犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
29 二十九 りん Rin
O som permanecia distante atrás dela enquanto o palácio suspenso desaparecia lentamente entre as nuvens, deixando para trás apenas a névoa prateada que envolvia os domínios de Gobodou-sama.
Ela olhou uma última vez para trás.
Durante toda a cerimônia, mal conseguira acreditar que aquilo estava realmente acontecendo.
Não fora uma cerimônia humana. Não havia a simplicidade do pequeno santuário de Kaede, nem os gestos que aprendera a reconhecer desde criança. Era outra coisa. Mais antiga. Mais solene. Mais próxima daquilo que significava ser reconhecida dentro do clã de Sesshoumaru.
Diante dos membros mais antigos da família, dos servos do palácio e dos representantes dos territórios subordinados ao Oeste, Gobodou-sama havia anunciado Rin como a consorte do atual Senhor do Oeste.
Não como uma humana protegida, nem como uma criança acolhida. E nem como uma criatura pertencente ao passado de Sesshoumaru. Como sua esposa.
Rin ainda sentia o peso daquelas palavras.
Quando deixaram o palácio, entretanto, tudo pareceu mais simples. Sesshoumaru caminhava ao lado dela. Sem comitiva. Sem criados. Sem os olhos atentos dos youkai aristocráticos. Apenas os dois.
— Sesshoumaru-sama?
— Hm?
Rin apertou um pouco mais o tecido do próprio quimono.
— Então... acabou?
Ele lançou-lhe um olhar de soslaio.
— A cerimônia terminou.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Ele esperou e Rin sorriu timidamente.
— Agora eu sou realmente sua esposa?
Ele parou.
Rin deu mais dois passos antes de perceber que ele havia ficado para trás, e virou-se.
Ele a observava em silêncio.
— Você já fez essa pergunta antes.
— Eu sei.
Ela aproximou-se novamente.
— Mas agora é diferente.
Sesshoumaru sustentou o olhar dela.
— Sim.
A resposta simples fez o coração de Rin apertar.
— Então... diferente como?
Ele ficou em silêncio por mais alguns instantes, e então respondeu:
— Agora todos sabem de sua escolha.
Ela sentiu um calor delicado atravessar o peito.
Todos agora sabiam.
Não era mais apenas uma decisão entre os dois.
Rin havia escolhido Sesshoumaru. E Sesshoumaru havia escolhido Rin. Aquela escolha agora tinha sido pronunciada diante dos clãs.
Ela sorriu.
— Então acho que posso dizer que o senhor finalmente fez aquilo que os humanos chamam de casamento.
— Hm.
— Sem reclamar.
— Não havia motivo para reclamar.
Rin riu.
— Gobodou-sama discordaria disso.
Um pequeno movimento atravessou os olhos dourados dele.
Talvez irritação? Talvez resignação?
— Minha mãe fala demais.
— Ela gosta de provocar o senhor.
— Eu sei.
Rin sorriu novamente.
Eles caminharam em silêncio por mais algum tempo, e então o terreno conhecido surgiu abaixo deles.
A aldeia.
A mesma onde Rin havia vivido tantos anos. Onde aprendera a preparar remédios. Onde ajudara Kaede. Onde conhecera Kohaku. Onde chorara quando acreditara que Sesshoumaru havia deixado de querê-la por perto.
Quando chegaram, algumas pessoas saíram das casas.
A notícia já havia chegado, Rin percebeu pelos olhares.
Alguns eram de surpresa. Outros, de curiosidade. Havia também aqueles que ainda não sabiam como tratá-la.
Sesshoumaru permaneceu ao lado dela, mas não precisou dizer nada.
Rin caminhou até Kaede. A velha sacerdotisa observou-a durante alguns segundos, e então sorriu.
— Então finalmente voltou, Rin.
Rin sentiu os olhos arderem.
— Sim, eu voltei.
Kaede olhou para Sesshoumaru, depois para Rin.
— Como esposa?
Rin assentiu.
— Como esposa.
A velha sorriu ainda mais.
— Então parece que você realmente descobriu o que queria.
Rin segurou a manga de Sesshoumaru.
— Sim, descobri.
Kohaku estava alguns passos atrás. Ele não parecia surpreso. Apenas observava. Quando seus olhos encontraram os de Rin, ele sorriu. Não havia tristeza. Não havia ressentimento. Apenas aquela mesma tranquilidade que sempre existira entre os dois.
Rin inclinou a cabeça e ele fez o mesmo. Era suficiente. Ela havia escolhido e ele havia aceitado a sua escolha.
Depois de algum tempo, Sesshoumaru finalmente falou:
— Rin.
Ela virou-se.
— Sim?
— Já é suficiente.
Rin entendeu.
Não era uma ordem para abandonar a aldeia. Era um aviso. Ela já havia sido vista. Já havia sido reconhecida. Agora, precisava seguir.
Rin despediu-se de Kaede, abraçando-a, e demorou alguns segundos antes de soltá-la.
— Cuide-se, minha menina.
— Vou me cuidar.
— E não se esqueça de voltar.
Rin sorriu.
— Não vou.
Quando voltou para junto de Sesshoumaru, ele estendeu a mão. Rin segurou-a, e então partiram.
O voo foi silencioso.
Rin estava acostumada à sensação do vento, mas naquela noite havia algo diferente.
Talvez fosse o peso das roupas. Talvez fossem as emoções. Ou talvez fosse simplesmente a consciência de que, pela primeira vez, não estavam indo para algum lugar onde ela ainda precisasse descobrir se pertencia.
Ela era a esposa de Sesshoumaru. E ele a estava levando para longe de todos.
Rin olhou para ele.
— Para onde estamos indo?
— Para um lugar onde não seremos interrompidos.
O coração dela acelerou.
— Ah...
Sesshoumaru continuou voando.
Rin olhou para o horizonte.
As montanhas passavam sob eles como sombras. Nenhum som além do vento. Nenhuma presença próxima. Nenhum olhar sobre os dois.
Ela respirou fundo.
— Sesshoumaru-sama?
— Hm?
— Está nervoso?
Ele olhou para ela.
— Não.
Rin sorriu.
— Está mentindo...
Sesshoumaru estreitou os olhos.
— Este Sesshoumaru não mente.
— Então está preocupado.
Silêncio.
Rin conhecia aquele silêncio. Era a confirmação. Ela abraçou o braço dele.
Sesshoumaru não se afastou.
— Eu também estou.
Ele continuou olhando para frente.
— Não precisa estar.
— Eu sei.
Rin fechou os olhos por alguns segundos.
— Mas estou.
O braço de Sesshoumaru se moveu ligeiramente, ajustando a posição dela contra o próprio corpo para protegê-la melhor do vento.
Rin sorriu.
Depois de um breve voo, pousaram, e Rin percebeu que não reconhecia o lugar.
Era uma construção pequena se comparada à de Gobodou-sama, e estava isolada entre as montanhas.
Não era exatamente um palácio, mas era claramente uma residência nobre e pouco frequentada. Não havia servos, nem guardas. Apenas uma residência de alto padrão e silenciosa cercada pela floresta.
Sesshoumaru pousou diante da entrada.
Rin desceu primeiro e olhou ao redor.
— Onde estamos?
— Em uma propriedade do Oeste.
— Ninguém mora aqui?
— Não.
Ela olhou para ele.
— Por quê?
— Porque este Sesshoumaru queria que estivéssemos sozinhos.
O coração dela bateu mais rápido e Rin abaixou os olhos.
— Entendo.
Sesshoumaru abriu a porta e esperou ela entrar.
O interior era limpo e organizado.
Havia futons preparados em um quarto. Uma mesa baixa. Algumas lanternas. Água. Comida aparentemente recém-preparada. Tudo cuidadosamente disposto.
Rin percebeu que aquilo havia sido preparado antes. Ele havia planejado tudo, talvez há dias. Talvez há semanas. Ela tocou a borda da mesa.
— O senhor preparou tudo isso?
— Sim.
— Por quê?
Sesshoumaru pareceu genuinamente confuso.
— Porque você viria.
Rin sorriu.
— Claro.
Ele permaneceu parado junto à entrada e então Rin percebeu que ele não estava se aproximando. Estava esperando. Ela olhou para ele por alguns segundos, depois caminhou lentamente em sua direção.
— Sesshoumaru-sama.
— Hm?
— Lembra do que Gobodou-sama perguntou?
Os olhos dele se estreitaram ligeiramente.
— Sim.
Rin sentiu o rosto aquecer.
— E do que o senhor respondeu?
— Sim.
— Então...
Por um instante, nenhum dos dois falou.
Rin respirou fundo.
Não queria que aquele momento fosse apenas uma consequência da cerimônia, nem queria que acontecesse porque alguém havia dito que agora era a hora. Queria que acontecesse porque ela queria e queria que ele soubesse disso.
— Eu estou aqui porque escolhi estar.
Sesshoumaru sustentou o olhar dela.
— Eu sei.
— E não estou com medo do senhor.
— Eu sei.
Rin sorriu.
— Mas estou com vergonha...
Ele não respondeu.
Ela segurou as mangas dele.
— Mesmo assim, ainda quero.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Algo muito sutil mudou nos olhos dourados do daiyoukai. Não era triunfo, nem posse, apenas uma compreensão silenciosa.
Então Rin sentiu o ar ao redor deles mudar.
Do dedo mínimo dela, um fio vermelho de luz começou a surgir. Ela arregalou os olhos, e, também do dedo mínimo de Sesshoumaru, um fio idêntico se formou.
E os dois fios se estenderam lentamente pelo espaço entre eles, finos como fios de seda, brilhando com uma luz rubra e suave.
Rin não conseguia desviar os olhos.
As duas pontas se aproximaram, e então se tocaram. Um pequeno nó de luz se formou entre eles.
— Sesshoumaru-sama...
— Akai Ito. O Fio Vermelho do Destino — a resposta dele foi quase imediata, mas contida — Indica que o destino de Rin e deste Sesshoumaru estão entrelaçados por definitivo.
Rin sorriu.
A luz pulsou uma vez. Depois outra. Como se tivesse encontrado um coração batendo em seu próprio ritmo.
Então Sesshoumaru levantou a mão e tocou o rosto dela. As garras não a feriram. Apenas deslizaram delicadamente por sua face.
— Rin.
— Sim?
— Se em algum momento desejar parar...
Ela assentiu.
— Eu direi.
Ele manteve os olhos nos dela.
— E este Sesshoumaru ouvirá.
Rin sorriu.
— Eu sei.
Ela se aproximou, e dessa vez foi ela quem fechou a distância entre os dois. O beijo foi breve. Tímido, quase incerto, mas não havia dúvida na escolha. Quando se afastaram, Rin permaneceu próxima o suficiente para sentir a respiração dele.
— Sesshoumaru-sama?
— Hm?
— Acho que ainda tenho muito a aprender sobre ser sua esposa.
Ele a observou.
— Este Sesshoumaru também.
Ela riu baixinho e, pela primeira vez, percebeu que talvez aquela fosse a coisa mais próxima de uma confissão de vulnerabilidade que ele conseguiria oferecer.
Então Rin segurou a mão dele e, juntos, eles finalmente adentraram a residência.
Longe do palácio. Longe da aldeia. Longe dos olhos do Oeste. Sem testemunhas. Sem tradições. Sem ninguém para decidir por eles. Apenas Rin e Sesshoumaru. E a escolha que haviam feito.
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