犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
20 二十 かごめ Kagome
Se a primeira semana sem o poço havia sido um luto, a segunda fora uma negação ruidosa. Agora, após pouco mais de um mês, a falta de respostas havia se transformado em algo muito mais insidioso e inevitável: rotina.
A vida na casa dos Higurashi não parou para que eles decifrassem o misticismo do tempo. O lixo ainda precisava ser posto para fora nas terças-feiras, as contas de luz continuavam chegando e o chão da sala ainda acumulava poeira. Kagome descobriu, com uma pontada de ironia, que o “fim do mundo feudal” não vinha com um estrondo, mas com o som do cesto de vime batendo contra o assoalho enquanto ela ajudava a mãe a recolher as roupas lavadas do varal.
O dia estava terrivelmente normal. O sol de fim de tarde filtrava-se pelas janelas da varanda, trazendo o cheiro de amaciante e o som distante do tráfego da rua.
— O Inuyasha está mesmo gostando daquele quarto do vovô? — Mamãe perguntou, a voz mansa acompanhando o movimento ritmado do dobrar de uma das camisas escolares de Souta.
Kagome, que separava as meias, respondeu sem desviar os olhos do que fazia:
— Não.
— Imaginei.
— Ele reclama todo dia. Diz que o teto é baixo, que o cheiro de incenso dá coceira no nariz dele e que os pergaminhos velhos do vovô dão arrepios.
— E continua dormindo lá.
— Porque não tem outro lugar.
Mamãe fez um "hum" baixo. Quase imperceptível.
Kagome congelou com as mãos enfiadas dentro de uma meia de cano longo. Suas antenas de filha dispararam imediatamente: aquele som, vindo de sua mãe, raramente era apenas uma confirmação; era o prenúncio de uma linha de raciocínio que vinha sendo cozinhada em silêncio há dias.
— Depois do casamento isso não vai funcionar — Mamãe disparou, esticando um lençol com um estalo seco no ar.
Kagome piscou, sentindo o rosto esquentar antes mesmo de processar o sentido exato da frase.
— Hã?
— O quarto — explicou, enquanto calmamente alinhava as pontas do tecido.
— O quarto?
— O dele. Ou melhor, o de vocês.
— Mãe...
— O quê?
— Não começa.
— Não comecei nada, querida. Só estou constatando o óbvio.
Kagome soltou o ar pela boca, deixando os ombros caírem.
— Nós nem... nós só conversamos sobre isso outro dia. Não tem nada decidido ainda.
— Exatamente — Mamãe virou-se, apoiando as mãos na cintura, o olhar transbordando aquela paciência prática que desarmava qualquer argumento. — Até agora, Inuyasha tem sido um hóspede. Um hóspede peculiar, que come por quatro e dorme em cima das caixas de oferendas do templo, mas ainda um hóspede temporário. Nós acolhemos, dividimos o espaço e esperamos. Mas e depois?
A pergunta flutuou no ar, pesada.
— Depois... — Kagome repetiu, a voz subitamente pequena.
— Ele vai continuar sendo hóspede? Vai continuar morando em um cômodo superlotado que mal o cabe? Vai continuar dormindo no chão do anexo sem um espaço próprio, sem um endereço, sem um guarda-roupa?
Kagome abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Um frio incômodo subiu por sua espinha.
A verdade, nua e crua, era que ela nunca havia olhado para além da linha do horizonte. Em sua mente, o "ficar preso no mundo moderno” ainda era uma situação de emergência. E situações de emergência não precisam de planejamento de longo prazo; elas só precisam ser suportadas até que o poço brilhasse de novo.
Mas o poço permanecia morto. O poço agora era só madeira velha, pedras frias e terra seca.
Mamãe não deu um passo à frente e não ergueu o tom de voz. Ela simplesmente voltou a pegar a próxima peça de roupa, aplicando aquele interrogatório materno do qual nenhum jovem na história da humanidade jamais conseguiu escapar.
— Vocês vão morar onde, Kagome?
— Eu... Não sei.
— Vão viver de quê? Inuyasha é ótimo para carregar caixas pesadas, mas não acho que o mercado da esquina possa registrá-lo sem documentos.
— Não sei...
— Vamos continuar todos sob este mesmo teto?
— Eu... não sei, mamãe.
— Quando pretendem casar?
— Não sei!
— Kagome...
A forma como seu nome foi pronunciado a fez erguer os olhos. Mamãe a encarava com uma doçura preocupada, o tipo de olhar que doía mais do que uma bronca.
— Podemos discutir isso agora?
A resposta morreu na garganta de Kagome. Ela largou as meias no cesto. Não, ela não estava pronta, mas já bastava. Ela estava paralisada na plataforma de embarque, esperando por um trem que talvez nunca mais passasse, enquanto o relógio da estação continuava correndo. A vida não estava esperando o portal abrir; ela já estava acontecendo ao redor dela.
Kagome achou que teria o benefício de um intervalo — um momento para respirar, subir até o Goshinboku*, esfriar a cabeça e talvez reclamar com Inuyasha sobre como as mães tinham superpoderes terríveis para arruinar uma tarde tranquila.
Ela estava errada.
Quando pegou o cesto de vime agora cheio de roupas dobradas para levá-lo até a sala, descobriu que o Comitê de Recepção já havia sido convocado. Não era uma coincidência. A mesa baixa de jantar estava limpa, e ao redor dela o cenário de uma emboscada perfeita estava montado.
— Ah, ótimo. Vocês voltaram — disse Mamãe, surgindo logo atrás de Kagome com o lençol perfeitamente alinhado nos braços.
— Mamãe... — Kagome começou, o tom de aviso na voz.
— Estávamos esperando por você.
— "Estávamos"? — Kagome ergueu uma sobrancelha, os olhos correndo pelo cômodo.
Souta estava sentado de pernas cruzadas perto da janela, digitando algo no celular com uma expressão falsamente distraída. No centro da mesa, Vovô já havia espalhado três pergaminhos amarelados que cheiravam a mofo e um almanaque de capa grossa com caracteres astrológicos desgastados. Até mesmo o gato, Chibibuyo, parecia fazer parte do cerco, ovado preguiçosamente em cima de uma almofada tal como o Buyo original.
— O que está acontecendo aqui...? — Kagome apertou o cesto contra o corpo, usando-o como um escudo improvisado.
— Reunião familiar — Souta anunciou, sem desviar os olhos da tela. — A mamãe confiscou meu videogame até a gente resolver isso. Então, por favor, coopera.
— Mãe, não... Eu não estou pronta para isso agora — Kagome protestou, dando um passo para trás.
— “Mãe, sim” — retrucou a mais velha, com um sorriso sereno que não aceitava contestações. Ela pegou o cesto das mãos da filha com firmeza e apontou para o lugar vago na mesa. — Ninguém dá opção de fuga para quem está prestes a se casar, querida. Sente-se.
Antes que Kagome pudesse formular a próxima desculpa, a porta de correr que dava para a varanda foi aberta com um estrondo desnecessário. Inuyasha entrou, os pés descalços fazendo o assoalho de madeira estalar. Suas orelhas de Akita deram dois espasmos rápidos, captando a tensão estática que preenchia o ar da sala.
— Que cheiro esquisito é esse? — ele resmungou, farejando o ar antes de apontar o dedo acusador para Vovô. — Velho, você acendeu aquelas ervas bizarras de novo? Minhas narinas estão queimando!
— Que insolência! Isto é incenso de sândalo purificado, seu hanyou sem cultura! — esbravejou Vovô, batendo com a palma da mão na mesa. — Estou tentando alinhar as correntes espirituais para encontrar o dia de maior auspício para o calendário do santuário!
Inuyasha soltou um "keh" sonoro, cruzando os braços dentro das mangas largas do quimono vermelho e sentando-se no chão de qualquer jeito, ao lado de Kagome. Ele não parecia entender a gravidade do que estava prestes a acontecer, mas sua presença ali, sólida e imediata, fez o estômago de Kagome dar um nó de ansiedade.
— Ótimo, agora que estamos todos aqui... — Mamãe sentou-se, puxando um calendário de mesa moderno e uma caneta esferográfica azul. — Vamos começar pelo mais importante: a data!
— Por que precisamos de uma data? — Inuyasha franziu o cenho, olhando de Mamãe para o calendário, como se aquilo fosse uma armadilha armada por um demônio menor. — Por que não fazemos isso amanhã? Ou depois de amanhã? É só o velho dizer as palavras dele, a Kagome usar aquela roupa esquisita, e pronto!
— Porque casamentos no mundo moderno não funcionam assim, Inuyasha! — Kagome cobriu o rosto com as mãos, sentindo as bochechas queimarem.
— E por que não?! No meu mundo, quando dois decidem ficar juntos, eles simplesmente ficam! No máximo, o líder do clã dava uma benção ou havia um banquete se o território estivesse em paz. Não seria muito mais prático?
— Porque precisamos organizar! — Souta interveio, finalmente guardando o celular. — Tem os papéis no cartório, a lista de convidados para a mamãe não morrer de vergonha com os vizinhos, as roupas... Você não vai casar de quimono vermelho e descalço, vai?
— E o que tem de errado com a minha roupa? — Inuyasha puxou o tecido de fogo com indignação. — Este quimono foi feito com a pele do Rato de Fogo! Protege contra chamas e lâminas! É melhor do que qualquer pano velho que vocês usam aqui!
— Isto não é um combate, Inuyasha! — Kagome e Souta disseram, em uníssono.
Mamãe suspirou.
— Não importa se protege contra fogo ou as garras de um demônio — interveio, a voz mansa cortando o início de um rosnado de Inuyasha.
Ela bateu de leve com a ponta da caneta no calendário.
— Um casamento precisa de uma data porque precisamos dar tempo para a vida se ajustar ao redor dela. E, gostem ou não, nós temos três meses.
— Três meses? — Inuyasha e Kagome perguntaram juntos.
— Por que tanto tempo?! — ele resmungou, cruzando os braços com tanta força que o tecido vermelho estalou. — Se o poço abrir antes disso, nós vamos ficar aqui sentados esperando por causa de um pedaço de papel?
— Inuyasha...
Kagome chamou, a voz subitamente séria. Ela tocou o ombro dele, fazendo-o encará-la.
— O poço não vai abrir amanhã. E se nós vamos fazer isso... Temos que fazer direito. Nós estamos aqui agora, certo?
Ele sustentou o olhar dela por alguns segundos e a rigidez em seus ombros cedeu um pouco, e as orelhas caninas abaixando de leve. Ele soltou um suspiro pesado pelo nariz, um som que era o mais próximo que ele chegaria de uma rendição pacífica.
— Keh. Que seja.
E, a partir dali, a reunião se transformou no caos previsível que Kagome conhecia bem. Vovô insistia que o final de outubro traria o alinhamento perfeito contra os maus espíritos, desde que Inuyasha passasse por um ritual de purificação de três dias comendo apenas brotos de bambu — o que rendeu uma ameaça direta de garras na direção do ancião. Souta tentava calcular o orçamento com base no preço dos bufês locais, enquanto Mamãe ia anotando nomes de parentes distantes na folha de rascunho.
Inuyasha não entendia metade dos termos, resmungando sobre a burocracia dos humanos modernos, mas não saiu do lugar. Ficou ali, fincado ao lado de Kagome, como uma presença teimosa e inabalável.
Gradualmente, o barulho foi diminuindo. Entre os protestos de Inuyasha, as excentricidades de Vovô e os cálculos práticos de Mamãe, o consenso finalmente cobrou o seu preço. A caneta azul riscou o calendário de mesa com um movimento firme.
Um círculo perfeito. Uma data real. Concreta.
— Pronto — Mamãe sorriu, fechando a agenda com um estalo satisfatório. — Está decidido. Agora, Souta, pode pegar seu videogame de volta. Vovô, por favor, recolha esses pergaminhos antes que o Chibibuyo resolva usá-los como arranhador.
A família começou a se dispersar com a mesma naturalidade barulhenta com que havia sitiado a sala: Souta correu para o quarto, Vovô saiu resmungando sobre a falta de respeito dos jovens pelos astros, e Mamãe recolheu as anotações, caminhando em direção à cozinha com a expressão leve de quem havia cumprido sua maior missão do dia.
A casa, aos poucos, voltou ao seu silêncio habitual de fim de tarde. O sol já estava quase sumindo, deixando uma linha alaranjada e comprida cruzar o tatame da sala.
Kagome continuou sentada, com os olhos fixos no calendário esquecido em cima da mesa. O círculo azul parecia saltar do papel. Não era mais "um dia". Não era "quando tudo se resolver". Era um dia real, que chegaria independentemente do que acontecesse com o fluxo do tempo.
Então uma mão de unhas compridas e afiadas tocou a sua. Os dedos de Inuyasha se entrelaçaram nos dela com a já conhecida firmeza desajeitada, mas sempre protetora.
— Tá nervosa?
A voz estava mais baixa agora, desprovida de qualquer agressividade, quase áspera pelo peso do momento.
Kagome engoliu em seco, sentindo o coração dar uma batida mais forte.
— Um pouco. E você?
— Keh... Claro que não.
— Mentiroso...
A orelhas dele tremeram suavemente.
— Cala a boca, Kagome.
— E se o poço abrir antes disso?
— Então a gente casa lá.
— E se não abrir?
— Então a gente casa aqui.
E ele não soltou a mão dela. Os dois voltaram os olhos para o calendário de mesa, observando o círculo azul que selava o destino deles no mundo moderno. Pela primeira vez em semanas, a incerteza do amanhã deu lugar a uma verdade absoluta: eles tinham uma data.
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