007 Contra o Fim do Mundo
11 Os lobos e o cordeiro
Notas iniciais
Bond não teve tempo para fazer perguntas, fora arrastado por Samir Azad para dentro de uma caminhonete, dirigida por um homem com traços que deixavam evidentes sua origem árabe.
— Iremos para o nordeste — avisou Samir — Lá pegaremos um barco até Lataquia...
Bond assentiu com a cabeça, mas Samir continuou encarando-o.
— O que foi? — perguntou.
— De lá já será possível ver o que a guerra causou ao meu país.
Samir virou o rosto, lamentando. O motorista acelerava rumo ao nordeste do Chipre.
***
A barco a vapor saiu furtivamente do Cabo Apóstolos Andreas, no extremo do país e navegou tranquilamente no mar calmo do mediterrâneo.
Era um barco muito antigo, mas que fazia pouco barulho. Em contrapartida, ele era muito lento, tanto que a previsão de chegada em solo sírio seria apenas ao anoitecer do próximo dia. Havia dois compartimentos amplos, um onde todos os tripulantes dormiriam ou em colchões ou em redes presas à parede. O outro era dedicado à cozinha, onde os alimentos seriam cozidos em um fogão a lenha.
O capitão — o motorista da caminhonete — ficava na cabine do segundo piso. Ao todo, oito tripulantes ocupavam o barco. Todos sírios, todos homens, com exceção de Samir.
O compartimento era muito quente e naquela hora da madrugada todos dormiam. Um dos tripulantes substituíra o capitão. Além dele, Bond era o único acordado. Estava sentado na popa há horas, no mais completo silêncio.
Estava completamente isolado. Jogara fora seu celular descartável antes de chegar à Sicília e desde então não falara com ninguém do que sobrou do MI6.
Q, antes de partir, ainda o alertou a respeito de sua hipótese sobre um possível ataque terrorista. Mais de uma vez ele acentuara: uma vez descobrindo o destino das armas e seu remetente, as peças remanescentes se encaixariam.
Bond não se sentia assim tão otimista. Acreditava que uma vez descobrindo a forma com que as armas eram enviadas a grupos terroristas, uma nova porta seria aberta e um caso totalmente novo surgiria, com novos nomes na jogada, novas investigações a serem feitas. Seria impossível, por tanto, escavar tamanha complexidade com uma equipe formada apenas por cinco pessoas. A questão tornava-se ainda pior ao pensar que potenciais membros para expandir o grupo estavam sendo mortos pelo governo, que, em tese, deveria apoiá-los.
Tais decisões vindas do Primeiro Ministro davam a Bond uma certeza absoluta: o governo tinha ossos guardados em seu armário e estava disposto a aumentar sua coleção. Provavelmente, James Bond teria um lugar especial esperando por ele.
Com esses pensamentos em sua mente, Bond nem ao menos percebeu a aproximação de alguém no escuro. Era Samir, que sentara ao seu lado, olhando além do mar.
— Deve estar muito assustado com isso tudo, não é, senhor Hughes?
Howard Hughes fora o nome escolhido por Bond para passar por um humanitário cheio de boas intenções.
— Não acreditei que fosse tão complicado ajudar as pessoas — falou, olhando para a mesma direção que Samir.
— Na guerra o ser humano mostra sua pior versão.
Samir estava sem o seu hijab, deixando expostos seus cabelos muito lisos e negros.
— Iremos criar uma rota onde você e seu grupo possa passar sem grandes problemas até Aleppo — continuou ela — Confesso que não será fácil. Há rebeldes pró-governistas que costumam bolar ciladas nesses trajetos.
— Sabíamos do perigo desde o dia em que contatamos você — respondeu Bond.
— É muito corajoso.
— Não se trata mais de ser ou não corajoso. Mas, sim, fazer o que é certo.
Dito isso, Bond encarara Samir, que mantinha seus grandes olhos vidrados nos seus, em silêncio.
— Por outro lado, você não me parece uma típica mulher mulçumana.
Samir sorrira, mostrando dentes irregulares, mas ainda sim brancos. Cada característica sua contribuía para dar-lhe um ar mítico em sua aparência.
— Não é de hoje que grupos fundamentalistas atormentam nosso país. Mas, agora, o objetivo deles mudou. O que antes era uma tentativa de difundir o alcorão se transformou numa busca incessante para a derrubada do ocidente.
— Mas o que te impediu de simplesmente fugir do país, como outros milhares estão fazendo?
Samir voltara a encarar o horizonte escuro e seus olhos encheram-se de lágrimas. Não eram lágrimas de tristeza, pensou Bond, eram lágrimas de um profundo ódio que só molhavam o rosto daqueles que buscavam vingança.
— Nós tentamos — falou ela — Eu e minha família. Mas eram muitos... eles invadiram nossa casa e eu fui a única que sobreviveu.
A respiração de Bond pesou por um milésimo de segundos, dando-lhe aquela mesma sensação de que seus pulmões estavam cheios de água. De repente, do rosto de Samir, surgira uma expressão feroz, que fizera suas lágrimas brilharem.
— Foi aí que eu entrei para esse grupo. E diferentemente dos grupos que matam por matar ou que estão unidos ao governo, nós queremos a queda de tudo isso! A queda dessa miséria que os poderosos nos trazem — concluiu ela, tremendo.
Bond hesitou.
— Eu lamento.
— Não lamente — replicou Samir.
— Acredita, então, que todos esses grupos... — recomeçou Bond, minutos depois.
— São as mesmas coisas — interrompeu ela — Todos se unem contra a tirania para quando finalmente chegarem ao poder serem tão tirânicos quanto seus antecessores foram. Não há revolução sem mudança, senhor Hughes!
Bond continuou em silêncio. Começara a duvidar que só existisse um único meio para se alcançar a mudança. Ele próprio não passava de um produto que pessoas como o Rei Bolacha usavam a seu bel-prazer e, quando menos esperava-se, ele era descartado e substituído por um computador ou uma nova forma de “vingar” o terror. “Nova forma”, entendia Bond, era apenas o mesmo método, mas velada por palavras rebuscadas e promessas vazias.
Samir levantou-se, satisfeita.
— É melhor eu ir dormir. Amanhã teremos um dia muito longo. Boa noite.
— Boa noite — respondeu Bond. Mas antes que ela entrasse no compartimento, ele a chamou. Samir esperou — Vai ficar tudo bem.
— Eu sei — e dizendo isso, ela voltou a se virar, sumindo no escuro.
Fale com o autor