O som dos passos dela já havia mudado. Rin percebeu isso algum tempo depois de deixar a vila.

Anos atrás, sempre existia algum destino ao final da estrada. Uma cabana. Uma fogueira acesa. Jaken-sama reclamando de alguma coisa. Ah-Un aguardando pacientemente entre as árvores. Ou então…Ele.

Agora, havia apenas o caminho. Longo, irregular e silencioso.

As sandálias de palha roçavam a terra úmida enquanto ela seguia por uma trilha estreita cercada por cedros altos. O ar da montanha estava frio naquela manhã, carregando o cheiro de folhas molhadas e água corrente em algum lugar distante. Rin puxou um pouco mais o tecido simples sobre os ombros antes de continuar andando.

Ela já havia viajado antes por florestas densas, campos destruídos por guerras, vilas que desapareciam semanas depois de serem deixadas para trás. Mas aquilo era diferente.

Naquela época, ela nunca precisou pensar para onde estava indo. Bastava seguir Sesshoumaru-sama.

A lembrança surgiu tão naturalmente que Rin diminuiu os passos sem perceber.

Os olhos dela se ergueram para o céu por entre os galhos altos. Fazia dias desde a última vez que sentira qualquer presença youkai realmente forte. Talvez ele estivesse longe. Talvez estivesse ocupado. Talvez sequer tivesse descoberto sua ausência ainda.

A ideia apertou alguma coisa silenciosa dentro dela e Rin desviou o olhar rapidamente.

Não.

Aquilo era bom. Era exatamente o que ela queria: liberdade. E autonomia.

Não era isso que sempre admirara nele? A forma como caminhava sem pedir licença ao mundo? Como parecia pertencer a qualquer lugar e a lugar nenhum ao mesmo tempo?

Ela apertou levemente os dedos ao redor da pequena bolsa presa à cintura.

Então por que aquilo parecia tão… Vazio?

O vento soprou entre as árvores, fazendo os galhos se moverem acima dela com um som baixo e contínuo.

Rin continuava andando. Passou por duas pequenas vilas nos últimos dias. Em nenhuma permaneceu por muito tempo.

As pessoas olhavam. Sempre olhavam. Algumas apenas por curiosidade. Outras… Não.

Uma mulher havia puxado o filho discretamente para mais perto quando Rin passou. Um homem interrompeu a conversa no instante em que ela entrou numa hospedaria simples para pedir água. E uma velha, ao cruzar com ela perto de um poço, segurou firme demais um amuleto de proteção escondido sob as roupas.

Rin não precisava perguntar o motivo. Ela só sabia. Ou, pelo menos, achava que sabia: uma garota viajando sozinha chamava atenção. Ainda mais uma garota sem marido, sem família visível e sem lugar para onde voltar. Certamente que devia ser uma raposa, à espera do primeiro que se aproximasse para tentar ajudá-la.

Ainda assim, havia algo mais. Ela percebia nos olhares demorados demais. Nas hesitações. No desconforto estranho. Como se as pessoas sentissem algo nela que ela própria não conseguia enxergar completamente.

O pensamento fez Rin abaixar o rosto por um instante. Os dedos dela tocaram distraidamente o pequeno amuleto lunar preso junto às roupas.

Sesshoumaru-sama o entregara sem explicar muita coisa, como sempre.

Rin soltou um pequeno suspiro. Ela nunca perguntava, e talvez aquele tivesse sido o problema o tempo todo.

O som de água corrente ficou mais forte conforme ela descia um pequeno declive entre as árvores. Um rio estreito atravessava a mata logo adiante, refletindo fragmentos da luz do fim da tarde. Rin ajoelhou-se perto da margem, mergulhando as mãos na água gelada.

Fria.

Muito fria.

Ela bebeu um pouco em silêncio antes de erguer o rosto novamente. O céu já começava a escurecer. Talvez fosse melhor parar ali por aquela noite. A clareira próxima ao rio era pequena, mas suficiente. Rin reuniu alguns galhos secos, preparando uma fogueira simples enquanto a luz desaparecia lentamente entre as árvores.

O crepitar baixo do fogo trouxe um conforto imediato. Pequeno, mas real.

Ela apoiou os braços sobre os joelhos, observando as chamas dançarem diante dela.

“Sozinha”.

A palavra atravessou sua mente de repente e Rin franziu levemente o cenho.

Não era como se estivesse desacostumada. Durante anos, Sesshoumaru-sama desaparecia por dias inteiros às vezes. Ela esperava. Caminhava com Jaken. Dormia perto de Ah-Un. Aprendia a ocupar os silêncios. Mas, agora, não havia espera. Agora era diferente.

Ela fechou os olhos por um instante. Foi então que percebeu que havia silêncio demais. Os dedos dela se contraíram devagar sobre o tecido das próprias roupas. A floresta ainda estava ali, o rio também, e o vento. Mas… Nada mais. Nenhum inseto. Nenhum pássaro. Nenhum movimento pequeno entre as folhas.

Rin abriu os olhos lentamente e viu: dois pontos brilhando entre as árvores. Depois quatro. Depois mais. Altos demais. Imóveis demais. Observando.

O coração dela bateu mais forte, mas Rin não se moveu abruptamente. Apenas ergueu o rosto devagar, acompanhando os reflexos dourados espalhados pela escuridão. Os galhos acima da clareira se moveram, sem som.

Uma figura desceu lentamente entre as árvores.

Alta.

Magra.

Coberta por algo que lembrava penas escuras misturadas a tecido velho. Os braços longos demais terminavam em garras curvas, e os olhos redondos refletiam a luz do fogo de uma forma quase animal.

O rosto não parecia completamente humano, nem completamente ave.

A criatura inclinou levemente a cabeça, como uma coruja observando algo incomum.

Rin permaneceu imóvel. A presença youkai era estranha, mas não esmagadora como a de Sesshoumaru-sama. Ainda assim, era perigosa. Muito perigosa.

— Curioso… — a criatura murmurou.

A voz era baixa. Áspera. Os olhos dela acompanharam Rin lentamente.

— Uma humana.

Silêncio.

Então o nariz da criatura pareceu se mover levemente.

Farejando.

O sorriso surgiu devagar demais.

— Ah…

Rin sentiu o corpo enrijecer um pouco.

O youkai deu mais um passo em direção à clareira.

— Então é isso.

Ela não respondeu.

A criatura continuou observando-a como se estivesse tentando resolver um enigma.

— Você carrega cheiro de sangue… — murmurou. — Não. Pior.

O sorriso aumentou.

— Cheiro de cão.

O vento atravessou a clareira naquele instante e o fogo oscilou.

Rin permaneceu sentada, embora os dedos apertassem discretamente o tecido das roupas junto aos joelhos.

— Você fugiu dele? — o youkai perguntou.

Ela franziu levemente o cenho.

— Não.

— Hm.

A criatura inclinou novamente a cabeça.

— Então ele perdeu você?

Rin hesitou.

Por algum motivo, aquela pergunta pareceu errada. Sesshoumaru-sama não “perdia” nada.

O youkai observou o silêncio dela atentamente, e então riu.

Baixo.

Desconfortável.

— Você realmente não percebe…

Os olhos dourados se estreitaram.

— Até os mais insignificantes youkai conseguem sentir.

A criatura deu mais um passo.

— Você pertence a alguma coisa monstruosa.

Rin sentiu o vento atravessar novamente a clareira, fazendo as chamas oscilarem baixinho entre os galhos secos da fogueira. Por um instante, esqueceu que os outros pontos dourados ainda continuavam ali, espalhados entre as árvores, observando.

A criatura mais à frente inclinou levemente a cabeça outra vez, e, quando sorriu, Rin conseguiu enxergar melhor os dentes estreitos demais para uma boca humana.

— Ahh… Ela não sabe.

Um som baixo ecoou acima deles.

Risadas.

Não humanas.

Rin ergueu os olhos rapidamente.

As sombras começaram a se mover entre os galhos altos. Figuras magras surgiam pouco a pouco da escuridão — penas negras, braços longos, olhos redondos refletindo o fogo.

Shibugarasu.

O nome atravessou sua memória quase imediatamente.

Kagome-sama havia contado a história anos atrás, irritada e indignada, sobre um corvo youkai que tentara roubar a Jóia de Quatro Almas escondida dentro do próprio corpo. Rin lembrava vagamente de Inuyasha-sama chamando a criatura de “aquele pássaro imundo”.

Agora havia vários deles. E todos a encaravam da mesma forma. Como se estivessem tentando decidir alguma coisa.

Rin permaneceu sentada. Não porque não estivesse assustada, mas porque correr seria pior.

— Que cheiro desagradável… — um dos Shibugarasu murmurou entre as árvores. — Forte demais.

— Não é só rastro de cão — outro respondeu. — É marca.

O da clareira soltou uma risada baixa.

— Sim… Agora eu consigo sentir melhor.

Os olhos dourados desceram lentamente até o amuleto preso às roupas de Rin. O sorriso aumentou.

— Interessante.

Rin segurou discretamente o pequeno pingente lunar junto ao peito. Tal movimento não passou despercebido.

— Só pode ter sido ele.

Os outros começaram a se mover acima dela.

Lentos.

Circulares.

Como abutres rodeando algo morto.

O desconforto percorreu a espinha de Rin devagar.

— O que vocês querem? — ela perguntou finalmente.

O Shibugarasu principal voltou a encará-la.

— Nada ainda.

A resposta foi calma demais.

— Mas talvez possamos querer.

Outro deles riu entre os galhos.

— Faz tempo desde que ouvimos rumores assim...

— Uma humana marcada...

— Por um inu-youkai...

— Mas não qualquer inu-youkai.

As vozes começaram a surgir de diferentes direções, todas próximas demais.

Sesshoumaru.

O nome veio quase como um sussurro coletivo, e imediatamente o ar da clareira pareceu mudar, mesmo sem ele estar ali.

Os Shibugarasu ficaram mais silenciosos por um instante, como animais cuidadosos ao redor do cheiro de um predador maior.

O da clareira inclinou novamente a cabeça.

— Engraçado, sempre ouvimos que o Grande Cão das Terras do Oeste desprezava humanos...

— E agora há uma humana carregando o seu cheiro...

— Talvez os rumores sejam verdade...

— Ou talvez ele deva ter resolvido brincar de outra forma.

Rin franziu levemente o cenho.

— Rumores…?

Uma nova risada ecoou entre as árvores.

— Ela não sabe...

— Melhor ainda...

— Isso pode valer alguma coisa.

O Shibugarasu da clareira ergueu uma das mãos de pele enrrugada, pensativo.

— A Noiva do Cão...

As palavras atravessaram o silêncio como água gelada.

Rin sentiu o corpo enrijecer. Eles pretendiam algo contra Sesshoumaru-sama e, talvez... Ela fosse a isca. Ou a moeda de troca.

— Talvez não...

— Talvez apenas uma escrava...

— Ou um brinquedo.

As palavras iam se misturando, sobrepondo umas às outras, baixas e ásperas.

Rin olhava para os lados em busca de algo que pudesse fazer. Alguma brecha.

— Inu-youkai marcam tudo o que lhes pertence...

— Armas...

— Espólios...

— Território...

— Presas...

— E fêmeas.

Rin sentiu o coração bater mais forte.

Raiva.

Vergonha.

Confusão.

Tudo ao mesmo tempo.

— Não sei do que estão falando — ela conseguiu dizer.

Um bater de asas cresceu de repente.

Alto.

Violento.

As árvores acima da clareira explodiram em movimento, e Rin se levantou imediatamente, pronta para correr.

Diversas sombras negras mergulharam entre os galhos, rápidas demais.

Um dos Shibugarasu pousou atrás dela com um som seco, as garras curvas afundando na terra úmida. Outro surgiu à esquerda. Depois mais dois.

Rin girou o corpo instintivamente, tentando manter todos dentro do campo de visão enquanto o fogo da pequena fogueira tremia sob o vento provocado pelas asas.

— Não cheguem perto! — ela avisou, mesmo sabendo como aquilo soava frágil, e as criaturas riram.

— Ela acha que pode ordenar alguma coisa...

— Humana engraçada...

— Ela acha que queremos machucá-la...

— Mas só queremos que venha conosco.

Rin deu um pequeno passo para trás.

O sorriso das criaturas aumentou, vindos de todos os lados.

— O Grande Cão sentirá sua falta...

— E cães fazem barulho quando perdem algo...

— Sangue segue os inu-youkai.

Rin apertou o pequeno amuleto lunar contra o peito. Ela precisava sair dali. Agora. Os dedos se fecharam com força ao redor do pequeno pingente escondido sob o tecido das roupas. Por um instante — apenas um instante — o impulso surgiu quase naturalmente.

“Sesshoumaru-sama!”

O nome atravessou seus pensamentos rápido demais, antes que ela pudesse sequer verbalizá-lo. Ainda não sabia exatamente o que o amuleto fazia, mas sabia que estava ligado à ele. À presença dele. À proteção dele.

Se o chamasse…

Os olhos de Rin se ergueram rapidamente para os Shibugarasu ao redor.

As criaturas observavam. Famintas. Prestes a agarrá-la.

“O Grande Cão sentirá sua falta...”

“E cães fazem barulho quando perdem algo...”

“Sangue segue os inu-youkai.”

As frases ecoavam em sua cabeça, e Rin entendeu: aquilo não era apenas sobre ela; eles queriam Sesshoumaru-sama. Ou talvez queriam o que aconteceria quando ele viesse.

O aperto dela sobre o amuleto enfraqueceu um pouco.

“Não...”

O pensamento surgiu imediatamente.

Ela não podia. Não iria arrastá-lo para aquilo.

Não sabia o que aquelas criaturas pretendiam exatamente, mas entendia o suficiente: estavam esperando alguma coisa. Alguma reação. Alguma violência. Como abutres aguardando uma carcaça esfriar.

E Sesshoumaru-sama… Ele nunca recuava.

Rin respirou fundo uma única vez e então soltou devagar o amuleto.

E então um dos Shibugarasu mergulhou.

Braços longos demais envolveram seus ombros com força brutal, prendendo seus braços contra o corpo antes que Rin conseguisse reagir completamente. O chão escorregou sob suas sandálias. Ela perdeu o equilíbrio por um instante e outro Shibugarasu agarrou suas pernas, e então o mundo pareceu girar quando eles a ergueram do chão de uma vez.

— Ela luta...

— Como um animalzinho...

— Não danifiquem muito...

— Se não ele vai perder o interesse.

E Rin apertou os olhos, enquanto era carregada para longe da clareira para uma escuridão que parecia sem fim.