10 Motivos para Odiar Z Berg

1 Eu não chamaria isso de amor à primeira vista


Sempre amei cada detalhe das férias de verão. Tu-do, eu gostava de tudo. Daquelas lembrancinhas do tipo “Fui pro fim do mundo e lembrei de você”, de pagar cinco absurdos dólares por uma lata de Coca-Cola na beira da praia, do cheiro do protetor solar, das chuvas mornas que só duram cinco minutos. Tudo, das fotos toscas que minha família tira de mim, enterrado na areia, até o enjôo que viajar de carro me dava, porque eu não conseguia parar de olhar pela janela, procurando figuras nas nuvens.

Mas nessas férias, o que eu mais ansiava é que a viagem acabasse logo, para que eu pudesse voltar pra Vegas, reencontrar o Ryan, lhe entregar a camiseta “Estive no inferno e lembrei de você” que havia comprado pra ele, reclamar do preço da Coca-Cola que vendem na praia, do cheiro nojento do protetor solar fator infinito que minha mãe me fazia usar, contar sobre o dia em que a chuva foi tão rápida não molhou ninguém, sobre a nuvem que tinha o formato do seu rosto, e lhe mostrar minhas centenas de fotos de turista. Falar, falar, falar muito, enquanto ele só ouvi a sorria. Como sempre.

Era engraçado o modo como eu sentia falta dos seus silêncios. Tão engraçado que a primeira coisa que eu fiz depois que meu pai estacionou o carro na garagem de casa, ao voltarmos da praia, foi sair correndo para a casa do Ryan, gargalhando. E foi gargalhando que eu voltei na metade do caminho, porque tinha esquecido de pegar a tal camiseta “Fui pro inferno e beijei o diabo pensando que era você” que tinha comprado pra ele.

Entrei pela porta dos fundos da casa dos Ross, que sabia estar sempre aberta. Caminhei nas pontas dos pés, tentando conter a respiração que estava alta por causa da corrida e de algo mais que eu não sabia o que era. Ryan estava distraído jogando aquele Rock Band dos Beatles – como ele não enjoava disso? Acho que se meu sorriso fosse um pouco maior, ele rasgaria os cantos da minha boca. Ele estava lá, meu Ryan de sempre, lindo como sempre.

O sorriso desapareceu quando eu percebi que ele não estava sozinho.

Ryan estava acompanhado de uma garota. Arregalei os olhos o máximo que pude, porque, bem, eu não via o Ryan com uma garota desde... desde que ele virou essa bichinha tímida depois que terminou com a Keltie (uma idiotice ficar triste daquele jeito por terminar o namoro com uma garota que tinha nome de cachorro, na minha opinião).

Fiquei parado na porta entre a cozinha e a sala, boquiaberto, até que ele virou para trás, depois do solo de Let It Be, e me viu.

- Oh. – Ele disse.

Oh. A coisa sobre Ryan é que ele nunca se surpreende. Eu poderia cravar uma faca de cozinha na boca de seu estômago e o máximo que ele diria seria “Brendon, você está me machucando”.

Ao ouvir o “oh”, a menina virou-se para Ryan, e dele para mim, então pude ver seu rosto. Cá entre nós, que carinha sem graça... A menina era loira, com cabelos que chegavam até a metade das costas, e vestia o que parecia ser um casaco, sobre uma blusa, sobre um vestido, e mais colares do que eu podia contar.

- Ei, Ryan! – Eu resolvi falar, ao invés de ficar parado de boca aberta, como se tivesse sofrido algum dano cerebral.

- Brendon, senti sua falta.

Então eu sorri, porque um “senti sua falta” vindo do Ryan era praticamente uma declaração de amor. Ele veio até a mim e me abraçou com aquele abraço desajeitado de sempre, mal tocando em mim, rápido demais para que eu tivesse tempo de abraçá-lo também.

- Como foi a viagem? – Perguntou, e antes que eu pudesse responder, me puxou pelo braço até a garota. – Vem, quero que conheça uma pessoa. Brendon, essa é a Z. Z, esse é o Brendon de quem eu te falei.

Ela me olhou de cima a baixo, com um olhar de avaliação, depois sorriu e estendeu a mão para apertar a minha.

- É um prazer finalmente te conhecer. – Disse ainda sorrindo.

Dei um sorriso ansioso e virei para o Ryan:

- Z...?

- Ah, o nome dela não é Z, é Elizabeth.

Eles riram, e eu ri também, frustrado porque não era isso que eu queria saber. Queria que ele completasse a frase. Z, minha amiga. Z, minha nova vizinha. Z, minha prima. Ah, como eu queria que ele dissesse “minha prima”!

Mas ele não explicou nada; ele nunca explicava nada.

As horas seguintes não foram nada do que eu esperava. Eu não falei sem parar e Ryan não ficou quieto. Os dois ficaram conversando o tempo todo enquanto eu os assistia jogar videogame calado. Quando a tal Z finalmente decidiu ir para casa, já estava quase na hora de eu ir para a minha.

- Então... como isso aconteceu? – Perguntei enquanto caminhava para a porta.

- Isso o que?

- Essa... Z.

- Hum.

- E então?

- A gente se conheceu naquela festa que teve um dia antes de você viajar.

Cocei a cabeça tentando lembrar. Ah, claro. A festa em que não pude ir porque minha amiga Katy apareceu na minha casa, na última hora, chorando feito uma mangueira humana porque o namorado tinha lhe metido uns chifres (não sei porque alguma garotas acham que eu sou a amiguinha delas).

- Vocês estão...? Você sabe.

- Ela joga videogame muito bem.

É, Ryan Ross, ótima resposta.

- É... Muito bem, considerando que ela é uma menina.

- Ela bateu todos os seus recordes...

Fingi que não tinha ouvido, encolhi os ombros com descaso e me inclinei para a frente, para beijar sua bochecha em forma de despedida. Ele pareceu tão incomodado que por um instante pensei que ele fosse limpar o beijo. Ignorei isso e fui para casa, chutando as pedras pelo caminho.

Será que, enquanto eu viajava, minha relação com o Ryan havia regredido? Será que a tal Z o deixava incomodado por receber um beijo no rosto?

Notas finais

Comentários/críticas/sugestões são bem-vindas!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.