Rin movia as mãos sob a água com cuidado excessivo, como se qualquer movimento brusco pudesse denunciá-la. Lavava suas roupas de baixo com firmeza, mas tentando parecer casual — como se estivesse ali apenas para brincar com a correnteza.

Ninguém podia ver.

Se alguém visse, haveria perguntas. Explicações. Talvez risadas abafadas. Talvez conselhos constrangedores. Ela não queria nada disso. Olhou ao redor mais uma vez. O riacho estava vazio.

A água chegava apenas às suas coxas, mas ela havia permanecido agachada por tempo suficiente para que o tecido de seu quimono estivesse molhado até a cintura. Se Kaede-obaasama perguntasse, diria que tentava pegar peixes com as mãos, uma desculpa que ela provavelmente perceberia.

Ao sair da água, apressou o passo de volta para casa.

“Sua casa”.

Na verdade, a casa da sacerdotisa da vila, que cuidava de sua educação, de sua segurança e de seu crescimento.

Três anos haviam se passado desde que Sesshoumaru a deixara ali.

Três anos.

Ele explicara que aquele era o lugar certo para que ela crescesse, entre outros humanos, em segurança. Rin compreendia isso agora. Mas, compreender não significava aceitar completamente. Se Naraku havia sido derrotado… Se não havia mais inimigos, por que ele não ficara?

A vila já estava acostumada com a presença de youkai. Inuyasha-sama vivia ali. Kirara. Shippou também. Por que Sesshoumaru-sama não? Será que ele não gostava daquele lugar? Ou teria retornado às tais Terras do Oeste? À sua mãe?

Rin lembrava-se dela com nitidez dela: bela, imponente... E gélida.

Fisicamente, mãe e filho eram quase idênticos. Eles tinham os mesmos cabelos longos e platinados, a mesma pele clara marcada com a meia-lua, os mesmos olhos âmbares, as mesmas garras, as mesmas roupas nobres. Mas os olhos… Os olhos eram diferentes. Gobodou-sama* ela era linda, sem dúvidas, muito parecida com o filho, mas não tinha a mesma natureza gentil dele. Sesshoumaru-sama podia ser muito quieto e sério a maior parte do tempo, dizendo palavras por vezes duras ou indiferentes, mas ele, ao menos, tinha algo no olhar, alguma emoção, que Gobodou-sama não tinha. Para Rin, ele sempre a olhava com uma pergunta no olhar: “Você está bem?”, “Há algo que deseja dizer?”.Tudo geralmente sem dizer uma única palavra. E ele sempre estava disposto a ouvir o que ela tinha a dizer, diferente de sua mãe...

— Rin?

Ela ergueu os olhos.

Kohaku pairava acima, montado em Kirara. Seu rosto aqueceu instantaneamente. Esperava que ele não tivesse notado nada estranho.

— Está tudo bem? — ele perguntou.

Ela respondeu rápido demais:

— Sim! Está! Aconteceu alguma coisa?

— Eu… acho que vi Sesshoumaru-sama por aqui.

O coração dela vacilou.

— Sério?

Não eram os presentes que importavam. Era a presença. A sensação de segurança. A curiosidade sobre a vida dele — uma vida que ela conhecia tão pouco.

— Ele estava naquela direção — Kohaku apontou. — Mas foi embora. Vou dar uma olhada. Quer vir?

Ela quase disse sim, mas lembrou-se do sangue. Do segredo. Do fato de que seu corpo havia começado a mudar.

— Eu… Não posso agora.

— Por quê?

Pensou rápido.

— Preciso preparar o almoço para mim e Kaede-obaasama!

Ele aceitou a resposta sem insistir. Kohaku sempre respeitava os limites dos outros.

Quando finalmente ficou sozinha, Rin procurou tecidos antigos e dobrou-os cuidadosamente, criando uma camada mais espessa para evitar novos acidentes. Kaede já lhe explicara tudo. Sabia que era menstruação e que estava se tornando mulher. Ainda assim, parecia cedo demais. Repentino demais. Enquanto ajustava o acessório improvisado, ouviu vozes agitadas na vila.

— Miko-sama! — um morador berrava à porta da casa de Kaede

Foi Rin quem o recebeu.

— Kagome-sama! Ela voltou!

O coração de Rin se iluminou.

Kagome-sama estava de volta? Isso significava que Inuyasha-sama não estaria mais sozinho! Significava que, talvez, houvesse casamento. Família. Uniões. E então, um pensamento, tímido e inevitável, surgiu:

“Sesshoumaru-sama ficará sozinho?”

Ou ele também escolheria alguém? Ela não conseguia imaginar quem. Talvez era por isso que ele decidira não se mudar para a vila, para não ser o único ali a estar sem um par?

Apressou-se para contar a novidade à Kaede.



Mais tarde, da porta de casa, viu Kagome vestida como miko. O céu escurecia levemente quando percebeu Kirara cruzando o ar novamente com Kohaku, e então…

— Rin.

Kaede a chamou.

— Há algo para você.

O pacote estava ali. Rin soube antes mesmo de tocar. Aquele tipo de embrulho. Aquele cuidado. Sesshoumaru-sama. Abriu com delicadeza, e era um tecido cor de cerejeira com detalhes dourados. Lindo.

— Ele trouxe mais um quimono — disse Kaede.

— É bonito, não é?

— Muito. Mostra que ele se importa com você.

Rin hesitou.

— Mas, ele vem tão pouco…

Kaede permaneceu em silêncio por um momento.

— Sesshoumaru é o Senhor das Terras do Oeste. Grandes senhores têm deveres. Inimigos antigos. Responsabilidades.

Fazia sentido. Ainda assim, algo doía. Não abandono. Mas distância. Rin passou os dedos pelo tecido e sentiu o seu coração aquecer. Ele sempre lhe trazia quimonos novos como se achasse que ela deveria se vestir melhor que a média das mulheres comuns, talvez um hábito que remetia às suas origens nobres. Seu olhar caiu sobre as próprias mãos. Sobre o sangue já limpo. Sobre o fato inegável de que estava deixando de ser criança.

— Kaede-obaasama…

— Sim?

Rin respirou fundo, sentindo um peso invisível.

— Eu preciso contar uma coisa. Sobre mim.

Não era apenas sobre o sangue, mas sobre o que ele significava. Ela estava crescendo, e talvez fosse a hora de decidir o que isso queria dizer.

Kaede a observou com atenção por alguns instantes.

— Então... O sangue veio?

Rin ficou vermelha. Kaede apenas assentiu.

— É esperado.

Sem choque. Sem drama. Depois, firme:

— Isso significa que o seu corpo iniciou o caminho de mulher.

Pausa.

— Mas, você ainda é muito jovem. Seu espírito ainda cresce.

Ela aproximo-se um pouco mais.

— Não diremos nada à vila. Ainda não é necessário. Há tempo.

E então, com aquela sabedoria silenciosa, acrescentou:

— Mas você deve começar a pensar como deseja ser vista.

Rin permaneceu em silêncio depois daquelas palavras. Talvez fosse por isso que Sesshoumaru-sama a tivesse deixado ali. Não por distância, nem por indiferença, mas para que crescesse longe de sua sombra, aprendendo com outras mãos aquilo que ele jamais poderia ensinar. Talvez ele quisesse que, caso voltasse a caminhar a seu lado algum dia, ela o fizesse não mais como a criança que fora salva, mas como alguém que escolheu por si mesma.

Notas finais
*御母堂様 ("gobodou-sama") = "Senhora Mãe", como Jaken se refere à mãe do Sesshoumaru.