10 Dias Com Ela
9 Oitavo Dia
Notas iniciais

Oitavo dia
Meu dia estava…confuso. Desde a suposta revelação de Sasuke, minha cabeça se tornou uma verdadeira bagunça. Tudo parecia fora do meu alcance, eu somente desejava sentar um pouco e respirar. Porém, tempo para isso era uma das coisas que não possuía. Pelo menos o trabalho faria com que eu não pensasse tanto naquele beijo, mas infelizmente a teoria não saíra do papel.
Seu veneno já pulsava por entre as veias.
Talvez ele só tivesse feito aquilo por conta do momento, mas a troca de afeto não se enquadrava em uma ocasião fictícia, na verdade, fora mais do que real. Foi avassalador. Ainda podia sentir suas mãos grandes agarrando minha generosa carne enquanto beija-me com ternura e voracidade. Eu bem sabia o quão enigmático Sasuke era, no entanto custou-lhe tanto assim ter tomado aquela iniciativa?
Há tempos eu havia prometido que nunca mais correria atrás de Sasuke Uchiha, mas o que poderia fazer se esse era o homem que supostamente amava? A vida realmente não fora justa, pois quando fizera-me ela colocara um fodido bocado de: “amar muito e sofrer ainda mais”.
Para finalizar com meu instante de autoacusação, Karin me chamou para ajudá-la. A tarefa era simples, devia apenas medir a pressão de um dos pacientes. Esse aparentava ter cerca de sessenta anos e mostrara-se muito simpático. Alguns poderiam aprender com o senhor e finalmente entender que nós, médicos, só queríamos ajudar.
— Sakura, já pode tirar o esfigmomanômetro*, o aparelho deve estar apertando demasiadamente o braço do senhor. – ela tentava chamar a minha atenção.
— O que? – perguntei atordoada. – Por Kami, me desculpe, Senhor Watanabe. – céus, como pude cometer tal erro? Era uma médica experimente e não uma simples aprendiz, deveria dar tudo de mim para que todos se sentissem satisfeitos e bem cuidados.
— Tudo bem, minha filha. Não sei o que anda acontecendo em sua vida, mas posso perceber que não está nada bem, não é? Esse é o jeito que minha filha agia enquanto estava sofrendo por aquele cafajeste do meu genro. Só digo algo, jovem menina, o tempo é um desencontro com a liberdade. Então se tiver de fazer algo, faça agora.
Eu não era inteligente o bastante para fingir que não havia entendido nada. Mesmo sem saber, o nobre sábio dera um dos melhores conselhos já escutados. Aqueles que vem da alma e surgem como um tapa no rosto. Sem dúvidas o que eu precisava, aquilo que não estava acostumada a levar, uma simples e dolorosa verdade.
Logo após o episódio, ela e eu continuamos a tratar do velho homem, ele evoluíra rapidamente e já estava sentindo-se muito melhor. Ele chegara ao hospital dias antes por conta da queda que tivera. Estava renovando as calhas de sua casa, quando perdeu o equilíbrio e acabou caindo de uma considerável altura. Pobre homem, quebrara uma das pernas e ficara com hematomas pelo resto do corpo.
Após terminar todos os procedimentos com o senhor, Karin e eu tomávamos um pouco de café na área reservada aos funcionários. Estávamos em um agradável silêncio, quando a ruiva repentinamente virou-se para mim:
— Por que está assim? Parece abalada desde ontem. Tem algo a ver com o Sasuke?
— Se eu dissesse que não, mentiria…
— Olha, não quero que me conte o que aconteceu, até porque acho algo muito íntimo e deve ser tratado apenas por vocês dois... Também não convivi tempo suficiente com o Sasuke para saber detalhadamente seu jeito de pensar, mas uma das coisas que aprendi é o modo como ele demostra apreço pelos outros. – Karin olhava-me de um jeito sério.
— Aonde quer chegar?
— Isso mesmo que está pensando, Sakura. Seja paciente, estão próximos da felicidade. Esperou por muito tempo, tem de ser forte só mais um pouco.
— Esperar sem ter certeza? Não sei se consigo. – murmurei.
Karin soltou uma risada e então olhei para a minha colega de trabalho e amiga com uma cara indignada.
— Ai, Sakura! Você devia saber que o Sasuke não é um rapaz de palavras e sim de gestos. Tente prestar mais atenção. Só não demore muito, ok?
E dizendo isso ela levantou-se e voltou ao trabalho, despedindo-se de mim com um aceno de mão.
(…)
Isso não vai dar certo.
Esse era o meu principal pensamento ao andar cuidadosamente pelos corredores, a minha calma se devia ao generoso pudim que havia em minhas mãos. Obra de Naruto. Ele havia deixado a sobremesa em minha sala para que eu levasse ao Sasuke. Um mimo para o carrancudo estava escrito no bilhete.
Quando cheguei na porta do quarto, pedi a uma enfermeira que passava por perto para abri-la, já que minhas mãos estavam ocupadas. Agradecendo a ajuda, entrei no aposento. A primeira coisa que fiz foi procurar o moreno, mas ele não estava a vista.
Deixei o doce em cima da cômoda, próximo a janela. Estava indo me sentar no sofá e ouvi o barulho do chuveiro. A lembrança do corpo de Sasuke me veio a mente, minhas palmas estavam formigando ao lembrar de tocar aquela pele. Ter dado banho nele nos primeiros dias não foi uma boa ideia. Fiquei consciente do calor do local e fui abrir a janela para abrandar um pouco a sensação.
— Tentando me comprar com doces, Sakura?
A voz dele veio próxima e atrás de mim. De repente fiquei muito ciente da minha posição, tive de me esticar por cima da cômoda para alcançar a janela, fazendo assim, com que minha bunda ficasse empinada. Um rubor subiu as minhas bochechas, mas terminei de abrir sem olhar para o moreno.
— Uma pena para você, pois eu não gosto de doces. – ele falou, aproximando-se do móvel. Rapidamente me afastei indo em qualquer direção para longe dele, só quando tive certeza de estar segura, o olhei.
Caralho.
O filho da mãe estava apenas de toalha! Aquele parco pano cobria apenas da cintura para baixo, deixando seu dorso molhado e nu para quem quisesse ver. Agora, com toda certeza, eu devia estar vermelha.
— O doce foi o Naruto quem mandou, um mimo dele para você. – respondi, desviando o olhar para a parede atrás dele.
— Hm.
Ele começou a andar para mais próximo de mim, logo comecei a suar frio a cada passo dele. Mas Sasuke me ignorou, deu a volta por mim e pegou a roupa que estava em cima da cama. Deixei um suspiro de alívio escapar, e ouvi uma risada vindo dele. Estreitei o olhar para o Uchiha, porém ele não se mostrou abalado.
— Vou pôr uma roupa antes que você tenha um ataque – zombou, parado no arco da porta do banheiro. Com o doce entregue, eu já podia sair. Então fui em direção a saída, mas parei ao ouvir sua voz novamente – você pode comer o pudim por mim? Naruto ficaria um pouco chato se souber que joguei o doce fora.
Um sorriso brotou em minha face. Sasuke podia fazer a fachada de “não ligo para você, Dobe” mas ele se importava sim, esse pedido demonstrava isso. Virei-me para ele e assenti com a cabeça. Satisfeito, ele fechou a porta do banheiro.
Achei alguns pratinhos de plástico com garfos dentro da cômoda. Usando eles, coloquei um pedaço de pudim para mim e comi. O sabor estava divino, era uma pena Sasuke não gostar de doces, estava perdendo um prato e tanto. Quando percebi, já havia comido metade da travessa, fiz uma careta pensando nas calorias adquiridas.
— Sakura?
— Olá, Shizune! – cumprimentei ela com um aceno de mão, indicando que podia entrar no quarto. Shizune trazia uma prancheta em mãos, provavelmente contendo uma análise – Sasuke está se trocando – respondi sua pergunta muda ao olhar o aposento vazio com exceção de mim.
— Certo – respondeu.
Pacientemente, esperamos Sasuke sair do banheiro. Após uns bons minutos ele veio para fora, seu olhar demonstrou um pouco de surpresa ao ver Shizune, mas logo disfarçou. Ela por sua vez sorria como se trouxesse uma boa notícia.
Assim que o moreno estava devidamente acomodado na cama, o jeito em que ele deveria permanecer na maior parte do tempo – apesar de ele desrespeitar isso e ficar andando pelo quarto –, Shizune se aprumou para dar tal comunicado.
— O resultado de sua avaliação com o treino de Kakashi chegou, Sasuke – vi pelo canto do olho que Sasuke ergueu um pouco o tronco, ansioso. – Parabéns, em menos de um dia e meio você terá alta.
— Sério? – tentou reprimir sua felicidade ao receber a notícia, porém Sasuke falhara um pouco na tentativa. Deixou um sorriso de canto escapar enquanto comemorava-a silenciosamente. – Gostei de saber disso – Inclinou um pouco a cabeça, como se quisesse dizer obrigado.
— Não é ótimo, Sasuke-kun? Você finalmente vai poder voltar para a sua casa, assim como sempre quis – realmente tentei demonstrar animação, mas estava difícil. No fundo sabia que isso só me afastaria dele. O estranho era concluir que nos aproximamos somente por conta de um acidente. Se por um acaso ele não tivesse se ferido, como estaríamos agora?
— Bem, já vou indo. Só vim contatar o Sasuke-sama sobre sua situação. Tenham um bom dia!
Logo após a saída de Shizune, eu e Sasuke ficamos sozinhos mais uma vez. Possuía alguns minutos de folga e a aproveitei um pouco em sua companhia, já que entendia muito bem a situação que nos fora imposta. Só queria assimilar o porquê de eu precisar tanto de sua presença., pois ele me irritava na maior parte do tempo e ainda por cima me confrontava assim que via uma brecha.
Não conversávamos mais do que o necessário, no entanto palavras nunca foram tão essenciais em nossa relação, apesar de eu as clamar em momentos da vida. Certos instantes ele olhava-me com uma expressão esquisita, semelhante a: “por que você está aqui?”, mas nada daquilo importava de alguma forma, meu inconsciente apenas sentia medo de uma prematura separação.
E também, meus futuros planos de diálogo simplesmente não faziam mais sentido. Era constrangedor admitir que ficava analisando todas as minhas falas para não parecer estúpida diante de si, ainda mais frustrante seria o sentimento de vazio. Sasuke surgira como uma fênix, pois fez-me ressurgir das tenebrosas cinzas da solidão.
Essa já me assombrava há um longo período e mesmo que amasse a presença de meus amigos, algo parecia faltar. Descobrimos quando mais velhos que não basta ser sucedido profissionalmente e ter uma bela família. Se você não possuir um alguém para te acolher nas horas difíceis, ou até mesmo em situações mais do que cotidianas, todo o esforço não valerá o suficiente.
Diabos, o que estava pensando? Pensamentos rondavam a minha mente como se já soubesse a resposta do indecifrável enigma. Talvez meu conhecimento sobre tal era amplo antes mesmo de ser desafiada. Entretanto, minha teimosia fora tamanha que alguns de meus sentidos foram prejudicados.
Não enxergava as coisas que postavam-se diante de mim. Caso não as percebesse de imediato, poderia continuar infeliz pelo resto da vida.
Kami-sama!
Então era verdade. Todas essas sensações, impulsividade incontrolável, respiração acelerada…
Levantei subitamente do sofá e corri porta afora, todavia ainda conseguia escutar os resmungos de Sasuke sobre minha repentina ação. Possivelmente nada entendia, afinal a descoberta era algo muito íntimo para se tornar de seu domínio... Se bem que isso envolvia-o, logo não pude formular uma resposta com clareza.
Fechei a passagem de meu escritório segundos depois da minha chegada e inevitavelmente deslizei as costas por sua fria superfície. Lágrimas insistiam em sair dos meus olhos, tornando impossível contê-las. Havia sido uma boba durante todo o período da estadia de Sasuke no hospital, sempre fazendo-me de profissional e relutante ao se tratar das minhas emoções.
Burra, burra, burra!
— Eu o amo. – sussurrei.
Minha falecida avó sempre dizia que o amor é uma das coisas que a ciência jamais poderia decifrar. Não entendia se ela estava certa ou errada, porém meu coração parecia sair do peito apenas com a simples imagem de Sasuke. Também falava que esse era traiçoeiro, cheio de perigos ocultos e mortais. Envolver-se com ele é como andar em uma montanha-russa desgovernada, entretanto, se tivermos uma nova oportunidade de a experimentarmos, não exitaríamos.
Estava disposta a embarcar em uma nova aventura, a qual poderia sair ferida ou até mesmo morta. A ideia de ser correspondia, sendo até por um curto tempo, deixava-me abobada. Jamais imaginei tal coisa, porém a felicidade parecia estar próxima.
Iria agarrá-la e somente soltá-la caso essa estivesse com falta de ar.
Dane-se aqueles que gritavam aos quatro cantos do mundo como o amor era doloroso e que possuía mais espinhos do que rosas. Pois ainda sim ele continuava aqui, mesmo quando doía.
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