Último Passo

1 Estrada Vazia


Notas iniciais
Não deixem de ler as notas finais.

Espero que gostem.

Boa leitura.

Tudo resumido em um único momento.

É o que eu penso nesse momento. Tudo ou nada. Preto ou Branco. Sim ou não. Tudo resumido a uma decisão, a um simples ato, um simples passo. Um mergulhar na noite.

Ah, a noite! Realmente uma companheira fiel. A de hoje está perfeita. Está calma. Um pouco fria, mas nada desconfortável. O céu sem nuvens, estrelado. A lua cheia tornando a água à baixo prateada. Uma leve brisa sopra sobre o meu rosto, como uma carícia.

Olho para os lados. Ambos me mostram estradas vazias. Postes altos jogando suas luzes com um brilho fraco e antinatural. Uma amiga feia perto da luz da lua. De alguma forma vejo que aquilo representa a minha vida. Uma longa estrada vazia, sem vida. Com luzes fracas que nada iluminam. Uma estrada abandonada. E meu carro está quebrado.

Observo novamente a estrada, em como ela está vazia. Dou uma risada fraca. De manhã podia estar conversando com alguém do outro lado mundo, mas agora não havia ninguém por perto. Há quanto tempo já não havia ninguém? Tudo isso me faz pensar em como o mundo todo anda completamente conectado e ao mesmo tempo ainda possa haver pessoas tão sozinhas. Como uma antítese dessas pode existir? Como uma coisa assim pode acontecer?

Porém essa é uma reflexão que não dura mais que um minuto. Tento fazer meus pensamentos voltarem, mas minha mente está enevoada novamente, assim como tem estado há muito tempo. É estranho como ela pode ao mesmo tempo funcionar normalmente até que eu tente realmente usá-la. Assim também tem sido com o resto meu corpo, como se todo ele tivesse entrado em “piloto automático”, fazendo movimentos robóticos, seguindo a rotina. Uma simples existência, não uma vida. Mas havia vezes que esse piloto automático desligava, porém estava cada vez mais difícil afastar a névoa da minha cabeça ou a ferrugem que impedia meu corpo de se movimentar. Na maior parte das vezes, sem o piloto automático, meu corpo ficava parado, deitado na cama, mas sem dormir; com o celular na mão ouvindo músicas que eu realmente não estava ouvindo; ou olhando para o monitor sem nem mesmo ver o se passava na tela.

Há quanto tempo tenho vívido assim? Mal consigo me lembrar de como era ser eu, de como era estar realmente no controle do meu corpo, da minha mente, de como era sorrir por estar realmente feliz…

E isso me faz dar meio passo a frente. Isso porque meio passo é tudo que eu posso dar antes que tudo se acabe. Ouço o som de água batendo em pedra. O rio abaixo de mim é grande e corria rápido, mas naquele momento tudo parece diferente. O rio parece menor do que me lembrava dele e a água corre mais lentamente do que deveria. O som dela me acalma. Traz-me lembranças.

Ergo meu braço, deixando a palma de minha mão na altura do rosto. Fico olhando pra ela, como se esperasse ver ali muito mais do que apenas minha pele. Lembro-me de uma amiga que uma vez fez a leitura dessa mesma mão. Ela disse que eu tinha uma linha da vida longa assim como a dela. Não poderia estar mais errada.

E mesmo pensando isso, de alguma maneira parece extremamente errado continuar com aquilo. Como se o fato de ela ter dito que eu teria uma vida longa me prendesse a algum tipo de compromisso, de que me obrigasse a realmente ter uma vida longa.

Puxo a manga esquerda da minha blusa, revelando uma cicatriz no pulso. Um corte. Feito com um canivete. Não uma automutilação, não por depressão, mas sim por uma promessa, um pacto de sangue. Não para o diabo ou qualquer entidade semelhante, há muito sou indiferente a qualquer tipo de crença. Meu pacto é com a mesma amiga que leu minha mão. Uma promessa, muito antiga, feita em um momento difícil, mas que nos uniu. Olho para a cicatriz, depois para a estrada e enfim para o rio abaixo. Novamente sinto que não devo me matar, mas o mais engraçado de tudo aquilo é que eu realmente não tinha vontade de morrer.

Diferente de muita gente, eu não espera nada da morte. Exatamente nada. Não representava fuga, não representava alívio, não representava um novo começo, nem mesmo representava um fim. Para mim era simplesmente nada. Mais uma estrada vazia no meio de tantas outras

O motivo para eu querer dar esse último passo é simplesmente sentir. Quero sentir o vento passando por mim, sentir a frieza da água penetrando por minhas roupas, tocando minha pele. A todo esse momento eu não consigo deixar de pensar em como o som da água me acalma. Uma calma que não sinto há tanto tempo… E eu quero sentir isso. Quero voltar a sentir algo.

Olho para a água lá embaixo, dessa vez com uma decisão. Olho para a cicatriz novamente, lembro-me do dia em que a ganhei. Também podia ouvir o som do rio naquele dia, embora alguns quilômetros rio acima.

— Você também não conseguiu manter a promessa, não foi? — Digo como se essa pergunta justificasse tudo naquele momento. Afinal era uma pergunta retórica.

Penso nela mais uma vez e me lembro de como sinto saudades. Sorrio de forma boba. Talvez não tenha perdido todos os sentimentos afinal. Pelo menos esse eu sempre mantive intacto.

Ainda sorrindo, dou aquele último e definitivo passo. Completo o que tinha ido fazer. E enquanto sinto o vento passando rápido por mim, soprando em meu rosto, enquanto escuto o som da água ficando cada vez mais próximo, vagamente me dou conta de que a queda não vai me matar. Que provavelmente irei me machucar e morrer de hipotermia ou afogamento, mas dificilmente pela queda. E embora esses sempre fossem o que eu considerava como os piores tipos de morte que alguém poderia, em nenhum momento eu me preocupo com isso.

Apenas mais uma estrada vazia.

Notas finais
Não coloquei nomes e tentei ao máximo não dar muitos detalhes sobre o/a personagem de propósito. Justamente porque isso é algo que pode ocorrer com qualquer um, independente de qualquer coisa.
Sendo assim a capa da história é meramente ilustrativa, fiz apenas para não deixar sem.
Espero que tenham gostado, se possível deixem aí seus reviews, comentários, opiniões, etc. Como eu disse eu tentei deixar o/a personagem o mais "não-definida" possível justamente para que quem lesse imaginasse por si mesmo a cena e tirasse suas próprias conclusões.

Muito obrigado por lerem e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!