- Legado -
5 - Uma garota má conhece uma garota mais má ainda.
— Elas até compravam bagels juntas! — Disse Michelle ao irmão, quando o mesmo perguntara quem era a garotinha que eles viram mais cedo, ao sair de casa.
— Eu queria uns bagels — Vinícius parecia sonhador.
Os dois estavam cruzando o estacionamento do Colégio Padre Hatzel naquela manhã de segunda-feira. O pai dirigira o Prisma até o estacionamento e largara os filhos ás pressas, tinha conseguido uma proposta de emprego que um antigo colega de faculdade dele indicou. Michelle preferiu não reclamar. Sonhava com o dia em que eles venderiam a casa da avó e voltariam para a cobertura de três quartos, dois banheiros e piscina em Novo Hamburgo.
Adolescentes de todos os estilos, cores e alturas estavam espalhados pelos corredores. Em um canto estavam os garotos geeks, concentrados de mais em seus gameboys para prestar atenção em algo ao redor. Algumas garotas folheavam a Teen Vogue e outras soltavam risinhos com um baixo teor de deboche quando Michelle passou.
— Estes são aqueles que se mudaram para cá na semana passada — Cochichou Flávia Mendes à melhor amiga, Jane Bastos.
— Me disseram que este garoto não é irmão de sangue dela — Jane deu uma pausa até Flávia arregalar seus olhos cinzas — Dizem que os Albuquerques acham o incesto algo totalmente legal!
Michelle verificou o horário em seu Iphone: 7:45
Faltavam só 15 minutos.
Vinícius foi direto para o ginásio poliesportivo, se inscrever na equipe de futebol. Michelle ficou sentada em um dos bancos do corredor. Desde que chegara não vira nem um dos rostos conhecidos. Nada de Danielle, de Igor, de Patsy...
Ela até se sentiria só, se não houvesse vestido sua camiseta Alice + Olivia, a saia pregueada CK e as sandálias Christian Dior da sorte. E claro, a bolsa Givency cor de conhaque.
— Você é nova por aqui, né? — Perguntou a garota cor de cappuccino e olhos amendoados. Suas botas Kate Spade batendo no chão como em um gesto compulsivo.
— Tá muito na cara? — Michelle perguntou, colocando uma mecha de cabelo atrás da pequenas orelha.
A garota morena deu um sorriso simpático.
— Não muito. O pessoal não costuma ser tão quieto nos corredores — Ela mordeu o lábio inferior — Sou Alécia Weber.
— Michelle — Se apresentou.
— Eu sou do grupo de artesanatos — Alécia esticou o braço, uma pulseira trançada com fios coloridos e um pingente de letra L cursiva entalhado se destacaram — Viu? Eu que fiz!
Michelle assentiu, sorrindo sem graça. Ela nunca fora muito fã da moda faça-você-mesmo, mas tinha algo bonitinho, e até mesmo meigo no acessório da garota.
Ela só não entendeu o L
Mas talvez fosse a inicial do namorado dela.
Uma menina loura, de cabelo preso em marias-chiquinhas, vestindo um blazer Ambercrombie and Fitch que Michelle reconhecera porque tinha um idêntico, parou ao lado de Alécia.
— Vamos! — Maria-chiquinhas arrastou Alécia pela mão.
Alécia relutou enquanto ria da amiga. Michelle achou aquilo tão idiota que soltou um sorriso tímido.
— Se quiser entrar na oficina, está convidada — Ela disse enquanto Maria-chiquinhas a arrastava para mais longe. Seja lá o que fosse, parecia ser urgente.
Michelle acabara de ter certeza de que todo mundo em Hatzel era igual. Todos muito ocupados em suas vidinhas perfeitas, em suas fofocas matinais e na máxima preocupação de manter todos os fios de cabelos em seu devido lugar.
Ela já podia vomitar?
Do canto onde estava, Michelle pode ver Vinícius conversando com alguns garotos de sua idade, riam em voz alta como se já se conhecessem à seculos. Um deles deu um chute no bebedouro enquanto o outro bebia a água. Era tão injusto que os garotos fizessem amigos mais rápido que as garotas. Ela ficou pensando isso por minutos, até que viu Patsy entrando pela porta dupla do colégio.
Ela tinha os cabelos negros presos em um rabo de cavalo que caía por sobre o seu ombro esquerdo desnudo pela blusa Juicy de alcinhas. Vestia impecáveis jeans Colcci e botas Manolo Blahnik. Patsy tinha um andar tão leve, que fazia as outras garotas pararem até mesmo suas fofocas para a admirá-la. Ela não fazia ideia que Patsy era tão influente.
— Bom dia, Novo Hamburgo! — Patsy deu uma espécie de sorriso com os olhos verdes — Primeiro dia, então.
— É...— Michelle corou, todas as garotas estavam olhando para ela, como se ela deixasse de ser a novata estranha e se transformado na garota interessante.
Patsy largou sua bolsa Hermés em cima do banco onde Michelle estava sentada. Ela deu uma rápida olhada em todo o corredor e acenou para um dos garotos que agora estavam fazendo embaixadinhas com Vinícius.
— Seu irmão é bem gatinho, né? — Patsy parou de mascar o seu chiclete e observou Vinícius.
Michelle limpou a garganta.
— Gatinho e um poço de burrice.
Patsy olhou para Michelle.
— Os melhores jogadores são assim.
Os garotos ficaram competindo para ver quem arrotava mais alto. Michelle sentira vergonha de seu passado, quando saía com esse tipo de garoto. Mas agora ela estava diferente, gostava de garotos românticos e fofos; como Igor...
— Vamos para a aula? — Michelle perguntou, o relógio do Iphone marcava 7:57
Patsy deu um suspiro enquanto colocava a bolsa no ombro.
— Estou esperando o meu namorado — Ela olhou para os lados até sorrir para o bolo de meninos que agora arrotavam o ABC — Ali está ele!
Patsy sorriu enquanto apontava o garoto parado no sopé da escadaria que levava as salas de aula.
— Aquele é Igor, o meu namorado!
# # #
Michelle estava frustrada, a torrada com geleia e o mocca que ela comprara no caminho para a escola estavam revirando no seu estômago. Tudo era injusto. A vida dela era injusta.
Ela teve que aguentar o caminho todo para a sala de aula vendo Patsy encher Igor de elogios, enquanto ele dava olhares rápidos e culpados para Michelle.
Ela só assentia com o que a amiga dizia.
A professora de português estava sentada na sua mesa quando todos os alunos chegaram. Ela não fez menção em apresentar Michelle a todos e explicou que só o faria se ela quisesse.
É claro que ela não queria.
Alguns colegas do sexo masculino ficaram lhe lançando olhares maliciosos quando ela se sentou em sua carteira. Ela queria o máximo de distância de Patsy e Igor, que se sentavam próximos à janela, e que agora riam de alguma coisa idiota.
Talvez rissem dela.
Maria-chiquinhas e Alécia se sentaram próximas à Michelle.
Pelo menos ela não se sentiu sozinha, e talvez até entrasse naquela oficina de artesanato.
Ela abriu o caderno de Hello Kitty e escrevera a data na margem superior direita.
Foi quando três meninas entraram na sala de aula e tomaram os seus lugares na primeira fila. Todos no recinto as olhavam, como se quisessem um pedaço delas.
Uma delas tinha o cabelo castanho em um coque preso por uma caneta Montblanc e trajava calças leggings da addidas, usava tênis Nikes de corrida e uma camiseta com os dizeres CORREDORAS ASSANHADAS. Michelle pensou que ela até podia ser uma ótima corredora, mas para ela parecia uma putinha esportiva.
A segunda era loura com as raízes escuras, tinha os lábios levemente emplastados de chapstick de cereja, um olhar meio diabólico e trajava shorts jeans Colcci com uma camisa Lilly Pulitzer.
E a garota no meio delas era difícil de passar despercebida.
Ela tinha uma cascata de cabelos louros perfeitos, olhos azuis afiadíssimos e aquela expressão de “Eu sei o que você fez aí” o vestido de verão Kate Spade que ela usava, parecia ter sido feito especialmente para ela, ressaltando cada parte de seu corpo curvilíneo e bronzeado. Ela olhou varreu o olhar pela sala de aula e Michelle teve uma estranha sensação de que o olhar parara nela.
— Hei, Jaqueline, olha isso! — A garota dos shorts chamou a amiga.
Jaqueline desprendeu os seus olhos de lago congelado de cima de Michelle e se sentou na sua cadeira.
# # #
Depois de dois massantes períodos de português e uma monótona aula de matemática, o sinal melódico do Padre Hatzel anunciou o recreio.
Foi então que ela se sentiu totalmente sozinha e perdida.
Patsy arrastara Igor para um mesa reservada, ela tinha espaço para três pessoas, mas ela colocou sua bolsa Hermés em cima da cadeira vaga.
Vinícius estava almoçando com o time de futebol, pelo o que tudo indicava, ele já tinha melhores amigos por ali.
Maria-chiquinhas — Que na hora da chamada Michelle descobriu se chamar Cláudia — e Alécia estavam sentadas na mesma mesa que Jaqueline e suas seguidoras — Que pelo método da chamada ela descobriu se chamarem Fernanda e Giovana,
Danielle parecia entretida, conversando com as garotas da sua idade em uma mesa lotada.
Ela se sentou sozinha em uma mesa vaga em um dos cantos do refeitório. Ninguém aparecera para sentar ao lado dela. Então ela comia sua salada e bebia o seu refrigerante de laranja sozinha.
Foi quando Jaqueline e o seu bando, com suas bandejas em mãos bem manicuradas, rebolaram as bundas magras até a excluída mesa de Michelle.
— Beeem viiinda! — Soou Giovana, a garota dos shorts, em um falso tom de ópera. Uma rápida alusão à falecida avó de Michelle.
— Patsy nos contou que você é nova aqui — Jaqueline brilhou seus olhos gelados — Sou Jaqueline Marko e essas são minhas amigas; Cláudia e Giovana Fiorentino, primas de Patsy, Alécia Weber e Fernanda Marko, minha prima.
— Prazer, Michelle Albuquerque — Ela disse, pode reparar as rápidas olhadinhas que as garotas deram, junto aos seus sorrisos com um pequeno teor malicioso.
Por que sobrenomes eram tão importantes?
“Eles podem abrir portas” Danielle dissera.
“Ou fechá-las” Igor havia completado.
Até então ela não havia entendido nada daquilo. Mas as garotas pareciam contentes.
Elas estavam cochichando algumas coisas que Michelle tentara entender, mas que saíam como grego para ela.
— Queremos te fazer um convite — Cláudia disse, sorridente, acariciava sua maria-chiquinha enquanto mascava um chiclete que de longe exalava o cheiro de tu tutti-fruti.
— Queremos que faça parte do nosso grupo, o Legado! — Fernanda Marko disse enquanto sorria com seus estalados olhos de psicopata.
Jaqueline olhava para as amigas com um certo orgulho desfarçado.
— Só aceitamos quem é membro das famílias fundadoras de Hatzel — Jaqueline explicou — Qualquer Marko, Albuquerque, Weber, Vogelman, Fiorentino, Lemes, Hatzel...
Michelle deixou escapar um riso nervoso. Que merda era essa?
Ela não iria fazer parte de uma panelinha, não de novo.
Ela conhecia bem essas garotas, gostavam de fofocar, destruir reputações, criticar os trajes alheios e espalhar intrigas pelos corredores. Agora a nova moda era uma panelinha elitística? Onde só podia entrar quem tivesse um sobrenome? Ela olhou para as cinco garotas de cabelos, pele e roupas perfeitas.
— Acho que já estou velinha de mais para andar com panelinhas... — Ela se explicou.
Jaqueline lhe lançara um olhar desafiador, depois deu uma olhada na expressão de cada uma das amigas.
— Não fazemos este convite para cada uma — Giovana começou — olhe para todas estas garotas no refeitório — Michelle olhou, todas pareciam comentar sobre as garotas do Legado, as olhavam como se fossem deusas personificadas. Ela sabia como era isso, já fora uma garota popular — todas morreriam para estar em seu lu...
— Já chega... — Jaqueline disse com paciência, interrompendo a amiga — Michelle tem o seu direito de querer andar conosco.
Michelle assentiu.
— Vocês são legais, podemos continuar conversando — Ela colocou uma mecha atrás da orelha — Eu só não quero andar em grupinhos fúteis.
Todas as garotas se olharam um pouco espantadas. Todas menos Jaqueline.
— Tudo bem, acho que podemos — Jaqueline pousou sua mão sobre a de Michelle — Amigas.
# # #
Faltavam cinco minutos para o sinal bater anunciando o fim do recreio. Ela ficou conversando com as garotas do Legado um bom tempo, elas pareciam ser ótimas garotas, apesar da futilidade. Patsy apareceu nos últimos minutos da conversa e ficou falando sobre os seus planos com Igor para o final de semana. Ela ouviu Jaqueline falar sobre uma festa do pijama só para as garotas do Legado. Michelle estava de fora por vontade própria.
Michelle entrou no banheiro feminino, ele estava deserto. Cheirava a Ajax de rosas e cigarros Merits Ultra Light. Ela entrou em um dos reservados e ficou lá até achar que Patsy já havia terminado o assunto Igor. Mais cedo ela justificou dizendo que esquecera totalmente de dizer que o namorado dela morava em frente à casa de Michelle.
Michelle ouviu um baque da porta do banheiro se fechado, depois ouviu os paços de sandálias.
— Michelle, você está aí? — Chamou Jaqueline, com sua voz feminina e um pouco grave.
— Estou — Anunciou ela, fechando a porta do reservado e indo até a pia para lavar as mãos.
— Então, eu estava pensando...— Jaqueline começou, enrolava uma mecha do cabelo dourado nos dedos enquanto via Michelle lavar as mãos —você seria uma ótima garota do Legado. Não temos nenhum Albuquerque no grupo e seria legal se você aceitasse. Sua vó e minha vó também já foram garotas do Legado...
Michelle pegou um dos papeis e secou as mãos molhadas.
— Eu jurei nunca mais participar destes grupos escolares — Michelle confessou — Passei por uma coisa horrível no ano retrasado, devido a este tipo de coisa. Me desculpe
Jaqueline jogou seu cabelo dourado para trás.
— Não desculpo! — Ela disse em um tom que não parecia ser de zombaria — Eu tenho um bom motivo para você entrar no grupo — Ela enfiou a mão na sua bolsa Chanel e tirou quatro papéis pequenos, os entregou para Michelle e depois ficou parada, de braços cruzados.
Michelle pegou o pequeno bolo de papéis e os folheou.
Não eram simples papéis.
Eram fotos;
Fotos dela e de Igor se beijando no quintal dos Vogelmans.
Então era ela, era ela a cascata de cabelos louros que entrou no Sedan preto.
— Eu tenho cópias — Ela comentou enquanto Michelle olhava as fotos pela segunda vez, na mesma sequência.
Michelle olhou para os frios e cruéis olhos azuis de sua falsa-nova-amiga.
— A festa do pijama começa as dez — Ela lançou uma piscadela para Michelle enquanto se dirigia à porta do banheiro — Acho que Patsy ficaria muito chateada se você não fosse...
Notas finais
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