犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
27 二十七 りん Rin
Rin percebeu que havia prendido a respiração.
O silêncio que se seguiu à sua declaração pareceu maior e mais denso do que todo o salão do santuário celestial.
“Porque eu escolho estar ao lado de Sesshoumaru-sama, como sua esposa, por vontade própria.”
As palavras ainda vibravam no ar quando a Bakusaiga foi lentamente reconduzida à bainha.
Sesshoumaru não desviou os olhos de Rin. Havia algo diferente em sua postura; não era surpresa, pois um daiyoukai não se deixava sobressaltar por palavras humanas. Era uma atenção absoluta, pesada e serena, que fez o peito de Rin acelerar em um ritmo quase descontrolado.
Gobodou-sama, por outro lado, parecia verdadeiramente entretida. A matriarca ajeitou a estola de névoa sobre os ombros, o olhar dourado faiscando com uma ponta de malícia aristocrática.
— Então você realmente compreende o que acaba de pronunciar.
Declarou a Grande Senhora.
Rin voltou-se para ela, mantendo a postura ereta.
— Sim.
— Não apenas que deseja permanecer ao seu lado.
— Não.
— Não apenas que nutre afeição por ele.
Rin sentiu o rosto queimar, um calor intenso subindo pelas bochechas, mas não baixou os olhos diante da presença subjugante da criatura à sua frente.
— Não.
Gobodou-sama inclinou levemente a cabeça, os adornos em seus cabelos tilintando suavemente.
— Está afirmando que deseja tomar o seu lugar ao lado de um inu-daiyoukai, assumindo o peso de nosso clã.
Rin olhou de relance para Sesshoumaru.
Ele continuava imóvel como uma estátua de mármore sob o luar.
— Sim.
A resposta saiu sem um traço de hesitação.
A mãe de Sesshoumaru soltou um riso baixo, aveludado. Não era um escárnio cruel; havia ali curiosidade genuína e algo muito próximo de aprovação refinada.
— Fascinante.
— O que há de fascinante nisso, Gobodou-sama?
— O fato de que passei décadas convicta de que este meu filho jamais se daria ao trabalho de escolher uma consorte.
Os olhos da Senhora brilhanvam em direção ao Senhor do Oeste.
Então Sesshoumaru finalmente desviou o olhar de Rin, encarando a mãe com o rigor habitual.
— Mãe.
— O que foi?
— A questão está encerrada.
Rin piscou.
Gobodou-sama sorriu de canto.
— Está?
Sesshoumaru permaneceu em silêncio por um batimento do coração. Então, voltou a atenção para Rin, a voz ressoando com aquela gravidade profunda e Inabalável.
— Rin fez a sua escolha.
O coração de Rin apertou-se em expectativa.
— E o senhor?
A pergunta escapou antes que ela pudesse ponderar a audácia.
Gobodou-sama ergueu uma sobrancelha perfeitamente delineada, aparentemente saboreando a audácia da jovem humana.
Sesshoumaru, porém, não demonstrou incômodo. Apenas deu um passo solene na direção de Rin.
— Esta decisão não pertence apenas a Rin.
A voz firme cortava a brisa fria do parapeito.
— Se pretende tomar o lugar de esposa deste Sesshoumaru, precisa compreender que sua existência deixará de ser vista como neutra por todos os que estão sob o domínio do Oeste.
Rin assentiu devagar.
— Eu sei...
— Não sabe.
Corrigiu ele, sem aspereza, apenas enunciando um fato.
— Então me explique, Sesshoumaru-sama.
Sesshoumaru manteve o olhar fixo nela, os olhos dourados afiados como lâminas.
Gobodou-sama levou o leque aos lábios para ocultar o divertimento.
Rin quase suspirou. Ali estava a natureza dele. Ele podia erradicar exércitos inteiros, negociar com clãs milenares e cruzar domínios sem hesitação, mas traduzir a própria vontade em palavras para ela parecia exigir um esforço desnecessário diante do que ele considerava óbvio.
— Sesshoumaru-sama.
Insistiu, mas suavemente.
Então ele finalmente cedeu, a voz mantendo o timbre solene:
— Rin será reconhecida como consorte deste Sesshoumaru.
O rosto dela voltou a aquecer.
— Sim.
— Seu nome estará indissoluvelmente vinculado ao meu.
— Sim.
— Sua posição estará acima de qualquer autoridade humana dentro destas terras.
Rin refletiu por um breve segundo, lembrando-se das lições da aldeia e da vida simples entre os seus.
— Isso significa que... não poderei mais viver como antes?
— Não.
A recusa dele veio instantânea, categórica.
Rin piscou, confusa.
— Não?
— Continuará a viver exatamente como desejar.
— Mesmo sendo sua esposa?
— Especialmente por ser esposa deste Sesshoumaru.
Declarou, sem alterar o tom.
— Ninguém imporá rédeas àquela que este Sesshoumaru escolheu.
A declaração fez o sorriso de Gobodou-sama expandir-se de verdade.
Sesshoumaru percebeu a reação da mãe e dirigiu-lhe um olhar glacial, que a matriarca ignorou com absoluta elegância.
— Continue, Sesshoumaru. Não se interrompa por minha causa.
Provocou a senhora do palácio.
Ele ignorou a provocação e voltou-se para a jovem.
— Você permanecerá entre os humanos quando assim decidir. Retornará aos domínios do Oeste quando desejar. Viajará pelas terras que bem entender.
— O certo não seria esta garota ficar aqui, entre nós? Que esposa não dorme com seu marido?
— A esposa deste Sesshoumaru dormirá onde desejar.
E algo pesado e antigo no peito de Rin finalmente se desfez. Durante anos, um receio silencioso habitara o fundo de sua alma: o medo de que escolher Sesshoumaru significasse abrir mão da própria liberdade. Agora, ouvindo-o falar, percebia que o amor dele não era uma gaiola; era um horizonte inteiro.
— E se eu... mudar de ideia?
Perguntou, querendo ouvir a extensão daquela promessa.
O silêncio caiu por um instante, mas Sesshoumaru não hesitou.
— Então mudará.
Rin permaneceu imóvel.
— O senhor permitiria que eu partisse?
— Não é uma questão de permissão — os olhos âmbares de Sesshoumaru encararam os dela com uma clareza cristalina. — É sua vontade. Este Sesshoumaru não a manterá a seu lado contra a sua escolha.
Rin sorriu. Um sorriso pequeno, calmo, carregado de uma certeza que dispensava dúvidas.
— Então nada mudou.
— O quê?
— O senhor — respondeu ela, dando meio passo à frente. — Desde quando eu era uma criança na aldeia, o senhor sempre disse que eu deveria escolher o meu próprio caminho.
Sesshoumaru desviou o olhar por uma fração de segundo, encarando a névoa do vale.
— Porque era o que devia ser feito.
— E agora eu escolhi.
— Sim.
Aquela única palavra, pronunciada com a autoridade inquestionável daquele inu-daiyoukai, valia mais do que qualquer juramento humano.
Rin aproximou-se mais um pouco. Não queria mais tentar adivinhar as intenções dele por trás do semblante impassível. Queria a clareza da voz dele.
— Então... Sesshoumaru-sama aceita que eu seja sua esposa?
A pergunta pairou no ar, desprovida de artifícios ou medos.
— Este Sesshoumaru aceita.
O coração de Rin deu um salto no peito.
Gobodou-sama soltou um suspiro divertido, fechando o leque com um estalo suave.
— Finalmente.
Sesshoumaru olhou de lado para a mãe.
— “Finalmente”?
— Demorou consideravelmente mais do que o tolerável, meu filho — pontuou a matriarca, cruzando as mãos dentro das mangas do quimono celestial. — Quando você era filhote, este palácio era silencioso e eu tinha a convicção de que jamais precisaria me preocupar com estirpes ou casamentos. Então, muitos anos depois, seu pai decidiu apegar-se a uma humana...
Sesshoumaru estreitou os olhos.
— Não mencione meu pai nesta conversa.
— Não estou comparando nada — desdenhou ela com superioridade graciosa, aproximando-se de Rin. — Apenas constatando que, no fim das contas, o sangue dos cães parece carregar as mesmas teimosias.
Rin conteve o riso a custo.
Sesshoumaru permaneceu com o semblante rígido, a mandíbula levemente marcada pela tensão.
— Mas há um detalhe pragmático que ainda precisa ser alinhado — continuou Gobodou-sama, encarando Rin com seriedade súbita. — O que exatamente espera desta união, humana?
Rin não respondeu de imediato. Olhou para as próprias mãos calejadas pelo trabalho no campo e pelas ervas de Kaede, depois ergueu os olhos para o Lorde do Oeste.
— Quero continuar escolhendo — disse, com clareza. — Quero continuar podendo ir e voltar. Quero aprender o que ainda não sei sobre o seu mundo, mas quero manter a vida que construí. E quero que Sesshoumaru-sama faça parte de tudo isso.
Ela fez uma pausa, levando a mão ao amuleto de madeira presa ao pescoço.
— Não quero ser protegida apenas porque passei a pertencer ao seu clã. Quero ser protegida porque o senhor me ama.
O silêncio retornou, denso e absoluto. Nem mesmo Gobodou-sama fez qualquer comentário irônico.
Sesshoumaru baixou o olhar para o pequeno amuleto entre os dedos dela. Ergueu a mão direita — grande, alva, pontuada pelas garras afiadas — e, com uma delicadeza extrema, ajeitou o cordão sobre o tecido do quimono dela, tocando-lhe de leve a curva do ombro.
— Então assim será — declarou ele.
— Quando pretende tomá-la? — interrompeu Gobodou-sama, como quem pergunta sobre a colheita da estação.
Rin arregalou os olhos, o rubor voltando instantaneamente ao seu rosto.
Sesshoumaru recolheu a mão, voltando-se para a mãe.
— Isso ainda não foi determinado.
— Como não?
— Não.
— Murcho e indeciso, como de costume.
Comentou a Senhora, entretida.
Rin notou que a postura de Sesshoumaru ficara ligeiramente mais rígida. Um detalhe imperceptível para qualquer outro, mas cristalino para ela.
— S-sesshoumaru-sama...? — murmurou.
— O que?
— O... o que Gobodou-sama quer dizer com “tomá-la”? Precisamos primeiro falar sobre o casamento, não?
Ele a encarou do alto de sua estatura, impassível.
— Não.
Gobodou-sama riu abertamente, um som cristalino que ecoou pelas colunas do templo.
— Garota boba. Você não sabe? Os daiyoukai não se casam como os humanos. Eles escolhem as fêmeas que desejam, e se deitam com elas.
O silêncio que se seguiu à declaração de Gobodou-sama pareceu petrificar o ar ao redor.
Rin piscou uma, duas vezes, o rosto queimando em uma tonalidade tão viva de vermelho que rivalizava com os bordados do quimono da matriarca. A boca dela abriu-se em protesto, mas a voz simplesmente recusou-se a sair.
— Mãe.
A voz de Sesshoumaru não veio alta, mas carregava uma gélida autoridade. Ele deu um passo à frente, interrompendo a linha de visão entre a mãe e Rin.
— Suas provocações terminaram.
— Provocações?
Gobodou-sama ergueu o leque com graça languida, os olhos dourados brilhando de puro entretenimento.
— Apenas expus a natureza das coisas, meu filho. Se ela pretende caminhar entre nós, precisará entender que as leis da nossa estirpe não se curvam a rituais de papel e incenso humanos.
— A esposa deste Sesshoumaru não será submetida a nada que não deseje — declarou ele, a voz cortante e categórica. — As tradições deste clã se curvarão à minha vontade, não o contrário.
A Grande Senhora observou o filho por um longo segundo. O sorriso brincalhão em seus lábios suavizou-se ligeiramente, dando lugar a um olhar de aprovação velada e quase imperceptível.
— Muito bem...
Ela virou o corpo esguio vestido de seda prateada e deixando que a névoa celestial começasse a envolvê-la novamente.
— Veremos então como o Senhor do Oeste conduzirá a própria história. Não me decepcione, garota.
Com um roçar suave de tecidos e névoa, a presença de Gobodou-sama dissolveu-se no ar da noite, deixando os dois a sós na vastidão do templo suspenso.
Rin continuava parada no mesmo lugar, a mão cobrindo o peito, o coração martelando contra as costelas. Ela olhou para as costas de Sesshoumaru, buscando ar.
— Sesshoumaru-sama...
Ele voltou-se devagar para ela. O semblante dele permanecia impassível, mas os olhos âmbares pareciam examinar cada fração do embaraço dela.
— Não dê ouvidos às palavras dela — disse ele com gravidade. — Nada neste domínio acontecerá sem que você assim o determine.
A firmeza na voz dele agiu como um bálsamo. O calor no rosto de Rin aos poucos transformou-se em um sorriso pequeno, genuíno e calmo. A timidez ainda estava ali, mas a confiança de que ele jamais a forçaria a nada se sobrepunha a qualquer medo.
— Eu sei... — respondeu ela suavemente, dando um passo em direção a ele e segurando a manga do quimono dele. — Eu confio em Sesshoumaru-sama. Mas o senhor... aprenderia algumas coisas sobre como os humanos se casam?
Ele encarou os dedos pequenos dela se prendendo aos seus.
— Este Sesshoumaru aprenderá o que for necessário.
E Rin riu baixo, uma risada leve que ecoou pela brisa fria da montanha, selando de vez a promessa entre ambos.
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