Último verão

2 Casa na árvore


Olhei pela janela do quarto quando acordei, o céu estava completamente azul essa manhã, tomei um banho rápido e me sentei na cama – Bom, de volta a vida normal – resmunguei enquanto olhava em cima da cômoda procurando meu notbook, me deni conta de que não o via desde ontem, desci as escadas correndo, não lembrava onde tinha deixado, isso não era uma novidade. Olhei dentro de algumas caixas que estavam no balcão da cozinha, depois procurei na sala, a ansiedade começou a bater quando não encontrei nem ao menos o carregador. Quatro anos atrás comecei a trabalhar com publicidade em um empresa, eu era responsável por elaborar as propagandas e fechar os contratos com os clientes, depois da pandemia que vivemos o meu trabalho continuou sendo home office, o que foi perfeito pois assim poderia continuar trabalhando para a mesma empresa de qualquer lugar do mundo que eu estivesse. Naquele notbook estavam todos os arquivos importantes do trabalho, se eu perdesse com certeza seria demitido.

Enquanto eu jogava as almofadas do sofá no chão e revirava a sala de ponta cabeça, ouvi a campainha tocar, não queria atender pois estava desesperado e preocupado demais para isso, mas resolvi ver quem era depois da campainha tocar pela terceira vez.

— Muito que bom dia senhor Tommy – Disse Noah entrando e me abraçando assim que abri a porta

— Oi Noah, que bom te ver – falei mas não conseguia esconder minha preocupação

— Não parece ter sido assim tão bom, que cara é essa? – Ele disse isso bagunçando meu cabelo que já estava totalmente bagunçado

— Eu perdi meu notbook, bom eu acho que perdi não encontro ele em lugar nenhum

— Acredito que comprar um novo notbook não seja um problema pra você

As pessoas costumavam pensar que pela minha família ter dinheiro, eu poderia ter e comprar tudo o que eu quisesse, mas não era bem assim e pra falar a verdade eu gostava de ganhar meu próprio dinheiro e não depender do dinheiro dos meus pais.

— Não é bem assim Noah, e o que me preocupa é os documentos do meu trabalho, se eu perder vou ser demitido e posso ser até processado, tem muitos documentos importantes lá e....

— Ei.. Querido Tommy.. olha pra mim – ele segurou meu rosto como sempre fazia quando eu estava prestes a ter um surto – respira fundo, está tudo bem a gente vai encontrar seu notbook ok

De todas as pessoas do mundo, Noah era o único que conseguia me acalmar dessa maneira. Quando tinha doze anos e estava passando as férias aqui na casa da vovó, nós decidimos fazer uma casa na árvore, parecia fácil, mas na verdade era muito complicado. Não foi a melhor das nossas idéias, o que resultou em uma queda e eu parando no pronto socorro. Levei sete pontos na braço aquele dia, enquanto o médico e a vovó tentavam me acalmar eu só sabia chorar, estava entrando em pânico pois além da dor, imaginava que minha mãe não deixaria mais que eu fosse passar as férias em Falls City. Foi ai que Noah se aproximou da cama onde eu estava, pude ver lágrimas em seus olhos enquanto ele segurava meu rosto – Querido Tommy, respira fundo, eu estou aqui, vai ficar tudo bem – ele disse e por alguns momentos a dor não parecia tão grande, nem mesmo quando o médico começou a costurar meu braço, pode ser o efeito da anestesia mas eu sabia que Noah estava ali comigo, tudo ficaria bem.

— Desculpa, eu estava surtando – falei soltando a respiração

— Ainda bem que eu estava aqui pra te acalmar – ele disse e era verdade – Então, quando foi a última vez que você viu o seu notbook?

— Bom, ontem antes de sair atrás do caminhão da mudança, eu coloquei o notbook no carro e....... – lembrei e isso me deixou com vergonha – Acho que ainda está no carro

Comecei a coçar a cabeça dando um sorriso desajeitado enquanto Noah caia na gargalhada.

— Eu amo que você continua sendo o mesmo Tommy de antes – tenho certeza de que meu rosto estava parecendo uma pimenta de tão vermelho

— E que tal a gente sair pra tomar um café – sugeri tentando tirar a atenção dessa situação

— Eu vim aqui justamente para te convidar, mas acho que seria bacana você colocar uma calça primeiro – Noah apontou para minhas pernas foi então que percebi que ainda estava de cueca

— Ai droga... espera.... desculpa – Sai correndo subindo pelas escadas, tenho certeza de que fiquei mais vermelho ainda.

Saímos pela cidade no meu carro, foi uma batalha pois Noah estava tentando me convencer em ir de bicicleta, por mais que eu quisesse relembrar nossos momentos andando de bicicleta pela cidade, meu sedentarismo falava mais alto e eu o convenci a ir de carro comigo, o notbook estava no banco de trás. Noah estava me explicando sobre as mudanças nos lugares que eu conhecia enquanto meu carro fazia um tour pelo centro da cidade, estacionei o carro em um café em frente a praça principal.

— Capuccino com chocolate e chantily certo? – Noah já estava indo em direção ao balcão

— Sim – Era tão bom ver aquele sorriso novamente, não entendia na época, éramos novos demais para pensar dessa forma, mas acho que eu estava entendendo o que eu estava sentindo agora

Caminhei até uma mesa que ficava próximo a uma janela de vidro que dava visão a praça principal, passei um momento observando aquelas pessoas caminhando com seus cachorros, outras segurando pastas, apressadas como se estivessem atrasadas, os jovens com suas mochilas escolares e uniformes, estava batendo uma nostalgia enorme.

— Ainda não entendo como alguém pode beber algo assim tão doce pela manhã – Noah colocou o copo na mesa enquanto sentava na minha frente

— E eu não entendo como alguém pode gostar de café sem açúcar

Noah sempre bebia café, suco ou qualquer outra coisa sem açúcar, minha mãe pediu que eu seguisse o exemplo uma vez, mas não funcionou, eu até tentei uma vez quando entrei na faculdade, minha amiga Amora queria que eu entrasse para seu projeto fitness, não durei nem uma semana.

— Olha quem voltou a Falls City – Um homem se aproximou da mesa onde estávamos olhando diretamente pra mim

— Senhor Dosson – reconheci o homem assim que ele chegou ao meu lado – É um prazer ver o senhor novamente

Me levantei da mesa cumprimentando o senhor Dosson com um aperto de mão. Ele parecia feliz ao me ver.

— Então senhor Maxford? O que trás você para nossa pequena cidade? Não me diga que finalmente resolveu vender a casa da sua avó?

— Pai não seja tão intrometido – Noah deu uma cotovelada de leve no homem a seu lado, eu ri

— Está tudo bem... na verdade decidi morar aqui por um tempo – Falei enquanto dava um gole no meu capuccino

— Ah é? – O Senhor Dosson olhou para Noah com certa surpresa – Você não me passou essa informação ontem a noite, só disse o quão feliz estava em ver o Tommy, que ele estava de volta na cidade, que ele estava lindo e que.....

— Paaaaaaaiii – Noah deu um grito

Eu dei um sorriso, achei a situação bem engraçada, mas também gostei de saber que Noah tinha me achado lindo.

— Bom, vou deixar vocês matarem a saudade, seja bem vindo senhor Maxford – Ele insistia em usar meu sobrenome

Assim que nos despedimos, Noah se sentou ainda envergonhado pela situação, eu olhava pra ele sorrindo enquanto ele tentava se esconder atrás de sua copo de café.

— Então você me achou lindo? – Provoquei

— Tommy, para – ele respondeu em seguida deu um gole em seu café

— Você não precisa ter vergonha em me achar lindo, você não é o único sabia?

— Convencido – ele arremessou um sache de açúcar o qual ele não usou em mim

Decidimos ir para cachoeira, queria aproveitar e reencontrar lugares importantes, nada melhor do que a companhia de Noah para isso, aquele lugar com certeza era um dos meus preferidos, apesar de a maioria das vezes quando fomos até lá, ter sido escondido dos nossos pais e da minha avó pois eles achavam perigoso demais, e tinham razão, acabou sendo nosso porto seguro, nosso cantinho de fuga, nossa casa na árvore.

— Parece que estive aqui ontem mesmo – Falei olhando aquele lugar maravilhoso, a água que caía das pedras lá no alto e vinham correndo e passando por um longo riacho até onde nós estávamos

— É mesmo muito lindo, tinha esquecido de como esse lugar me trazia paz – Noah fechou os olhos e respirou fundo

— Como esqueceu? Você mora aqui – olhei confuso para ele enquanto ele abria os olhos e me encarava

— Eu não vim mais aqui depois..... depois que você foi embora – Ele passou por mim tirando os sapatos e deixando ali na grama

Senti uma pontada no peito quando ouvi isso, lembrei de quando eu tinha quatorze anos, depois do funeral da minha avó, eu e minha mãe estávamos dormindo na casa da vovó para irmos embora no dia seguinte, o desejo da vovó era ser cremada e suas cinzas espalhadas pela floresta de Falls City assim como o vovô. De madrugada ouvi barulho na minha janela, Noah estava parado lá embaixo jogando pedrinhas. Fomos escondidos para a cachoeira, foi a primeira vez que fomos para lá durante a noite, apenas com lanternas, mas a lua estava tão grande aquela noite que nem foi necessário.

— Promete que você vai voltar para me visitar – Disse Noah segurando minha mão

— Eu prometo – Falei o abraçando tão forte quanto eu podia

— Eu só vou voltar aqui com você

No outro dia enquanto o carro estava de partida, pude notar pela janela Noah acenando e correndo atrás do carro enquanto eu ia embora, como se soubesse que aquela seria a última vez que nós nos veríamos.

— Desculpa, eu quebrei a nossa promessa – Falei segurando o braço dele

— Eu entendo Tommy, era difícil para você voltar aqui, perder sua avó foi difícil eu me lembro – ele acariciou meu rosto

— Mas eu deveria ter voltado... por você... para você – deixei cair uma lágrima

— Eu não entendi na infância, nem na adolescência, por isso eu nunca tive redes sociais, não queria que você me encontrasse, tinha muita raiva de você naquela época, mas hoje eu aprendi muitas coisas com a vida, estou maduro também e entendo seus motivos e você está aqui então

Dei um abraço em Noah, aquele apertado onde os dois sentem a respiração um o outro e os peitos se encostam e os corações parecem estar batendo juntos, ele me apertava tanto quanto eu o apertava em meus braços. Assim que nos afastamos ficamos frente a frente uma para o outro, e eu fiquei observando o quão lindo ele estava, um pouco pálido, talvez pela situação ou pela luz do sol que tocava sua pele deixando suas sardas bem visíveis.

— Você era mais bonito quando era ruivo – Falei bagunçando seu cabelo

Noah sorriu, seus olhos estavam marejados, ele tocou meu rosto outra vez e me deu um beijo, depois se afastou para ver minha reação. Eu senti meu corpo estremecer, era como se houvesse uma explosão de emoções dentro de mim, puxei o garoto para mais perto e o beijei, um beijo intenso, sentia sua língua invadir minha boca, mordia seus lábios devagar e voltávamos a nos beijar de forma carinhosa e intensa por alguns minutos. Depois de um tempo ele colou sua testa na minha e ficamos respirando ofegantes olhando para o chão. Então ele se abaixou e pegou seu tênis no chão e virou em direção do caminho de volta para o carro

— Espera.... o que foi.... Noah – Falei um pouco alto demais

— Desculpa Tommy... eu não deveria.... Desculpa – ele continuava de costas

— Está tudo bem.... eu gost.....

— Eu tenho namorado – Ele falou antes que eu terminasse de dizer que tinha gostado do beijo e que também queria muito continuar beijando-o.