O cheiro veio antes de qualquer outra coisa.

Arroz recém-feito. Molho de soja. Algo doce — talvez anko*.

Kagome fechou os olhos por um segundo quando seus pés tocaram o fundo do poço. Era estranho como aquilo ainda funcionava. Ou talvez… Como voltara a funcionar.

— Kagome…?

A voz veio atrás dela, desconfiada.

Ela abriu os olhos e virou o rosto. Inuyasha estava dentro do poço com ela, olhando ao redor como se esperasse que aquilo desaparecesse a qualquer momento.

— Estamos… — ele começou — No seu mundo mesmo?

Kagome sorriu.

— Estamos.

Ele fez uma careta leve, cruzando os braços.

— Keh… Dá pra perceber pelo cheiro estranho.

— É comida.

— Eu sei disso!

Ela riu.

— Então para de reclamar.

Ele pulou para fora do poço logo depois de Kagome, pousando ao lado dela com leveza. Os olhos dele percorreram o templo com atenção — o poço, as árvores, o céu… Como se estivesse conferindo se tudo ainda era o mesmo.

— Então… — ele murmurou — Você realmente consegue abrir isso quando quer?

Kagome hesitou.

— Eu… Acho que sim.

— “Acha”?

— Inuyasha, eu não tenho um manual para isso!

Ele bufou.

— Keh. Então você entrou, desejou voltar… E pronto?

— Não foi tão simples assim — ela respondeu, cruzando os braços. — Eu precisei querer muito.

— Hmm.

Ele olhou de volta para o poço.

— E agora?

Kagome seguiu o olhar dele.

— Agora… Eu não sei.

— Ótimo.

— Ei! — Ela deu um leve empurrão no ombro dele. — Eu trouxe você até aqui, não trouxe?

— Trouxe.

— Então confia em mim.

Ele não respondeu imediatamente, mas não discordou.

— Vamos — Kagome disse, já começando a subir o caminho do templo. — Antes que a minha família apareça por conta própria.

— Tá bom.

— E comporte-se!

— Por quê?

Kagome virou o rosto, encarando ele, que sustentou o olhar, e então... Silêncio.

— Táaa bom... — resmungou Inuyasha.


— KAGOME?!

A porta abriu antes mesmo que ela tivesse tempo de anunciar a própria chegada. Mamãe. Exatamente como Kagome lembrava. Talvez mais emocionada.

— Kagome!!!

Kagome mal teve tempo de reagir e logo foi puxada para um abraço apertado demais.

— M-mãe...!

— Você voltou!! — ela disse, a voz embargada. — Você realmente voltou!!!

Kagome riu, mas meio sem ar.

— Voltei…

— E você está bem?! Está se alimentando direito?? Está dormindo???

— Mãaae…

— E... Inuyasha!!! Você também está de volta!!

Inuyasha piscou, pego de surpresa pela recepção.

— Hmm?

A mãe de Kagome se aproximou sem qualquer cerimônia, segurando o rosto dele com as duas mãos como se estivesse conferindo se ele estava inteiro. Ao menos, não estava mais perguntando se as orelhas de Akita eram reais.

— Você está bem?? Não se machucou; não está com fome; está dormindo direito???

— Keeeh! Eu tô bem!

— Está mais magro!

— Não tô!

Kagome cruzou os braços.

— Está sim, olhando bem.

— Não, eu não tô!!

Souta apareceu atrás, encostado na porta, olhando a cena com um sorriso torto. O queixo de Kagome caiu.

— Você sempre diz isso.

— Sou... ta... — ela deixou escapar, espantada. — Como você... Cresceu...?!

— Como “como você cresceu”? Mana, já faz nove anos! Você não pensou que eu ficaria criança pra sempre... Pensou?

Inuyasha curvou as orelhas para trás.

— Báa, impossível você ser aquele moleque!

Souta cruzou os braços, claramente se divertindo.

— Claro que sou! Enquanto vocês estavam brincando de Japão Feudal, o tempo continuou passando normalmente por aqui.

— “Brincando”?! — Inuyasha retrucou, irritado.

— É brincadeira! — Souta respondeu com um sorriso torto. — Mais ou menos.

Kagome ainda encarava o irmão.

— Nove anos… — ela repetiu, mais baixo, quase para si mesma. — Souta, você... Já deve estar terminando o colegial.

— Sim.

Ele respondeu com um sorriso mais largo e natural, o que a fez sentir orgulho. Mamãe bateu palmas uma vez, como se quisesse reorganizar o momento.

— Certo! Nada disso agora! — disse, animada demais. — Entrem logo! Vocês devem estar cansados da viagem no tempo!

— Eu não tô cansado — murmurou Inuyasha.

— Está sim — Kagome respondeu automaticamente — Mamãe, ele está muito cansado.

— Kagomee, precisa de muito mais pra algo me cansar!

— Está sim. Sem questionamentos.

— Keh!!

Souta riu.

— Algumas coisas realmente não mudam.

...

A mesa foi montada rápido demais.

Ou talvez Kagome só estivesse percebendo tudo com intensidade demais: o cheiro do arroz, o vapor subindo das panelas e tigelas, o som dos pratos sendo colocados um a um. Era tudo igual e completamente diferente.

— Então — começou Vovô, ajeitando-se com uma expressão séria demais para o momento — Como vocês conseguiram voltar?

— O poço não estava fechado? — Souta emendou.

— Kagome, isso não foi perigoso? — Mamãe perguntou, já servindo comida.

— Vocês estão bem lá? — Vovô continuou.

— Estão comendo direito? — Mamãe insistiu.

— Ainda tem muito youkai? — Souta perguntou, curioso demais.

Kagome piscou algumas vezes, tentando acompanhar tudo.

— Eu… Eu acho que o poço responde à minha vontade.

Silêncio.

— “Acha”? — repetiu Vovô.

— Eu sei que não parece muito confiável!

— Pelo contrário! — ele respondeu imediatamente. — Trata-se claramente de um fenômeno espiritual ligado a...

— Vovô.

— À conexão entre eras, ao fluxo do destino...

— Vovô!

Ele parou.

— Exatamente isso!

Souta revirou os olhos. Kagome suspirou.

— Eu só… Quis muito voltar — disse, mais simples dessa vez. — E funcionou.

A mãe dela suavizou o olhar.

— Então você pode ir e voltar quando quiser, é isso?

Kagome hesitou.

— Eu… Não sei.

O clima mudou um pouco.

— Então não dá pra ficar abrindo o poço toda hora… — Souta comentou.

— Provavelmente não — Kagome respondeu.

— Hmm — murmurou Inuyasha, já comendo. — Melhor assim.

— Inuyasha!

— O quê?!

— Isso é importante!

— Eu sei!

— Não parece!

— Keh…

Ele continuou comendo, com muito entusiasmo por sinal, mas estava ouvindo. Kagome sabia.

— E por que só agora vocês resolveram vir? — Mamãe perguntou, mais calma.

Kagome abriu a boca e fechou. Virou o rosto. Inuyasha percebeu e imediatamente ficou rígido.

— Porque... — Kagome começou.

— Keh.

Ele a interrompeu.

Silêncio.

Todos olharam.

Inuyasha não olhava para ninguém.

— Eu vim pra falar uma coisa...

Mamãe inclinou levemente a cabeça.

— Pois então fale.

Ele respirou fundo.

Uma vez.

Duas.

— Eu não entendo bem essas coisas... — disse de uma vez. — Essas regras sociais. Essas formalidades. Isso de vir aqui e falar com todo mundo.

Souta segurou o riso. Kagome chutou ele por baixo da mesa.

— Mas ela entende — Inuyasha continuou.

O tom dele mudou. Agora, estava mais firme.

— E isso importa pra ela.

Kagome ficou imóvel.

— Então… Eu vim por causa disso.

Ele levantou o olhar, direto.

— Eu não sou bom com palavras.

— Isso a gente já percebeu — Souta murmurou.

— Souta!

— O quê?

Inuyasha ignorou completamente, e prosseguiu:

— Mas eu não vou deixar outra pessoa decidir isso por mim.

Vovô piscou, interessado.

— Nem por ela.

O silêncio ficou mais pesado.

— Eu decidi que vou ficar com a Kagome. Pra sempre. — Ele apertou levemente os punhos antes de continuar: — Isso é o que eu escolhi.

Kagome sentiu o coração acelerar.

— E se isso precisa de um pedido… — respirou fundo. — Então, eu tô pedindo.

Agora, ele olhava diretamente para a Mamãe.

— Eu quero me casar com a Kagome.

Silêncio absoluto.

— Vim aqui pedir a permissão de vocês.

Ninguém respondeu imediatamente.

Nem o Vovô.

Nem Souta.

Mamãe apenas… Olhou.

Primeiro para Inuyasha.

Depois para Kagome.

E, então, sorriu.

— Bem, isso demorou um pouco, não?

Inuyasha travou.

— Hãa?

Souta riu alto.

— Finalmente, mana!

— Cala a boca!

Vovô abriu a boca:

— O destino...

— Vovô, não!

Kagome cobriu o rosto com as mãos.

— Mãe...

— O quê? — ela respondeu, rindo. — Nove anos, Kagome! Vocês já estavam apaixonados há mais tempo que isso, não?

— Mãae...

— Pensávamos que vocês já estavam casados e com ao menos dois filhos! Já até imaginávamos como eles deviam se chamar.

Inuyasha ficou completamente vermelho.

— Como é que é?!

Souta já estava rindo, sem nem tentar disfarçar.

— Dois filhos foi até modesto — ele acrescentou. — O vovô já tinha planejado cinco.

Souta!!

— O nome do primeiro já estava decidido! — Vovô entrou, empolgado demais. — Algo que representasse a união entre eras...

Vovô, não!

Kagome praticamente afundou no próprio lugar.

— Eu vou embora… — murmurou, entre os dedos.

— Aah, mas agora é que não vai mesmo! — Mamãe respondeu, tranquila, já servindo mais arroz para Inuyasha. — Primeiro, vocês comem.

Inuyasha ainda parecia travado no mesmo ponto.

— Dois… Filhos…?

— Comam — Kagome disse, sem olhar pra ele.

— Eu não disse que...

Comam.

— Keh…

E ele obedeceu, em silêncio. O que, por si só, já era suspeito.

A conversa continuou, mas mudou de tom. Mais leve, mais solta. Como se algo tivesse finalmente se encaixado no lugar certo.

— Então... Vocês vão ficar aqui por quanto tempo? — Souta perguntou, apoiando o queixo na mão.

Kagome hesitou.

— Eu… Não sei.

Inuyasha levantou o olhar.

— Hmm?

— O poço… — ela continuou — Eu ainda não entendo como funciona agora.

Mamãe franziu levemente o cenho.

— Você não consegue voltar quando quiser?

— Eu consegui vir... — Kagome disse — Mas não sei se consigo ir e voltar várias vezes seguidas, ou quantas vezes.

O silêncio foi rápido, mas perceptível.

— Então vocês não podem abusar disso — Vovô concluiu.

— Provavelmente não — Kagome respondeu.

Inuyasha apoiou o cotovelo na mesa.

— Keh… Melhor não ficar testando.

Kagome olhou de lado.

— Você também não quer ficar preso aqui, quer?

— Não falei isso.

— Mas quis falar.

— Mas não falei!

Souta riu de novo.

— Vocês são exatamente iguais.

Cala a boca! — responderam Kagome e Inuyasha, em uníssono.


Mamãe foi para a cozinha organizar as coisas. Kagome acabou ficando do lado de fora da casa.

O ar da noite era diferente. Mais frio. Mais silencioso. Mais… Conhecido. Ela caminhou alguns passos até o pátio, olhando para o céu. Luzes. Postes. Nada de estrelas como antes. Ou talvez… Só diferentes.

— Keh.

A voz veio atrás dela. Kagome não precisou se virar.

— Você demorou.

— Sua família fala demais.

— Você que falou mais do que todo mundo hoje. — Ela sorriu de leve. — Obrigada.

Inuyasha não respondeu imediatamente. Ele estava ali, com os braços cruzados, evitando olhar diretamente para ela.

— Keh… — murmurou.

Kagome se aproximou um pouco.

— Você fez certinho.

— Eu não fiz nada “certinho”.

— Fez.

Ele bufou.

— Foi irritante.

— Foi.

— Estranho.

— Muito.

— Desnecessário.

— Nem um pouco.

Então Kagome inclinou levemente a cabeça.

— Mas você fez. Estamos oficialmente noivos agora, e eu estou muito feliz.

Inuyasha desviou o olhar.

— Eu disse que ia fazer direito.

Ela sorriu pequeno.

— Disse.

O vento passou entre os dois e, por um instante… Ficou quieto demais.

— Inuyasha…

— Hm?

— Vamos tentar voltar amanhã.

Ele franziu o cenho.

— Amanhã?

— Eu quero entender se o poço funciona de novo… Ou se foi só… — ela hesitou — Uma vez.

Ele olhou para ela com mais atenção agora.

— E se não funcionar?

Kagome não respondeu. Ela olhou de volta para o céu e pensou.

— Então… — disse, por fim — A gente descobre o que fazer depois.

Notas finais
*餡子 "anko" = refere-se principalmente a uma pasta doce tradicional japonesa feita de feijão azuki (vermelho) cozido e adoçado com açúcar ou mel, amplamente utilizada como recheio em doces como mochi, dorayaki, taiyaki e anpan.