10 Dias Com Ela
11 Décimo Dia
Notas iniciais

Décimo Dia
Logo após acordar e perceber que Sasuke continuava adormecido, eu tive a “brilhante” ideia de quebrar a fechadura da minha porta com um singelo soco. Tal coisa era tão óbvia que me senti envergonhada por não ter feito aquilo de uma vez. Entretanto, se tivesse pensado nisso com tamanha rapidez, o Uchiha e eu não teríamos nos resolvido. Ter um pouco de Naruto em si podia ser até bom no final das contas, pois fora exatamente uma dessas idiotices que me infiltrara em um sonho mágico, o qual nunca imaginaria que seria a protagonista.
Mas pensando melhor… aquele paspalho me devia uma porta nova! Hunf!
Apesar da irritabilidade, o sentimento de felicidade me invadia tão profundamente que não conseguia raciocinar com certa seriedade. Minhas mãos tremiam e suavam ao mesmo tempo, parecia uma menina que acabara de dar o seu primeiro beijo. No entanto, tal reação era proporcional a tudo que havia vivido na noite interior. Com toda a certeza, o melhor momento de toda a minha vida.
Amar alguém é algo muito nobre e diferente daquilo que vários pensam. Desejamos somente que essa seja feliz, não importando o quão ferido estaremos depois de a ver escolhendo outra pessoa para permanecer ao seu lado. Porém, quando o afeto é recíproco, não há nada que nos leve ao paraíso mais rápido. E fora exatamente isso que ocorreu.
Tudo o que eu sabia era que estar com Sasuke me fazia sentir como se enfim estivesse seguindo em frente. Porque se havia algo entre nós, fosse o que fosse, agora possuía bases no mundo real, não na bolha de fantasias da adolescente fútil que um dia fui. O Uchiha era tão vivo quanto qualquer pessoa já conhecida. E o mais interessante, é que o termo nós parecia-me natural. Parecia certo — embora admitisse pra mim mesma que nem sempre foi assim.
(…)
Caminhava por entre os corredores do familiar hospital, estava faminta e necessitava chegar ao refeitório rapidamente. Porém, antes de acelerar o passo, dei-me conta de que Naruto permanecia parado na recepção do local. Não poderia imaginar o que fazia ali, então apenas segui até ele para enfim saber da suposta situação.
— Naruto! – sussurrei seu nome sem chamar muita atenção.
— Sakura-chan – sorriu, como de costume. – O que você está fazendo aqui?
— Eu trabalho aqui, idiota – não pude deixar de rir. Só mesmo alguém como ele me faria uma pergunta dessas. Mas Naruto era e nunca deixaria de ser o meu melhor amigo. Éramos como um livro aberto, não tínhamos segredo algum e nos entendíamos apenas com o olhar. E devido a essa amizade, eu não poderia estar mais do que agradecida. Quantos passavam a vida sem ter com quem conversar? – Agora, o que você está fazendo aqui? – repeti a indagação que fora feita segundos antes.
— Nada demais, sabe – coçou um pouco a nuca em sinal de desconforto – Só vim pra tomar aquele chocolate quente que geralmente os pacientes tomam depois de fazerem algum exame. O que colocam dentro do leite, Sakura-chan? Parece mágico. Estou viciado! Só não é melhor que lámen, dattebayo' – já deveria esperar algo semelhante a isso sair da boca de Naruto. Quem mais viria a um hospital somente para tomar uma bebida? – Mas não conte para seus colegas, está bem? Podem considerar um abuso. – e não era?! Tão… criança. Ri internamente com o ato descabido de meu amigo. – Posso lhe perguntar uma coisa?
— Vá em frente – lhe encorajei com o olhar.
— Você e o Teme se resolveram? Ou aquele bastardo continua com a pose de macho alfa?
— Naruto… – segurei o colarinho de sua camiseta, trazendo-o para mais perto. Ele somente olhou-me assustado, esperando que um tapa viesse em sua direção – Ontem foi o melhor dia da minha vida! – abracei o futuro Hokage em seguida, não contendo a minha alegria – Estou anestesiada de emoção. Me belisque, Naruto, por favor. Não sei se estou sonhando, tenho medo de acordar e perceber que isso só não passou de uma ilusão.
— Eu sei o quanto ele gosta de você, Sakura-chan. Sasuke te olha de um modo tão… diferente. Como se te apreciasse a cada vez que entra em seu campo de visão. Além disso, você é uma das únicas pessoas que nunca desistiu dele – Naruto dizia aquelas palavras com um orgulho quase palpável – Ele pode ter escolhido o caminho errado diversas vezes, porém possui um coração bom. E sabe valorizar aqueles que o valorizam também. Só tenha um pouco de paciência, Sasuke não é muito bom em demonstrar tudo isso.
— Não sabe como me deixou feliz, obrigada. Desejei tanto estar ao lado dele.
— Eu sei – sorriu. – E sempre soube que conseguiria. Porque ele é seu desde o instante que o viu pela primeira vez.
(…)
— Dra. Haruno?
Uma enfermeira estava na entrada de minha sala, seu rosto era um tanto cômico ao observar a porta parcialmente quebrada.
— Sim? – chamei-lhe, trazendo sua atenção a mim novamente.
— Seu paciente, Sasuke Uchiha, pediu a sua ajuda nos preparativos da alta.
Oh, claro! Sasuke-kun.
Já havia me esquecido de sua saída do Hospital por conta de resolver o problema da porta e de alguns relatórios. Sem mencionar que eu não havia aparecido em seu quarto após o ocorrido da minha sala.
— Sem problemas, já estou indo ajudá-lo – respondi a moça. Ela prontamente assentiu com a cabeça e saiu correndo. Ergui um pouco as sobrancelhas diante sua pressa, os novatos sempre eram assim, querendo mostrar serviço.
Dando um suspiro, larguei o catálogo que estive olhando e saí para o corredor, com intuito de ir ao quarto de Sasuke, quando uma pequena coisinha que esteve me cutucando a manhã toda voltou a mente.
O que eu e ele tínhamos agora?
Nunca fomos fáceis, isso é um fato. Mas estávamos namorando ou não? Seria algo em que nos pegaríamos quando quiséssemos e depois fingiríamos que somos apenas ex-companheiros de time? Estava a ponto de soltar um berro para aliviar a tensão, porém a entrada do quarto dele se localizava a poucos passos adiante.
Sem neuras, Sakura.
Adentrei no recinto forjando um sorriso, tentando esconder a minha confusão interna. O moreno estava de costas a mim, arrumando a pequena mala com seus pertences, entretanto, virou-se ao notar o som dos meus saltos ecoando pela salinha. Seu olhar foi um tanto enigmático, varreu-me de cima a baixo e parou no rosto, estudando.
— Não ficou nenhuma marca. É uma pena – comentou, calmamente. Um sorriso travesso começou a despontar naquele rosto e minhas pernas deram uma boa bambeada.
— É uma surpresa que não tenha, pelo modo como aconteceu tudo – retruquei não querendo parecer uma adolescente, pois eu sabia que havia corado com o comentário malicioso dele. Ainda precisava me acostumar com esse lado de Sasuke.
Ele apenas continuou a me olhar daquele modo por mais algum tempo e então virou-se para a mala. Estudei o local e vi que não haviam mais coisas para se guardar, ou seja, ele partiria em no máximo meia hora. Isso significava que eu precisava reunir coragem e perguntar a ele o que vinha me atormentando, afinal tive coragem – novamente – de me declarar, então pedir algo assim não devia ser tão difícil.
— Sasuke-kun, como nós ficamos a partir de agora? – joguei diretamente, antes que perdesse a coragem.
— Uh? Achei que já tínhamos resolvido isso – ele olhou-me confuso, então estreitou os olhos e se aproximou de mim – nós vamos continuar ficando juntos. Não é?
— Oras, Sasuke, não é nesse sentido que estou pedindo. Quero saber se somos namorados ou não, se você quer manter algo como sexo casual ou não, se você e eu …
— Case-se comigo.
Eu já ia continuar com a lamúria quando prestei atenção na sua fala. Olhei-lhe assustada e emocionada. Era isso mesmo que havia ouvido?
— Como? – pedi com a voz falhando.
Sasuke ficou sério e inclinou-se, deixando seu rosto a poucos centímetros do meu.
— Case-se comigo, Sa-ku-ra – o Uchiha repetiu a frase pausadamente, os olhos pregados em mim.
Os meus olhos se encheram de lágrimas e então eu pulei em seu pescoço, agarrando-o como se precisasse disso para respirar. Senti seus braços rodearem a minha cintura, aproximando-nos mais. Quantas vezes sonhei com essa frase? Quantas noites fiquei olhando para as estrelas e imaginando a cena do pedido? Sempre esperei por algum movimento por parte dele, mas a minha esperança foi se minguando com o passar do tempo. Já não achava mais que isso poderia acontecer um dia, fiquei desacreditada. Pelo menos até o dia em que ele começou a me atazanar no hospital. No fundo, desejava que fosse uma máscara de seus sentimentos e que no final viessem a tona. E sendo sincera, não pensei que algo assim pudesse ocorrer.
Até agora.
Sou exatamente como Sasuke disse, cega. Nunca vejo algo até que ele seja esfregado em minha cara. Mas, eu não poderia estar mais feliz no momento. Ele havia me pedido em casamento, havia confessado seus sentimentos, ao seu modo, e escolhido ficar ao meu lado.
— Com toda certeza, sim – respondi-lhe, ainda abraçada.
(…)
O tempo realmente andava rápido. Já havia se passado cerca de dois anos da entrada de Sasuke ao hospital, naquele instante ninguém imaginaria que hoje estaríamos casados. Tanta coisa acontecera desde então, alguns obstáculos foram colocados em nossa direção, entretanto, os vencíamos dia após dia. Com o cotidiano, também vieram as alegrias. Era de conhecimento geral que Sasuke nunca tivera uma personalidade fácil, porém esse se mostrara um marido exemplar e muitas vezes carinhoso.
Além disso, amigos próximos haviam engatado em um relacionamento sério nesse meio-tempo. Como era de se esperar, Naruto e Hinata formaram um belíssimo casal. Esses nos escolheram como padrinhos de casamento, e apesar de Sasuke não admitir o quão feliz estava com a notícia, sabia o quanto isso significava pra ele. Naruto sempre deixou bem claro como os laços entre ele e Sasuke eram fortes, tal atitude apenas reafirmou essa importância. Agora, debaixo de uma árvore que carregava o mesmo nome que o meu, é que nos dávamos conta de que possuímos uma vida mais feliz do que imaginávamos.
— Hinata já marcou a data do nascimento de Boruto, sabia? – comentei com Sasuke enquanto observávamos Konoha de onde havíamos nos sentado.
— Achei que isso só ocorria com oito meses – o moreno disse em tom de confusão, afinal Hinata estava grávida de sete meses.
— Não é uma data oficial, apenas uma estimativa. Ela pode ser mudada futuramente – expliquei, sorrindo. – Além disso, Naruto está uma pilha de nervos, está mais ansioso para que o bebê finalmente nasça.
— Hmpf, o Dobe sempre foi apressado. Ele escolheu o nome da criança antes mesmo de saber o sexo.
Oh, aquilo me deu uma ideia. Estive me segurando para não contar a Sasuke uma novidade e finalmente havia achado um jeito único de anunciá-la. Sorrindo de modo travesso, coloquei a mão em cima de minha barriga e inclinei-me para meu marido.
— Podíamos fazer isso também – comentei como quem não queria nada.
— Sakura… – Sasuke olhou-me de maneira intrigada e ao mesmo tempo surpreso – o que você está querendo insinuar? – virou-me em sua direção para que pudéssemos ficar frente a frente.
— É isso mesmo, Sasuke-kun. Ganharemos mais um presente em nossas vidas.
Não pude prever a reação dele, já que apenas fixou-se em um ponto específico e continuou em silêncio. Estava começando a achar que ele não havia gostado da notícia, afinal o bebê que se encontrava em meu ventre não fora planejado. E se não quisesse ter um filho nesse momento? Havíamos conversado sobre o assunto pouquíssimas vezes.
— Diga alguma coisa! – não aguentei ficar calada e exigi uma reação de sua parte.
— Ser pai, isso é realmente… fantástico.
— Sasuke-kun… – e as lágrimas que escorreram de meus olhos no dia em que descobri a gravidez vieram a tona novamente. Esse era um instante mais do que importante, eu finalmente construiria uma família com a pessoa mais amada. Tal não era somente gratificante por um desejo meu, mas a ideia de que essa criança seria a primeira a nascer após o massacre Uchiha possuía tantos significados.
Quando ele enfim beijou minha testa com ternura, tive a certeza de que meu marido pensava da mesma forma, pois suas expressões não negavam. A notícia significava um recomeço, algo grandioso para um clã mais grandioso ainda. Os Uchihas haviam cometido incontáveis erros, porém não mereciam terminar com a linhagem atual. Detinham mais qualidades do que defeitos e Sasuke estava aqui para comprovar isso.
— E então, vamos escolher o nome?
— Sakura, eu não sou o Naruto. – ele sorria provocativo, tentando deixar ainda mais claro que sempre seria melhor que o amigo. Maldita competição! Mas também não poderia negar que era a marca registrada deles e com esse pensamento ri interiormente da imaturidade que ambos insistiam em ter. – Não vamos escolher o nome aleatoriamente, como se essa criança fosse um objeto.
— Você tem razão. – beijei o canto de seus lábios, deixando-o um pouco corado por conta da aproximação afetiva. – E eu te amo tanto por isso! – Sasuke me abraçou fortemente, não colocando em palavras o quanto me amava, mas sim expressando o amor da maneira que lhe era mais conveniente.
Dizia a lenda que uma formosa cerejeira tomaria as dores de um falcão que não aguentava mais carregá-las para si. E assim, ela renasceria de novo na próxima primavera mais bela do que anteriormente e em consequência mais forte. Entretanto, o pássaro haveria construído um belo ninho em suas curvas, não saindo dali nem com as tempestades futuras. Com ela, ele criaria um romance inusitado, cheio de surpresas e diferenças. Mas tais só serviriam de complemento para o bonito casal.
Essa história encontrava-se em um dos livros infantis que a minha mãe havia comprado pra mim anos atrás. Não entendia se éramos dois amantes que apenas haviam se encontrado nessa vida, ou se alguém escrevera nossos trajetos antes mesmo de nos tornarmos reais. Porém, sabia que fazíamos parte de algo a qual fomos protagonistas — protagonistas humanos ao extremo e controversos, muito controversos —, e talvez exatamente por esse detalhe era que as pessoas muitas vezes nos odiavam ou simplesmente sentiam uma simpatia grande por nós. No entanto, o que importava? Sasuke e eu nunca havíamos sido tão felizes.
Ignorava o fato de que alguns me olhavam feio na rua pela razão de ter escolhido não desistir do homem que amava. Quando uma mulher sentia esse sentimento, não havia ninguém que pudesse pará-la. Me orgulhava disso, era uma ninja poderosa, esposa de Sasuke Uchiha, dona de casa nas horas vagas e…mãe. Convivemos durantes anos, mas esse parecia o primeiro dia de uma vida que não nos arrependeríamos de ter vivido.
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