Notas iniciais
Boa leitura ♥

Fazia três dias que Kanade Tachibana não tinha nenhum ataque de asma, o que aparentemente era muito bom.
Ela fitou o dedo entendiada e apertou forte os colchões de sua cama ao olhar para a janela curiosa. A quanto tempo que não via a paisagem de perto? Há muito tempo, se assim podia se dizer.
Era difícil para uma garota com apenas 14 anos aceitar que sua vida estava acabada, tudo começara na tarde do seu aniversário de 13 anos quando foi cantar parabéns e não conseguiu asoprar as velinhas. Todos murmuraram a sua volta confusos e ela assoprou de novo e de novo, até que seu peito começou a chiar. Seus pais vieram acudilá-la desesperados e mais tarde, no hospital descobriram que sua filha tinha asma e que já estava em estádio muito avançado da doença.
— Belo presente de aniversário. — Ela sussurou irônica para si mesma, forçando um riso. Era como aquele ditado, 'Ri para não chorar' e era isso mesmo que ela fazia no momento.
Ela ficou assim por mais alguns minutos e então se deu por vencida, virando de lado. Aquilo era tão entediante! Buscou por um CD familiar a ela no meio dos armários e rapidamente os colocou no DVD, se ajeitando um pouco para assistir. A imagem de amigos que partilhavam o mesmo sentimento para com o futebol, ambos amavam a bola e mesmo as coisas estando aos pedaços, eles ainda tinham esperança...
— Esperança... — Ela apertou ainda mais o cobertor para si e suspirou. Esperança era o que ela precisava mais agora... Esperança para escapar daquela situção...
— Você tem visita. — A voz estridente de sua mãe despertou a garota de seus desvaneios, mas ela nem se importou e um sorriso brotou de seus lábios ao ver a garota que lhe acompanhava, sua melhor amiga, Sakura.
— Sakura! — Ela gritou andando de joelhos na cama para abraçá-la, mas foi recebida por um olhar reprovador de sua mãe.
— Vou deixá-las a sós. — Sua mãe disse indo em direção a porta, mas logo parou se voltando para olhar para as duas garotas. — Por favor, sem esforços e não esqueça de tomar o remédio daqui a 5 minutos.
Kanade suspirou cansada e assentiu, esperando que sua mãe saísse logo. Ela não via Sakura desde... De aquele dia. Depois da descoberta, Kanade parou de ir a escola e consequentemente não pôde mais se comunicar com sua melhor amiga, porque estava sempre indo a alguma consulta...
— Senti tanta a sua falta. — Sakura disse animada, do seu jeito animada de sempre. — Como se sente?
— A verdade? — Kanade perguntou arqueando uma das sobrancelhas. — A beira da morte.
— Hey, não brinque com essas coisas! Suas palavras podem ser ouvidas e usadas contra você! — Sua amiga disse se arrepiando toda. Ela era extremamente supersticiosa e acreditava em tudo que lhe diziam.
— Como vai a escola? — A outra tentou soar indiferente, mas falhou. Desde a descoberta da doença só ia a escola raramente e ainda ficava meio período porque sempre acontecia um contra-tempo.
— Nesse momento, temos que entregar um trabalho sobre um filme que assistimos. — A outra não conseguiu manter a curiosidade, fazendo com que Sakura percebesse. — É um filme chamado 10 coisas que eu odeio em você.
— Sobre o quê é? — A garota das orbes claras perguntou atenciosa a cada palavra da amiga. Qualquer coisa que acontecesse lá fora era interessante para ela.
— É um filme de uma garota meio rebelde que tem uma uma irmã super cortejada na escola, mas para a irmã popular namorar com alguém, a irmã mais velha, a rebelde tem que sair primeiro e aí está o problema, ela não quer se envolver com garoto nenhum. — Ela fez uma breve pausa. — Então os garotos contratam um tipo de garoto de deliquente para seduzir a irmã mais velha...
— Você não decora os nomes dos personagens? — Kanade perguntou irritada com a dificuldade para a amiga mencionar as pessoas.
— Como se eu soubesse decorar algo. — Ela deu de ombros. — Mas acontece que esse deliquente começa a gostar mesmo da garota e isso se torna meio que recíproco, mas em um baile, a garota acaba descobrindo que o menino foi contratado e tipo, fica louca e triste! — Ela riu. — Mas em uma aula, os alunos tem que recitar um poema e ela recita o '10 coisas que eu odeio em você' e tipo é muito fofo, ela diz o que odeia nele, mas na verdade ela ama tudo isso! — Ela levantou a sobrancelha sugestivamente. — É um bom filme e temos que fazer algo como o que ela fez, mas sobre algo ou alguém que gostamos.
— Queria participar. — Balbuciou triste Kanade.
Quando aquela coisa não parece mais rotina, ela vira absolutamente tentadora! Kanade morria de saudade sempre que pensava na escola, o cheiro de materiais novos, a interação entre os alunos... Agora ela só tinha chiamentos no peito e remédios em volta.
— Você é louca ou o quê? — Sakura perguntou atordoada. — Quem quer estudar? E tipo, você nem precisa disso! Porque tanto interesse?
— Porque eu estou morrendo! — Kanade falou sem pensar e viu os olhos da amiga se arrelagarem. Era a verdade. Por mais que doesse e doía mesmo! E como se fosse só para comprovar a previsão da garota, ela teve um pequeno ataque de tosse. — Viu? Eu queria sair de casa pelo menos uma vez, antes que eu já não possa fazer nada.
Longos minutos se passaram e sua amiga, Sakura, continuava inexpressiva:
— Se é isso que você quer... — Ela deu de ombros, incerta. — Não posso impedi-lá, mas vou te ajudar. Vou falar com a tia por você.
Ela disse isso e sorriu, um sorriso triste que paralisou Kanade. Ela sabia que ia morrer, mas falar isso para sua amiga e ela não argumentar sobre nada era tão... Triste. Principalmente de uma amiga como a Sakura. Ela saiu deixando os corredores, tia era como ela chamava a mãe de Kanade, mesmo não sendo parentes.
A garota se pegou pensando sobre o que escreveria se sua mãe realmente deixasse, o que era quase impossível. Ela prestou atenção na TV que ainda mostrava o episódio de seu anime preferido, Inazuma Eleven, e suspirou pesadamente. Se as coisas fossem tão fáceis... Se ela pudesse fazer o impossível se tornar real, como conseguir reduzir o estágio daquela doença a zero.
Essa era a consequência de ser ter pais ricos, eles te esqueciam e você não tinha ninguém para estar ao seu lado te perguntando ínumeras vezes se estava bem. Ninguém se preocupou com ela quando ela tossiu bruscamente na sala de aula, ninguém estava nem aí quando ela escorregou no refeitório sentindo seu peito chiar. Eles apenas riam ou a mandavam ficar quieta. Começaram a se preocupar quando era tarde demais, agora, já não tinha mais tanta importância sua mãe ter largado o emprego e seu pai dormir em casa todas as noites.
Ela estava morrendo. Eles ficarem mais perto agora, só lhe dariam mais dor quando chegasse o que estava previsto. Mesmo se sentindo rodeada de gente, ela sempre se sentiu sozinha. Por mais amiga que Sakura fosse, ela sempre era ocupada, sempre ficava em vários clubes, enquanto Kanade sempre ficou em nenhum por causa da sua pouca condição fisíca.
Ela encarou a tela da televisão. Não, não estava sozinha. Ela tinha eles, os garotos animados que jogavam futebol. Que nunca desistiam independente da situação que estivessem passando, que tudo tinha uma solução... E tinha ele, o garoto dos seus sonhos, mas que não existia na realidade. Shirou Fubuki.
— Que história é essa de você querer ir para a escola nesse estado? — A voz equivocada de sua mãe surgiu dentro do seu quarto, a garota apenas se levantou e avistou a amiga pedindo desculpas porque não conseguira convencê-la.
— Mãe, eu estou morrendo. — A seriedade dos olhos e das palavras de Kanade fizeram a mãe encarar a filha incrédula. — É a verdade. Eu sinto isso, literalmente. — Ela riu sem graça. — Olhem, eu não estou pedindo nada. Apenas me deêm essa oportunidade. Por favor. Prometo que levo tudo que precisar. Bombinha, remédios...
— Falando nisso, tomou o seu remédio? — A garota riu sem graça com a pergunta repentina da mãe e rapidamente enfiou um comprimido na boca, bebando um gole de água dizendo 'já tomei!'. Mas sua mãe não riu. — Seja mais responsável, não são simples comprimidos de dor de cabeça. — A mãe censurou severa. — Como quer que eu a deixe sair, sendo que não sabe se cuidar nem no seu próprio quarto?
— Desculpa. — A garota sussurou baixinho envergonhava e depois encarou a mãe, com os olhos tristes. — Por favor, eu te suplico.
De certa forma, o ato de Kanade, atingiu a mãe certeiro e ela fez menção de pensar:
— Okay, mas só meio-período como sempre fazemos. — Ela advertiu e Kanade pulou de alegria abraçando a mãe.
— Eu te amo! Obrigada.
— Eu já estou saindo, está tarde. — Sakura interrompeu a comemoração da amiga, fazendo ela encarar a outra com os olhos tristes. Ela havia passado tanto pouco tempo. — Eu combinei que só ia passar por aqui e ir embora, te vejo amanhã na escola.
Kanade sorriu triste, se jogando na cama logo depois. Sua mãe saiu deixando-a sozinha. Ela sentiu seu peito chiar, era como um aviso e ela sabia o que significava. Ela só não entendia algo, sua obcessão por ir a escola, como último desejo. Ela poderia pedir um piquenique, uma visita a Candyland ou algo mais... Animado.
Resolveu assistir o filme mencionado pela amiga, já que não entendera nada do que ela dissera. Chorou e achou o filme fascinante! Mas mesmo assim, não fazia ideia do que fazer. A garota do filme se expressava sobre algo preso na sua garganta, algo que ela tinha medo de dizer em público, algo que ela não sabia como dizer a ele. O texto deveria se tratar sobre alguém ou algo que amávamos.
O que Kanade amava?
Ela se pegou pensando, encarou seu quarto em busca de algo que lhe clareasse a mente. Seus pais? Os amava, mais não fazia sentido fazer uma carta sobre eles. Sobre sua doença? Não, ela acabaria por falar coisas só ruins... Seu olhar pairou sobre a TV e seus olhos fulminaram, ela tinha tido uma ideia!

XXX


Os projetos começaram a ser apresentados.
Todos falavam sobre sua alma gêmea, uma garota ou garoto na sala que nunca os notavam, apesar de fazerem tudo para isso. Sakura mencionou o fato de uma pessoa muito importante para ela estar morrendo e não poder fazer absolutamente nada para ajudar. Kanade se sentiu ressentida, todos ficaram ressentidos com o texto de Sakura na verdade.
Chegou a vez de Kanade.
Olhares confusos que haviam a acompanhado desde que chegara pela manhã na escola se voltaram em sua direção. Ela desdobrou o papel lentamente e respirou fundo antes de começar a falar:
— Talvez vocês estejam se perguntando, o que a Kanade faz aqui? Bom, eu estou aqui realizando o meu último desejo vital. — Os olhares se tornaram mais confusos. — O texto deveria se tratar sobre algo ou alguém que gostamos e eu gostaria de compartilhar com vocês sobre alguém que amo muito, mas que não sei como dizer isso a ele, de certa forma... — Olhares maliciosos se instalaram pela sala, talvez achando que fosse para alguém da sala. — Não riem por favor, é sobre um garoto chamado Shirou Fubuki, do meu anime preferido, Inazuma Eleven. — Algumas risadas ecoaram pela sala comentando que aquilo era uma piada, mas Kanade não se ofendeu, respirou fundo mais uma vez antes de prosseguir. — Shiro, eu odeio o fato de que sempre quando você rir, mesmo à quilometros de distância, eu sinto vontade de rir também. Odeio o fato de que quando você está triste, eu sinto uma enorme vontade de te abraçar. Odeio o fato de ficar cheia de ciúmes quando te vejo com uma garota, mesmo que a esteja usando para conseguir informações. — Ela riu de leve. — Eu odeio o fato de você ser tão indeciso e sofrer por isso, odeio o fato de querer te elogiar sempre que você faz algo legal, odeio o fato de você estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe, — Ela deu um longo suspiro. — odeio também o fato de você não me reparar, não importe quanto eu grite, odeio o fato de você ser tão idiota as vezes, odeio também o fato de eu amar todas essas defeitos em você e odeio de verdade, o fato de que você não existe. O por quê de eu não poder fazer nenhuma das coisas que eu quero, é por causa desse fato, que eu odeio muito! — Ninguém ria mais, todos encaravam incrédulos a garota, que sentia seu rosto queimar e as lágrimas quererem brotar. — As pessoas não entendem que por mais ínutil que algo seja aos seus olhos, pode ser a coisa mais importante para certas pessoas. Eu odeio esse último fato, eu queria poder tocá-lo, beijá-lo e dizer o quanto ele me ajudou nesse tempo, que todos me deram as costas. Todos me mandavam ficar quieta, ele me dizia que ia ficar tudo bem. Eu o amo mais do que muitas pessoas aqui e é por isso que odeio esse fato, o fato de ele não existir...
— Sério que você está chorando por um personagem de anime? — Um garoto perguntou segurando o riso. — Ele nem existe! Acorda para vida garota, por mais que você o ame, — ele fez careta.— não vai importar, ele não existe...
O peito de Kanade começou a chiar, ela começou a arfar e por mais que quisesse mandar o garoto que a interrompera para o inferno, não conseguia. Era o aviso, ele estava se cumprindo. Ela estava morrendo.
Agarrou a sua carta decidida, de alguma forma ela sentira que ele ouvira a carta. Sua visão ficou turva, sua visão foi ficando embaçada, até que ela desmaiou.
XXX
Kanade tirou um dez no seu trabalho.
Ela ficou sabendo assim que acordou rodeada de aparelhos, deitada em uma sala de hospital, completamente nauseada e encontrou sua mãe orgulhosa lhe falando sobre a sua nota, mas ela pediu para ficar sozinha. Queria pensar, foi o que disse e a mãe assentiu preocupada.
Ao ficar sozinha, Kanade pensou no que acontecera. Apertou a carta rente ao corpo, desejando que se morresse, queria levar ela consigo. Uma sensação estranha estava percorrendo-a desde que lera aquela carta, será que era um efeito colateral de se estar morrendo?
Ela abriu a carta já amassada e começou a reelê-la, acreditando que pelo menos dessa vez não teria interrupções. Parou de ler na metade e apertou a carta contra o peito. Talvez aquele garoto tivesse razão, talvez não tivesse razão amar alguém que não existisse, alguém que ela nunca poderia trocar nenhuma palavra ou afeto... Aquele pensamento a fez se sentir sozinha, mais do que o normal.
Ela estivera errada então?
— Não, você nunca esteve errada. — Ela conhecia aquela voz, mas se virou mesmo assim para comprovar que não estava doida. Isso também era um efeito colateral de se estar morrendo? Mas seus pensamentos pararam e ela pensou seriamente se não estava tendo outro ataque de asma já que não conseguia respirar, mas não era a asma. O garoto que ela se declarara estava bem ali, sorrindo e com a mão estendida para ela.
— Shiro Fubuki? — Ela perguntou incerta e mordeu o lábio nervosa.
— Claro. — Ele se aproximou com a mão estendida. — O que acha de vir comigo?
— Vir com você? Para onde— Ela perguntou confusa, esfregando os olhos para ver se não era um tipo de aluscinação. Ele riu.
— Isso. Seu tempo aqui acabou e eu vi hoje o quanto você quer isso. — A garota corou um pouco, ela se declarara para o garoto na sua frente naquela tarde. — Não se preocupe. Ninguém irá desconfiar de nada, você irá para Inazuma, lá você não terá mais essa doença e nunca mais irá se sentir sozinha...
Ela pigarreou. Sozinha, nunca mais. Aquilo era tão impactante. Seu peito voltou a chiar com mais força e sua tosse voltou com mais força. Os médicos entraram correndo desesperados lá dentro, mas Kanade nem percebeu, seu olhar estava fixo no garoto dos cabelos claros em sua frente que ainda continuava com a mão estendida:
— Vamos, seu tempo está acabando. — Ele disse preocupado, verificando o teto. — É só pegar a minha mão.
Kanade foi se aproximando devagar, ela estava morrendo, será que não era um daqueles tipos de enganação? Daqueles que a morte se disfarça só para você morrer mais cedo? Ela revirou os olhos e riu consigo mesma, perguntaria mais tarde à Sakura sobre essas superstições sobre a morte... Ah, ela não poderia. Não iria resistir. Sua dor só aumentava, ela encarou o garoto na sua frente com a mão estendida. Era ele que a havia ajudado por todos esses anos, nunca se sentiu completamente sozinha por causa dele, o motivo de ela ainda estar ali era...
XXX
Kanade morreu naquela noite, 10 minutos depois.
Os médicos relataram que a viram sorrir e estender a mão a algo, misteriosamente seus aparelhos se soltaram e ela saiu voando em direção a janela, que se abriu. Mas seu corpo caiu desacordado e então, foi declarado o óbito de Kanade Tachibana.

Notas finais
Me emocionei gente, escrevendo essa fic!O que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!