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23 Vinte e três


'Jane, nós podemos ir assistir Cabaret, o musical, amanhã a noite?' Maura tinha perguntado na noite anterior, os olhos brilhando em expectativa. Jane trabalharia no dia seguinte e ela tinha certeza de que a apresentação não terminaria cedo. Mas Maura sorriu para ela, e droga, quando uma pontada de decepção surgiu em seu rosto por conta de sua hesitação em dizer sim, Jane jogou tudo para o alto e quis que o resto do mundo se danasse.

'Nós podemos, com certeza.' A morena disse, então.

'Oh!' Maura arfou e juntou as mãos no peito.

Aquilo certamente significava algo para ela. Jane tinha aprendido que a loira gostava desse tipo de coisa: musical, ópera, balé. Desde sua visita ao Melvin ela andava mais espontânea, atrevendo se arriscar mais com as pessoas e lugares. Jane jamais desencorajaria ela. Era por isso que agora estavam ali, Boston Opera House, sentadas nas poltronas designadas para elas. Jane nunca assistiria uma peça por escolha própria, ela preferiria um jogo do Red Sox, com certeza. Aquilo era tão entediante que, cansada como estava, poderia dormir ali mesmo no meio da coisa. Acontece que quando o espetáculo chegou na metade, Maura se inclinou e enconstou a cabeça em seu ombro. Primeiro ela pensou que a loira fosse lhe dizer algo, então virou a cabeça para ela. Mas Maura continuava ali, os olhos atentos na peça e os de Jane atentos nela. Quando se deu conta de que a mulher ficaria ali, ela não hesitou em passar o braço em torno de sua cintura. Era a primeira vez que abraçava Maura assim, em público, e a primeira vez que um abraço não tinha sido oferecido por consolo. Era apenas porque ela queria. Quando Maura se ajeitou em seu braço, Jane prendeu a respiração.

Mas foi apenas quando a mão de Maura descançou sobre sua barriga que ela achou que nunca mais respiraria normalmente de novo.

...

Mais uma semana tinha se passado e elas precisaram se reajustar a nova mudança. Jane não gostava da idéia de Maura passar o dia todo sozinha, então ela procurava sempre almoçar em casa quando possível, ou quando não, Angela passava para fazer uma visita. Além disso, a loira tinha decidido ir até o hospital em que trabalhava para colocar, formalmente, seu cargo como chefe de lado. Jane disse que ela estava sendo precipitada, que ela deveria esperar mais um tempo, indicar alguém que pudesse cobrir seu trabalho por enquanto. Maura, decidida, disse que não o faria. Ela não queria mais o cargo, não queria mais trabalhar no hospital. Não fazia mais sentido nenhum para ela, foi o que disse, porque ela tinha escolhido medicina para ajudar as pessoas, e sendo chefe ela lidava mais com burocracia e papelada do que cirurgias. Ela não ia mudar de idéia, então foi o que fizeram.

Ela estava, agora, oficialmente desempregada — ainda que por pouco tempo, Jane mencionou para ela, considerando o currículo impecável que tinha.

É claro que também que o fato de Jane ter voltado ao trabalho refletiu em Maura. Primeiro porque passara a ficar mais tempo sozinha do que antes e, embora tentasse preencher com livros e leituras e artigos, ela não estava particularmente feliz. Segundo que, com a ida e vinda todo dia do trabalho e seu contato com as pessoas, Jane trazia para casa vírus e bactérias. O que acabou atingindo Maura também, e com o sistema imunológico melhor, mas não totalmente reforçado, ela acabou adoecendo. Jane se sentia horrivelmente culpada, principalmente porque dessa vez Maura não escondia a infelicidade de estar gripada e choramingava por tudo.

Tudo.

Jane tentou ser paciente ao máximo. Ela disse para si mesma que o fato de Maura ter renunciado ao cargo no hospital estava afetando seu humor, talvez ela estivesse lidando com isso, tentando descobrir quem ela era já que não era mais a chefe do hospital. Talvez fosse só mesmo a doença. Talvez fosse o fato de que o jantar de ação de graças estava chegando — dentro de dois dias — e ela se sentia um pouco intimidada por ele. Talvez fosse tudo isso. O fato era que Maura nem sequer se esforçava para parecer menos miserável. Quando a febre surgiu, ela entregou o jogo. Apareceu na porta do quarto da morena — Jane tinha acabado de tomar banho e estava sentada na cama, lendo um email importante sobre o caso.

'Eu não me sinto bem.' Ela disse e quando Jane abriu bem os olhos, ela tomou a liberdade para se sentar ao lado dela na cama.

'Oh, Maura, você logo melhora.' Jane disse e passou o braço em sua cintura se sentindo mal por ela. Abraçá-la tinha quase sido um erro porque Jane precisava terminar de ler aquele email, mas Maura não sairia dali. Seu corpo quente continuava pesando sobre o dela e, sem saída, a morena teve que fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

'O que é isso?' Maura perguntou, sua voz fraca e engraçada por conta do nariz trancado.

'Anda lendo meu email, senhorita Isles? Isso é crime federal.' Ela brincou e a loira apenas deu de ombros. 'Apenas trabalho. Um caso que estamos revisando.' Ela respondeu finalmente e quando Maura não manifestou nenhuma reação, ela depositou um beijo em sua cabeça. 'Por que você não deita aqui na cama um pouquinho? Dormir vai te fazer bem.'

'Não.' Ela murmurou, e oh meu Deus, ela parecia estar tão magoada pela sugestão de Jane que era como se a morena tivesse pedido para que se mudasse de lá.

'Ok, ok.' Ela disse e não insistiu mais. Engraçado era que dez minutos depois ela estava praticamente desmaiada em cima de Jane.

A morena revirou os olhos e tentou deitá-la com cuidado na cama. Em vão. Ela não tinha espaço suficiente para isso. 'Maura?' Ela chamou e quando a mulher se remexeu ela continuou. 'Você pode deslizar para baixo um pouquinho?'

Ela concordou com a cabeça, mas em vez de se deitar na cama e deixar Jane livre, acabou apoiando a cabeça em suas coxas. 'Ótimo.' Jane murmurou com sarcasmo, colocando o laptop do outro lado. 'Essa vai ser uma noite longa.' E ela quase riu quando Maura concordou com a cabeça, sem sequer ter entendido o que foi dito.

No dia seguinte, Jane cogitou tirar meio dia de folga. Cogitou porque não sabia se queria realmente ir para casa mais cedo. Ela estava meio que envergonhada. Apenas um pouco. Isso tudo porque na noite anterior nenhuma delas dormira direito. Jane acordou suando no meio da noite por conta do calor de Maura no seu corpo mais o calor das cobertas. Ela se sentara na cama e cogitara dormir na de Maura, mas então ela olhou para a mulher e... ela simplesmente não conseguiu deixá-la ali, sozinha. Ela afastou as cobertas e deitou-se de novo, então, porque se aquela gripe não matasse as duas, o calor certamente iria. Na parte da manhã quando ela se levantou para ir ao trabalho, ela tomou um banho e voltou para checar Maura na cama, ela ainda estava dormindo, mas foi só Jane ajeitar a coberta em torno dela que ela abriu os olhos e resmungou algo.

'Shh.' Jane disse.

'Fica mais um pouco?' A outra pediu, a voz carregada pelo sono.

Jane checou o relógio. Ela tinha que sair de casa dentro de, no máximo, trinta minutos se não quisesse chegar atrasada. 'Okay.' Ela respondeu e deitou-se na cama de frente para a loira. O que ela não estava esperando era que Maura fosse, mais uma vez, se encolher contra ela. Se em partes Jane estava contente por isso, em outras ela estava preocupada. Ela acaricou as costas da outra tentando niná-la ao sono, mas cinco minutos depois ela soube que não iria adiantar.

'O que tá acontecendo, Maur?' Maur, se ela fosse mais carinhosa do que isso ela não sabia aonde iria parar. Para seu crédito, a outra pareceu não se importar com o apelido.

'Eu não sei.' Ela mumurou e a respiração saiu tremida. Jane não precisava estudar seu rosto para saber que ela estava prestes a chorar.

'Ei...' A morena disse, apertando-a num abraço. 'Isso tem algo a ver com você renunciar o cargo no hospital?' Ela tentou.

'Talvez.'

Jane suspirou. Maura também era teimosa, ela descobriu. 'Muita coisa aconteceu com você, Maura. É normal que você se sinta assim, em vários aspectos da sua vida. Você começa a questionar tudo, e tudo bem mudar se é isso que você for descobrir te fazer melhor.'

'Você acha que... eu me transformei naquelas pessoas que desistem de tudo?' Ela murmurou, apertando a mão na cintura de Jane.

'Por Deus, não! Do que você tá falando? Claro que não, Maura! Se tem alguém que tá lidando da melhor forma possível depois de passar por um trauma, esse alguém é você. Só porque você quer deixar de trabalhar em uma posição não significa que você está desinteressada na sua vida.'

'Hm...' Ela disse, simplesmente.

Jane beijou demoradamente sua cabeça. 'Não sei que tipo de vírus é esse, mas não passe para mim. Eu não quero ficar choramingando assim também.' Ela riu de leve quando ouviu Maura estalar a língua em reprovação. 'Eu preciso ir em alguns minutos.' Ela lembrou a loira.

E então ela congelou. Maura tinha deslizado a mão em suas costas, por dentro de sua camiseta. Os dedos pararam ali, entre sua cintura e o colchão, como se segurando-a perto de si. Sua barriga contorceu de um jeito delicioso e era por isso que Jane estava tão envergonhada agora. Ela não deveria ter sentido aquilo. Oh, Deus. Ela não deveria mesmo ter permitido aquela sensação que ela bem conhecia. Uma vez já culpada, ela se castigou mentalmente e ficou com Maura até que ela dormisse de novo — Frost iria matá-la porque eles tinham combinado de malhar logo cedo, mas o que Jane poderia fazer? Ela nem sequer pedira para Maura fazer aquilo. Merda.

Uma vez na delagacia, quando as horas começaram a se esticar e o trabalho com a papelada chegar ao final, ela questionava se deveria mesmo encerrar o dia de trabalho mais cedo e encarar Maura em casa. Bem, a loira não podia saber o que ela estava sentindo, certo? Quer dizer, se tinha alguém para se sentir ultrapassando os limites, aquele alguém era Maura. Jane se decidiu e avisou Cavannaugh que voltaria logo depois do feriado. Ela jurou para si mesma que quando chegasse em casa, a partir de agora, manteria a distância da outra. Só que ela sabia que o que estava acontecendo ali, era muito mais do que a mão de Maura em suas costas.

Era o vazio que a mulher tinha preenchido, sem ao menos pedir por esse papel. Droga, ela estava tão acostumada a viver sozinha, chegar em casa e beber sua cerveja, ligar a televisão apenas para ouvir o barulho enquanto cozinhava algo prático e sem graça. Ela tinha todas as vantagens de morar sozinha. Poderia acordar e ligar o som alto se quisesse. Andar sem roupas pela casa. Passar dias sem comprar comida e se alimentar só de tranqueiras. Não se preocupar em limpar a casa tão regularmente e ser bagunceira. Mas não agora. Agora tinha Maura, e era sempre nela que a morena pensava. Se antes ela poderia resumir em: chegar em casa, abrir uma cerveja e comer azeitonas com ketchup como jantar, agora ela pensava que quando chegasse em casa teria que se certificar de ter algo decente para oferecer a Maura, ou então — isso ela amava — a própria loira tinha cozinhado algo. Elas iriam assistir TV juntas ou apenas conversar. E Jane gostava mais da situação presente do que sua vida antes da chegada da loira.

O que tinha de mal, então, em assumir que ela realmente gostava daquilo? Quer dizer, a própria Maura também gostava, certo? Exceto pela parte de que... Bem, talvez elas estivessem ultrapassando alguma linha?

Ok, ela iria parar de pensar nisso porque não estava chegando a lugar nenhum, de qualquer forma. Matenha a distância, pelo menos por enquanto. Ela disse para si mesma, mas quando entrou em sua casa e viu Maura sentada no sofá, encolhida numa coberta e olhando para ela, primeiro em surpresa e depois em puro contentamento, a razão pareceu ficar do outro lado da porta.

'Oi, Maura.' Ela disse um tanto quanto animada e fechou a porta atrás de si. Se desfez do casaco, da arma e sapatos.

'Almoçando mais tarde hoje?' A loira perguntou, sabendo que era o que acontecia quando Jane entrava mais tarde no trabalho, ou então quando ela tinha algo para fazer no horário do almoço e o adiava para mais tarde.

'Oh, não.' Ela disse. 'Eu saí mais cedo hoje.' Ela se sentou no sofá bem ao lado da outra. 'O que estamos assistindo?'

'Discovery Channel.' Maura disse e deu de ombros.

'Eu não sei porque ainda pergunto.' Jane murmurou mais para si do que para Maura, sabendo muito bem o gosto dela por programas. Ela se virou para a outra e levou a mão na sua bochecha. 'Você parece melhor.'

'Eu não me sinto melhor.' Ela resmungou, fazendo um bico em pensamento. Ela virou o rosto para a morena e delicadamente segurou sua mão, de repente se sentindo culpada. 'Jane, obrigada por hoje cedo. Eu sei que eu só tenho reclamado e... estou demandando mais atenção do que necessário.'

Oh, Deus. Ela parecia tão constrangida dizendo isso que Jane só queria abraçá-la e dizer que não, tudo bem ela pedir atenção o quanto quisesse. Em vez disso, ela balançou a cabeça em não e sorriu. 'Todo mundo tem uns dias assim, Maura. Vamos animar você um pouquinho. Que tal se...' Ela estreitou os olhos considerando a idéia. 'Formos na casa da minha mãe? É o melhor dia para ter uma amostra grátis do jantar de amanhã. Sério, ela deve tá cozinhando todos os pratos hoje.'

'O que significa que eles devem ficar inteiros para amanhã, eu presumo.' Maura arqueou uma sobrancelha para ela, séria.

'Você não conhece minha mãe. Ela vai ficar tão feliz em ver a gente lá que nem vai se importar em cozinhar em dobro.' Ela se levantou e estendeu as mãos para incentivar a outra a fazer o mesmo. 'Nós ainda podemos passar no mercado e comprar uns ingredientes e pedir para ela preparar um prato para a gente.'

'Jane, algumas pessoas chamariam isso de abuso.' Maura balançou a cabeça em reprovação.

'Eu diria que é apenas esperteza.' Ela piscou o olho para a loira e abriu a boca em exclamação quando a outra se levantou. 'Você ainda está de pijamas?'

'Eu estou doente!' Ela se defendeu, jogando a mão ao lado do corpo.

'Cinco minutos para trocar de roupa, vai!' Jane disse e a outra revirou os olhos.

O que Jane não sabia, entretanto, é que sua própria escolha em passar no mercado com Maura seria a via para o segundo motivo para se sentir envergonhada naquele mesmo dia.

Maura nunca tinha sido abordada na rua por alguém antes, nem mesmo por um repórter. Isso porque Jane sempre se certificara de que ninguém chegasse perto dela. Jane nunca fora amigável com repórter algum, e menos ainda depois do episódio de Hoyt que dera um novo sentido para a palavra assédio. Ela os odiava com seu próprio ser. Quando era cercada por alguns deles, ela sempre dava respostas curtas, de cara fechada e apenas quando era realmente necessário para o caso que estava trabalhando. Sua reputação era conhecida até mesmo entre eles, logo, quando Maura era vista com ela, sempre havia uma hesitação grande em alcançá-las.

Naquela tarde no mercado, entretanto, aconteceu. Para o prazer e desconforto de Jane. As duas finalizaram as compras e andavam de volta para o carro de Jane, Maura perguntando pela milésima vez se ela tinha certeza que Angela não se importaria com a visita delas.

'Maura, acredite em mim, ela vai querer criar no calendário um evento todo ano por causa disso. A primeira vez que Maura e Jane vieram me visitar.' Jane resmungou.

'Isso é exagero.' Maura rebateu.

'Ok, certo.' Jane não deu muita importância. Ela abriu a porta traseira do carro e começou a colocar as sacola lá. 'Farinha, leite, frango. Cadê os ovos?'

'Você estava com eles.' A loira disse, passando a última sacola em suas mãos.

'Não. Você estava com eles.' Jane espremeu os olhos para ela.

'Eu não tenho mais nada nas mãos, Jane.'

A morena revirou os olhos e se virou, já começando a andar. 'Ok, eu volto lá para pegar. Deve ter ficado no caixa.'

'Tudo bem.' Maura respondeu atrás de si, acabando de organizar as compras no banco do carro.

Jane riu consigo mesma sobre o mal-humor de Maura. Ela sempre era doce e educada, mas agora que estava doente parecia que ela simplesmente não conseguia evitar fazer caras e bocas. Jane agarrou a sacola com os ovos (a mulher do caixa disse que tentou chamá-la de volta antes que saísse da loja, mas ela provavelmente não ouviu porque Maura estava lhe dizendo que era de extrema importância avisar alguém quando se estava planejando visitar essa pessoa, e 'você se certificou de avisar tua mãe?' ela perguntara e Jane jurou que sim, de dedos cruzados) e então saiu depois de agradecer.

Voltando os pensamentos para o que Maura tinha dito, ela se perguntou se era isso que a loira fazia quando visitava os pais. Eles eram assim tão formais? Precisavam combinar uma data para se verem? Bem, ela vai aprender um pouco sobre espontaneidade, pensou Jane. Quando cruzou a pista para alcançar a faixa que estacionara o carro.

O que ela viu parada junto à figura de Maura fervou seu sangue. Kitty. Aquela maldita jornalista que não perdia uma oportunidade para alfinetá-la, colocar palavras em sua boca, enfiá-la no foco das câmeras mesmo quando Jane a alertava para que não o fizesse. E agora ela estava lá, encurralando Maura, bloqueando a porta do passageiro impedindo que a loira entrasse no carro e ignorasse sua presença. Ela estava gesticulando enquanto Maura balançava a cabeça urgentemente em não.

'Eu já disse que não tenho nada a comentar sobre isso.' Jane ouviu Maura dizer, e com determinação andou mais rápido e como se surgindo do nada, materializou-se na frente de Kitty. Oh, sim. De cabelos castanho claro, lábios rosados e maquiagem leve. O olhar que parecia de águia agora se estreitou ao se dar conta de quem mais estava ali.

'Qual é a pergunta? Como ser uma vadia em três passos? Acho que você sabe bem responder isso, não sabe?' Jane disparou para ela, passando imediatamente a sacola para as mãos de Maura.

'Rizzoli. É sempre um prazer vê-la.' Ela disse com um sorriso, embora seus olhos entregassem o quão cínica estava sendo. 'Como estão suas mãos?' Ela alfinetou.

Jane esperava por isso, então manteve-se sobre controle. Oh, ela era tão previsível em suas insinuações. 'Ótimas, já estou atirando nas pessoas de novo.'

'Se você não se importa,' a outra começou, mas Jane a interrompeu.

'Me importo. Você sabe, eu e a Doutora Isles aqui temos planos para essa tarde. Então, se você não se importa...' Ela indicou com a mão para que a outra continuasse andando, mas foi ignorada.

'Oh, vocês são amigas? Eu não sabia disso. Você estava trabalhando no caso dela? Como foi lidar com o caso tento um relacionamento pessoal com uma das vítimas?' Ela olhou de Maura para Jane, esperando honestamente uma resposta.

A morena inclinou-se para frente e apontou o indicador para a outra, sua paciência diminuindo com o passar do tempo, a insistência e insolência vindas daquela mulher que por meses a atormentara. 'Escuta aqui. Vamos deixar algo bem claro. Você não chega perto de mim e nem dela outra vez. Você passou do limite do aceitável, Kitty. Você não vai infernizar Maura do mesmo jeito que fez comigo.'

'Vocês duas são figuras públicas no momento, eu apenas faço meu trabalho em relatar sobre vocês para quem interessa ver ou ler.' Ela rebateu, desvencilhou-se de Jane em direção à Maura. O foco dela deixara de estar em Rizzoli, a detetive, para estar agora em Maura Isles, a vítima. Pouco lhe importava a presença da morena ali, por mais ameaçadora que ela soasse, porque não havia nada que ela pudesse fazer para impedi-la.

'Como foi saber sobre Kimberly? Te trouxe algum conforto saber que tem alguém que passou pelo mesmo trauma que você? Você a visitou ou entrou em contato com ela? Eu soube que ela teve uma parada cardíaca.' Ela ergueu o celular entre ela e a loira, encarando-a sem nem mesmo piscar.

'Você acabou de dizer conforto?' Jane perguntou, desacreditada. 'E você tá gravando isso no teu celular?' Sua voz aumentou consideravelmente, e ela sabia que se não saísse dali logo acabaria discutindo com a mulher. Ela segurou a mão de Maura e puxou-a delicadamente para seu lado, abrindo a porta do passageiro em seguida. Kitty continuava dizendo que Maura sabia sobre a gravação, mas Jane não estava mais pensando logicamente. Num movimento rápido ela tirou o aparelho da mão da outra, e o que aconteceu em seguida foi uma reação de eventos desencadeado por conta disso. Kitty tentou recuperar o aparelho de volta, e quando falhou, acabou por dar um empurrão no ombro de Jane.

'Isso é meu! E você não tem o direito -' A frase morreu com uma arfada, porque a morena tinha segurado seu punho, torcendo o braço para trás de suas costas. Ela empurrou o corpo da mulher contra o carro e facilmente deletou a gravação. Enquanto a outra atacava-lhe com palavras, Jane usou o braço para contê-la, pressionando ainda mais forte contra ela. Era a brecha que ela queria. Aquela mulher tinha acabado desacatar um policial. Ela poderia ser presa por isso. E oh, como Jane adoraria fazer isso agora.

'Sabe o que daria uma boa matéria, Kitty? Jornalista é presa por desacato à autoridade. Soa bem para você?' Jane colocou o celular da outra em cima do capô do carro, e inclinou-se para perto dela. 'É uma com o teu nome que eu amaria ler.'

'Você tirou algo que me pertencia à força!' Ela argumentou. 'Você começou isso. Eu vou denunciar você, Rizzoli!'

Jane riu, divertida. 'Certo.' Ela soltou a outra, ergueu as sobrancelhas e indicou com as mãos como se dissesse você está livre agora. 'Tenho certeza que cada policial dessa cidade ama você. Conte o que aconteceu aqui e me poupe o trabalho de perder meu dia para levar você para a delegacia.' Ela deu um passo para frente e dessa vez a outra recuou.

'Jane.' Maura murmurou, a voz fraca dividida por apelo e medo.

A morena primeiro olhou a outra se afastar, lançando-lhe olhares que dizia que aquilo entre elas não estava acabado, e só então decidiu que era hora de dar atenção para Maura. Ela suspirou, o ar expirado carregando para fora sua irritação. 'Que filha da puta.' Ela resmungou, suas sobrancelhas ainda juntas só que agora em preocupação.

Maura parecia aterrorizada.

'Foi minha culpa deixar você aqui. Eu deveria ter esperado você entrar no carro ou vir comigo. Eu vou me certificar de que isso não aconteça mais, Maur.' Ela apontou um dedo para a direção que Kitty tinha andado.

'Não.' Maura disse. 'Você não precisava... Por que você fez isso?' Maura divagou, os olhos assustados estudando ela.

'Maura, ela iria arrancar tudo de você. Você viu o quão insolente ela foi. Ela se alimenta dos medos e desgraça alheia, Maura, e a comida dela agora é tua história, o que aconteceu com você.' Jane se alterou um pouco, a mera menção da outra lhe irritava profundamente, e o fato de que ela tinha acabado de assediar Maura com perguntas petulantes apesar de ser advertida para não fazê-las, lhe tirava do sério.

'Isso foi necessário?' Ela apontou o dedo para o carro, esclarecendo que queria dizer sobre a morena a empurrar contra ele.

Jane entendeu, então, porque Maura parecia tão assustada. Tinha sido uma cena de violância, ainda que não fosse de grau elevado. Ela sentiu a boca seca e os lábios se moveram para dizer algo, mas ela simplesmente não sabia o que. Ela tinha agido por impulso, guiada pela raiva e nem sequer tinha imaginado que aquela reação atingiria Maura. E eu estava tentando defendê-la. Um casal passou por elas, observando-as, provavelmente curiosos pela situação. Ela suspirou frustrada e indicou com a cabeça a porta do carro.

'Vamos continuar e sair daqui. Esse não é o lugar para essa conversa.' Ela sugeriu e Maura apenas se virou e fez o que foi dito, sem nem mesmo concordar com a cabeça.

O trageto até a casa da mãe de Jane foi silencioso. Jane tinha se explicado, tinha dito que tinha agido por impulso e que estava tentando poupá-la do incômodo de ter alguém lhe alfinetando o tempo todo. Maura apenas concordou com a cabeça, mas não disse nada. Se houve compreensão ali, ela não se manifestou realmente. O clima pesado entre elas tinha sumido — talvez dissipado — quando Angela abriu os braços para Maura e a colocou num abraço acolhedor. Com a presença de uma terceira pessoa ali, elas pareceram colocar de lado o que tinha acontecido minutos atrás. Vez ou outra elas trocavam olhares que não duravam mais do que dois segundos. Ás vezes Maura parecia ofendida, ou triste, ou decepcionada. Jane tinha certeza que os olhares dela sempre se mostravam culpados, porque era assim que ela se sentia. Com o desenrolar da tarde e cair da noite, Angela e Maura passaram a maior parte do tempo juntas, cozinhando. A morena tinha desistido de ajudá-las uma hora depois, sentando-se no sofá, tomando cerveja e assistindo qualquer coisa na tv. Ela eventualmente escutava a risada contida de Maura, checava para saber sobre o que tanto murmuravam. A morena tinha se surpreendido com Angela — ela parecia, de fato, saber como lidar com a loira e tudo o que acontecera com ela. 'É porque eu sou mãe!' Angela exclamara uma vez quando Jane comentou sobre como Maura parecia se sentir confortável com sua presença. Talvez fosse isso, talvez fosse porque a loira via Angela como uma amiga, de uma forma ou de outra, estava funcionando.

Quando o relógio marcou oito da noite, Jane concluíra que era melhor que pegassem a estrada. Havia previsão de neve para a próxima hora e...

'Não seja boba, Jane!' Angela exclamou. 'Já tá nevando faz meia hora, você saberia disso se não tivesse passado tempo tanto assistindo TV e de fato olhasse lá para fora.'

A morena revirou os olhos e colocou a garrafa vazia de cerveja em cima da mesa. 'Bem, é melhor a gente ir nesse exato minuto, então. Antes que a neve se acumule mais nas ruas.'

'E por que vocês não ficam aqui? Sou só eu em casa essa noite. Temos quartos para vocês duas.' A mais velha sugeriu.

'Eu não sei, mãe...' Jane lançou um olhar para Maura, que abaixou os olhos e terminou de secar as mãos no guardanapo.

'Maura, diga para essa teimosa ficar. Você ficaria, não é?' Angela perguntou com expectativa e esperança, e quando a loira balançou a cabeça em sim — sem pedir a aprovação de Jane — ela deu um gritinho de alegria. 'Perfeito! Isso significa que podemos passar o dia inteiro de amanhã juntas outra vez!'

'Perfeito.' Jane sorriu com sarcasmo para a mãe, sendo recompensada com o guardanapo lhe atingindo o ombro.

'Comporte-se, Jane.' Ela repreendeu. 'Eu vou mostrar o quarto para Maura. Ela vai dormir onde você dormia.' Angela anunciou empolgada, segurou a mão da outra para guiá-la.

'E onde eu vou dormir, mãe?' Jane ergueu uma sobrancelha para ela.

'Tenho certeza que você encontra um lugar.' Angela rebateu irritada, como se a pergunta de Jane implicasse que Maura não pudesse dormir em seu quarto, o que era inadmissível para Angela.

A morena abriu um sorriso em provocação, Angela decidiu ignorá-la e levar Maura para o quarto que seria seu, naquela noite. Tudo arrumado, as três dividiram um chocolate quente antes de irem dormir. Maura então pediu licença porque gostaria de tomar um banho — Angela já tinha separado um pijama para ela — e Jane decidiu que esparia pela loira no quarto para que pudessem se falar antes de dormirem.

Quando Maura entrou no quarto de banho tomado e cheirando a sabonete, Jane estava sentada na cama — que uma vez tinha sido sua — brincando com uma bola de baseball nas mãos.

'Ei.' Ela disse, se levantando e devolvendo o objeto em cima da cômoda.

'Ei.' Maura a imitou, ainda parecendo chateada. Ela passou os olhos pelo quarto que lhe era novo, estudou as paredes de um azul marinho, um cartaz do Red Sox pendurado em uma parede oposta à da cama, um boné do mesmo time em cima da cômoda ao lado da bola. 'Eu imaginei seu quarto diferente.' Ela murmurou. 'Quer dizer, ainda com um cartaz como esse, mas diferente.'

Jane abriu um sorriso, segurou sua mão e a instigou para que andasse até a janela. De lá elas duas podiam ver um campo aberto, pequenas arquibancadas em volta. Dois postes estavam acesos, a luz dourada colorindo o espaço para a dança da neve branca. Elas assistiram por um momento, e então Jane falou, 'eu costumava brincar ali, com meus irmãos.'

Maura encarou-a e meneu a cabeça, escutando.

'Toda vizinhança brincava ali. Não só de baseball, você sabe.' Ela continuou, a memória borbulhando com momentos bons vividos ali. Ela sorriu inconscientemente e depois balançou a cabeça, se livrando delas. Ela deveria se desculpar com Maura; a loira era quem merecia toda atenção ali.

'Kitty...' Ela murmurou e os olhos de Maura lançaram-se para ela. 'Ela me tira do sério como ninguém mais o faz. Foi todo esse negócio com Hoyt, e... algo que ela publicou sobre ele, alegando que ele talvez não fosse mentalmente saudável. Como se querendo justificar o que ele fez.' Jane disse tudo em voz baixa, como se as palavras ditas muito alto pudessem voltar contra si e machucá-la. 'Ele é um monstro. Não há... Não há nada que justifique o que ele fez.'

'Então ela apareceu e você perdeu a cabeça.' Maura concluiu por ela.

Ela concordou com um menear de cabeça e acrescentou, 'e eu sei que, apesar de ela ter me tocado, eu sei que pode ter sido exagero. Eu não queria ter te assustado, eu sinto muito.' Ela abaixou a cabeça em vergonha, as mãos abrindo e fechando por se sentir desconfortável.

Maura não disse nada por longos segundos. Jane interpretou isso como uma negativa, então ela lambeu os lábios e disse por fim, 'eu preciso ir...'

'Jane, espera.' A outra disse suavemente, segurando em sua mão com força. Os olhos perdidos da morena se encontraram com os suplicantes de Maura, e então, 'você fica comigo, aqui?'

'Claro.' Ela disse sem pensar e sorriu imediatamente, mesmo sabendo que parecia uma tola. É só ela estalar os dedos e você abana seu rabo, Rizzoli.

Maura foi a primeira a se deitar, e então Jane. A loira estava, desse modo, abrigada entre a parede e o corpo da morena. Depois de puxarem a coberta para cima delas, Jane se virou de frente para ela, passando o braço por baixo de sua cabeça como sempre fazia quando dormiam juntas. A mão livre pousou sobre a bochecha rosada para sentir sua temperatura.

'Você não está mais com febre.' Ela comentou, as pontas dos dedos acariciando a pele macia.

'Não, mas meu corpo ainda dói um pouco.' Ela disse baixinho.

'Você quer tomar uma dose de Tylenol? Vai te ajudar a dormir melhor.'

Ela balançou a cabeça em não. 'Você aqui me ajuda a dormir bem.'

Jane sabia o que isso significava. Maura passara a ter menos e menos pesadelos, e quando a morena dormia com ela, eles nunca apareciam. Era como se Maura soubesse, inconscientemente, de que Jane estava ali, protegendo-a. E ela se sentiu mal, mais uma vez, por fazer Maura pensar que a força que tinha poderia, quem sabe, ser usada contra ela. Oh, Rizzoli, sua imbecil. Ela estava com medo de mim. Jane calculou e abriu bem os olhos, surpresa com o próprio pensamento. É por isso que Maura tinha permanecido tão quieta — ela não queria discordar com Jane, repreendê-la, justamente porque não queria irritá-la ainda mais e correr o risco de ser alvo de um de seus ataques de raiva.

Droga, Maura. Tão frágil, ainda tão indefesa. Jane se castigou de novo e de novo por conta do erro que cometera. Ela apertou a mulher nos braços, a mão segurando sua cabeça como que em proteção.

'Maur?' Ela chamou baixinho.

'Hm?' A loira levantou os olhos verdes para ela, cansados e curiosos.

'Eu nunca, jamais, te machucaria. É importante que você saiba disso.' Ela acariciou a cabeça da outra, o olhar segurando o de Maura. 'Ok?'

'Ok.' Ela murmurou.

'Diga. Porque eu preciso saber que você escutou.' Jane pediu.

Maura laçou sua cintura e fez de novo aquilo: deslizou seus dedos pelas costas de Jane, até que encontrou conforto entre sua pele e a camiseta pressionadas pelo colchão. 'Você nunca, jamais, me machucaria.' Ela disse então.

'Exatamente.' Ela beijou a testa de Maura, e a outra se encolheu em seus braços.

'Você cuida.' Maura murmurou, o som abafado porque as palavras encontraram-se com o peito de Jane.

'Eu cuido.' Ela confirmou, sentindo o coração bater mais rápido. Eu cuido de você, ela pensou, e meu coração estúpido acha que é motivo para celebrar o fato de eu poder te segurar assim, tão perto dele.