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3 Maybe now we are dead
Notas iniciais
Depois de um tempo cheguei em casa. Completamente suada e ofegando. Abri a porta rapidamente e entrei. Minha mãe logo apareceu. Ela usava o mesmo roupão de sempre.
— Meu deus! O que aconteceu com você? Olha seu uniforme!
Tirei os sapatos e entrei em casa a ignorando. Eu queria muito contar tudo que aconteceu para alguém. Mas essa pessoa não seria a minha mãe.
— Você não vai falar? — Ela me olhava e falava alto enquanto eu subia as escadas. — E a sua pasta? Cadê? Você foi assaltada?
Tirei e joguei o uniforme no cesto de roupas sujas. Entrei na banheira e baixei-me até que parte do meu rosto estivesse coberto pela água.
Eu ficava pensando naquilo a cada segundo que passava. Óbvio. Não era todo dia que alguém tenta te jogar de uma plataforma direto para um chão frio de concreto não é? Não era todo dia que presenciamos a morte de alguém do jeito que eu presenciei hoje não é? Era estranha a forma como tudo aconteceu rápido, sem tempo para que os dados entrassem e formasse alguma coisa na hora.
Coloquei meu pijama e deitei-me na cama. Olhei o meu celular umas cinco vezes seguidas. Nada, zero mensagens. Lembro-me de ter passado meu número do celular para Manami e para Hana antes de tudo acontecer.
12 de abril. Uma semana depois das aulas começarem.
Dormi. Por três dias no máximo. Sem sair do quarto. Sem sair da cama.
15 de abril.
Ouvi minha mãe falando ao telefone com a regência da escola. Fiquei paralisada. Logo depois ela veio ao meu quarto.
— Yasu? — Abriu uma fresta na porta para olhar. Depois entrou.
Eu estava acordada e virada para o lado. Fingi estar dormindo.
— Escuta... Ligaram-me da escola. Já faz três que você não vai. Aconteceu alguma coisa? Se quiser me contar estou aqui. Tentarei lhe ajudar. — Ela parecia sorrir
Nunca ligou para mim em questão de escola. Eu era mais mãe dela do que ela minha mãe antes de nos mudarmos para cá. Ultimamente não trocávamos muitas palavras.
Soltei um suspiro. — Está tudo bem. — Continuei o silêncio.
— Você não se adaptou a escola? Podemos achar outra. Tem uma no norte. É mais longe, mas talvez... — Então a Interrompi:
— Eu disse que está tudo bem. Eu vou amanhã. Só não finja se preocupar com isso tudo. — Ela concordou com a cabeça e saiu do quarto fechando a porta. Virei-me novamente para o lado.
16 de abril.
Amanheceu. Levantei da cama. Meu uniforme estava em cima da cadeira azul que havia em meu quarto, estava limpo e passado.
Ela parece estar se esforçando. Pensei
Vesti o uniforme e terminei de me arrumar. Passei a mão na mesa e lembrei que havia perdido a minha pasta no dia em que tudo aconteceu.
Dei comida para o gato ainda sem nome.
— Que tal eu te chamar de Nori? Ou talvez de Hana. Você é da mesma cor da alma dela. Negra.
Ouvi minha mãe entrar pela porta da frente.
— Ah. Yasu. Já levantou. Está tudo bem em ir a escola? — Ela havia ido ao mercado e colocou em cima da mesa várias sacolas com frutas e verduras variadas.
— Sim. — Falei. — Acho que sim. — Sussurrei.
Ajudei ela a guardar as variedades na geladeira e fui andando para a escola. Um passo de cada vez. Lentamente. E quanto mais chegava perto mais eu suava frio.
Respirei fundo e entrei pelo portão. Tirei os sapatos e coloquei os que se usava especialmente para a escola.
Entrei na sala. Todos estavam alvoroçados e Nori estava sentado lendo um livro. Porém parecia que seus olhos não acompanhavam as linhas. Hana estava com um grupo de meninas, gargalhando alto. Eu entrei e ela olhou para mim normalmente. Depois voltou aos assuntos. Sentei-me na minha carteira, a ultima da fileira do canto esquerdo da sala. A aula começou. Eu não tinha a minha pasta, ou seja, não tinha meus livros para a devida aula. Isso iria dar problemas. Claro.
— Onde está seu livro? — O professor da matéria se aproximou de mim e fez uma cara de insatisfação.
— Eu o perdi. — Abaixei a cabeça.
Hana e Nori se entre olharam.
— Ela pode sentar comigo! E acompanhar a aula. — Disse Hana com um ar animado.
O que? Eu não conseguia abrir a boca e soltar um Não! Droga, ficar perto dela fazia meu coração acelerar. Era uma mistura de raiva e medo. Angústia e talvez algo que seria decepção.
Ela se sentou ao meu lado. Eu estava imóvel.
— Sua... — Ela cochichou.
— O que? — Falei um tanto alto que todos olharam, mas já voltaram seus olhares para o professor. Hana fez uma careta.
— Sua... Pasta. Está comigo. — Ela continuou cochichando.
Concordei com a cabeça.
Ela passou a mão em minha coxa. Eu gelei e tentei afastar a perna.
— Quanto aquele dia. Não ligue para aquilo. Era uma brincadeira. — Ela sorriu exageradamente e continuou a passar a mão. Então a tirou ao terminar de falar.
Uma brincadeira? Claro! Vamos brincar de tentar matar os amigos! Minha brincadeira favorita. Isso foi idiota.
Depois era intervalo. Resolvi sair rápido para não ser interrompida por ela. Ou por ele. Que era bem improvável. Subi até as salas da educação infantil, que não existia mais na escola por alguns anos. Eram salas vazias. Algumas ainda tinham desenhos e vestígios das crianças que estudaram ali antigamente. Entrei em uma que, por sorte, estava destrancada. Fechei a porta. A janela estava aberta. As cortinas brancas e cheias de poeira voavam com o vento. Eu não havia trazido nada para comer. E também se tivesse trazido duvido que conseguiria comer alguma coisa.
Caminhei até a janela. Era realmente alto ali. Enquanto olhava lá para baixo ouvi a porta abrir. Alguém estava lá, parada na porta. Eram duas meninas.
Porém, não usava o mesmo uniforme que o meu.
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