A recordação do dia que recebeu a marca ainda estava viva constantemente em sua mente. O frio era imenso, assim como a solidão que parecia se agarrar em cada mísero pedaço do seu ser. O desespero havia o feito destruir toda a cozinha da Mansão Black, ignorando que seus pais poderiam estar ali. Ainda se lembrava de como sua visão estava embaçada pelas lágrimas, como seus gritos pareciam não sair e como fora se afundar em um canto da cozinha, em posição fetal, chorando igual a uma criança. Naquele instante, ele temeu o futuro, temeu as ordens que receberia e como ele provavelmente teria sua alma despedaçada em milhares de pedaços. Mas seu maior medo, era que Dorcas olhasse-o com nojo e desprezo, mesmo que ela já houvesse buscado justificativas para o injustificável apenas por gostar demais dele.


O gosto amargo em sua boca era constante, o nojo que sentia ao ver a marca brilhar em seu braço era imenso. Ainda se questionava dos seus passos, como havia aceitado tantas coisas impostas por seus pais. Queria ter sido corajoso igual Sirius.


No fim, a pessoa que mais sofria por suas escolhas, era Dorcas. Tinha noção que aquilo a quebrava diariamente, que ver a marca ainda a causava medo e que ela se perdia naquele caos todo que eram. Mas naquela noite, ele queria apenas ser um homem normal, dançando com sua namorada em seus braços.


Haviam afastado a mesa de centro da pequena sala, dando espaço para eles estarem no braço um do outro, com o som baixo da vitrola, a lareira crepitando baixinho. A forma como o corpo pequeno dela se encaixava ao seu, era motivo de seus sorrisos. Tudo era reconfortante e queria que ela jamais esquecesse daquele dia, pois aquela última valsa, seria a lembrança do que poderiam ter sido se Regulus não fosse covarde.


ㅡ Você está estranho, Reg ㅡ, murmurou, baixinho, apoiando a cabeça no ombro dele, embalada pela melodia e pelos movimentos lentos.


ㅡ Você se lembra da lista de proteções de magia negra que eu te entreguei e pedi para me ajudar a encontrar o contra-feitiço?


ㅡ Sim, claro ㅡ, respondeu, ainda movimentando-se lentamente, mas afastando o rosto de seu ombro, encarando-o atentamente.


ㅡ Você é incrível e todos funcionaram ㅡ explicou com um leve humor.


Dorcas se recordou da lista, assim como se recordou do objeto que eles haviam estudado por meses, de como havia sido complexo achar algo sobre partir a alma em vários pedaços. Haviam se chocado com o plano de Voldemort de segmentar a alma em diversas partes e colocar em objetos. Ela ainda sentia vontade de contar para a Ordem, mas prometeu para Regulus aguardar o tempo necessário para ele investigar mais.


ㅡ Você está planejando ir sozinho para lá ㅡ, não era uma pergunta e sim uma constatação, fazendo-a parar de se mover e se afastar imediatamente dele. ㅡ Você não pode fazer isso!


ㅡ Dorcas, me escuta, por favor ㅡ pediu, se aproximando novamente, mas assistindo-a se afastar, com o olhar temeroso e confuso para ele.


ㅡ Não pode me pedir para ficar aqui, enquanto você caminha para morte, sozinho! ㅡ O tom antes baixo, descrente, transformou-se em um tom mais firme e alto, com raiva, enquanto esfregava o rosto descrente, mesmo sabendo que a mente de Regulus era autodestrutiva.


ㅡ Você precisa ficar, pois preciso que você conte ao Dumbledore sobre as Hocruxes e sobre o traidor que a Ordem tem, mas no momento certo ㅡinformou, pacientemente, mas vendo o desespero dela parecer piorar.


ㅡ Não! Tem que ter algum jeito, Regulus! Podemos ir até Dumbledore juntos ou até mesmo ao Sirius… Sirius vai entender que você esteve ao meu lado, ao lado da Ordem, eles vão te ajudar…


O desespero latente de Dorcas era angustiante de assistir, mesmo que fizesse o coração de Regulus se aquecer, por notar o quanto que ela o queria vivo. Assistiu a postura firme, o olhar raivoso, se desfazer à medida que continuava murmurando sobre poderem enfrentar juntos aquilo, sobre irem para Ordem. Lágrimas grossas começavam a rolar pela face dela, ainda com os grandes olhos escuros fixos em si, desesperados, descrentes.


ㅡ Você seria perdoado, teria um julgamento digno ㅡ continuou, começando a baixar o tom novamente ㅡ Poderíamos conseguir isso juntos, eu e você.


ㅡ Não podemos fazer isso ㅡ, murmurou, sorrindo de forma triste e se aproximando novamente, agora não sendo repelido por ela. ㅡ Você precisa seguir o que vou te explicar a risca e precisa acima de tudo, continuar viva, pois estou lutando para existir um mundo melhor para você ㅡ as palavras eram ditas com convicção, ao encostar sua testa a dela, sentido-se quebrar um pouquinho mais por ser responsável pelas lágrimas dela. ㅡ Você e meu irmão merecem um mundo melhor, sem pessoas como eu e Voldemort.


ㅡ Não se compare a ele ㅡ pediu, puxando-o mais para si.


ㅡ Ao fim do dia, eu e ele estamos do mesmo lado e fazemos coisas similares ㅡ respondeu, com um tom de obviedade. ㅡ Dorcas, estou falando muito sério, você tem que seguir tudo o que vou te explicar hoje. À risca.


Observou com os olhos dela se desviaram dos seus, as lágrimas ainda escorrendo, as mãos pequenas agarradas a sua cintura, como se temesse que ele fosse embora naquele mesmo instante. O aceno afirmando foi mínimo e Regulus não sentiu firmeza, mas por hora se daria por satisfeito.