- Legado -

4 - O que uma garota má faz quando esta entediada


O relógio de hello kitty na parede do quarto anunciava 02:32. Michelle rolou para o outro lado da cama, os lençóis rosa claro roçando-lhe as pernas perfeitamente depiladas pela cera de rosas. Ela repetira este movimentos umas trocentas vezes nos últimos vinte minutos, como uma espécie de ginástica maluca.

Foi só lá pelas 02:45 que decidiu de vez que o sono não iria vir. Ela não ficaria acordada até as 07:00, hora em que o despertador soaria e ela iria para o seu primeiro dia na Padre Hatzel.

Ela poderia estar mais ferrada?

Foi até a janela do quarto, onde teve o vislumbre de toda a Alameda doze — e a cidade inteira — em um silencio mórbido e sem ação nenhuma. Até os cães pareciam totalmente adestrados em Hatzel. Tudo estava em seu devido lugar. As cadeiras de praia em frente à casa dos vizinhos do lado continuavam postas perto ás cercas de pequenas ripas brancas que separava o quintal da calçada, os carros estavam todos postos em suas garagens e não se ouvia algum ruído de qualquer carro dando uma volta pela cidade.

Michelle sentiu um arrepio na espinha.

Ali do outro lado da rua, a porta dos Vogelmans se abrira revelando a silhueta de Igor. Michelle se perguntou o que ele faria. Foi quando ele sentou no cordão da calçada e ficou ali, parado por uns dois minutos.

Até Michelle decidir pegar um de seus cardigãs Lilly Pulitzer e jogar por cima do seu pijama rosa, calçar as pantufas e descer para encontrar o vizinho.

— Pensando na vida? — Michelle apareceu de braços cruzados em frente ao ruivo, fazendo-o levantar a cabeça de cabelos acobreados e lhe lançar um sorriso de alívio.

— Só estou sem sono — Respondeu.

Michelle não deixou de reparar nos trajes do vizinho; um abrigo A&F, uma finíssima camiseta de mangas longas da Calvin Klein e chinelos Havaianas com tiras de tecido marrom. Ela acharia aquilo ridículo de mais em outro garoto. Mas Igor era bonitinho até a morte!

— E você? — Igor quis saber, os longos dedos pálidos penteando o seu cabelo alaranjado. Por sorte ele não viu que ela olhara para os pés dele. Poderia achar que ela era podólotra ou algo do tipo — o que faz aqui?

Ela suspirou e olhou para toda a extensão da Alameda Doze. Havia um Sedan preto estacionado um pouco distante. Ele não estava ali antes, pensou ela, e algo nele fazia com que ele não pertencesse ao cenário

— Sem sono também — Ela confessou, juntando-se a ele na calçada limpa. Ainda podia sentir o cheiro do sol misturado com limonada derramada. Provavelmente de Danielle.

— Nervosa para o seu primeiro dia de aula? — Ele perguntou. Michelle não se lembrava de ter contado sobre isso à Danielle. Como ele saberia?

— É, mais ou menos.

— Relaxa, eles vão gostar de você. — Igor sorriu e a waffle que ela comera mais cedo começara a dançar no estômago — Sempre fui muito voltado aos estudos, não fico de papos no corredor, nem fuzilando as pessoas com os olhos... — Michelle achava que o amigo parecia magoado.

— Panelinhas? — Ela perguntou.

Michelle conhecia bem as panelinhas, ela praticamente dominava os corredores de sua antiga escola. Ela, Natasha e Vivian sempre podiam ser vistas cochichando sobre as roupas das outras garotas, espalhando intrigas e rindo à custa dos outros. Sim, ela sabia que era errado, então no último ano ela e Natasha deixaram de lado esse negócio de popularidade. Agora Vivian tomara o lugar dela, mas tudo bem.

— É tão óbvio? — Ele riu. Ele riu. A risada de Igor era tão sonora que soava como um xilofone de bebê.

— Já fui parte de panelinha — Ela limpou a garganta — mas depois vi que não tinha graça alguma — Tem panelinhas em Hatzel?

Igor lhe lançara um sorriso.

— Oh, sim! — Ele bocejou — claro que tem...

Ela bocejou também e depois um silêncio eloquente pairou sobre o jardim dos Vogelmans. Michelle queria chegar um pouco mais perto de Igor, queria coçar seu braço no dele, não, ela queria que ele a abraçasse e que eles ficassem tipo, horas olhando a lua minguante enquanto ela contava sobre sua vida na cidade grande e ele ria de tudo enquanto lhe fazia confissões da sua infância em um subúrbio da serra gaúcha.

— Não consigo dormir desde que me mudei para cá...— Michelle fitava sua casa de tijolinhos à mostra no outro lado da rua — você nasceu aqui?

Igor assentiu enquanto um sorriso bobo lhe surgiu nos lábios rosados.

— Sim. Eu e grande parte do colégio — O sorriso se desfez — todo mundo se conhece, até nossos pais e avós estudaram na mesma escola.

Ela achou uma graça-sem-graça naquilo. Imaginando a vovó Charlote no seu primeiro dia de aula na Padre Hatzel. Será que ela fazia parte dos populares? Das garotas quietas ou das meninas do time de vôlei? Ela realmente queria que o espírito da avó aparecesse para ela e ficasse conversando com ela tempo suficiente para lidar com esta cidade nova.

Pensando bem, ela teria que voltar sozinha para casa e dormir sozinha. A ideia de ver um fantasma não era a das melhores.

— Se eles forem maus com você, não se preocupe, eu te incluo no meu grupo — um sorriso se fez no rosto de Igor.

— Pensei que você não fizesse parte de panelinhas!— Michelle soltou, dando uma risada fraca.

— Mas um grupo é diferente de uma panelinha! — Igor se defendeu — tenho uns amigos da equipe de tênis, nós almoçamos juntos no recreio. Não tem uma garota no grupo, mas acho que podemos incluir você.

Ela riu, realmente aquilo era ótimo — e ele era tão fofinho incluindo ela. Tirando o medo que ela tinha do primeiro dia de aula.

E aliás, ela jogava tênis em Novo Hamburgo. Ela realmente teria assunto com os garotos

— Isso é maravilhoso! — Ela podia sentir seus olhos brilharem — mesmo! Eu jogava tênis na minha outra cidade... — de repente tudo aquilo lhe parecia distante, lhe causara até certa nostalgia.

— Podemos treinar juntos outra hora, não podemos? — Igor sugeriu, divertido.

Michelle assentiu rápido, é claro que podiam.

— É claro que sim.

— Combinado! — Ele sorriu. Tudo teria ficado assim, se ele não houvesse pousado sua mão grande na coxa dela.

Igor ficou vermelho como um pimentão devido à sua pele rosada de menino ruivo. Depois ela apoiou sua mão no ombro dele, se inclinando para um beijo longo e um tanto confuso. Igor tinha gosto de balas de mel e o seu já então familiar cheiro de 212 Men agora lhe causava frissons e arrepios.

— Eu acho que vou dormir, me bateu um sono... — ela disse após se afastar dos braços fortes do garoto.

— Quer que eu te acompanhe até a porta? — Igor sugeriu. Ela meio engraçado que eles não dessem bola para o que acabara de acontecer.

— Cara...eu moro no outro lado da rua — ela riu, nervosa.

Ela ouviu uma risada feminina riscando o silêncio. Depois viu uma cascata de cabelos louros entrando no Sedan preto e batendo a porta.

Notas finais
O capítulo é bem rápido mesmo. Estive ocupado ultimamente.
Mas quem é a menina loura???