— Pronta? – papai perguntou sem tirar os olhos de mim. Ambos mantínhamos nossa visão focada no que fora o nosso lar por longos vinte e cinco anos, embora tenha sido meu lar por apenas vinte deles.

— Eu tenho outra escolha? – perguntei.

Embora eu não tenha o olhado, soube que ele sorria.

— Não – falou de um jeito meio engraçado, meio gentil – então é isso. Home, sweet home. Adeus.

Dito isso, ele se virou e entrou em nosso antigo Volvo. Nossas malas e pertences abarrotavam o porta-malas e os bancos traseiros. Observei pela última vez a casa que fora o meu lar por toda a minha vida. Mentalmente, guardei uma última visão da casa amarela desbotada. Eu não tinha a menor ideia do que aconteceria daqui para frente. Papai também não. Mas estávamos prontos para descobrir.

Dei as costas sem olhar para trás e entrei no carro, batendo a porta um pouco forte demais. Papai ligou o carro e pude reconhecer os primeiros acordes de Highway Tune— a música perfeita para uma nova jornada e uma nova vida. Como um perfeito rock star, ele abaixou seus óculos escuros e acelerou o carro.

— Previsão de chegada ao Rio de Janeiro em vinte horas. Acomodem-se e coloquem o cinto de segurança – disse ele imitando um comissário de bordo – aproveitem a viagem. E, ah, a playlist é por conta do motorista.

Ele sorriu e não pude deixar de sorrir também. Então, recostei minha cabeça no banco do carro e fechei os olhos. Não queria ver a minha vizinhança passando pelos meus olhos. Por sorte do destino e do cansaço, não demorei muito para adormecer.

XX

Acordei com o telefone tocando. Estávamos parados em frente a um paradouro ou algo do tipo, e papai não estava no carro. Talvez fora comprar um café, supus. Olhei no visor. Era uma ligação de mamãe. Sabia o que estava vindo pela frente: frases com duplo sentido tentando me martirizar pela minha escolha. Fiquei olhando para a chamada, tentando decidir se atendia ou não, mas logo mamãe escolheu desligar. Era a quinta vez que ela ligava.

Há cerca de um ano, meus pais romperam um casamento de vinte e cinco anos. O culpado poderia ser o tempo, ou melhor, a falta de tempo de ambos, ou qualquer outra coisa normal como a maioria dos casais. Mas não era. O culpado tinha nome e sobrenome: Mattias Ribeiro, meu atual padrasto e ex melhor amigo de papai. Seja lá como ou quando, ele e mamãe acabaram se “apaixonando” e jogando, automaticamente, eu e meu pai para escanteio. Agora, ela estava grávida e ambos, mamãe e Mattias, queriam a minha presença para partilhar o momento da nova família feliz.

No entanto, por livre e espontânea vontade, e também por não querer conviver diariamente com o cara que destruiu minha família, escolhi morar com meu pai. Mas logo, Porto Alegre se tornou pequena demais para eu, ele, mamãe e Mattias. Aproveitando que os negócios iam bem e que o seu restaurante já era referência em Porto Alegre, papai, um renomado chefe de cozinha, decidiu abrir uma filial em outra cidade – a mais longe possível. Por isso, passamos meses avaliando qual lugar seria ideal para montarmos um novo restaurante, do zero. Mesmo ganhando bem, estávamos longe de sermos ricos. Assim que decidimos nos mudar para o Rio de Janeiro, tivemos que cortar gastos e juntar tudo para o novo restaurante. E aqui estávamos nós. Vendemos nossa casa e estávamos a meio passo de começar uma nova vida, bem longe de mamãe.

Papai surgiu do nada, tentando abrir a porta do carro. Ele carregava caixas pequenas de isopor, copos plásticos, 2 litros de água mineral e uma coca-cola nas mãos. Abri a porta do lado do motorista e ele agradeceu. Logo que ele entrou, senti o cheiro de frituras das caixas. Ali estava a contradição de um chefe de cozinha. Como se lesse meus pensamentos, ele se defendeu:

— Era o melhor que eles tinham – disse dando de ombros.

— Certo – disse sem questionar mais. Estava morrendo de fome. Peguei uma caixa de salgados e lá estava um grande e caseiro hambúrguer.

— Sua mãe ligou – ele disse antes de abocanhar um pedaço de um folhado – disse que você não atendeu o telefone.

— Eu sei, eu só... – dei de ombros e fechei os olhos.

— Disse que você estava dormindo.

Ele me encarava.

— Quando chegarmos em casa, eu ligo pra ela.

Ele suspirou.

— Ela estava chateada, dizendo que você não se despediu.

— Bem, foi o mesmo que ela fez com nós, certo?

Papai não respondeu.

— Vamos, deixa que eu dirijo um pouco. Aproveite para dormir.

Papai relutou, mas não recusou. Logo, ele dormia no banco do passageiro.

Seria uma longa estrada até o Rio de Janeiro. Entre quilômetros percorridos, paradas para comer, hotéis baratos em que ficávamos apenas uma noite, depois de três dias, chegávamos ao Rio de Janeiro ao som de, pasmem, Equalize.

Eu vou equalizar você

Numa freqüência que só a gente sabe

Eu te transformei nessa canção

Pra poder te gravar em mim

Via a paisagem carioca, tão diferente daquela que eu conhecia, passar diante dos meus olhos. Animado, papai abriu os nossos vidros e pude sentir o cheiro do salgado do mar. O vento batia no meu rosto, causando uma sensação confortável, como se aquela fosse as nossas boas-vindas.

Ali, eu sabia que tudo, de agora em diante, seria diferente.

E foi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.