O fundo do poço continuava exatamente igual: escuro, velho e silencioso. E completamente imóvel.

Kagome permaneceu parada diante dele por vários segundos, os braços cruzados com força enquanto tentava não demonstrar o quanto aquilo começava a incomodá-la.

Inuyasha estava agachado na beirada, encarando o interior do poço como se pudesse intimidá-lo até funcionar.

— ...Nada.

Kagome respirou fundo.

— É, eu percebi.

— Keh...

Ele pegou uma pequena pedra solta perto dos pés e a jogou lá dentro. O som seco ecoou alguns segundos depois.

Nada aconteceu.

Nenhuma luz. Nenhum brilho. Nenhuma sensação estranha puxando o corpo.

Só um poço.

O silêncio começou a ficar desconfortável. O vento da tarde atravessou o templo devagar, balançando as folhas das árvores ao redor, mas Kagome sentia como se o ar tivesse ficado pesado demais desde a terceira tentativa frustrada.

Ela tentou racionalizar. Talvez precisasse esperar. Talvez existisse um intervalo. Talvez ela precisasse estar emocionalmente preparada do mesmo jeito que antes. Talvez...

— Kagome.

Ela ergueu o rosto.

Inuyasha ainda encarava o poço.

— ...Você consegue abrir isso de novo, né?

A pergunta saiu casual demais. Quase despretensiosa. Mas Kagome conhecia ele bem demais para saber que aquilo era preocupação. Ela tentou sorrir.

— Claro que consigo.

— “Claro” como?

— Inuyasha...

— Você disse “acho” da primeira vez também.

Kagome sentiu um pequeno aperto no estômago. Porque ele estava certo. Na primeira vez, ela realmente não tinha certeza de nada, só sentira a vontade desesperada de voltar, e então o poço respondera. Agora, porém...

Ela estava ali. Com ele. No seu mundo. Feliz. Talvez feliz demais. Será que era justamente esse o problema? O pensamento atravessou sua cabeça tão rápido que Kagome imediatamente o afastou. Não... Não podia ser isso. Ela se aproximou outra vez da beirada do poço, respirando fundo antes de fechar os olhos.

Era só repetir.

Sentir.

Pensar na era feudal.

Kaede-obaa-chan.

Shippo.

Sango-chan.

Miroku-san.

A vila.

O cheiro da floresta depois da chuva.

Ela apertou levemente as mãos e pensou:

“Abra.”

Mas nada aconteceu. Quando ela abriu os olhos novamente, o poço continuava escuro e imóvel.

Atrás dela, Inuyasha soltou um suspiro pesado.

— Tá. Isso já tá começando a ficar irritante.

— Eu estou tentando!

— Eu sei!

— Então para de andar de um lado para o outro!

— Keh, eu não tô nervoso!

Kagome virou o rosto lentamente.

Inuyasha já estava de pé sobre a beira do poço, braços cruzados, orelhas agitadas demais e um ronco vindo do fundo da garganta para alguém supostamente calmo.

Ela estreitou os olhos.

— Inuyasha, você está literalmente rosnando...

— Não tô!

— Está.

— Keh!

Ele desviou o olhar imediatamente, irritado, e Kagome sentiu vontade de rir só um pouco. Porque, honestamente, aquilo seria engraçado... Se não fosse um pouco assustador também. O sorriso dela enfraqueceu devagar e mais uma vez ela olhou para o fundo do poço.

Imóvel.

Fechado.

Seu peito apertou discretamente.

“E agora???”

A pergunta veio silenciosa e pesada, porque ela acabava de perceber algo importante: ela não fazia ideia de como aquilo realmente funcionava. Kagome permaneceu olhando para o poço como se encará-lo por tempo suficiente pudesse obrigá-lo a responder. O vazio escuro lá embaixo parecia quase ofensivo agora. Familiar demais. Comum demais. Um poço normal.

Aquilo era errado.

Há anos, aquele lugar havia sido uma ponte entre mundos. Perigosa, imprevisível, mas viva. E agora estava ali, silencioso como madeira apodrecida e pedra velha.

Inuyasha saltou da borda com um movimento brusco demais.

— Tá. Chega.

— Chega de quê?

— Disso.

Ele apontou para o poço como se estivesse acusando alguém.

— Esse poço idiota tá fazendo isso de propósito!

Kagome piscou.

— O poço não faz coisas de propósito, Inuyasha.

— Da mesma forma inexplicável que ele se abriu para você, agora ele se fechou!

Ela abriu a boca para responder, mas parou no meio porque... Infelizmente... Aquilo até fazia certo sentido dentro da lógica absurda da vida deles.

Inuyasha passou a mão pelos cabelos prateados num gesto irritado antes de voltar a farejar o ar ao redor do poço. Kagome observou as orelhas dele se moverem lentamente.

— Você sente alguma coisa? — perguntou.

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Não.

Aquilo piorou tudo.

Porque Inuyasha sempre sentia alguma coisa. Energia demoníaca. Fragmentos da Joia. Presenças espirituais. Até o poço, antigamente, tinha um cheiro diferente quando estava ativo. Ela lembrava disso. Agora... Nada. Só madeira antiga, terra úmida e o cheiro distante das árvores do templo.

Kagome sentiu um frio estranho percorrer o estômago.

— Talvez... Talvez ele precise de tempo — murmurou mais para si mesma.

— Quanto tempo?

— Eu não sei!

A resposta saiu mais alta do que pretendia, e o silêncio caiu imediatamente depois.

Kagome desviou o olhar. Ela não queria gritar com ele. O problema era que começava a surgir uma sensação horrível no fundo da sua mente. Uma sensação que ela vinha tentando ignorar desde que o poço não reagira mais.

E se tivesse acabado?

Não “por enquanto”. Não “até reunir energia”. Acabado mesmo, para sempre? O pensamento foi tão brutal que ela imediatamente sentiu vontade de rejeitá-lo.

Inuyasha percebeu.

— Ei...

A voz dele veio mais baixa agora.

Kagome continuou olhando para o poço.

— Ei.

Dessa vez, ele se aproximou mais e a puxou pela cintura trazendo-a para perto de si.

— Não faz essa cara.

Ela riu sem humor ao tocar os braços dele com as duas mãos.

— Que cara?

— Essa aí.

— Muito específico.

— A que você fica com a testa enrugada.

Kagome levou automaticamente a mão à testa e ele apontou na mesma hora:

— Viu?

Ela acabou soltando um pequeno riso pelo nariz, mas o alívio durou pouco. Porque o poço continuava ali, quieto.

Inuyasha observou-a por alguns segundos em silêncio antes de falar outra vez:

— Você quer voltar?

A pergunta a pegou desprevenida e a fez erguer os olhos imediatamente.

Inuyasha mantinha o braço ao redor de sua cintura, mas agora evitava encará-la diretamente.

— Quer dizer... — resmungou. — Você me pareceu tão feliz de estar de volta à sua família...

O peito dela apertou de novo e logo lhe veio os rostos:

Kaede-obaa-chan.

Shippo.

Sango-chan.

Miroku-san.

Rin.

— É... Claro que eu quero vê-los novamente, Inuyasha!

— Então abre logo isso.

— Ah, obrigada, eu não tinha pensado nessa solução ainda!

— Keh!

Ela bufou e foi se sentar na borda do poço, apoiando os cotovelos nos joelhos.

O templo estava silencioso demais naquela tarde. Vovô provavelmente ainda estava dentro de casa inventando teorias absurdas sobre espíritos ancestrais revoltados, Souta devia estar na escola, e sua mãe... Sua mãe provavelmente já tinha percebido que algo estava errado. Kagome abaixou os olhos para as próprias mãos.

— Eu só preciso entender como fazer este poço escolher abrir.

Inuyasha ficou quieto e ela continuou:

— No começo eu achava que era a Jóia... Depois achei que era porque eu pertencia aos dois mundos e por isso conseguia influenciá-lo... Mas agora...

Ela olhou outra vez para a escuridão lá embaixo.

— Eu não sei mais.

O vento atravessou o templo novamente, fazendo os cabelos dela balançarem levemente. Inuyasha cruzou os braços por dentro das mangas do quimono, então disse:

— Talvez você esteja pensando demais.

Kagome virou o rosto devagar.

— ...O quê?

— Você sempre faz isso.

— Faço o quê?

— Complica as coisas.

Ela encarou-o incrédula.

— Ah, claro. Porque a situação é super simples!

— Não foi isso que eu quis dizer.

Ele aproximou-se do poço outra vez e agachou-se ao lado dela.

— Na primeira vez que você voltou pra cá... Você não ficou tentando entender como funcionava. Você só veio.

O silêncio caiu entre os dois. De alguma forma ele estava certo, mas estava faltando algo em sua linha de raciocínio.

Naquela vez, a primeira em que ela conseguiu voltar para casa depois de visitar o mundo feudal de Inuyasha, ela realmente não analisara. Não racionalizara. Não tentara “ativar” o poço depois para voltar.

Ela só... Fora. Sentira que havia uma missão a cumprir, e foi. Agora, o que a fez voltar foi uma razão diferente: saudades da família, dor, desejo de voltar, desejo de finalmente firmar o seu futuro com Inuyasha da maneira correta.

O coração dela bateu um pouco mais forte.

Inuyasha apoiou as mãos no chão, ficando sentado “à maneira Akita” como gostava de fazer, e continuou:

— Talvez esse negócio responde quando você para de tentar controlar ele.

— Inuyasha...? Isso foi... Surpreendentemente inteligente!

— Keh!! Cala a boca!

Ela riu de verdade dessa vez, mas logo o sorriso diminuiu lentamente, então ela foi se sentar ao lado dele no chão, recostando o corpo nele.

O vento passou outra vez pelo templo e, por um instante muito breve, Kagome teve a impressão de ouvir algo ecoando lá no fundo.

Um som distante.

Como água.

Ela ergueu levemente a cabeça.

— ...Você ouviu isso?

As orelhas de Inuyasha se moveram imediatamente.

— Isso o que?

Os dois olharam para o poço ao mesmo tempo.

Silêncio.

Então... Nada.

Inuyasha estreitou os olhos.

— Deve ter sido só o vento.

Kagome então suspirou. Talvez tivesse sido imaginação.

Ou, talvez...

O poço ainda estivesse “lá”. Só não completamente aberto. A ideia fez algo se encaixar lentamente dentro da cabeça dela.

“Trancas.”

O poço sempre fora como uma porta antiga. Uma passagem entre tempos diferentes. Talvez Kagome estivesse tentando forçar algo que... Precisava acontecer aos poucos.

Como uma correnteza tentando abrir espaço. Ou energia acumulando novamente.

Ela franziu levemente o cenho.

— Talvez... Ele só precisa “descansar”.

— ...O poço?

— Não fala desse jeito! Faz sentido na minha cabeça!

Inuyasha soltou um bufar baixo.

— Você tá tratando ele como se fosse uma pessoa cansada...

— E você estava brigando com ele há cinco minutos!

— Porque ele tava me irritando!

Ela revirou os olhos.

— Tá vendo? Nem você acredita que ele não é uma entidade.

Inuyasha abriu a boca para retrucar, mas fechou logo depois. Provavelmente porque chegou à mesma conclusão que ela: aquele poço nunca fora normal. Ele não era como... Algo físico, e preso ao plano real.

Então o silêncio entre os dois foi interrompido por passos rápidos subindo o caminho do templo.

— Kagome!

A voz de Mamãe surgiu antes mesmo de ela aparecer.

Kagome virou o rosto a tempo de vê-la surgir perto à porta carregando uma bandeja grande demais.

— Eu trouxe chá! E bolinhos! E sobremesa!

Inuyasha piscou. A mãe de Kagome entrou no pequeno templo encarando os dois atentamente. O sorriso gentil dela diminuiu só um pouquinho.

— ...Ainda não abriu?

Kagome soltou um suspiro.

— Não, mamãe.

— Hm...

Ela lançou um olhar rápido para o poço, como se estivesse tentando não demonstrar preocupação demais.

— Bem! — disse logo depois, animando-se de novo. — Então precisamos começar a pensar em algumas coisas!

Inuyasha estreitou os olhos.

— “Algumas coisas”, tipo o quê?

Ela piscou e revirou os olhos, como se a resposta fosse óbvia.

— Tipo onde você vai ficar!

Silêncio.

Inuyasha encarou-a.

— ...Hãa?

— Bom, vocês não podem dormir aqui dentro... E o quarto de Kagome é o quarto de uma moça solteira.

— Por que não no quarto da Kagome?? A gente já...

— INUYASHA!!

— O quê?! — ele retrucou, genuinamente confuso. — Eu só ia dizer que a gente já dormiu no mesmo lugar um monte de vezes!

— NÃO SE DIZ ESSE TIPO DE COISA NA FRENTE DE UMA MÃE!

— Mas a gente já vai casar, não vai?!

Mamãe levou uma das mãos à boca.

— Ora...

— NÃO COMENTE NADA, MAMÃE!

Inuyasha franziu o cenho, claramente irritado com o fato de ninguém além dele parecer achar aquilo um comentário normal, e virou o rosto para o lado, emburrado.

— Keh!

— Nenhuma mulher dorme na companhia de um homem sem estar casada com ele, Inuyasha!

— Com a gente é diferente!

— Por que diferente?!

— Porque a gente já tá junto há nove anos, ué!! É um casamento!

Kagome abriu a boca... E fechou logo depois. Explicar “etiqueta humana” para Inuyasha talvez fosse uma das tarefas mais impossíveis já concebidas pela humanidade.

A mãe dela, por outro lado, parecia perigosamente entretida.

— Então vocês já dormiram juntos muitas vezes??

— MÃÃÃE!!

— Keh, mas é verdade!

Então ele finalmente pareceu perceber que havia alguma armadilha invisível naquela conversa. As orelhas de Akita se voltaram para trás.

— ...Ah.

Kagome apontou imediatamente para ele.

— “Ah”, nada!

— Eu não falei nada estranho!

— Falou sim!

Mamãe suspirou dramaticamente e deu de ombros.

— Aah, a juventude...

— Mamãe, você nem é velha o suficiente para falar assim!

— Mesmo assim.

Ela então colocou cuidadosamente a bandeja no chão antes de voltar ao assunto com naturalidade assustadora:

— Bem, de qualquer forma, isso continua não resolvendo onde Inuyasha irá dormir, pois a sua cama é do tamanho para uma pessoa só. Não podemos pô-lo para dormir no chão.

— Pode ser na árvore — ele respondeu imediatamente.

— Não, dentro de casa.

— Na árvore.

— Dentro!

— Árvore!

E Kagome observava os dois trocando respostas instantâneas por alguns segundos em completo silêncio. Inuyasha parecia um cachorro de rua sendo informado de que agora só poderia ir à rua de coleira e dormir dentro de uma casinha. Ao menos aquilo servia para ela se sentir menos constrangida agora que o assunto mudou drasticamente.

— O depósito do templo é frio demais à noite, Inuyasha! — continuou Mamãe, calmamente.

— Báa, eu não ligo para onde durmo! Eu já dormi em todo tipo de lugar!

— Exatamente por isso que iremos providenciar um lugar confortável e seguro para você! Talvez possamos reorganizar o antigo quarto de estudos do Vovô.

Kagome arregalou os olhos.

— O quarto do Vovô?!

— Alguma objeção?

— Mamãe, aquele quarto tem pilhas de selos espirituais dos últimos vinte anos!

— Verdade.

— E uns ossos estranhos!

— Também.

— E aqueles amuletos assustadores!

— Ah, esses eu posso jogar fora.

Uma voz indignada surgiu imediatamente do lado de fora:

— NÃO PODE NÃO!

Todos viraram o rosto a tempo de ver o Vovô surgir na entrada do pequeno templo apontando dramaticamente para eles.

— Aqueles amuletos protegem esta família há gerações!!!

Inuyasha estreitou os olhos e rebateu:

— Não protegem porcaria nenhuma!

— FUNCIONAM SIM, HANYOU DESRESPEITOSO!

Kagome já estava rindo de novo, pressionando a mão contra a testa.

O poço continuava fechado. A situação era absurdamente delicada. E ainda assim, pela primeira vez desde que o problema começara, aquilo não parecia desesperador.

Só caótico.

Muito caótico.