à flor da pele
1 Guardanapo
você me disse uma vez que não há motivos para se preocupar com a vida quando ela o joga para trás
e falou sobre flechas e sobre elas terem que ser puxadas antes de serem soltas com intensidade para frente
e comparou o ato com a vida.
afirmou que o mundo derruba para jogar depois à uma imensidão de oportunidades
que passariam rápido,
que seriam lindas
que seriam difíceis de se olhar
(e de escolher)
disse que o céu se fecha quando quer que você o imagine mais bonito do que ele pode ser,
e que a chuva às vezes vem para lavar a sua alma e levar embora suas tristezas
e que está tudo bem ter os seus momentos ruins em um dia chuvoso
já que as suas lágrimas se juntarão às copiosas poças que são infinitamente incômodas
e dissonantes
e importunas
e que vendo assim, da janela do sexto andar,
nem são tão solitárias afinal
assim como você.
(e está mais do que bem ficar triste quando você não consegue fechar uma cortina e seguir uma rotina e achar a sua sina)
mas talvez as lições proferidas depois do pôr-do-sol tenham sido as que mais lhe marcaram,
elas te ensinaram que nenhuma pessoa vai embora.
para sempre você fica com as lembranças boas
daquela manhã na praia e daquela tarde no boliche e daquela noite fumando cigarro na calçada
(mas principalmente daquela segunda-feira depois do pôr-do-sol em que as lições foram dadas e você disse eu te amo e eu disse eu menti quando queria que desistisse de mim
e você sorriu mesmo que sorrisos dessem rugas
porque você preferia ser um adolescente realizado a um adulto calado
e ter rugas era melhor do que não ter nada ao todo)
quando a necessidade de retribuir os textos sinceros
as homenagens indiretas
e os beijos ordinários na testa
mostrou-se presente, você notou que
na verdade, tinha feito o bem o tempo todo,
porque presentear alguém com o ato de sentir era algo tão grandioso quanto puxar alguém para sentir com você.
(você me conheceu em um momento muito estranho da minha vida e eu te amo e eu fico feliz por você não ter desistido; por estar vivo ao mesmo tempo que eu; por ser a minha flecha e o meu sol depois da chuva e a minha lembrança mais bonita.)
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