Kagome acordou antes que o sol despontasse totalmente sobre o horizonte de Tóquio.

Por alguns segundos, permaneceu imóvel na penumbra do quarto, encarando as ranhuras conhecidas do teto de madeira. A casa parecia mergulhada em um silêncio absoluto. Silenciosa demais.

Então, os degraus da escada rangeram. Uma porta bateu suavemente no andar inferior. A voz de Vovô atravessou o corredor:

— Cuidado com isso, Souta! É louça cerimonial de oferenda! Se trincar, atrai maus espíritos para o casamento!

— Eu sei, vovô! Estou segurando com as duas mãos!

— Então não carregue como se fosse uma caixa de refrigerantes!

— Eu estou carregando direito!!

Kagome fechou os olhos e soltou um riso baixo contra o travesseiro.

A ansiedade que apertara seu peito durante a madrugada desfez-se em uma onda morna de conforto.

Era o dia do seu casamento.

Ela respirou fundo, deixando que a constatação finalmente alcançasse cada célula do seu corpo.

Durante anos, imaginara aquele momento de maneiras fragmentadas. Às vezes, como uma ilusão distante de uma adolescente; outras, como um privilégio que a guerra pela Shikon no Tama lhe roubara para sempre.

Quando o Poço se fechara como pedra morta, chegara a acreditar que passar o resto dos dias na Era Moderna significaria viver eternamente dividida, guardando a metade de sua alma em uma era que não podia mais tocar.

Mas agora, ao encarar a luz suave do amanhecer que entrava pela janela, entendia.

Não havia fissura. A casa estava cheia. Sua família se movimentava com o frenesi habitual dos rituais. E Inuyasha estava em algum lugar lá embaixo — provavelmente tentando entender por que humanos precisavam de tantos panos e regras para declarar o óbvio.

Kagome sentou-se na cama. Não havia medo. Havia aquele arrepio bom de expectativa, a sensação lípida de que uma jornada longa e turbulenta finalmente encontrara um ponto de pouso sereno.

Ao abrir a porta do quarto, encontrou Mamãe parada no corredor, segurando uma bandeja com chá quente.

— Bom dia, querida.

Kagome sorriu.

— Bom dia.

A mãe a observou por alguns instantes em silêncio. Seus olhos, sempre tão compreensivos, suavizaram-se com uma ternura profunda.

— É hoje.

— É.

Mamãe aproximou-se, pousou a bandeja sobre a cômoda do corredor e, com gestos lentos e maternais, ajeitou uma mecha rebelde do cabelo da filha atrás da orelha.

— Está pronta?

Kagome pensou na pergunta.

Meses atrás, teria achado que "estar pronta" significava ter todas as respostas, não guardar nenhuma dúvida e ter o destino traçado em um mapa, sem sobressaltos. Hoje, sabia que estar pronta era simplesmente a coragem de caminhar para o desconhecido acompanhada por quem se ama.

— Estou.

Mamãe sorriu com os olhos brilhando.

— Então venha. Você tem um casamento para colocar nos trilhos antes que seu avô convença Inuyasha a usar um talismã purificador na testa.

Kagome riu alto, o som ecoando pelo corredor.

— Achei que a Sra. Tanaka e a mamãe já tivessem organizado tudo!

— Seu avô acha que “faltam ritos para aplacar os ancestrais”.

No andar de baixo, a casa parecia um pequeno campo de batalha cerimonial.

O avô conferia pela quarta vez a disposição das ramagens de sakaki* e das oferendas de saquê. Souta ajustava a gravata diante do espelho enquanto conferia os horários no celular, e Mamãe circulava entre eles como a verdadeira força estabilizadora da casa.

E Inuyasha...

Kagome parou no último degrau da escada, o ar trancando-se em sua garganta.

Ele estava de pé ao lado da porta de correr do pátio. Já vestia o montsuki que haviam ajustado semanas antes. As cinco insígnias do santuário Higurashi reluziam bordadas em branco nos ombros, peito e costas. A fita do haori-himo estava perfeitamente trançada sobre o peito.

O cabelo prateado, longo e denso, caía livremente sobre os ombros largos, sem adereços artificiais — preservando exatamente quem ele era. O contraste entre a imponência formal da veste aristocrática e a natureza selvagem de hanyou criava uma visão avassaladora.

Inuyasha percebeu a presença dela e virou-se devagar, ajustando as mangas amplas com um desconforto evidente.

— O que foi?

Kagome piscou, pisando no assoalho da sala.

— Nada...

Ele franziu a testa, as orelhas de Akita movendo-se discretamente sob o toucado de seda que as escondia.

— Você tá me olhando estranho. Tá torto? Aquele velho me fez dar vinte nós nessa faixa!

— Você está lindo, Inuyasha.

As orelhas dele moveram-se novamente e o rubor subiu rápido pelas bochechas, tingindo-as.

— Ah...

Ele desviou o olhar para o jardim, limpando a garganta.

— Você... também.

Kagome deu uma risadinha, tocando o próprio rosto limpo de maquiagem.

— Eu ainda estou de roupa de dormir e descabelada, Inuyasha!

— Não importa.

Ele cruzou os braços sobre o peito com a dignidade embaraçada de sempre.

— Tá bonita do mesmo jeito.

Ela desceu o último degrau, aproximando-se dele.

— Nervoso?

— Eu? Não.

— Mentiroso...

— Não tô nervoso!

— Então por que está cravando as garras no tecido da manga? Vai acabar rasgando.

Inuyasha olhou para as próprias mãos e pareceu se dar conta.

— Eu... só tava testando a resistência dessa roupa.

Souta ergueu os olhos do celular do outro lado do cômodo.

— Ele está andando de um lado para outro desde cedo. E rosnando pros passarinhos do pátio.

— Cala a boca, moleque!

— Inuyasha!

Ele fechou a boca no ato, encolhendo os ombros.

— Foi mal...

Kagome sorriu, ajustando o nó do haori dele com dedos delicados.

— Melhor assim.

Por um instante, o tempo pareceu suspender-se naquela sala.

Kagome olhou ao redor: o avô resmungando com as oferendas, Souta rindo, a mãe trazendo uma xícara de chá e Inuyasha parado ao seu lado.

Aquela era a sua família.

A família que ela deixara para trás durante a busca pelos fragmentos; a família que aprendera a amar o hanyou de cabelos prateados não como um ser estranho de outra era, mas como o homem que protegia o coração dela. Ele não era mais um visitante de passagem. Fazia parte daquela casa.


Mais tarde, na sala reservada do santuário, o processo de vestimenta do shiromuku era quase um ritual silencioso e quase sagrado.

Mamãe ajustava cada camada do pesado quimono de seda. O branco imaculado simbolizava a pureza da intenção, a prontidão para ser tingida pelas cores da nova vida que se iniciava. Quando Mamãe posicionou o tsunokakushi — o toucado branco tradicional sobre o penteado —, o silêncio no quarto tornou-se denso.

Kagome encarou o espelho de maquiagem.

A imagem refletida não era apenas a de uma noiva japonesa moderna. Era o espelho de toda a sua jornada.

Naquela face maquiada com elegância discreta, ela ainda conseguia ver a garota de quinze anos que caíra no poço em um dia qualquer de chuva; a menina que libertara um meio-youkai preso a uma árvore sagrada por uma flecha mágica; a jovem que vira o mundo antigo em guerra, que chorara perdas, que aprendera a purificar a maldade com a própria alma.

Ela não era mais apenas a garota de Tóquio. Nem apenas a sacerdotisa da Era Feudal. Era a mulher que condensara os dois mundos dentro do próprio peito.

— Pronto — murmurou Mamãe, dando um passo para trás e contemplando a filha.

Kagome ergueu as mãos cobertas pela seda alva, tocando o tecido denso.

— Mãe...

— Hm?

— Obrigada. Por tudo.

A mãe não pediu explicações. Não perguntou pelas saudades do passado, nem pelas incertezas do futuro. Apenas aproximou-se, repousando as mãos mornas sobre os ombros da filha cobertos pela seda.

— Você não precisa agradecer por ter uma casa para onde voltar, Kagome. E não importa para onde a sua escolha a leve, ou através de qual tempo você caminhe... esta casa continuará sendo sua. Sempre.

As lágrimas turvaram a visão de Kagome. Ela virou-se e abraçou a mãe com cuidado para não amassar a estrutura rígida do traje.


A cerimônia Shinzen Shinto foi realizada no pequeno pavilhão do santuário da família, sob a sombra da Goshoboku, a árvore milenar.

O ar da manhã estava limpo e fresco.

Quando Kagome caminhou pela passarela de madeira acompanhada pela família, a visão de Inuyasha parado diante do altarzinho de madeira resplandeceu.

Ele estava ereto, as mãos cerradas ao lado do corpo em uma postura rija, quase solene. Os olhos âmbares dele rastreavam cada passo dela. Quando o olhar de Kagome encontrou o dele por baixo da aba do tsunokakushi, a rigidez no rosto do hanyou cedeu. Um brilho suave, profundamente humano e genuíno, tomou conta de suas feições.

Então eles sorriram um para o outro.

Nada mais no mundo importava.

O sacerdote deu início aos ritos. As invocações purificadoras ressoaram, o som das miko tocando os sinos cerimoniais ecoou pelo pátio do santuário. Mas o momento em que a realidade se consolidou veio com o san-san-kudo.

A pequena mesa lacada de vermelho trazia as três taças de cerâmica — a pequena, a média e a grande.

Inuyasha encarou o conjunto com uma concentração quase cômica.

— É três vezes cada uma mesmo?

Kagome manteve o olhar sereno à frente, sussurrando de volta:

— Três pequenos goles de cada taça, Inuyasha. Sem pressa.

Ele olhou de relance para o sacerdote que servia o saquê sagrado.

— E se eu derramar essa gororoba na seda alugada do velho?

Kagome conteve o riso a custo.

— Não vai derramar. Confie em mim.

— É que esse troço de cerâmica é fino demais para as minhas garras...

— Você segurava estilhaços da Shikon com a ponta dos dedos sem quebrá-los. Você consegue segurar uma taça de saquê.

Inuyasha inspirou fundo.

Com um cuidado cirúrgico que fez o coração de Kagome derreter-se, ele usou as pontas dos dedos para erguer a primeira taça.

Bebeu os três goles rituais.

O primeiro.

O segundo.

O terceiro.

Suas mãos não tremeram um único milímetro. Ele executou cada movimento com uma reverência compenetrada, respeitando cada exigência da tradição humana.

Quando as taças foram recolhidas, os olhos dele encontraram os dela.

— Eu fiz certo?

— Fez perfeitamente.

— Então acabou essa parte?

— Quase. Ainda precisamos prestar os votos diante do altar.

Ele soltou um suspiro imperceptível.

— Humanos complicam até a hora de dizer que pertencem um ao outro...

— Você está reclamando, Inuyasha?

— Não. Não tô.

E a cerimônia prosseguiu até o fecho tradicional.

No momento em que foram declarados maridos e mulher sob as bênçãos daquele altar, Kagome percebeu primeiro algo libertador: não sentia a menor urgência em olhar para o galpão do Poço.

A angústia de não saber em qual tempo viveria desde que voltara havia desaparecido.

Ela não precisava de respostas imediatas sobre como conciliariam duas Eras, ou se a passagem voltaria a se abrir no dia seguinte. Naquele instante, no presente puro, bastava a certeza do homem que segurava sua mão.

Quando o sacerdote proclamou a bênção final e as últimas notas dos sinos cerimoniais se dissiparam no ar, Kagome sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

Não era frio, mas uma vibração sutil, quase imperceptível, ressoando no tecido da própria realidade.

Inuyasha estremeceu ao mesmo tempo.

As orelhas dele se moveram bruscamente, sobressaindo-se por baixo do tecido que as cobria. Ele olhou para baixo, para a própria mão direita que segurava a de Kagome.

— Kagome... você tá sentindo isso?

Ela não respondeu. Seus olhos estavam cravados no espaço entre eles.

Do dedo mindinho de Kagome, um fio de luz vermelha, tênue como uma teia de aranha e brilhante como um fiapo de luar rubro, começou a se projetar.

Não era energia espiritual comum. Não emitia calor nem pressão, mas brilhava com uma pureza avassaladora.

Simultaneamente, do dedo mindinho de Inuyasha, um fio idêntico se projetou.

Os dois fios avançaram devagar, ondulando suavemente no ar da manhã, tecendo o espaço entre as mãos deles até se tocarem.

No segundo exato em que as duas pontas se uniram, um nó invisível se deu no ar. A luz rubra pulsou como um coração batendo em uníssono.

O Akai Ito. O Fio Vermelho do Destino.

Kagome prendeu a respiração. Olhou ao redor rapidamente.

Vovô continuava limpando uma lágrima no canto do olho; Souta tentava enquadrar os dois na câmera do celular; Mamãe sorria com uma serenidade absoluta; suas amigas estavam aos berros, emocionadas.

Ninguém mais via. Ninguém mais reagia. Aquela visão pertencia estritamente aos dois.

Inuyasha piscou, passando a mão livre em frente ao fio, mas seus dedos atravessaram a luz sem rompê-la.

— O que é essa coisa?... Não tem cheiro de magia negra, nem de feitiço. É... puro.

— É a nossa união — soprou Kagome, sentindo as lágrimas quentes nos olhos — O laço que o tempo não pode romper.

Mas a vibração não parou no nó recém-formado.

O fio vermelho não permaneceu estático; ele continuou se estendendo para além das mãos deles, subindo no ar e projetando-se em direção aos fundos do santuário — na direção exata do galpão do Poço Devorador de Ossos.

Inuyasha ergueu a cabeça bruscamente, o nariz franzindo no mesmo instante em que a brisa do outono soprou pelas frestas do pavilhão.

— Esse cheiro... — ele rosnou baixo, os olhos faiscando em choque. — Kagome, é o mesmo cheiro daquela vez! De veneno, terra antiga... e ele!

— S-Sesshoumaru? — Kagome sussurrou, o coração dando um salto no peito.

— Sim. Não tá vindo daqui... tá vindo do outro lado do Poço. Agora. Neste exato segundo.

Kagome olhou para o fio vermelho que brilhava entre seus dedos e se perdia na direção do Poço.

A percepção atingiu seu peito como um raio divino: o tempo e o espaço não eram mais barreiras para o destino. Lá, na Era Feudal, sob as mesmas estrelas ou sob o mesmo sol de séculos atrás, outro laço estava sendo selado.

Rin? Será que...?

A magia que acabara de manifestar o Fio Vermelho entre Kagome e Inuyasha não podia ser um evento isolado; era uma espécie de... ressonância, talvez? Um eco ancestral entre os dois irmãos de eras distantes, conectados pela mesma decisão irrevogável de entrelaçar suas vidas às de duas mulheres humanas?

— Eu... acho que ele está se casando também, Inuyasha — disse Kagome, com a voz embargada por um maravilhamento profundo. — Do outro lado... talvez exatamente agora.

Inuyasha encarou o fio rubro por mais alguns segundos, visivelmente chocado.

— Aquele idiota... você acha mesmo?

Kagome riu baixinho, apertando a mão dele com mais força.

O nó do Fio Vermelho brilhou mais forte entre os dois, como se confirmasse que o Poço não era mais uma parede dividindo suas vidas, mas o canal que mantinha o tecido do universo perfeitamente alinhado.

— Não é uma competição, Inuyasha — disse ela, olhando fundo nos olhos dourados dele. — É o destino nos avisando que o caminho de volta está aberto.

Ele olhou para a direção do Poço, depois para ela, a expressão suavizando-se.

— Então vamos terminar isso logo aqui. Quero ver a cara daquele idiota quando ele perceber que a gente sabe de tudo.

Notas finais
*榊: Cleyera japonica. É uma árvore perene com flores nativa de áreas quentes do Japão, Taiwan, China, Mianmar, Nepal e norte da Índia.