犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
8 八 かごめ Kagome
Kagome já sabia que aquela reunião não ia terminar bem, e não foi por causa de algo específico que alguém tivesse dito. Foi o clima. O jeito como as pessoas começaram a falar mais baixo do que o normal, como evitavam levantar muito a voz mesmo quando estavam em grupo, como os olhares se encontravam e se desviavam rápido demais. Aquilo não era curiosidade simples, nem fofoca comum de vila pequena. Era incerteza. E incerteza, Kagome já tinha aprendido, era sempre mais perigosa do que medo declarado.
Ela estava encostada na lateral da cabana de Kaede, observando a praça enquanto as pessoas se reuniam aos poucos. Algumas vinham em pares, outras em pequenos grupos familiares. Crianças eram puxadas discretamente para perto, como se ninguém quisesse deixá-las muito longe naquele momento. O sol ainda estava alto, o dia era claro e tranquilo, mas nada naquele cenário parecia realmente leve.
— Isso vai dar problema… — murmurou, mais para si mesma do que para quem estivesse por perto.
— Keh. — Inuyasha respondeu ao lado dela, cruzando os braços dentro das mangas do quimono vermelho. — Vocês humanos complicam tudo.
Kagome virou o rosto lentamente, já com uma resposta pronta.
— Complicamos?
— Sim. — ele fez um gesto vago na direção da praça. — Tá todo mundo aí com essa cara, de como se alguma coisa ruim tivesse acontecido, quando na verdade foi o contrário.
— “O contrário” — ela repetiu, arqueando uma sobrancelha.
— É. — Inuyasha deu de ombros. — Agora ninguém mais vai atacar essa vila. Fim. Problema resolvido.
Kagome soltou um suspiro contido, segurando a vontade de argumentar imediatamente.
— Nem todo mundo vê assim, Inuyasha.
— Então estão vendo errado.
Ela abriu a boca para retrucar, mas decidiu poupar energia. Explicar dinâmica social para Inuyasha era quase tão difícil quanto ensinar matemática para Shippou quando ele estava com fome.
— Vamos começar — disse Kaede, erguendo levemente a mão.
A movimentação cessou gradualmente. As conversas diminuíram até desaparecerem quase por completo e os moradores se organizaram em um semicírculo improvisado diante da casa da sacerdotisa. Kagome se aproximou alguns passos, ficando ao lado de Inuyasha, com os braços cruzados e o olhar atento.
Rin estava ali também, mas mais afastada, como sempre preferia ficar. Discreta, silenciosa, quase como se tentasse ocupar o menor espaço possível.
— O que ocorreu ontem não é algo pequeno — começou Kaede, com sua habitual calma. — Este vilarejo foi colocado sob a jurisdição do Senhor Youkai das Terras do Oeste.
O silêncio que se seguiu não era de surpresa, mas de confirmação. Todos tinham visto. Todos tinham ouvido. Agora, precisavam entender.
Um dos homens mais velhos da vila deu um passo à frente, visivelmente desconfortável.
— Isso… quer dizer o quê, exatamente, Miko-sama?
Kaede não respondeu imediatamente. Seu olhar passou brevemente por Kagome, como se dissesse: “explique você”.
Kagome assentiu quase imperceptivelmente.
— Significa que nenhum youkai vai atacar a vila sem enfrentar Sesshoumaru — disse ela, em voz clara. — Apenas isso.
Um murmúrio percorreu o grupo, mas dessa vez não era totalmente negativo.
— Então é bom, não é?
— É proteção…
— Isso quer dizer que estamos seguros?
— Mas…
Sempre havia um “mas”.
Inuyasha bufou alto, claramente impaciente.
— Keh! E do que é que vocês estão com medo?! — disse, dando um passo à frente. — Agora vocês estão completamente protegidos! Nenhum youkai idiota vai chegar perto daqui!
Kagome fechou os olhos por um segundo.
— Inuyasha…
— O quê?! — ele retrucou, virando-se para ela. — É verdade!
— Ninguém está dizendo que não é, Inuyasha-sama.
— Então por que essa cara de velório?!
A resposta não veio dela.
— O que ele quer em troca?
A pergunta veio de uma mulher mais velha, com os braços cruzados e o olhar firme. Não havia hostilidade, mas havia desconfiança — e isso era suficiente para mudar o rumo da conversa.
Inuyasha revirou os olhos com força.
— Nada, ué! Não ouviram? Ele disse que não quer tributos.
— E como pode ter certeza de que é somente isso? — outro homem rebateu.
— Porque eu conheço ele, ué!
Kagome levou a mão ao rosto por um instante.
Isso não estava ajudando.
— Ele disse claramente que não haverá tributos — ela interveio, retomando o controle da conversa. — Nem exigências.
— Agora — murmurou alguém.
— E depois? — completou outro.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Kagome percebeu a mudança imediatamente. Não era pânico ainda, mas estava perto de virar.
— E se ele mudar de ideia?
— E se isso na verdade atrair uma guerra entre dinastias youkai?
— E se essa “proteção” trouxer mais problemas do que soluções?
As vozes começaram a se sobrepor, cada uma trazendo uma nova preocupação, um novo cenário possível. Kagome respirou fundo, procurando organizar aquilo antes que virasse caos.
— Isso aconteceu por causa dela!
A frase foi baixa.
Mas suficiente.
O silêncio caiu de novo, mais pesado que antes.
Kagome virou o rosto.
Rin.
Ela estava parada no mesmo lugar, mãos unidas à frente do corpo, postura serena demais para alguém que, claramente, tinha acabado de se tornar o centro da conversa.
Os olhares começaram a se voltar.
— O daiyoukai veio por causa dela…
— Ele sempre aparece por causa dela…
— Ele sempre traz roupas para ela, todo mundo viu…
— Já faz tempo…
Kagome sentiu o estômago apertar.
Aquilo estava indo rápido demais.
— Já chega, por favor — disse ela, firme.
Mas não foi suficiente.
— Se ela não estivesse aqui…
A frase veio de um homem mais velho. Não havia raiva no tom. Apenas lógica.
E isso tornava tudo pior.
— Talvez fosse melhor se ela fosse embora.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Inuyasha reagiu imediatamente.
— Como é?! O que foi que você disse?!
Ele avançou um passo, claramente pronto para discutir — ou pior.
Kagome segurou o braço dele com força.
— Inuyasha. Espera.
— Esperar o quê?! — ele rosnou. — Você ouviu o que o velho disse?!
— Eu ouvi — ela respondeu, firme. — E você vai piorar tudo se começar a gritar.
Ele travou, irritado, mas não se soltou.
Kagome voltou o olhar para Rin.
Ela não disse nada. Não se defendeu. Apenas abaixou levemente o olhar. Aquilo doeu mais do que qualquer resposta.
Kaede bateu o cajado no chão.
O som ecoou seco pela praça.
— Chega!
A autoridade na voz dela foi suficiente para interromper qualquer continuação.
— Esta vila acolheu Rin muito antes de qualquer youkai reivindicar estas terras — disse ela. — E continuará a acolhê-la.
Ninguém contestou.
Kagome respirou fundo.
Era a hora de reorganizar aquilo.
— Todo mundo aqui está com medo, eu entendo — disse ela, olhando ao redor, com mais suavidade desta vez.
Alguns moradores desviaram o olhar. Outros a encararam diretamente.
— E isso é normal — ela deixou a frase assentar. — Mas Sesshoumaru não fez isso para prejudicar a vila.
— Como você sabe? — alguém perguntou.
Kagome não hesitou.
— Porque ele não precisa de nada disso. Sinceramente, ele não precisa dessa vila.
Silêncio.
— Se ele quisesse conqusitá-la, não teria avisado — continuou. — Nem teria dito que não quer nada em troca. Ele simplesmente teria feito.
As pessoas se entreolharam, mas ninguém discordou.
— O que ele fez foi estabelecer território — ela explicou. — E, no mundo dos altos youkai, isso significa apenas proteção.
— Proteção que a gente não pediu! — murmurou alguém.
— Talvez — Kagome concordou. — Mas, agora que ela existe, a questão não é mais “por quê”.
Ela cruzou os braços, firme.
— É “o que faremos com isso”.
O silêncio dessa vez foi diferente. Menos tenso. Mais pensativo.
Kaede assentiu levemente, como se aquilo fosse suficiente por ora.
— A decisão está tomada — disse ela. — Cabe a nós conviver com ela.
A reunião começou a se dispersar lentamente. As pessoas voltaram a conversar em grupos menores, ainda inquietas, mas menos agitadas do que antes.
Kagome soltou o ar devagar.
— Viu só? — murmurou Inuyasha ao lado dela. — Drama à toa!
Ela virou o rosto lentamente.
— Você tem zero noção social, Inuyasha...
— Tenho sim, eu não sou burro!
— Não, não tem... E isso não quer dizer que seja burro.
— Tenho!
Então ela apenas o encarou. Ele bufou.
— Keh...
Kagome quase sorriu, mas o olhar dela já tinha ido para outro lugar.
Rin.
Ela já estava se afastando da reunião, silenciosa como sempre, como se nada daquilo tivesse a ver com ela — mesmo tendo tudo a ver.
Kagome observou por alguns segundos.
Algo ali não estava certo. Não era só o que tinha sido dito. Era como ela tinha reagido. Ou melhor… Como não tinha reagido.
— Inuyasha — chamou ela.
— Hm?
— Você percebeu?
— O quê?
— A Rin.
Ele olhou por um segundo, mas deu de ombros.
— Ela tá normal. Ficou bem quieta depois que cresceu.
Kagome suspirou.
— Claro que está... — ela deu um passo à frente. — Mas eu vou falar com ela.
— Pra quê?
— Porque alguém precisa.
— Keh... Ela tá bem.
Kagome lançou um olhar e ele levantou as mãos.
— Tá, tá. Vai lá!
Ela começou a caminhar na direção do rio, já sabendo onde encontraria a garota. O som da vila voltava ao normal atrás dela, mas não completamente. Ainda havia algo no ar. Algo que não ia desaparecer tão cedo. Enquanto caminhava, Kagome não conseguiu evitar o pensamento:
“Sesshoumaru tomou a vila inteira… Mas não disse uma única palavra para a pessoa mais afetada por isso.”
Rin sempre acabava ali quando precisava de silêncio. Era um tipo de silêncio diferente do da vila — menos carregado, mais honesto.
Kagome a encontrou sentada perto da margem, com as mãos apoiadas no colo e o olhar fixo na correnteza. O vento leve fazia alguns fios soltos do cabelo dela se moverem, mas, fora isso, Rin parecia quase imóvel. Como se estivesse tentando não perturbar nem a água.
Kagome diminuiu o passo. Por um instante, pensou em chamá-la imediatamente, mas não chamou. Apenas se aproximou e parou a alguns passos de distância, observando. Rin não parecia… Abalada. E era exatamente isso o que a preocupava.
— Posso sentar? — Kagome perguntou, por fim.
Rin ergueu o olhar, surpresa apenas pelo fato de não ter percebido a aproximação.
— Kagome-sama… — respondeu, inclinando levemente a cabeça. — Claro.
Kagome sentou-se ao lado dela, não tão perto a ponto de invadir seu espaço, mas próximo o suficiente para não parecer distante.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. O som da água preenchia o espaço entre elas.
Kagome apoiou as mãos atrás do corpo, inclinando-se levemente para trás.
— Então… — começou, em tom casual demais para ser completamente casual — Você gosta mesmo desse lugar, né?
Rin piscou, surpresa com a pergunta.
— Eu… Gosto, sim.
— Eu também gosto — disse Kagome, olhando para o céu entre as árvores. — É tranquilo. Às vezes até demais.
Rin deixou escapar um pequeno sorriso. Kagome virou o rosto discretamente para observá-la melhor. O quimono azul. Sesshoumaru.
Kagome respirou fundo, escolhendo as palavras com cuidado.
— Aquilo que disseram lá na reunião… — começou.
— Está tudo bem — Rin respondeu rápido demais.
Kagome arqueou levemente a sobrancelha.
— Eu nem terminei a frase.
Rin abaixou o olhar por um instante.
— Eu sei, me desculpe.
Kagome soltou um pequeno suspiro, mas sem irritação.
— Eu sei que você está acostumada com as pessoas falando esse tipo de coisas — disse ela, mais suavemente. — Mas isso não significa que está tudo bem.
Rin não respondeu. Seus dedos se moveram levemente sobre o tecido do quimono, como se alisassem algo invisível.
— Eles estão com medo — continuou Kagome. — E quando as pessoas estão com medo, elas procuram… Soluções fáceis.
Rin assentiu de leve.
— Eu entendo.
Kagome inclinou um pouco a cabeça.
— Entende mesmo?
Rin hesitou.
— Entendo que… É mais simples pensar que o problema sou eu.
Kagome fez uma careta leve.
— É, mas isso não torna a ideia menos ruim.
Rin soltou um pequeno sopro de ar, quase uma risada sem humor.
— Não.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era tão confortável. Kagome olhou para o rio por alguns segundos antes de falar novamente.
— Você ficou chateada?
A pergunta foi direta. Sem rodeios. Rin demorou a responder.
— Não… Exatamente.
Kagome virou o rosto devagar.
— “Não exatamente” é um jeito complicado de dizer “sim”.
Rin sorriu de leve, mas não levantou o olhar.
— Eu só achei… Estranho.
Kagome já esperava essa palavra.
— Por causa do que disseram?
Rin balançou a cabeça.
— Não.
Ela demorou um pouco antes de continuar.
— Por causa dele.
Kagome não disse nada. Apenas esperou.
— Sesshoumaru-sama… Ele esteve aqui — disse Rin, lentamente. — Depois de tanto tempo.
Kagome assentiu.
— E ele não falou comigo.
Simples. Sem drama. Sem acusação. E, ainda assim, pesado. Kagome apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando as mãos.
— Você queria que ele falasse... Ou que ele lhe “notasse”?
Rin não respondeu imediatamente.
— Eu não esperava nada específico — disse ela, depois de alguns segundos. — Só… Algo.
Kagome soltou um pequeno suspiro pelo nariz.
— Isso soa bem específico.
Rin deixou escapar uma risada baixa.
— Talvez.
O vento passou entre as árvores, levantando pequenas ondulações na água. Kagome olhou para frente, pensativa.
— Posso te dizer o que eu acho?
Rin assentiu.
— Sesshoumaru não é muito… Bom com esse tipo de coisa.
Rin inclinou levemente a cabeça.
— Eu sei.
— Não, tipo — Kagome continuou, gesticulando levemente — Ele é realmente ruim nisso. Em falar. Em explicar. Em… Demonstrar de um jeito que as outras pessoas entendam.
Rin permaneceu em silêncio.
— Mas ele não é alguém que faz coisas sem motivo — acrescentou Kagome.
Rin olhou para ela de lado.
— Kohaku disse algo parecido.
Kagome fez um pequeno “hm”.
— Então ele já está ficando sábio.
Rin sorriu de leve. Mas o sorriso não durou muito.
— Ainda assim… — ela murmurou.
Kagome esperou. Rin apertou levemente o tecido do quimono.
— Eu teria gostado se ele tivesse me cumprimentado. Não quero ser “notada”. Por ninguém.
— Tem certeza?
— Sim.
Kagome fechou os olhos por um segundo. Era tão simples... E, ao mesmo tempo, tão difícil. Então ela abriu os olhos novamente.
— Está bem — disse, por fim.
Kagome permaneceu em silêncio por alguns instantes depois da resposta. Não havia muito o que argumentar contra aquilo, porque não era exatamente um pedido. Era só… Um limite. E Kagome respeitava isso.
Ainda assim, algo ali não estava fechado.
Ela apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para a correnteza como se procurasse as palavras no movimento da água.
— Sabe… — começou, em um tom mais leve, mas ainda firme — Você diz que não quer ser notada. Mas isso não é a mesma coisa que não querer ser vista.
Rin não respondeu imediatamente, mas também não desviou o olhar. Kagome continuou:
— São coisas diferentes. Ser notada é… Chamar atenção. Ser vista é… Existir para alguém.
O vento passou entre as árvores, trazendo um leve movimento ao redor delas. Rin manteve as mãos sobre o colo, mas seus dedos se moveram de novo, quase imperceptíveis.
— Quando você era menor — Kagome disse — Você sempre estava perto dele, não é?
Rin piscou, surpresa com a mudança de assunto.
— Sim…
— Você falava sempre com ele, seguia-o, sentava perto… Era simples.
Rin abaixou levemente o olhar.
— Eu era criança.
— Era — Kagome concordou. — E, pra ele, isso tornava tudo muito mais fácil.
Ela fez uma pequena pausa antes de continuar.
— Agora não torna mais.
Rin franziu o cenho, ainda olhando para o rio.
— Eu não mudei tanto assim.
Kagome soltou um pequeno sopro de ar, quase um riso.
— Mudou sim. Mudou muito.
Rin virou o rosto, confusa.
— Mudou como?
Kagome inclinou a cabeça, analisando-a com mais atenção.
— Você pensa antes de falar. Escolhe o que vai dizer. Se preocupa com o que as outras pessoas vão entender. Você mede as coisas — ela deu de ombros. — Antes você só… Dizia.
Rin ficou em silêncio.
— E não é só isso — continuou Kagome. — As pessoas também mudaram a forma como olham para você.
Rin demorou alguns segundos antes de perguntar:
— Por causa do que aconteceu ontem?
— Não só por isso.
Kagome olhou diretamente para ela dessa vez.
— Você não é mais uma das crianças da vila.
A frase não foi dura, mas foi direta. Rin abaixou o olhar novamente, dessa vez sem tentar disfarçar.
O silêncio que veio depois foi mais pesado, mas não desconfortável. Era o tipo de silêncio que vem quando algo faz muito sentido… Mesmo que a pessoa ainda não saiba o que fazer com isso.
— Kaede-obaa-sama já falou comigo sobre isso — Rin disse, depois de um tempo. — Sobre crescer.
Kagome assentiu.
— Imagino que sim.
— Ela disse que eu preciso pensar em como quero ser vista... Eu não sei o que isso significa.
Kagome apoiou o queixo na mão, pensativa.
— Significa que você vai ter que começar a escolher algumas coisas.
— Como o quê?
Kagome deu de ombros.
— Onde você quer ficar. Com quem. Como quer viver.
Rin apertou levemente o tecido do quimono.
— E se eu não souber?
Kagome não respondeu de imediato.
— Então você ainda não escolhe — disse, por fim. — Mas, também, não deixa os outros escolherem por você.
Rin levantou o olhar, surpresa. Kagome manteve a expressão tranquila.
— Aquilo que disseram na vila… — ela continuou — Foi exatamente isso. Pessoas tentando decidir por você o que é mais conveniente para elas.
Rin ficou em silêncio.
— E você não precisa aceitar isso.
O vento mudou levemente de direção, fazendo as folhas ao redor sussurrarem.
Rin respirou fundo.
— Eu não quero ir embora...
— Então não vá — Kagome respondeu imediatamente.
Simples. Sem hesitação. Rin piscou.
— É… Tão simples assim?
Kagome deu um pequeno sorriso de lado.
— Não. — fez uma pausa — Mas também não é mais complicado do que isso.
Rin olhou de volta para o rio, como se estivesse organizando aquilo dentro de si.
— E quanto a ele?
Kagome não fingiu não entender.
— Sesshoumaru.
Rin assentiu levemente.
— Eu não sei o que ele espera de mim.
Kagome inclinou a cabeça.
— Você acha que ele espera alguma coisa?
Rin hesitou.
— Eu não sei.
— Então talvez esse seja o problema — disse Kagome.
Rin virou o rosto, confusa.
— Como assim?
Kagome descruzou as pernas, ajeitando a posição antes de continuar.
— Você está tentando entender o que ele quer… Sem nem ter certeza se ele quer alguma coisa.
Rin franziu levemente o cenho.
— Mas ele fez tudo aquilo…
— Fez — Kagome concordou. — Mas isso não é a mesma coisa que esperar algo de você.
Ela fez um pequeno gesto com a mão, como se separasse duas ideias no ar.
— Sesshoumaru faz coisas grandes. Sempre fez. Mas isso não significa que ele está pensando… Do mesmo jeito que você.
Rin permaneceu em silêncio. Aquilo claramente não era fácil de processar.
— E você também não precisa pensar do jeito que ele pensa — acrescentou Kagome.
Rin respirou fundo.
— Então o que eu faço?
Kagome ficou em silêncio por alguns segundos. Dessa vez, não porque não sabia o que dizer, mas porque queria escolher bem.
— Nada — respondeu, por fim.
Rin piscou.
— Nada?
— Agora, nada — Kagome sorriu de leve. — Você não precisa decidir nada hoje. Nem sobre a vila. Nem sobre o Kohaku. Nem sobre o Sesshoumaru.
Rin ficou imóvel por um instante ao ouvir o nome de Kohaku, mas não comentou. Kagome percebeu. E decidiu não pressionar.
— Você só precisa… Prestar atenção no que você sente — continuou. — Sem tentar dar nome antes da hora.
O silêncio que veio depois foi mais leve. Mais respirável. Rin soltou o ar devagar.
— Isso é difícil...
— Eu sei — Kagome respondeu, rindo baixo. — Eu demorei anos pra entender metade das coisas que eu sentia.
Rin levantou o olhar, curiosa.
— Mesmo?
— Mesmo.
Kagome esticou os braços levemente para trás, apoiando-se.
— E ainda erro às vezes.
Rin sorriu de verdade dessa vez. Pequeno. Mas sincero. Kagome observou por um instante, satisfeita. Depois se levantou, batendo de leve as mãos no próprio quimono.
— Vamos voltar?
Rin hesitou por um segundo, mas então assentiu.
— Vamos.
As duas começaram a caminhar lado a lado, em silêncio. Enquanto voltavam para a vila, Kagome teve a sensação de que, embora nada havia sido resolvido de fato, algo relevante tinha mudado: Rin não estava mais apenas esperando. Agora, ela estava começando a escolher. Mesmo que ainda não soubesse exatamente o quê.
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