01: Saint Seiya - Guerra Galáctica

1 01: Guerras Galácticas - Dia 01


Notas iniciais
Neste capítulo daremos início às Guerras Galácticas. Athena previu a vinda da Guerra e da Morte e, através da Fundação Kido, trouxe de volta as Guerras Galácticas, desta vez reunindo todas as Divindades ativas em sua era: Poseidon, Deus dos Mares, encarnado em Julian Solo, Hilda de Polaris da longínqua e gélida Asgard, bem como o próprio Deus da Guerra, Ares, encarnado em um mortal ainda desconhecido.

Parte 01

Lute, Seiya! O Pégasus tem suas asas arrancadas!


O sol raiava no santuário e os pássaros gorjeavam para saudar um novo dia. Os preparativos para o evento que se seguiria naqueles próximos quatro dias já vinham sendo realizados já havia um ano. Três arenas haviam sido preparadas, construídas pela Fundação Kido, sendo que muito maiores que as arenas convencionais. Tudo foi providenciado, desde as acomodações dos lutadores, até o serviço de recepção dos convidados. Enfim, tudo tinha que ser e estar perfeito.

Naquele primeiro dia, os aspirantes às armaduras (bronze e prata pela manhã, ouro à tarde) lutariam pelo direito de usá-las como legítimos Cavaleiros de Athena. Seiya estava inquieto, andando de um lado para outro, dentro do quarto que fora reservado para ele nos alojamentos montados para os competidores. Já havia feito seis séries de cinqüenta flexões de braço para ver se mantinha a mente ocupada, mas sem efeito.

“Não está adiantando. Não consigo manter a calma, estou muito ansioso! O dia chegou e me sinto como na primeira vez em que disputei a Armadura de Pégasus!” Pensou ele. “Eu já estive em tantas batalhas muito mais perigosas que esta, mas nunca senti tanto medo como sinto agora...”

Em um salão reservado para ele, Ares ponderava. “Conhece teus inimigos” é o que aconselha Sun Tzu. Despojado de sua armadura, Ares saboreava um cálice de vinho, acomodado confortavelmente em uma poltrona medalhão, a qual estava virada em direção a uma janela oposta à porta de entrada e de onde se podia visualizar as arenas. Perdido em suas considerações e pensamentos, o Deus da Guerra não percebeu quando Enyo adentrou o aposento. Furtivamente, a jovem guerreira foi se aproximando da poltrona onde estava Ares. Difícil dizer se o suave aroma de sálvia que emanava da garota ou se a súbita corrente de ar causada pelo abrir da porta do salão foi o que chamou atenção do deus para a pessoa que se aproximava sorrateira.


— Se achares que o vinho entorpeceu meus sentidos a ponto de não perceber tua aproximação, Enyo, então és mais ingênua do que pensei. Querias mesmo me surpreender? – Falou Ares, sem se levantar.

— Não, meu senhor! Longe de mim perpretar tal ato traiçoeiro! Sei bem que és um guerreiro cuja atenção nunca esmorece, mesmo em momentos de ponderação e descontração. Dentro em breve iniciar-se-ão as disputas dos aspirantes. Considerei que seria interessante assisti-las, a fim de ver os novos guerreiros que irão figurar na linha de frente de Athena nos tempos vindouros. Não seria interessante ter surpresas desagradáveis, não concorda? – Falou Enyo, afagando os ombros do deus por sobre o encosto da poltrona.

— Huuum... Seria deveras interessante. Os jovens aspirantes a guerreiros sempre me divertem com suas demonstrações. É por demais divertido ver suas lutas repletas de empenho desmedido e inexperiência, em vãs tentativas de impressionar seus mestres e seus oponentes. Cômico até, eu diria! – Ares esboça um sorriso com ar de mofa e sorve um pouco mais de vinho.

— É sábio lembrar, milorde, que o guerreiro inconseqüente de hoje poderá vir a ser o general sábio e vitorioso de amanhã! – Respondeu, Enyo, intensificando a massagem, quase como sendo uma leve reprimenda.

— Não abusa de meu bom humor, Enyo. Em outra ocasião eu a castigaria severamente, mas como estamos somente nós aqui e tuas mãos também são hábeis não só nas batalhas como também em afagos, eu relevarei tal insolência! – Respondeu Ares, olhando de soslaio. – E também, estou por demais curioso em saber quem é esse jovem chamado Seiya de que tanto falam. Soube que irá disputar a Armadura de Pégasus pela segunda vez. O que será que o fez perder o direito a sua Veste Sagrada, minha Enyo?

— Não faço idéia, meu senhor, mas posso levantar essa informação, se for de vosso agrado. Assim está mais agradável, milorde? – Falou Enyo, indo massagear os pés de Ares.

— Assim está perfeito! Sim, consiga essa informação à boca pequena, a fim de que não levante atenções inconvenientes, principalmente de Athena. – Completou Ares, acomodando-se mais na poltrona. – Levante o que puder dos outros defensores de Athena, também. Conhecer o inimigo é uma prerrogativa básica para se alcançar a vitória absoluta!

— Farei isso com prazer! – Enyo esboçou um sorriso malicioso e seus olhos faiscaram. – Servir à Guerra é meu propósito de existir, grande Ares!

— Bem sei disso, minha cara. Por ora, vamos à arena onde ocorrerá a contenda. Desejo ver o que esse tal Seiya e os demais aspirantes têm a oferecer. – Falou Ares, levantando-se da poltrona e segurando a ponta do queixo de Enyo, fazendo-a tomar um pouco do vinho.

— E quanto ao vosso plano anterior, meu senhor? Levá-lo-á a cabo, como era seu intento a priore? – Perguntou Enyo, enxugando com as costas da mão um pouco de vinho que escorria do canto de sua boca.

— Certamente, minha cara. O sucesso de meu plano estará garantido se tu trouxeres as informações que espero que tragas, pois assim saberei que as peças estão se movendo no tabuleiro segundo minha vontade. – Ares dá o último gole na taça de vinho, sorvendo o que restava nela. – Agora parte sem demora! Quero saber o quanto eles já sabem a respeito do que vai ocorrer.


Atendendo ao comando do deus, Enyo deixou o recinto e partiu para as ruas do Santuário. Ares seguiu até a sacada, o vento matutino fazendo seus longos cabelos esvoaçarem revoltos, deu uma boa olhada na paisagem que se descortinava ante seus olhos e, quase sem perceber, esboçou um leve sorriso. “Ah, Athena, sua tolinha! Tu nem saberás o que te atingiu até que seja deveras tarde para que possas sequer esboçar uma reação! E a Guerra Santa ocorrerá segundo os meus ditames, não o teu ou o de Hades, aquele bufão arrogante! E marcharei por cima de vossos corpos quando tudo estiver consumado e o Grande Zeus verá que sou o mais digno de sentar ao lado de vosso glorioso trono!”, pensou Ares consigo mesmo.


Caminhando pela rua que seguia por entre a pequena vila olímpica montada dentro do Santuário, seguindo em direção à arena onde iria travar sua decisiva batalha e vestindo seu velho e surrado uniforme de aspirante, Seiya avançava absorto em seus próprios pensamentos. O desjejum leve que havia tido no refeitório da pousada que fazia parte da vila olímpica havia ocupado sua mente por algum tempo, mas isso só funcionou enquanto duraram as frutas e os cereais com proteínas que faziam parte do cardápio.

Em alto-falantes instalados nos postes de iluminação, uma música tocava pra animar e despertar os sonolentos. Entretanto, esta música em particular não estava ajudando em nada o já muito apreensivo Seiya: The Final Countdown, do Europe. “Contagem regressiva? Ótimo, já não preciso de mais nada que me lembre que a hora está chegando! Só me falta tocar Eye of The Tiger do Survivor pra completar a cena!”, pensou Seiya. E, como que atendendo ao seu pedido...

Seiya riu e continuou em seu caminho. Meio que brincando com a situação, ele assumiu a postura de um pugilista e passou a andar boxeando com o ar. As pessoas que passavam e viam aquela cena não conseguiam conter-se e esboçavam um sorriso. Mas Seiya não se importava com aquilo e seguia seu caminho. Finalmente chegou ao portão de entrada da vila olímpica, e lá se deparou com uma pessoa que não esperava ver tão cedo.


– Você não está protegendo seu queixo quando desfere o cruzado, Seiya! Não foi dessa maneira que lhe ensinei! Estou admirada como Helena não corrigiu isso em você! Francamente! – Ralhou Marin, Amazona de Prata de Águia.

– Marin! MARIN! Que bom lhe ver! – Seiya acorreu à Amazona e a abraçou como um filho abraçaria a sua mãe após longos anos de separação. As lágrimas não tardaram a aparecer.

– Não podia deixar de vê-lo antes de uma das lutas mais importantes de sua vida, Seiya. – Começou Marin, afagando os cabelos do ainda choroso Seiya. – Seus oponentes serão ferrenhos e determinados. E dentre eles está um em especial: Malek, discípulo de Hipólita, a Rainha das Amazonas.

– Malek? Nunca ouvir falar dele, deve ser novo no Santuário. – Concluiu Seiya, enxugando os olhos embotados com o dorso da mão esquerda. — O que ele faz de tão terrível?

– Malek foi treinado em segredo por Hipólita, longe do Santuário, pra aspirar à Armadura de Ouro de Gêmeos e substituir Saga, portanto não o subestime. Entretanto, Kannon chegou primeiro e fez isso antes dele. Visto que Ying ocupa a outra Casa de Gêmeos, Hipólita não teve outra alternativa a não ser fazer Malek competir pela Armadura de Pégasus e substituir você, Seiya! Ao meu ver, Hipólita almeja algo mais que isso, ela quer ir mais longe... – Marin acompanhava Seiya durante o percurso que faltava até chegar a uma das arenas.

– Ir mais longe? Como assim? – Perguntou Seiya, intrigado – Não compreendo onde quer chegar, Marin! Você está suspeitando da sua própria rainha?

– Sei que posso ser banida ou mesmo executada por traição pelo que vou dizer agora, mas acho que Hipólita almeja por Malek em uma posição de influência dentro dos corredores do Santuário, para que ela continue a ter olhos e ouvidos atentos a tudo o que acontece por aqui. – Respondeu Marin.

– Olhos e ouvidos? – Intrigou-se Seiya. – Como um espião?

– Mais que isso! Pense, Seiya: Hipólita controla Malek, como tenta controlar Ying, que é sua própria filha, e certamente tem influência sobre Helena. Agora considere o fato se Malek conseguisse se sagrar Cavaleiro de Ouro de Gêmeos, ele seria um Cavaleiro de Ouro obediente a Hipólita e NÃO À ATHENA! – Marin segurou Seiya pelos ombros, fazendo parar de andar. – E se ele conseguir vencer a todos nessa disputa e conquistar a Armadura de Pégasus, um dos Cavaleiros mais leais a Athena que é você estará dando lugar a um dos Cavaleiros mais leais a Hipólita: Malek! E não apenas isso, mesmo conquistando a sua Armadura, Malek ainda poderá aspirar a uma Armadura de nível maior, como uma Armadura de Ouro! A Tradição permite isso, lembra-se? E ele certamente tentará se aproximar de Saori Kido, conquistando sua confiança! Lembre-se, Seiya, Saga chegou a ser Grande Mestre do Santuário assassinando o Mestre Anterior a ele. E ele era manipulado por Kannon! O que será do Santuário se Hipólita conseguir manipular a própria Athena através de Malek ou de Helena?

– Pelo Escudo de Athena! – Exclamou Seiya, perplexo. – Marin, está mesmo me dizendo que Hipólita está conspirando contra Athena? É uma acusação muitíssimo grave! Trata-se da sua própria líder!

– Eu estava aguardando na ante-sala do Salão de Meditação de Hipólita para ter uma audiência com ela para pedir-lhe uns conselhos, e acabei escutando uma conversa dela com Malek, na qual Hipólita explicava-lhe a razão dele ter sido treinado por tantos anos! E é isso que estou lhe contando agora, Seiya! – Marin já estava sacudindo Seiya, sem dar conta disso, dada a sua exasperação. – Eu não agüentaria ver minha casta ser acusada de atos tão torpes quanto conspiração e traição!


Neste momento, os alto-falantes começaram a tocar “Breaking All The Rules” do cantor Peter Frampton, como que para coroar as palavras de Marin. Súbito, um locutor anuncia o início das competições, convocando os aspirantes a se apresentarem na Arena nº 2. Marin abraça Seiya carinhosamente, que retribui o abraço.

Nesse momento, perto dali, olhos vigilantes estavam observando a toda aquela cena. Misturada à multidão, Helena havia seguido a dupla desde que deixaram a vila olímpica. “Então você veio se encontrar com Seiya, Marin? Por que será que saiu correndo da nossa vila daquela maneira, depois de se aconselhar com Hipólita? O que será que falaram de tão terrível? Gostaria de poder ouvir o que conversam aqueles dois! Maldita seja essa música!”, pensou Helena.

Já às portas da arena, Marin abraçou Seiya novamente e lhe desejou sorte, dizendo-lhe: “Nós veremos dentro em breve, Seiya. Confio em você! Agora tenho que ir!”. Sem entender muito bem o que Marin estava querendo dizer, Seiya despediu-se dela e entrou nas dependências da arena.

Perto dali, sentada em um banco de pedra próximo a arena, Enyo a tudo observava. De fato, as peças se moviam no tabuleiro da maneira como foi predito por Ares.

“A semente da discórdia já está projetando seus primeiros ramos em direção ao firmamento, brotando inexorável da terra fértil da intriga. Meu senhor ficará por demais satisfeito em saber da boa nova que trarei! Até mesmo o Cavalo que encurralará a Rainha e abrirá o caminho para que o meu Rei desfira seu xeque-mate se apresentou: Malek, o discípulo de Hipólita. Que tu lutes a Boa Luta e esmagues Seiya de Pégasus juntamente com que lhe resta de orgulho próprio sob teu calcanhar!”

De fato, lá estava Malek adentrando os portões da arena. Era um jovem alto, atlético, com cabelos brancos e olhos azuis, vestindo um traje de aspirante de couro preto e com uma dragona no ombro direito. Ele caminhava altivo, atravessando o portão. Enyo levantou-se e seguiu até o jovem, abordando-o.


– Sabes o que tens que fazer, pois não, Malek? – Perguntou Enyo, parando-o na entrada.

– O que fazes aqui, mulher? Se fores vista falando comigo, poderão suspeitar! – Redargüiu Malek, olhando em volta. – Sim, por certo sei o que me é cabido fazer! E o farei com prazer, não por esta armadura, mas sim por algo mais valioso que ela!

– Tua ambição me assusta e me comove ao mesmo tempo, meu jovem. Estou certa que a realizarás com louvor. Agora vai e que esmagues teus inimigos sem mostrar-lhe compaixão. – Enyo afagou os alvos cabelos do jovem, tirando-os da frente do rosto. – Marin de Águia estava conversando com Seiya há poucos minutos. Acho que ela sabe de alguma coisa, dada o seu estado de espírito atormentado. Certifica-te de que ela não fale mais do que lhe for permitido, sim? Ah, uma última coisa: Hipólita estará na tribuna, assistindo tua luta. Mostre-lhe um espetáculo digno dela, sim?

– Certamente, será uma coisa que irá lembrar enquanto viver! Oferecê-la-ei a carcaça sem vida de Seiya, como uma mostra de minha devoção! – Falou Malek, cerrando os punhos e com um brilho homicida nos olhos. – E quanto à Amazona de Águia, assegurar-me-ei de que ela não fale... nunca mais! À Batalha!

– Tu me cativas sobremaneira falando desta forma! À Batalha! – Respondeu Enyo, efusiva.

E adentrou a Arena.


Parte 02

Uma hora antes.


Hyoga dormia um sono conturbado. A noite foi povoada por pesadelos que o assombravam. Neles, Hyoga via sua amada Ying sendo jogada em um lugar escuro e frio, por sombras que ele não reconhecia, longe de tudo e de todos, e longe dele, principalmente. Finalmente, o jovem Cavaleiro de cisne acorda sobressaltado, clamando pelo nome da mulher que ama.

Enxugando o suor que porejava de sua testa e afastando o cabelo dos olhos, ainda ofegante, Hyoga tenta se levantar da cama, mas as lembranças daquelas cenas ainda estavam vivas em sua mente, fazendo com que se deite outra vez. Finalmente se levantou e foi até a janela, descortinando-a.

– Finalmente acordou, hein? – Falou Shiryu, que dormia na cama ao lado da de Hyoga. – Teve outro pesadelo? Sente-se bem?

– Sim, Shiryu, eu estou bem. Esse pesadelo não foi como o que tivemos na Mansão Kido. Sonhei com Ying e acho que ela está com problemas.

– Seja o que for, sei que Ying poderá se sair bem. Relaxe! – Respondeu Shiryu, sentando-se na cama com as pernas para fora. – Ela já passou por muito mais coisas que nós e se sobressaiu! Confie nela!

– Eu confio. Mas desta vez é diferente. Não estou com tanta segurança na situação como antes. Acho que está enfrentando sérios problemas, grandes demais até mesmo pra ela enfrentar sozinha! Gostaria de ajudá-la! – Falou Hyoga abrindo a janela e deixando os raios do sol da manhã inundarem o quarto.

– Está temeroso por ela de verdade, não é mesmo? – Falou Shiryu, indo até o banheiro. – Se Athena confia nas capacidades dela, então acho que você deveria também confiar! Ela retornará sã e salva e com muitas histórias pra contar, você vai ver, meu amigo!

– Sei disso, Shiryu, eu sei muito bem! – Hyoga esmurrou o parapeito. – Eu temo não só pela segurança dela, mas por outras coisas também! Pela Aurora Boreal, eles nem podem se defender!

– Do que está falando? O que é que não pode se defender? – Perguntou Shiryu, ainda escovando os dentes. – Hyoga, não me diga que Ying está...

– É, você iria saber mais cedo ou mais tarde. – Hyoga baixou a cabeça, desalentado.

– Ei, Hyoga, anime-se! – Shiryu assanhou s cabelos de Hyoga. – Isso não é uma coisa pra se entristecer! Você deveria estar feliz! Ying terá um motivo a mais para retornar: ela vai ser mãe! E uma mãe devotada, como eu sei que será, não desanimará tão facilmente!

– Eu gostaria de ter esse seu otimismo, sabia? – Hyoga esboça um sorriso para o amigo.- Consegue ver o lado bom de tudo! Obrigado, meu amigo!

– Ora, pra que servem os amigos? – Shiryu abraça calorosamente a Hyoga. – Agora se apresse, ou perderemos o desjejum e chegaremos atrasados para a luta do Seiya!

Ambos fizeram a higiene matinal e se dirigiram para o refeitório, que estava tomado pelos demais aspirantes. Após passarem algum tempo procurando uma mesa que comportasse a todos eles, tomando o café da manhã, os quatro estranharam a ausência de Seiya, visto que ele nunca perdia uma refeição. Hyoga indagou Ikki e Shun a respeito da ausência do companheiro. Este último revelou-lhes que viu Seiya sair bem cedo do quarto, visto que ele, Ikki e o próprio Shun estavam dividindo o mesmo aposento. Ao que parece, Seiya não conseguiu dormir direito, aparentando estar muito ansioso.


– Ele deve ter ido tomar um pouco de ar pra se acalmar. – Falou Hyoga.

– Não sei, não, Hyoga. Seiya trocou de roupa e saiu vestindo a seu velho traje de aspirante. Acho que ele já foi para a arena! – Respondeu Shun, servindo-se de mais um pouco de suco.

– Sem tomar café? – Perguntou Ikki, surpreso. – Ou ele estava mesmo muito nervoso por causa da luta, ou não estamos falando do mesmo Seiya!

– Realmente! – Falou Shiryu, entre risos. – Espero que isso não afete seu desempenho! Todos nós sabemos o que isso significa para ele! Vamos, amigos, já está quase na hora!

O quarteto se levantou, indo até uma pia próxima pra lavarem as mãos. Perto dali, em uma mesa no canto do refeitório, Malek observava, calmamente tomando seu desjejum matinal. “Então ele está nervoso e ansioso pela luta? Hah! Veremos do que é feito! Veremos se é tudo o que dizem, o ex-Cavaleiro de Pégasus!”, pensou ele, oferecendo com um sorriso um pouco de suco ao aspirante sentado a sua frente, que aceitou alegremente a gentileza.


Parte 03

Arena nº 2, oito horas da manhã.


A cerimônia de abertura foi presidida por Athena em pessoa. Contou com a presença dos cinco Cavaleiros de Ouro residentes no Santuário e das quatro divindades que prestigiam esta edição das Guerras Galácticas. Quarenta e oito aspirantes se inscreveram para disputar as Armaduras de Bronze à disposição, doze deles só para a Armadura de Bronze de Pégasus, incluindo Seiya e Malek. Seiya se surpreendeu com a quantidade de armaduras de bronze ainda não ocupadas.

Estão vagas, além da Armadura de Pégasus, as seguintes Armaduras de Bronze: Hidra Macho (antes ocupada por Dócrates), Forno (antes pertencente ao Cavaleiro do Fogo), Grou, Ave do Paraíso e Erídano para Cavaleiros, Triângulo, Peixe Voador, Delfinus (Golfinho) e Serpente para Amazonas. E cada Armadura terá um defensor, o qual lutará com o finalista das lutas entre os aspirantes. Se o finalista derrotar o defensor, terá conseguido conquistar a armadura.

As inscrições e definições das chaves para a disputa das armaduras já haviam sido feitas no dia anterior, separando-se cada concorrente por armadura a ser disputada. Pensando na quantidade de possíveis lutadores, a possibilidade de utilização das três arenas foi cogitada, e assim sucedeu. Todas as três arenas foram ocupadas.

Então, finalmente, os combates tiveram início. O nível dos aspirantes está muito acima do esperado, demonstrando que treinaram muito para esta ocasião. Mas, como era de se esperar, não representaram um desafio muito grande para Seiya, dada a sua experiência como Cavaleiro e o nível em que se encontra seu Cosmo, sendo derrotados rapidamente com um, no máximo dois golpes. Apenas um deles fez com que Seiya utilizasse o Meteoro de Pégasus, ainda assim na menor intensidade em que pôde desferi-lo, para que não matasse o pobre e infeliz rapaz.

Malek a tudo observava. Tratou de eliminar seus oponentes o mais rápido possível, sem dó nem piedade, massacrando-os cruelmente. Nem mesmo precisou, diferente de Seiya, utilizar qualquer de suas técnicas especiais. Seu objetivo era poder sentar e assistir com atenção às lutas de Seiya, a fim de avaliar sua técnica, estudar seus movimentos, enfim, de ver como o ex-Cavaleiro luta.

No momento em que presenciou o Meteoro de Pégasus ser executado, Malek exultou! Registrou cada movimento, desde como Seiya iniciava até como desfechava o golpe. “Então este é o famoso Meteoro de Pégasus? Ridículo! Sofrível até! Como é que este idiota conseguiu derrotar tantos oponentes com uma técnica primária dessas? Só de vê-la agora consegui identificar seis brechas e dois, não, três contra-ataques possíveis contra ela! Hah! Isto vai ser mais fácil do que pensei! Terei apenas que me preocupar com a grande velocidade de seu ataque, só isso!”, pensou Malek.

Ele levantou o olhar para a Tribuna de Honra e lá estava Hipólita, trajando sua reluzente Armadura de Ouro de Leão. Trocaram um olhar repleto de cumplicidade, e como compreendendo os pensamentos de seu discípulo, respondeu com um leve meneio de cabeça.

Finalmente, chegou o grande momento. Seiya e Malek, enfim, vão se enfrentar. O mestre de cerimônias anuncia ambos os contendores e estes sobem à arena. Seiya só teve tempo de tomar um gole d’água, estava um pouco cansado. Já Malek estava com todas a suas forças restabelecidas, devido ao intervalo que teve por causa da luta de Seiya, minutos atrás.

– Tu estás cansado, Seiya? – Perguntou Malek, com um sorriso irônico nos lábios. – Se desejares, eu posso te dar uns minutos pra que possas recuperar teu fôlego!

– Não preciso disso! Ainda tenho gás suficiente pra tirar esse sorrisinho irônico da sua boca! – Respondeu Seiya, já irritado com toda aquela confiança demonstrada por seu oponente.

– Ah, se assim desejas, então chegou o momento de separar os homens das crianças por aqui! – Falou Malek, pondo-se na postura do gato. – Venha, Seiya! Mostra-me do que és capaz! À batalha!

– Vamos lá! – Retrucou Seiya.


Seiya arremeteu contra Malek em desabalada carreira, punhos cerrados e nos lábios, um esgar de fúria. De onde estava, Malek não saiu, permanecendo em sua postura “Neko Ashi Dashi”, a Postura dos Pés do Gato, como é conhecida (consiste em por a maior parte do peso do corpo no pé que se encontra mais atrás e, com o pé que está mais à frente, tocar levemente o chão, permitindo-se assim, um rápido contra-ataque. Muito utilizada por praticantes dos estilos de Karate Isshinryu e Goju Ryu, como também nos estilos de Kung Fu Pao Chuan e Hsing-Yi Chuan.).

“Ele vai ficar lá parado nessa posição engraçada, esperando eu atacá-lo? Mas que tipo de estilo de luta é esse o dele? Não importa! Ninguém tira um sarro da minha cara sem levar o troco!”, pensou Seiya. Seiya desferiu o primeiro soco, que partiu qual um foguete em direção o rosto de Malek. De repente, ouviu-se um forte impacto, seguido de um estalido alto, semelhante ao som de gravetos sendo quebrados.

Tudo aconteceu muito depressa, mais rápido que os olhos destreinados da maior parte da platéia poderiam acompanhar. Platéia essa que se encontrava muda nesse momento ante a cena que presenciava. Seiya estava de joelhos a alguns metros após Malek, com a mão esquerda sobre seu flanco direito, respirando com muita dificuldade e tossindo muito. A cada vez que tossia, pintava o chão sob si com o próprio sangue. Malek continuava no mesmo lugar, sendo que agora estava com a perna direita erguida e levemente retraída junto ao corpo e os braços erguidos em guarda, na linha do queixo.


– Alguém pode me dizer o que aconteceu? Foi tão rápido que nem consegui ver! – Perguntou um dos espectadores, ainda aturdido.

– Ah! Cale essa boca e preste mais atenção da próxima vez! – Retrucou outro, um pouco mais adiante.

– Levanta, Seiya! A luta ainda não acabou! – Gritou Shun, levantando-se de onde estava na platéia e sendo forçado a sentar-se novamente por Ikki.

– Não adianta, Shun, Seiya não irá ouvi-lo gritar! – Falou Ikki. – Ele deve ter quebrado umas duas ou três costelas com aquele chute que levou!

– Chute? Você conseguiu ver o que aconteceu, Ikki? – Perguntou Hyoga.

– Sim, consegui. – Respondeu Ikki. – O idiota está subestimando o seu oponente, achando que é apenas mais um aspirante que quer a Armadura de Pégasus. Mas eu vi a forma como ele observava as lutas preliminares de Seiya! Ele não só observava, ele estava analisando o estilo de luta de Seiya! Descobriu brechas que podem ser exploradas em sua guarda, falhas em seus golpes que podem ser contra-atacadas. E, quando eu percebi que ele foi capaz de enxergar o Meteoro de Pégasus, dei-me conta de outra coisa...

– O que está dizendo, Ikki? – Exclamou Shiryu. – Não está sugerindo que ele...

– Isso mesmo, Dragão! Este com quem Seiya está lutando não é um principiante qualquer! Ele domina o Sétimo Sentido! E tenho certeza que já deduziu uma forma de se esquivar ou até mesmo contra-atacar o Meteoro de Pégasus! Se não compreender isso tudo, o que eu duvido muito com a mente curta que ele tem, Seiya irá, fatalmente, perder a luta e a Armadura, senão a vida!

– Por Athena! Quem é esse rapaz? E como pode ser tão poderoso se ainda é um aspirante! – Perguntou Hyoga cerrando os punhos.

– O Mestre de Cerimônias falou que ele é discípulo de Hipólita de Leão, Rainha das Amazonas. Talvez isso explique tanto poder. – Respondeu Shiryu, limpando a lente de seus óculos de grau com um lenço de flanela. – A verdade é que aquele guerreiro nem precisou se esquivar do soco do Seiya. Assim que eu o vi se por naquela postura, percebi a estirpe elevada a que pertencia. Poucos são os que conhecem a Neko Ashi Dashi e menos ainda sabem usa-la com maestria. Você também conhece essa postura, não, Ikki?

– Certamente! E ele sequer aparou o soco de Seiya. Apenas atacou o flanco direito dele através da brecha aberta em sua guarda. O resultado vocês estão vendo...

– E Seiya terá sorte se não estiver com um pulmão perfurado dada quantidade de sangue que está cuspindo e dificuldade de respirar que demonstra... – Falou Hyoga, soturno.

– Vejam, Seiya está se levantando! – Exclamou Shun, eufórico. – Vamos lá, Seiya! Levanta! Eu sei que você pode! Levanta!

De fato, Seiya estava se erguendo, mas não sem muita dificuldade. O seu flanco dói de forma atroz, a respiração está pesada e difícil, intercalada com tosses carregadas de sangue. Com muito esforço, Seiya finalmente se põe de pé. Seu sangue ferve dada a frustração que está sentindo. Aquele não é um simples aspirante, muito menos um mero aprendiz. Ë um guerreiro experimentado, que está apenas fingindo ser um iniciante para enganar seus oponentes e fazê-los se descuidarem e abaixar a guardar.

Seiya se amaldiçoa por ter sido iludido desta forma e, agora, amarga as conseqüências de sua ingenuidade. Em uma rápida olhada para a platéia, Seiya cruza com o olhar frio e desdenhoso de Hipólita, como se ela soubesse o que se passa em sua mente. Neste momento, o vento traz aos ouvidos dele a música que estava tocando agora nos alto-falantes: “Rock You Like a Hurricane” tocada pelo grupo Scorpions.

Malek se põe novamente em guarda. Ao ver Seiya naquele estado, o aspirante à Armadura de Pégasus esboça um sorriso de sarcasmo. No entanto, um leve gosto de sangue lhe vem à boca e um filete lhe desce pelo canto dos lábios. “Hein? Mas o que vem a ser isso? Pudera eu ter sido vítima do ataque de Seiya, mesmo a primazia da iniciativa do embate tendo sido minha?”, pensou Malek, surpreso.

“Sim, agora percebo tudo. Mesmo tendo recebido todo o impacto do meu chute e passado direto por mim, Seiya ainda conseguiu acertar-me a face na altura da boca usando seu cotovelo, cortando-me o lábio”, concluiu Malek. Ele passa as costas da mão pelo lábio cortado, limpando o sangue que escorria, para ir lambê-lo em seguida.

– Pelo jeito... coff, coff... Eu não fui único a derramar sangue por aqui. – Falou Seiya, ainda se recuperando.

– Sugiro que tu te concentres mais na contenda, ao invés de soltares chistes inoportunos. – Respondeu Malek, ácido.

– O que há, meu chapa? Não está acostumado a sentir dor e se machucar? Ah, já sei! Você é daqueles tipos que se gabam de nunca terem sido acertados em uma luta por seus oponentes, não é? Acho que já vi esse filme antes (lembra-se de Misty de Lagarto?), e o final dele é sempre o mesmo: A DERROTA! – Falou Seiya, estirando o braço e apontando o polegar pra baixo. Seiya começa a elevar o cosmo, fazendo com que o ar a sua volta se desloque mais e mais em espirais ascendentes.

– Bravatas não irão te salvar, Seiya, pois antes mesmo desta peleja ter início, tu estavas fadado à derrota inexorável. Se for o poder do Cosmo que queres demonstrar, então presta bastante atenção, pois irás ver o que é o verdadeiro significado da expressão “dominar o Cosmo”! – Falou Malek, cruzando os braços em “X” em frente ao peito e fechando os olhos.

No início, era uma leve brisa. Então a brisa tomou dimensões de um torvelinho e logo já era um pé de vento que soprava tudo o que não estivesse bem preso ao chão. Relâmpagos azulados corriam ao longo do corpo do guerreiro. O próprio ar parecia crepitar com faíscas e fagulhas de eletricidade. Então, o jovem rapaz abriu os olhos e um fulgor quase cegante emanou deles, seu corpo brilhava intensamente tal uma tocha na escuridão. Como que para coroar aquela demonstração de poder, um relâmpago caiu dos céus sobre Malek e uma coluna de energia bruta se elevou de seu corpo às alturas.

A energia desprendida era tamanha que o chão sob seus pés começou a ferver e borbulhar. Nesse momento, Seiya percebeu a real dimensão de seus problemas: aquele homem a sua frente rivaliza em poder com próprios Cavaleiros de Ouro do Santuário, não sendo ele mesmo sequer um cavaleiro ainda! E o pior: ele é seu oponente na disputa pela Armadura de Bronze que um dia tivera sido sua! O cosmo de Malek elevava-se cada vez mais, não dando menções que houvesse limites para ele. A platéia estava estupefata. Mais e mais pessoas se acotovelavam para ver quem era aquele rapaz que estava lutando contra Seiya de Pégasus, numa luta que era para ser rápida e fácil para o Cavaleiro que, um dia, enfrentou e venceu os grandes Cavaleiros de Ouro.

Percebendo que Malek não estava ali pra brincadeiras, Seiya iniciou os preparativos para disparar seu Meteoro de Pégasus. Ao ver isso, Malek apenas sorriu. Entretanto, ele assumiu uma base diferente daquela usada no início da luta, mudando a sua postura. Desta vez, Malek está expondo mais seu lado esquerdo, mantendo se braço esquerdo à frente na altura do coração e dobrado em um ângulo reto e perpendicular ao peito, como e se estivesse empunhando um escudo; ao passo que seu braço direto está mantido flexionado junto a corpo na altura da cintura. As pernas se mantêm levemente flexionadas, como se preparadas pra agüentar um grande impacto. “Vamos, Seiya, apressa-te! Eu sei que irás disparar teus Meteoros contra mim! Verás que estás apenas abreviando tua derrota!”, pensou Malek, confiante.

Ao que parece, Seiya vê que Malek não pretende se esquivar de seu ataque. Então reuniu todas as suas forças neste ataque, a fim de que a luta seja decidida de uma vez por todas. O ar irrompe em energia cósmica à medida que Seiya concentra todo o seu cosmo.

– Prepare-se, Malek! – Iniciou Seiya. – Este vai ser um dos meus ataques mais fortes! METEORO DE PÉGASUS!

Os Meteoros de Seiya partiram desenfreados na direção de Malek, prontos a castigar seu corpo. Entretanto, o rapaz de cabelos brancos não se moveu um milímetro sequer de onde estava, resoluto em enfrentar aquele titânico ataque que se precipitava inexorável em sua direção.

TOLO! – Bradou Malek, com um brilho quase insano no olhar. – Asseguraste tua própria derrota! Fizeste exatamente o que eu queria e agora amargarás tua derrocada final! MAXIMILLION – PEQUENO IMPACTO!


Malek partiu em rota direta de colisão com o ataque de Seiya, fazendo-o acreditar que se tratava de um louco alucinado correndo direto pra própria destruição. Mas o que se seguiu estava longe de ser o ato desvairado de um louco: os meteoros luminosos se chocaram contra o que parecia ser um grande escudo erguido à frente de Malek segurado pelo seu braço esquerdo, ricocheteando para todos os lados, sem que nenhum deles parecesse o acertar de fato. Concomitante a isso, Malek desfere o seu ataque com o braço direito que estava preparado, lançando uma coluna de energia que segue devastando tudo o que há em seu caminho, inclusive o infeliz Seiya. O grito de agonia liberado pelo ex-Cavaleiro de Pégasus poderia ser ouvido no outro extremo do Santuário...


– Seiya! – Gritou Shun, desesperado. – Não pode ser! Ele foi atacado através do Meteoro de Pégasus! Como isso é possível?

– O ataque de Malek seguiu por dentro do de Seiya, atingindo-o justamente quando ele é obrigado a abrir sua guarda para poder atacar com os Meteoros. – Falou Shiryu, retirando seus óculos, ainda sem acreditar totalmente no que acabou de testemunhar.

– Já Malek não tem essa desvantagem, ao que parece! – Completou Hyoga – Vejam, ele parece estar ileso! Pela Aurora Boreal, que Ken incrível é esse? E quem, afinal, é esse rapaz?

– Realmente é uma Ken formidável! Uma técnica mista de ataque e defesa capaz de vazar e contra-atacar o Ken do oponente! Muito bom mesmo, digno de um grande estrategista! Lembra-me muito a técnica Grande Chifre do Aldebaran de Touro! – Concluiu Ikki, cruzando os braços e voltando a se sentar novamente, resoluto. – Se ainda estiver vivo, Seiya está em maus lençóis desta vez!

– Não diga isso, Ikki! – Protestou Shun, lançando um olhar de desaprovação ao irmão mais velho. – Seiya já enfrentou a morte antes e venceu, lembra? Olhe bem e verá que esse tal Malek não saiu assim tão ileso dessa disputa de técnicas!


De fato, Malek estava ferido. Alguns Meteoros haviam penetrado a defesa do Maximillion – Pequeno Impacto, atingindo-o no abdômen, onde havia alguns hematomas. A dor se espalhava implacável pelo seu tórax e o gosto de sangue já se avolumava em sua boca. Mas isso não foi suficiente para fazê-lo parar de avançar até o corpo de Seiya que estava caído em meio a uma poça de sangue dentro da vala aberta pelo ataque devastador do qual foi vítima.

“Maldito sejas tu, Seiya! Como foi possível que tenhas me acertado mesmo com a perfeição magistral de minha estratégia e mesmo eu sabendo de antemão tuas intenções de ataque? Que força incomum é esta que tu possuis? Enyo me assegurou que tu eras apenas uma sombra do guerreiro que foste outrora e que não representarias desafio algum para mim! Não, não posso deixar-te interpor-se em meu caminho para a glória que me é destinada! Quem se opuser, terá o mesmo destino que tu estás tendo agora: ser esmagado como um inseto sob meus calcanhares!”, pensou Malek, erguendo o alquebrado Seiya pela garganta.

Seiya não se mexe. Seu corpo está muito ferido, repleto de lacerações e com um grande hematoma no centro do tórax, local onde recebeu a maior parte do impacto. Respira com dificuldade, chiando a cada inspiração, denotando que sofre devido a uma lesão nos pulmões e na garganta. Trazendo-o para bem perto, Malek força Seiya a encará-lo, para então dizer:

– Antes de morrer, queres saber o porquê de tua derrota, infeliz? Percebo que não estás em condição de falar, portanto ser-te-ei generoso e indulgente e te direi assim mesmo. Há uma máxima que deveria ser de teu conhecimento se não fosses tão incauto: “Conheça teu inimigo”. Levantei todas as informações disponíveis sobre ti, teu estilo de luta, tua fama e renome. Estudei a forma como combates e confirmei o guerreiro feroz e empenhado que és para que não cometesse a mesma falha que tu cometeste a me enfrentar: Eu não deveria te subestimar! Isso tudo aliada a minha capacidade de ler as mentes de meus oponentes me assegurou que eu não seria derrotado! Mas se te serve de consolo, verme, foste capaz de atravessar a defesa de meu Maximillion – Pequeno Impacto e me machucar com teus Meteoros, e por isso eu te saúdo. Mas é só! Tua Armadura será agora envergada por um guerreiro digno dela: eu!

– Tele... patia... Agh! Coff! Então foi por isso... unf... que você conseguiu prever e contra-atacar todos os meus ataques? Maldito! – Respondeu Seiya, em seguida cuspindo sangue no rosto de Malek.

– Interpretarei isso como um sinal que tu reconheceste tua derrota. – respondeu Malek, limpando o sangue com o dorso da mão. – Em uma batalha, todos os recursos pra assegurar a vitória devem e irão ser usados. Apenas um tolo que confia muito na sorte não compreenderia isso. Eu disponho e utilizei o que me cabe de recursos. Para ti usei a Maximillion – Pequeno Impacto, a qual nem mesmo é minha técnica mais potente. O resultado é o mais óbvio até mesmo para um parvo inepto como tu: eu venci e tu perdeste!


Malek ergueu Seiya ainda mais alto pra que todos o vissem. O silêncio na platéia era algo quase tangível. Ver Seiya de Pégasus ser derrotado de forma tão avassaladora era demais para aqueles que o tinham quase como um ícone. E agora este ícone acaba de ser derrubado do pedestal. Malek levou Seiya até próximo da tribuna onde estava Hipólita e ofertou como um troféu, em seguida foi até onde estava a tribuna de Athena a jogou o corpo de Seiya ao chão. Então falou:

– Athena, eis o último dos contendores. Venci a todos eles. Agora requisito meu direito de enfrentar em combate o defensor da Sagrada Armadura de Pégasus e, se não houver nenhum defensor, que ela seja entregue a mim para ser seu Cavaleiro, como manda a Tradição Ancestral.

– Aspirante, você lutou condignamente. – Começou Athena, após se recompor do choque de ver Seiya ser massacrado daquela forma. – A Armadura de Pégasus possui um defensor e você irá conhecê-lo agora. Está pronto para lutar uma vez mais?

– Estou pronto desde que nasci! – Respondeu Malek, confiante. – Que venha o defensor!

– Espero que sua confiança dure até o final da luta, guerreiro. – respondeu Athena, ácida. – Marin de Águia será o seu oponente! Que a luta comece!

– Marin de Águia? Perfeito! – respondeu Malek.


Marin pulou da tribuna onde estava para dentro da arena. Não proferiu palavra. Caminhou até o centro da arena, encarando Malek. Seu olhar estava carregado de ódio e poderia dobrar até mesmo o aço. Malek apenas acompanhou Marin em sua trajetória. Algumas nuvens encobriram o sol da manhã nesse momento. Um vento frio soprou, balançando os cabelos de ambos, como que prenunciando o que estava para acontecer.

Não querendo perder tempo, Malek tratou de vasculhar a mente de Marin, a procura de uma pista de qual seria seu primeiro movimento. Para sua surpresa, encontrou apenas pensamentos desconexos, sem qualquer sentido lógico. “Muito bom! Ela conhece a técnica da barreira mental, que impede uma tentativa de leitura da mente. Eu poderia ficar aqui e tentar ver até onde se estende suas capacidades mentais, mas não tenho tempo pra isso! Quero que a humilhação de Seiya se estenda até sua mestra para que seja completa!”, pensou Malek.

– Sei muito bem que está tentando ler minha mente, Malek, mas acho que já descobriu que está sendo inútil. – Iniciou Marin. – Sei muito bem quem é sua mestra e quais são as suas capacidades e lhe asseguro que não vai ser tão fácil assim me derrotar. VOCÊ NÃO TERÁ A ARMADURA DE PÉGASUS! EU GARANTO!

– Perfeito! Vejo que sabes muito a meu respeito! Se tu queres tornar as coisas mais difíceis para ti, Marin, que assim seja. Terei o maior prazer em te mostrar que a Armadura será minha, de uma forma ou de outra! Ela e muito mais! – Respondeu Malek, pondo-se em guarda.

– Vou acabar com você e com essa sua arrogância! E farei isso por Seiya! – Marin iniciou o ataque saltando no ar. – VÔO DA ÁGUIA FLAMEJANTE!

– Cala-te, mulher, e luta! – Retrucou Malek, acompanhando com o olhar a parábola descrita por Marin em pleno ar.


O Vôo da Águia Flamejante consiste em um salto seguido de um chute, onde Marin queimará seu Cosmo fazendo a força do chute ser multiplicada. Como que prevendo isso, Malek, para a surpresa de todos os presentes, inclusive da própria Marin, desapareceu como se nunca estivesse estado ali. O golpe atingiu o chão onde Malek se encontrava, abrindo uma cratera de considerável tamanho e profundidade.

Marin passou alguns instantes a procurar por Malek, sem resultado. Súbito, seja devido à sombra que se projetava no chão próximo a ela, seja pelo Cosmo que aumentava de forma galopante acima dela, a Amazona de Águia se deu conta onde Malek estava: acima dela em pleno ar, pronto pra atacar!

– Idiota! – Falou Malek, estendendo à frente o braço direito e espalmando a mão, sendo seguro pelo pulso pela mão esquerda. – Se achas que estudei apenas o discípulo sem estudar sua mestra também, és mais inepta que pensei. Tua técnica Vôo da Águia Flamejante tem uma falha: tu tens que te preocupar com a aterrissagem! Deixando um curto espaço de tempo propício pra um contra-ataque! Recebe-o agora! PULSAR BLAST!*

O Pulsar Blast consiste em uma rajada de energia cósmica concentrada que parte em direção ao seu alvo, engolfando tudo o que se encontrar a sua frente.

O ataque foi colossal, abrindo uma enorme cratera onde se encontra Marin, que mal conseguiu se desviar daquela torrente de energia devastadora. A sua velocidade não foi inteiramente suficiente para que fizesse com que ela escapasse ilesa. O seu braço esquerdo foi pego pelo ataque, ficando inutilizado. Mas mesmo assim, a Amazona de Águia aproveitou o deslocamento de ar provocado pela explosão para se aproximar de Malek. Confiante de que havia consumado o seu golpe, o aspirante se surpreendeu ao ver Marin praticamente surgir como que por mágica a sua frente e desferir um potente chute no abdômen, bem onde os Meteoros de Seiya haviam atingido anteriormente, literalmente expulsando ar de dentro dos seus pulmões.

Ambos desabaram ao chão ao mesmo tempo; Malek devido à dor e ao impacto do golpe, Marin devido à força e ao esforço que teve que empregar para forçar os seus limites e conseguir atacar Malek antes que ele sequer tivesse tempo de retornar ao chão após o ataque, pegando-o de surpresa em pleno ar.

Sem poder usar seu braço esquerdo, Marin demora um pouco para se por de pé, sem falar na dor que lhe atormenta devido às queimaduras. Malek ainda está tossindo e engasgando no chão, tentando se levantar. A multidão vai ao delírio com todo aquele espetáculo proporcionado pelos contendores, exultando o nome de Marin, num coro ensurdecedor. Ares, ladeado por Anteros, Deimos, Enyo e Phobos, lança um olhar zombeteiro para Hipólita, que assiste a tudo aquilo impassível.

Próximo dali, na platéia, Hyoga observa toda aquela batalha. Ainda não entendeu o porquê dos maqueiros não terem tirado o inconsciente Seiya da arena ainda. Levantou-se e começou a descer as escadarias que davam para a amurada que separa a platéia da arena. Vendo aquilo, Shun o seguiu.

Shiryu levantou-se também e seguiu a dupla de Cavaleiros de Bronze.

– Aonde vão? – Perguntou o Cavaleiro de Dragão, segurando Hyoga pelo braço.

– Tirar Seiya dali, óbvio! – Respondeu Hyoga, desvencilhando-se do amigo. – Se não o tirarmos da arena logo, algum destes Kens pode atingi-lo e terminar de matá-lo!

– Então vamos pela entrada lateral! – Completou Shiryu.

– Vamos logo, então! Não temos muito tempo! – Apressou Shun

Shun, antes de partir com os demais, ergueu um olhar reprovador ao irmão mais velho, que continuava sentado onde estava não dando sinais de que estivesse disposto a ajudar. Ikki apenas ficou ali, atento apenas à luta. Inconformado, Shun seguiu os demais, apressando-se para alcançá-los.

De volta ao combate. Marin finalmente conseguiu pôr-se de pé, mas não sem cambalear muito. Se alguém pudesse ver por trás da sua máscara prateada de Amazona, perceberia que a guerreira usava uma outra máscara, só que de ódio e ressentimento. Malek é tudo o que Marin odeia em um homem: prepotente, arrogante, individualista e calculista. Mas com uma coisa ela estava concordando a muito contragosto: ele é muito determinado e irritantemente poderoso! O apelo da vingança a seduzia a chutá-lo ali mesmo, enquanto ele estava caído ao chão, mas esse não era seu estilo. Ela queria derrota-lo da mesma forma como Malek havia feito com Seiya: da maneira mais truculenta e humilhante possível, como um aviso a todos que cruzassem seu caminho, mas queria fazê-lo com Malek de pé e lutando!

Finalmente, a Amazona quebrou o silêncio que se estabelecera.

– Vamos, Malek, levante-se! – Ralhou Marin, segurando o braço esquerdo junto ao corpo enquanto mantinha-se em guarda. – Sei que não está derrotado ainda. Levante-se! Quero espancá-lo mais!

– De fato, ainda não desisti de lutar, mulher! – Respondeu Malek pondo-se finalmente em pé, mas não sem um leve cambaleio. – Tu deverias ter-me abatido quando tiveste a chance enquanto eu ainda estava no chão, mas não o fizeste. Agora não te darei nova oportunidade! Prepara-te, pois, Marin de Águia! Sei agora que és capaz de improvisar, minando minhas estratégias, mas nada mais que isso! Exulto-te por me proporcionar uma luta tão vibrante, bem diferente do parvo que é teu discípulo!

– Você verá que sou capaz de muito, mas muito mais que minar suas estratégias, e que as ofensas que você dirige ao Seiya irão lhe custar muito caro! – Falou Marin, quase num rosnado. – Vamos, Malek, ataque-me novamente se for capaz! Vou derrubá-lo com a mesma técnica que propiciou tantas vitórias ao Seiya: METEOROS!

Os Meteoros disparados por Marin diferem dos de Seiya não só pela forma como ela os executa, mas também por sua intensidade, força e velocidade. Os de Seiya são mais rápidos e mais carregados de energia cósmica, dado o show pirotécnico que é sua característica marcante, visto que é o principal golpe do ex-Cavaleiro de Pégasus, sendo difíceis de serem esquivados ou bloqueados, podendo ser contra-atacados se o oponente conseguir ser mais rápido que Seiya. Já os de Marin têm menos beleza plástica e menos pirotecnia, são um pouco mais lentos, mas possuem mais impacto e força bruta, sendo mais concentrados que os dispersos Meteoros de Pégasus. Marin emprega seu Cosmo neste ataque para que eles tenham mais força e impacto que velocidade, tornando-os mais fáceis de serem bloqueados ou esquivados.

Só que a grande diferença é justamente essa: por ser um pouco mais lento que aqueles do seu discípulo, os Meteoros podem ser mais bem controlados, possibilitando a Marin corrigir melhor a dispersão deles, concentrando-os mais em um único ponto, e como possuem um grande poder de impacto, são excelentes para minar as defesas do oponente, e é nisso que a Amazona de Águia aposta agora! Se Malek optar por bloqueá-los, terá os braços totalmente destroçados; se desejar se esquivar deles, Marin irá seguir sua trajetória e intercepta-lo com os Metoros, encurralando-o! Sua única saída seria usar novamente o Maximillion – Pequeno Impacto, o qual é uma técnica mista de ataque/defesa, mas que Marin não deu oportunidade de ser preparada a tempo.

Sem falar que Malek está cansado e sem fôlego para uma reação rápida graças ao chute bem colocado no Chakra do plexo solar, que desestabilizou sua respiração, deixando-o lento demais para uma reação. Marin pensa em agradecer a Helena de Cabeleira de Berenice ao fim da luta, por ter-lhe ensinado esta técnica básica do Punho Sussurrante dias atrás, justamente para prepará-la para uma luta como esta.

A seu ver, Malek estará fadado à derrota! A estratégia foi brilhante. Mas o que se seguiu destruiu por completo as esperanças de vitória da Amazona. Malek estava imóvel diante do ataque de Marin, em uma perfeita linha reta em relação a ela, não dando pistas de que fosse se esquivar ou bloquear o Ken. Marin o julgou um alvo fácil, parado como estava daquela maneira.

Entretanto, no último segundo, o aspirante a Cavaleiro simplesmente desaparece, revelando a alguns metros atrás de si o corpo caído e inerte de Seiya, bem onde ele o havia deixado, jazendo indefeso bem na rota dos Meteoros! Malek havia conduzido a luta de maneira tal que ele ficasse entre Marin e Seiya e a provocou até o seu limite, até que ela não mais suportasse e o atacasse com seu Ken, saindo do caminho no último instante pra que o discípulo fosse assassinado pela própria mestra!



Parte 04

Baixas de Guerra! A Águia e a Phoenix despencam dos Céus!

Marin amaldiçoou-se mil vezes por ter sido ludibriada daquela maneira. Os Meteoros já haviam partido em sua trajetória mortal e não havia mais nada que ela pudesse fazer. O choque causado pela idéia de presenciar a morte de alguém tão importante para ela e, ainda mais, causado pelas suas próprias mãos a paralisou por completo, congelando todos os seus membros. Lágrimas rolaram de seus olhos e seu coração estava apertado.

Não conseguiu, ou talvez não tenha desejado, reagir quando Malek reapareceu diante de si. O aspirante avançou decidido com um sorriso malicioso nos lábios e uma expressão homicida nos olhos. Por um instante, pareceu-lhe que Malek deu uma leve olhadela para sua esquerda. A última coisa de que Marin consegue se recordar é da voz de Malek dizendo:

– A luta acaba agora, Amazona! QUASAR PUNCH!*

O punho direito de Malek brilhou intensamente, emitindo uma luz azulada, enquanto relâmpagos percorriam seu corpo. O impacto foi titânico, gerando uma explosão de luz, indo acertar em cheio o rosto de Marin e fragmentando parte de sua máscara. A Amazona foi projetada no ar em um rodopio deixando um rastro de sangue em espiral na sua trajetória parabólica, indo se chocar violentamente com a parede no outro extremo da arena. O choque estremeceu as arquibancadas logo acima e deixou o molde do corpo de Marin impresso na parede e algumas pessoas foram jogadas de seus assentos!

Ferida e atordoada, Marin despenca ao chão, alheia a tudo o que acontece ao seu redor. O sangue escorre de sua boca e nariz, tornando a respiração difícil. Parte de seu rosto está exposto, pois sua máscara de amazona foi parcialmente destruída pelo ataque. Para ela, o mundo agora é um insano e doloroso carrossel, girando a uma assombrosa velocidade, e as vozes das pessoas se aglomeraram desconexas em uma louca cacofonia. Malek avança calmamente até onde a Amazona de Águia está caída, confiante de que ela não mais irá se levantar e reagir. Sua mão esquerda está sobre o flanco direito do abdômen, de onde escorrem filetes de sangue e onde se podem divisar alguns hematomas e inchaços.

“Maldita mulher! Mesmo eu tendo me teleportado no último instante para que ela alvejasse Seiya com seu Ken, ainda fui vítima dele! Sinto-me fraco e lento! Por que? Este estranho torpor se deu após aquele chute certeiro o qual sofri! Será que tive algum ponto vital lesionado? Não! Nem mesmo isso irá me apartar da glória da vitória completa!”, pensou ele enquanto caminhava lentamente até a caída Marin.


Alguns instantes atrás.


Ikki observa atentamente os movimentos de Malek, percebendo sua forma de lutar, seu estilo, seus movimentos. “Huumm... Então ele utiliza o estilo da Espada e do Escudo, em que o lutador se defende com braço esquerdo, o braço do escudo, e ataca com o braço direito, o braço da espada. E é assim que ele baseia seu Ken: ergue suas defesas com a mão esquerda e dispara os ataques com a direita. Foi assim que ele contra-atacou Seiya e o venceu com sua técnica mista de ataque/defesa, e quando quebrou as costelas daquele idiota logo no primeiro movimento, ele inverteu sua base, pondo a espada à frente do escudo, por assim dizer, a fim de efetuar um rápido contra-ataque! Resumindo, ele luta como se estivesse esgrimindo! É uma forma muito antiga de lutar, caída em desuso há muito tempo, mas esse rapaz a está utilizando com uma maestria que vi em poucos guerreiros! Essa maestria está vencendo Marin...”, pensou Ikki consigo mesmo.

Neste momento, Hyoga, Shiryu e Shun levantam-se vão tentar retirar Seiya da arena, temendo por sua vida, logo após Marin ter acertado Malek no abdômen e ambos terem caído ao chão. Ikki não deu muita atenção à disposição em que ambos caíram até o momento em que se levantaram e ele se deu conta da exata simetria em que se encontravam em relação a Seiya. Estranhando o curioso fato, Ikki começou a se preocupar com a sorte do espancado Seiya quando Marin armou seu Ken e estava decidida a dispará-lo.

“Pelas plumas flamejantes da Phoenix! Aquela imbecil não está vendo que Seiya está logo atrás de Malek e que pode ser acertado pelo seu Ken se ela errar ou Malek se esquivar? Não! Por Athena, não! Ela não está vendo mesmo! O miserável se deixou ser acertado de propósito, para que caísse bem onde está, encobrindo a visão de Marin em relação a Seiya! Oh, não! Malek sumiu! Seiya vai ser acertado! Aqueles três não vão chegar a tempo de ajuda-lo! Tenho que fazer alg...”

Ikki não chegou a completar seu raciocínio. Seu corpo agiu antes mesmo que sua mente mandasse. Ikki lançou-se no ar, saltando direto para a arena por sobre a as cabeças de todos os espectadores abaixo dele. Inconscientemente, Ikki invoca sua Armadura de Phoenix, a qual prontamente responde ao seu apelo e vem proteger seu corpo. Já vestido com ela, Ikki aterrissa na areia da arena e parte em desabalada carreira em direção ao amigo caído, tentando a todo custo ser mais rápido que os Meteoros disparados por Marin.

Tudo acontecia como que estivesse numa câmera lenta. Neste momento, no que Ikki inicia sua corrida, Malek reaparece bem em frente à Amazona de Águia, armando seu punho direito. Ele percebe Ikki e ambos trocam um olhar de desafio, mas logo se ocupam de seus respectivos objetivos. Ikki ainda conseguiu ouvir o baque seco do punho de Malek se chocando implacável contra a máscara de Marin e o estilhaçar da mesma. Uma sensação de pena e impotência tomou conta dele naquele instante, mas logo desapareceu visto que havia uma vida a ser salva.

Os Meteoros não são tão rápidos quanto os de Seiya. Porventura tivesse sido por isso ou talvez pelo desespero que se avolumava em seu coração que Ikki tenha conseguido se interpor entre eles e o tombado Seiya, protegendo-o com seu próprio corpo. Os primeiros Meteoros castigaram implacáveis as costas de Ikki, destroçando inteiramente a já muito danificada Armadura de Phoenix, como também toda a parede ao redor! Os pedaços de concreto e fragmentos da Armadura começaram a voar para todos os lados.

Já sem proteção alguma, as costas de Ikki estavam nuas e expostas àquela onda de destruição. Ikki sentia cada impacto lacerando sua carne como se fossem centenas de marretadas. Ele queria gritar com toda as forças de seus pulmões, mas manteve-se calado e suportando aquele martírio até o fim. Ikki já não conseguia mais se agarrar à consciência, já não sentia mais dor, ou qualquer outra sensação. Apenas debruçava-se sobre Seiya e tentava protege-lo da melhor maneira que conseguia. Então, da mesma forma repentina como começou, aquele inferno cessou.

As costas de Ikki estavam em carne viva. Ao redor de ambos, apenas destruição, na forma de buracos abertos na parede e no chão. Pedaços da Armadura de Phoenix reluziam ao sol, bem como o sangue que jorrava das feridas abertas de Ikki. Ambos estavam imóveis quando Hyoga, Shiryu e Shun finalmente chegaram. Seiya parece não ter sofrido qualquer impacto dos Meteoros. Nisso, ouviu-se um pequeno estrondo. Marin acabava de se chocar contra a parede oposta da arena.


Instante atual.


Malek chega até Marin, agacha-se e a ergue pela garganta. A Amazona de Águia não esboça mais qualquer reação. Então o aspirante lança uma olhar malicioso até Aioria de Leão e esboça um sorriso repleto de deboche quando percebe a expressão de ódio no rosto do Cavaleiro. Trazendo Marin para bem perto de si, quase colando os rostos, Malek pôde ver por entre os espaços deixados pelos pedaços que faltavam de sua máscara que a Amazona ainda estava consciente e com os olhos entreabertos. Então fingindo estar tentando ouvir a respiração de Marin, Malek falou quase em um sussurro ao ouvido da Amazona:

– Vede, Marin de Águia? Isto é o que acontece a quem tem o mau hábito de escutar a conversa alheia por trás das portas. Que te sirva de lição para que nunca mais te interponhas no meu caminho ou o de minha amada mestra! Que vivas até o fim de teus dias com o pesar e a culpa de saber que tua própria indiscrição vitimou duas pessoas muito próximas a ti! – Malek fez com que Marin olhasse para Ikki e Seiya caídos no outro extremo da arena e sendo socorridos pelos outros Cavaleiros de Bronze.

Uma lágrima silenciosa e solitária escorreu pelos olhos da Amazona ao ver aquela cena. Então, ele a tomou nos braços e dirigiu-se até a tribuna onde estão os Cavaleiros e Amazonas de Ouro, com uma expressão de desespero no rosto.

– Por favor, Ajudai-na! – Suplicou Malek, quase aos prantos. – Ela não está respirando bem! Athena! Perdoai-me! Eu vos suplico! Eu me excedi!

– Marin! – Bradou Aioria, pulando a amurada, seguido de Aldebaran de Touro. – Se ela morrer, miserável, juro que não haverá lugar nesse mundo ou no outro no qual possa se esconder de mim! – Aioria tirou Marin dos braços de Malek.

– Perdão, Aioria! – Desculpou-se Malek, chorando de fato! – Não é de meu desejo que a jovem pereça! Não quis que o rumo dos acontecimentos chegasse a esse ponto! Apenas queria vencer! Apenas...snniff... queria.... vencer...

– O guerreiro sábio é aquele que sabe o momento em que deve parar de lutar! – falou Aldebaran, olhando-o no fundo dos olhos.

– Levem os feridos para a Casa da Cura e deixem-nos aos cuidados dos Hipocráticos! – Ordenou Athena, com um tom de severidade poucas vezes visto em sua voz. – E quanto a você, Malek Maximillian, aproxime-se!

– Sim, minha senhora. – Responde Malek, aproximando-se da tribuna de honra.

– Certamente você se excedeu em sua força. Eu deveria puni-lo por isso. – Continuou Athena, séria em seu semblante. – Mas não vou. Devo lembrar a todos aqui presentes que aqueles que concordam em lutar nessa arena sabem o risco que correm, pois são todos Cavaleiros e Amazonas ou aspirantes a Cavaleiros e Amazonas. Sou conhecida como a Deusa da Justiça, e não estaria sendo justa se não concedesse a este jovem o prêmio pelo qual lutou. Prêmio? Não. Esta palavra está mal empregada. Meu jovem, a Armadura de Pégasus que você acaba de conquistar não é um mero prêmio. Ela é, sim, uma grande honra e um símbolo o qual deverá inspirar aqueles que o cercam. Cuidado para que esta Armadura não se torne um peso muito grande para que você possa carregar! Vista-a com orgulho!


As palavras de Athena foram coroadas por uma efusiva e demorada salva de palmas de todos os presentes. Malek percebeu a real dimensão do carisma do qual era dotada aquela jovem Deusa. E mais ainda, o quanto ela era amada e aclamada por aqueles que a cercam. Ele teria que se aproximar dela com cuidado, a fim de que conquiste sua confiança e seu apoio.


– Minha senhora, — Começou Malek. – Vós dissestes que sois a Deusa da Justiça. Portanto suplico por vossa indulgência para que seja possível a realização de um grande sonho: ser um Cavaleiro de Ouro e figurar entre os grandes defensores de Athena! Desejo concorrer à Armadura de Ouro de Capricórnio. A tradição diz que para tanto o aspirante deva ser no mínimo um Cavaleiro de Bronze. Pois vós já me concedestes a honra de sê-lo em me sagrar Cavaleiro de Bronze e a condição mínima para aspiração à Armadura de Ouro já foi satisfeita. Como prova de minha humildade e arrependimento pela dor e sofrimento que causei, devolverei a Armadura de Bronze a Seiya, a qual já foi dele no passado, seja eu vitorioso ou não em minha empreitada, visto que eu não seria obrigado a desistir dela, segundo reza a Tradição!


Por alguns instantes aquela declaração silenciou a todos os presentes, mas logo uma ovação tomou vulto e Malek estava sendo aclamado. Não tendo outra alternativa frente àquele pedido tão eloqüente e temendo passar por injusta e intransigente perante todos, Saori assentiu com a cabeça, permitindo que Malek concorresse à Armadura de Ouro de Capricórnio, no segundo dia das Guerras Galácticas.

Próximo dali, em meio à multidão, bem no alto das arquibancadas, uma dupla de espectadores trajando mantos negros assiste a tudo incógnitos. Olhos verdes e atentos observam a tudo, analisando, ponderando e pesando os fatos, enquanto outros pares de olhos prateados, frios como a própria Morte, cogitam sobre o desenrolar dos fatos.



– Interessante, não acha, Thanatos? – Começou o primeiro.

– Deveras, meu caro Shion, deveras. Athena realmente sabe como organizar um verdadeiro espetáculo para as massas. – Respondeu Thanatos.

– O que mais me intriga é que já isso antes. Refiro-me ao jovem que falou agora. – Continuou Shion. – Ele tem a mesma ambição e o mesmo brilho nos olhos que um dia vi nos olhos de Saga. Será que estamos presenciando a ascensão de um novo Mestre do Santuário? O que você vê no futuro desse rapaz?

– Estranho! Agora que mencionou, a Linha da Vida desse jovem é uma incógnita! Está obscurecida por poder que rivaliza com o do Imperador Hades! – Respondeu Thanatos, perplexo. – E este poder está nublando até mesmo meus sentidos divinos!

– Será Athena? – Perguntou Shion?

– Não, não tem a marca dela! – Continuou Thanatos. – O poder de Athena é sereno e plácido como as águas de um lago, este é aguerrido e ferrenho como um mar agitado! Quase que eternamente preparado para uma batalha!

– Percebo! A julgar pelos participantes desta edição do evento, o nome não poderia ser melhor: Guerra Galáctica! – Concluiu Shion. – Prepare-se, meu caro Thanatos, Pois em todas as Guerras a contagem de baixas de ambos os lados é sempre vultosa!


Continua em no próximo capítulo.


*O que é um Pulsar?

Quando explode uma estrela com 1,4 a 3 vezes a massa do sol, resta um núcleo denso, a estrela de nêutron. O colapso é tão violento que os elétrons e os prótons juntam-se formando nêutrons. O material concentra-se em uma esfera de cerca de 10 km de diâmetro, que libera energia. Um Pulsar é uma estrela de nêutrons que gira rapidamente e que emite um sinal para a Terra (como um farol). Os pulsares foram detectados em 1967 pelos astrônomos ingleses Jocelyn Burnell e Anthony Hewish.

(Fonte: Física D+, Explicação obtida na Enciclopédia da Ciência — Ed. Globo.)


*O que é um Quasar

Um Quasar é uma fonte de rádio de origem cósmica que, apesar de seu aspecto estelar, emite ondas de rádio mais intensamente que qualquer grande galáxia. Explicando, são elementos que os cientistas não sabem bem o que são, mas que emitem mais energia do que uma galáxia. Os quasares estão muito mais longe da Terra do que qualquer outro elemento cósmico conhecido; por isso, acredita-se que os quasares podem explicar bastante sobre o início do Universo. Quasar é uma abreviatura de Quasi Stelars, em Latim Quase Estrelas.

(Fonte: Enciclopédia Digital)