0s 26
1 Oráculo
Eu acredito que os sonhos são sagrados
Pegue meus piores medos e brinque com eles
Como uma canção de ninar, como uma motivação
Hoje não foi um dia tão bom, principalmente para Oráculo. A noite se passara lentamente, sua imaginação se perdia entre cenas de crueldade, dor e sofrimento. Ele imaginava e criava em sua mente deturpada as mais criativas punições para os Monitores e os guardas. Era reconfortante o fato de que era dono ao menos de seu próprio pensamento. Dia após dia, ele se sentia cada vez mais pressionado pelos limites a ele impostos. Dia após dia, sua raiva se fortalecia. Ele era um Mutante e como qualquer outro, tinha uma habilidade que se encaixava a ele melhor que seu próprio corpo.
Podia distorcer a realidade. Não fisicamente – não ainda – mas conseguia criar uma ilusão tão real que parecia verdade e ele usava seu poder. Cuidadosamente, de forma calculada, nas pessoas de que menos gostava. Dava-lhes pesadelos, criava fobias, alimentava o medo e os fazia enlouquecer lentamente. Era bom, era satisfatório. Tinha raiva de toda a situação em que fora posto, de ter que ficar abaixando a cabeça para qualquer ser desimportante, de ser dito como inferior quando era na verdade tão poderoso. Podia sentir sua habilidade como uma coisa viva em sua mente, uma névoa que se espalhava e invadia o sono dos desavisados, assustava-os, os fazia tremer de medo.
Isso o deliciava. Ele era como um fantasma atravessando paredes... como um veneno entrando em suas mentes e as corroendo, forçando-os a fazer loucuras.
O som do Alarme toma sua mente e ele acorda, erguendo-se com violência. Era chamado de “Alarme”, porque era o mesmo para todos os Mutantes. Cinco da manhã, ele tocava e dava 20 minutos para que banhos – nos banheiros determinados – fossem tomados e roupas – já escolhidas – fossem postas. Atualmente, o uniforme do Distrito 1 era uma blusa branca e um short ou calça preto. Diferente do ‘uniforme’ dos Vampiros e dos Assassinos, eles pareciam ter um guarda-roupa com uma peça nova por dia. Era irritante. A hierarquia era tão clara que Oráculo tinha vontade de rir dos Mutantes que acreditaram quando o responsável por os pôr naquele Distrito disse: “Agora terão a chance de ‘conviver’ com outras raças e conhece-las”. Grande besteira! Pareciam mais cobaias em um experimento, cada ataque servia apenas para estimulá-los a prosseguir. Não diria que sentia falta do Bloco de onde veio. Não fazia muita diferença, na verdade, era tudo debaixo da terra mesmo. Ainda assim, ao menos lá só havia Mutantes e ele tinha mais liberdade. No Distrito, por outro lado, sentia-se observado o tempo todo por todos.
Por muito tempo fora ensinado, juntos aos outros, que tinham sorte, porque tinha comida, um lar, roupas e conforto. Eram tempos de guerra e – como sempre repetiam – podia ser pior, podiam ser tratados como os inimigos tratavam os Mutantes, como escravos. Por não ser assim ali onde estavam, o mínimo que podiam fazer era se comportarem e serem obedientes. Era só o que pediam, mas Oráculo sabia o que frágil era isso. Todos, no fundo, sabiam, mesmo que muitos não quisessem aceitar essa realidade. Todos sabiam o que acontecia quando os Cientistas descobriam a habilidade de um Mutante. Se não fosse útil, eles a suprimiam completamente. Se fosse, ele nunca mais voltava.
Oráculo se olhou no espelho do banheiro que dividia com outros Mutantes e suspirou. Estava pálido, como sempre, e seus cabelos pretos pareciam não conseguir manter a ordem em sua cabeça, eram desgrenhados e descuidados. Baixo e extremamente fraco comparado aos outros, as únicas pessoas que de fato o temiam eram os outros Mutantes, que conheciam seu poder e seu uso dele – tudo culpa do maldito Aranha, o qual não vem ao caso agora. Já havia tentado fazer greve de fome tantas vezes que seu corpo não parecia conseguir engordar de forma alguma. Era magro e delicado por fora, tamanho era o contraste com seu interior.
Por dentro, não era tão sensível e fraco. Por dentro, tinha uma personalidade que afastava quem o conhecia, de tão sombria que conseguia ser. Afinal, Oráculo não era um garotinho submisso, mesmo que por fora, para alguns, parecesse. Era só uma camuflagem. Não era estúpido, sabia que não podia deixar transparecer o que pensava para as pessoas erradas, então fingia. No fundo mesmo, era tão perverso e cruel que um Vampiro desviaria os olhos de seus “métodos” de controlar a raiva. O que seria de um Vampiro entre seus dedos...? Oráculo ri do pensamento, enquanto segue em direção à primeira aula do dia.
Tiveram um aquecimento comum e aula de educação física, tudo normal. Após isso, vinham as aulas sobre história e filosofia. Eram nessas aulas, pensava Oráculo, que enfiavam as ideias distorcidas deles em suas cabeças. Havia um livro, o chamado “Livro de Guerra”, que era considerado por todos um ‘livro de vencedores’. Quem os apresentou a esse termo foi o Aranha. Ele era outro Mutante, mas seu poder era puramente mental. Ele conseguira unir a mente de todos os Mutantes em uma grande teia, daí veio o nome. Oráculo nunca foi muito fã dele, achando-o intrometido e patético. Talvez fosse inveja de sua habilidade, talvez apenas não gostasse de seu senso de proteção ao grupo. Não importava, apenas não gostava dele.
Oráculo aguentou cada minuto, sentindo um tédio tremendo e uma vontade insana de matar alguém. Essa vontade, por incrível que pareça, não se expandia aos Mutantes, era como se sentisse algo por eles no geral, como se fossem irmãos. Mas, provavelmente, é o que ele quer que eu pense, pensou Oráculo, alto. Sabia que ele o ouviria, mas não se importava. O Aranha nunca se importou com os pensamentos ruins que ele exalava de vez em quando. Era como se já tivesse aceitado que Oráculo era assim e ponto, não havia porque discutir. A única coisa que ele pedia em troca de suas informações era que permanecessem unidos. Só isso.
Parece simples, não? Mas, não é. Digo, não era. Não naquele tempo.
E o garoto sentiu isso na própria pele, enquanto levava sua bandeja para a mesa. Estava no refeitório, um dos únicos dois lugares neutros a seres de raças diferentes. Ali todos comiam, desde os Mutantes com suas rações, até os Assassinos com seus pratos bem fartos e os Vampiros com suas garrafas de sangue com canudo.
No meio do caminho para sua mesa, um Assassino levanta-se e, quase como se flutuasse no chão, chega em Oráculo. Com um movimento rápido e preciso, o Mutante cai de joelhos, o corpo traindo sua vontade, a boca se enchendo do gosto metálico do sangue, ele tosse o líquido escuro e avermelhado. O Assassino Mike sorri e seus dentes parecem maiores em seu rosto pela ausência de seu cabelo, ele tinha uma feição bonita, mas perigosa. Como as crianças que gostam de desmembrar brinquedos. A queda de Oráculo ocasionou na queda de sua bandeja também que se esparramou pelo chão, com sua comida. O prato que o manteria em pé por cinco horas. O prato que não poderia refazer. Mike ri do garoto, que tremia e apertava o abdômen com um braço, enquanto o outro servia de apoio para elevar-se do chão. Oráculo cerra os punhos, o corpo fragilizado, mas os pensamentos ordenados e precisos. Ele afetou meu equilíbrio, então não vou poder me mexer, mas se eu olhar em seus olhos, eu com certeza...
Não, o Aranha se manifesta em sua mente. Você sabe o que vai acontecer se reagir. No melhor cenário, ele morre e você é levado pra um laboratório. No pior, você morre e ele é punido. Ele não pode te matar, fique quietinho aí.
Talvez eu queira ir a um laboratório. Provavelmente vai ser bem melhor do que ficar tendo que passar por isso todo dia.
Deixe de ser infantil. A May foi torturada por quase uma tarde sem levantar um dedo e você sabe do que ela é capaz. Você vai se entregar por tão pouco...?
Oráculo cospe sangue, irritado. O Aranha sempre sabia o que dizer para convencê-lo.
— Não vai fazer nada, vermezinho? Gostou tanto da coleira que virou cachorro? – caçoou Mike, tirando risadas da mesa mais próxima, onde estavam seus amigos. Em outras mesas, parte dos Vampiros ignorava, achando a cena patética e desnecessária, outros prestavam muita atenção, mas mais interessados no sangue em si do que na situação.
Oráculo não fez nada, como o Aranha instruiu, apenas tentou se levantar, mas foi prontamente chutado de volta para o chão. O Assassino riu e continuou chutando ele. Após o terceiro, Oráculo se vira e cospe sangue, sentindo a dor se estender por todo o seu abdômen, imobilizando seu corpo. Lágrimas se formam contra a sua vontade. Tinha ódio e estava irado, mas não havia como lutar contra a dor. Não em um corpo tão frágil, fraco e desnutrido. Sentia-se quebrado. Mais distante deles havia alguém que conseguia sentir cada golpe, como se fosse em si próprio. Mas não era uma habilidade, não, era um sentimento. Um sentimento que tão logo se transformou em ódio e fez seu corpo tremer.
Contudo tudo pareceu parar no momento que ele entrou no refeitório. Mike parou de chutar Oráculo, que aproveitou a pausa para tentar respirar normalmente, com dificuldade. Os amigos de Mike pararam de rir e se viraram para o portador da aura que tomou o local. Ruivo, pele clara e olhos vermelho-sangue. Alto e bem-arrumado. Ninguém conseguia tirar os olhos dele. A aura que ele emanava era perceptível para todos os Vampiros e Assassinos, que pararam de comer para observá-lo caminhar até Mike e Oráculo.
O olhar de Jason para no Assassino, carregado de tranquilidade, mas com um toque quase imperceptível de autoridade. Mike volta para sua mesa de cabeça abaixada, admitindo e se submetendo à superioridade do ruivo. Jason se abaixa e olha o Mutante nos olhos. O ódio nestes era tão palpável que o Vampiro-Original engole a seco, surpreendido.
— Perdoe-me pela existência miserável dele, permita-me ajuda-lo – propõe o ruivo, com um sorriso, e morde a mão. Quando o sangue começa a sair, ele encosta-o nos lábios do garoto, que, sem conseguir se mexer para negá-lo, acaba aceitando. Oráculo fecha os olhos e, como se por mágica, consegue respirar normalmente. Suas feridas se curam e consegue se mexer como se nada houvesse acontecido.
Ao ver que o menor estava melhor, Jason põe a mão em suas costas e o impulsiona para cima, fazendo-o se aproximar demasiadamente de si. Oráculo sente-se incomodado pela proximidade, mas não consegue evitar de sentir Era rancoroso e não se deixaria seduzir tão facilmente. Odiava todos eles e não seria uma pequena boa ação que o faria mudar o que sentia. Deu as costas ao Vampiro e seguiu para sua mesa. Seus amigos, preocupados com ele, ofereceram de seu prato, mas ele recusou. Não sentia mais fome. Seu corpo tremia, mas não era dor, tampouco frio.
Era raiva. Uma raiva tão pura que não conseguia ser contida em seu tão frágil corpo. Não se esqueceria do que aconteceu ali. Mike, era o nome dele. Não se esqueceria de forma alguma. Ele iria pagar pelo que fez. Oráculo sempre mantinha suas promessas.
O Aranha remexeu-se em sua cabeça e em outra mesa, uma garota o olhou preocupada. Não eram os únicos que percebiam a sua aura, mas eram os únicos que se importavam.
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