Ban Midou e Tay Kamurato


Ban tinha saído muito cedo, tinham passado a primeira noite no trailer das irmãs Kamurato.
-- Ah, você tá aí! – Ginji se aproximou do amigo. – O que tá fazendo, Ban? Você levantou muito cedo, não acha?
-- Eu tô acostumado a dormir na Joaninha. Essas cadeiras desconfortáveis não me deixaram dormir direito!
-- Ah, que isso! Acho que nunca dormi tão bem!
-- Ginji, eu não me sinto bem morando sob o teto dessa garota.
-- Mas Ban, elas são uns doces!
-- Como você é ingênuo, vão esperar a gente se descuidar e a gente já era, Ginji! Acho que a gente devia ir embora antes que...
-- Eu quero ficar!
-- Viu só? Já enfeitiçaram você. É isso que elas fazem, confundem a sua cabeça e depois vão começar a pensar por vocês!
-- Você quer parar com isso? Por que não dá uma chance pra elas? Se você ficar assim na defensiva, não vão se conhecer.
-- Eu não quero conhecer nada sobre elas, obrigado!
-- Ginji, Ban! O café tá na mesa – Kay apareceu na porta.
-- Estamos indo – Ginji respondeu. – Viu só? Se importam com a gente, Ban, o que mais você quer?
-- Quando a esmola é muita o santo desconfia. Nunca leu João e Maria, não?
-- Aquela da casa de doces?
-- É, a casa inocente da bruxa que queria devorá-los.
-- E a bruxa seria a senhorita Tay?
-- E quem mais seria?
-- Seu paranóico.
Ginji entrou no trailer e, antes que Ban conseguisse pôr os pés dentro, Tay se colocou na sua frente e olhou feio para o cigarro aceso em sua boca. Com um estalo de dedos, ela fez o cigarro explodir.
-- Se não for aceitar por bem, que seja por mal, então – ela sentou-se a mesa, deixando-o paralisado.
-- Você é louca?
-- Eu disse que dentro do meu trailer, seu vício maldito não entra! Eu realmente não entendo o prazer das pessoas em aspirar essa fumaça nojenta de carbono e nicotina. Se quiser se matar com isso, é realmente problema seu, mas acontece que a fumaça que você traga passa por um filtro, enquanto que a que vem para o nosso ar não passou por filtro nenhum!
-- Você é inspetora da saúde pública ou da moralidade?
-- Minha casa, minhas regras – ela respondeu com um sorriso cínico a insinuação de Ban. – Quer café?
Ban sentou-se contrariado e serviu-se de pão e café. Há anos não tinham um café da manhã de verdade, apesar de simples, eles comeram muito bem.
Os Get Backers decidiram procurarem algum serviço de recuperação até a hora do almoço.
-- Quero falar com o senhor, Sr. Midou – Tay chamou-o, antes de saírem.
-- Pode falar – Ban disse, indiferente.
-- Não sei se Ginji conversou sobre vocês ajudarem nas tarefas domésticas...
-- É, ele falou sim.
-- Algum problema?
-- Não, nenhum. Eu realmente não esperava ficar aqui de graça. Daremos uma contribuição para as despesas quando recebermos também.
-- Obrigada. Mas o que eu tenho a lhe propor é o seguinte: de todo pagamento que receberem, reservarão 30% do total para ser guardado para emergências.
-- E os outros 70%?
-- Serão utilizados o necessário para pagar as contas e comprar comida. O que sobrar é de vocês.
-- Deixe-me entender: 30% de qualquer quantia que recebermos ficará com você.
-- Exatamente.
-- E que tipo de emergências serão supridas com essa quantia? – ele perguntou, irônico.
-- Kay e eu sempre guardamos uma parte do dinheiro pra tempos difíceis em que não conseguimos serviço. Não vivemos com fartura, mas não morreremos de fome.
-- Certo, e os 70% restantes também serão utilizados para esse tipo de necessidades, certo?
-- Exatamente.
-- E quer mais alguma coisa? Um contrato assinado com nosso sangue, talvez?
-- Está bem, qual a sua sugestão? Quando os Get Backers não conseguem serviço, o que fazem?
-- Vamos até o Espelunca e colocamos na nossa conta.
-- É sempre assim? Então, usam todo o dinheiro que recebem depois para quitar as dívidas?
-- Bem, não quitamos nossas dívidas ainda. Pelo menos não no Espelunca. Como a gente tá sempre lá, o Paul...
-- E em quanto está essa dívida do Espelunca?
-- Acho que, mais ou menos, uns 8000 yenes...
-- 8000? Vocês estão loucos? Não, não posso aceitar uma coisa dessas!
-- O que você quer dizer com não pode aceitar?
-- Eu proíbo vocês de aumentarem essa conta, só comeram lá de novo quando tiverem como pagar a conta e pagarem o que forem consumir lá!
-- Um aviso pra você, garota, não vai me proibir de fazer nada que eu queira, entendeu?
-- Esta na minha casa, Ban Midou, e pra seu governo, eu posso sim! Se quiser comer aqui existem duas maneiras: ou faz o que eu mando ou trabalha pra conseguir. Você escolhe. Eu espero que seja responsável o suficiente pra guardar uma quantia do que restar dos seus 70% para pagar essa conta!
-- Eu não aceito ordens de uma mulher!
-- Vê-se então porque estavam na situação que os encontramos, tentava pensar por sua própria cabeça?
-- Diz que nos encontrou como dois cães que recolheu? É melhor pensar com quem está falando!
-- De agora em diante assim será! Se quiser sobreviver, vai aprender comigo a lidar com dinheiro.
-- Acontece que Ginji e eu não temos sorte com dinheiro!
-- Não existe esse negócio de sorte com dinheiro! Mas se é no que acreditam, serei sua sorte.
-- Não vai me controlar como controla sua irmã.
-- Aparentemente já escolheu como será sua estadia aqui. Se for guerra que você quer, é o que terá.
-- Pode escolher as armas, Tay Kamurato, e cavar a sua cova! – Ban se virou e saiu.
-- Muito se engana se pensa que eu serei uma adversária fácil, Ban Midou! Não imagina com quem está medindo forças e vai perder!

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