Único. Épico.
3 3.
Notas iniciais
Estou sentado no balanço. O quintal de fundo de seus pais parece o mesmo, ainda mais durante a noite quando nós dois trocávamos segredos. Torço internamente para que não resolvam respirar a brisa noturna, não quero explicar o que estou fazendo aqui. Porque estou apenas me embriagando com lembranças, me deixando afundar até que se torne impossível respirar qualquer outra coisa que não seja memória.
Tenho a certeza de que ela nunca soube o quanto cada dia ao seu lado podia ser perfeito como um por do sol na praia e horrível como uma tempestade nas montanhas. Ela nunca soube o que cada uma de suas pintas e sardas me causavam, ou o quanto eu abria mão de tudo que eu era apenas para ela sorrir.
Suas cartas arrependidas ainda estão guardadas em caixas antigas, suas desculpas, suas perguntas, suas certezas, nossas declarações nas entrelinhas cheias de poesia e ao mesmo tempo ásperas e duras. Sempre fomos opostos perfeitos, calmaria e agitação. Em uma delas Lily jurava que me queria, me pedia para deixar tudo de lado e seguir suas pistas, migalhas de pães espalhadas pela floresta como em um conto de fadas, não sei como eu sobreviveria aos doces da casa da bruxa. Naquele momento pensei em responder para ela que se me quisesse teria ter me demonstrado. Fiz tantos rascunhos, não enviei nenhuma resposta. Foi o não mais importante.
Uma vez me disseram que se a gente nunca sangra, nunca vamos chegar a crescer. Minha verdade é que passei mais tempo sangrando e talvez esse seja o meu motivo para ter tomado decisões diferentes do que imaginávamos. Porque nós tínhamos planos, eu saberia que em algum momento seria nós dois. Eu e ela. Como nos filmes que assistíamos, como naqueles que criamos. Deixamos de ser nós. Virei eu.
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