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“entra aqui no meu peito e ouça o meu pranto...”
Eu passei por muita coisa na minha vida. Coisas horríveis acontecem o tempo todo, algumas nós temos controle, outras não. Terminei relacionamentos, saí de alguns serviços, fiz inimizades, fui usada, fui passada pra trás, fui nocauteada de formas horríveis, mas eu tive controle de todas essas situações, todas elas foram resultado de coisas que eu mesma fiz.
O que eu quero falar, é sobre aquele assunto que ninguém fala, sobre aquilo que você não tem controle. Sobre doença. Mas mais polêmico ainda: doenças mentais. Transtornos mentais. Ou seja lá o que você quiser chamar.
Desde pequena tenho o tal transtorno bipolar de humor. Ele não é uma indecisão. Ele não é uma simples mudança de humor, na qual você está bem e de repente está nervosa. Ele vai além disso. Ele é mais profundo, o buraco é mais embaixo.
Minhas mudanças de humor são totalmente repentinas e não são apenas ‘ora feliz, ora triste’, passo de um estado extremamente agitado para algo totalmente monótono, depressivo e angustiante. O pior é que na maioria das vezes eu não consigo saber quando vou melhorar, quando vou piorar, mas sei que nunca estarei no meio termo. Minha fase calma é extremamente rara e rápida. A fase agitada é confusa, eu nunca sei o que estou sentindo e na maioria das vezes ela acontece quando estou com pessoas ao redor. Já a parte da tristeza, ela vem assim, do nada. Sorrateira. Eu não tenho controle sobre ela, pode vir qualquer hora. Eu não transpareço que estou mal, quando eu estou me corroendo por dentro. Eu sinto.
Na maioria das vezes eu acabo passando pelas mudanças em pouco tempo. O que resulta em vários nuances ao dia. Recentemente, a fase ‘triste’ veio e ficou por aqui. Mas não foi por 1 hora, 1 dia, 1 mês, não, ela veio e ficou por um longo tempo. Não sei se posso ousar chamar de depressão, meu psiquiatra diz que sim, mas minha mente diz que foi uma crise forte de mudança causada pelo transtorno. Não decidi ainda como irei chamar essa parte da minha vida. Mas eu decidi que quero falar sobre.
Eu sentia um grande buraco negro dentro de mim. Eu me sentia sozinha, sem casa pra voltar, sem amigos pra conversar, sem família pra me apoiar, sem objetivos pra correr atrás. Não tem como mensurar o tamanho da dor que eu sentia, era algo que me consumia por inteira, um grande vazio tomando conta de mim e da minha consciência. Grande parte de mim estava tomada, mas havia uma parcela da minha mente que parecia ter sido poupada daquele caos. Ela me dizia que eu estava perdida, que eu estava em pane, que meu corpo estava paralisado, que eu não havia tomado banho, que eu estava chorando há muitas horas, que eu precisava escovar os dentes, que eu estava faltando demais na escola, que eu tinha que ir para o cursinho e que eu tinha que me cuidar. Mas não era essa parte da consciência que meu corpo obedecia, ele queria atender os desejos da parte vazia, por consequência, eu vivia sem fazer nada. Quando eu tentava fazer algo, a parte que dominava minha vida me castigava. Ela gritava no meu ouvido coisas pra eu fazer. Ela me dizia pra bater a cabeça na parede. Ela me dizia que eu era um peso. Que eu deveria poupar minha família de ter eu por perto. Ela era clara: se mate. Eu obedecia. Ao menos tentava. A luta era extremamente FODA. Eu não queria fazer aquelas coisas, eu não queria entrar no banho pra poder me socar, literalmente. Eu achava que eu era o problema.
Tomava Rivotril e Reconter, mas é aquele coisa: desgraça nunca é pouca.
Como se não bastasse essa batalha inteira rolando na minha cabeça enquanto meu corpo hibernava, os remédios que deveriam me ajudar começaram a ter efeito colateral. Logo, os ‘sintomas’ começaram a se potencializar. Comecei a experimentar horas na plataforma do metrô tentando criar coragem pra realmente me jogar, tomar comprimidos pra ver se eu passava mal, pegar lâminas e sair rasgando a pele inteira, tentar me enforcar com fios grossos e ganhar marcas no pescoço.
As vozes pioraram, agora elas gritavam, berravam, faziam um barulho ensurdecedor. A vontade de fazer algo caiu totalmente, o que estava ruim, piorou.
Eu não comia mais nada, emagreci não sei quantos kg, fiquei com o rosto magro, mostrando claramente os ossos.
Parei de tomar os remédios por ordem médica. E o tempo foi passando.
Pra ser sincera eu não faço a mínima ideia de como eu supostamente sai dessa. E pra falar a verdade, eu acho que eu nunca de fato estarei livre totalmente disso. Essa parte da minha vida marcou catastroficamente minha história. Ela me moldou. Me fez acreditar em coisas que antes eu não pensava sobre. Não vou ser o tipo de pessoa que fala que está tudo bem e que agora eu sou outra, com uma nova vida e etc, porque isso não é verdade. A armadura que eu tinha foi quebrada, despedaçada. Hoje eu choro demais, não me arrumo como antes, não tenho tantos planos, sou absurdamente mais fraca, estou mais sensível, tenho medo que façam algo de ruim comigo, não sei se quero mais relacionamentos, não sei se confio na minha própria família, a verdade é que hoje, eu não sei lidar. Eu vivo num constante medo de que qualquer evento desencadeie uma nova crise e eu fique como antes.
Eu quero e preciso tanto que as pessoas entrem em mim, me visitem, me entendam, me estudem, me notem, pra que elas possam ver tudo que eu passei me deixou assim.
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