. – Sasuke falou.

— Sem sombra de dúvidas. – Ela sorriu.

— Onde estão Hinata e Naruto, e o que houve com o cara que cortou sua perna fora?

— Naruto levou um golpe fatal tentando proteger Hinata e saiu do jogo... Ei, o cara não cortou minha perna, ele mal encostou nela com a espada. Aquilo não valeu. E eu o perdi de vista. Sortudo. Eu ia acabar com ele, você sabe!

— Sasuke... — Uma mulher de tranças apareceu atrás dele bastante preocupada. – Estamos com problemas, o cara do piano passou mal e não tem ninguém para tocar na apresentação dos elfos no almoço.

— Em quanto tempo é a apresentação?

— Era pra ser agora!

— Merda... Ok, eu toco.

— Você sabe tocar piano? – Tenten perguntou enquanto ele se levantava apressado para ir ao centro do restaurante onde estava o piano.

— Um pouco.

Um pouco? Um pouco? Quando ele começou a tocar “River Flows in You” eu me esqueci até do meu nome.

Foi a coisa mais linda.

Umas mulheres vestidas de Elfo entraram e dançaram a melodia. Foi sensacional.

Ele estava maravilhosamente tocando piano enquanto um holofote iluminava seus cabelos pretos. Eu só queria me levantar e me sentar ao seu lado para observar melhor.

Acho que ele percebeu, pois ele olhou para mim e começou a sorrir um tanto constrangido. Aquele mesmo sorriso lindo e indescritível.

— Sakura, que cara é essa? – Tenten perguntou com um sorriso sapeca nos lábios. – Não vai se apaixonar pelo menino, você sabe que isso não acabaria bem.

— O quê? – Só então percebi que minha cabeça pendia para o lado, e minha bochecha estava apoiada em uma das mãos.

— Você estava suspirando...

— Não seja ridícula, eu sou uma apreciadora da arte, e piano é um dos meus instrumentos preferidos. Você sabe disso. Sem contar que eu amo essa música. – Voltei a comer meu porco assado, extremamente estressada.

Tem um poema que eu gosto muito, de Klinque Mussolini, e ele fala assim:

“Dizem que na vida quem perde o telhado ganha as estrelas. É assim mesmo. Às vezes, você perde o que não queria, mas conquista o que nunca imaginou. Nem tudo depende de um tempo, mas sim de uma atitude. O tempo é como um rio, você jamais tocará na mesma água duas vezes. Aproveite cada minuto de sua vida, não procure pessoas perfeitas, mas sim aquelas que saibam o seu verdadeiro valor.”

Você me lembra esse poema, pois se tornou alguém que eu jamais imaginei ter ao meu lado, alguém que não é perfeito, mas que me vê como ninguém jamais viu. E por isso eu te odeio, odeio o seu sorriso e como você me faz sentir, odeio porque você me tirou da minha caixinha e depois desistiu de mim. Você fez tudo isso.

Eu era um salgueiro e eu me curvei ao seu vento.