Última Pena Negra
9 Gritando o nome dele - Parte I
Notas iniciais
Minha cabeça latejava, os dedos dos pés estavam gelados apesar das meias e o vento forte batendo na janela era a personificação de mim mesmo.
— Você parece cansada... Não tinha mesmo bebida nesse lugar?
A voz da minha vó parecia preocupada, mas podia jurar que ela escondia um sorriso da minha situação atual.
— Se tinha eu não bebi, aliás, minha ressaca é emocional. – Respondi com um suspiro.
Ela riu baixinho.
Amy me levou para casa e me obrigou a contar tudo nos mínimos detalhes, algo nela me pareceu diferente, como um brilho escondido. Mas a decepção ainda rondava a minha alma com duvidas, pensando no Alec, quem ele é para mim ou quem ele era. É complicado crescer e olhar para alguém que costumava ser seu guardião, seu porto-seguro, e agora está afundando... Gritando o nome dele, mas ele não olha para trás.
— Às vezes acho que você está se distanciando de mim, que estou te perdendo como perdi a Nora. – Disse tristemente a minha avó, mas ainda tentando soar forte.
O seu olhar no porta-retratos, uma foto minha e da mamãe no celeiro, denunciou sua fragilidade.
— Nunca te deixarei sozinha, serei sua neta até o meu último suspiro.
Minha vó me abraçou, ficamos assim por um tempo.
Sentada em um banco quebrado, olhava para o parquinho abandonado, um fantasma das infâncias vividas aqui. Queria fugir do terror da cidade grande, então vim para a antiga vila central de Coldwater, onde abasteci há alguns dias atrás, que mais parecem séculos.
Sinto que cada dia meu tempo se esgota mais um pouco e eu simplesmente ignoro o chamado, como se eu pudesse me dar a esse luxo. Minha mente vagueia recordando o que eu deveria me preocupar, a morte que a cada dia se aproxima.
Não tenho tido sonhos ultimamente, se fechar os olhos posso até imaginar uma vida simples onde sou apenas uma adolescente. Mas isso é uma ilusão quando nem humana sou... Tenho um anjo da guarda, um caído que eu quase beijei ontem e prometeu cuidar de mim para meu pai, uma melhor amiga normal com mais coragem do que um dia eu poderia ter e até mesmo esse tal de Jon. Refletindo sobre isso me dei conta que não faço a mínima ideia do que Jon é, e ninguém se importou em me contar. Talvez seja melhor assim, afinal.
Pergunto-me qual será a briga entre o platinado e nosso mais novo cantor, provavelmente serei a última a saber... Consigo sentir um amargo dentro de mim, uma raiva escondida.
O vento dançava uma canção silenciosa que eu não podia escutar, tentei lembrar as palavras da profecia.
Par alado surgirá, par alado surgirá... Um anjo? Mais um para completar essa desgraça.
Por que me dou o trabalho de pensar se nada faz sentido?
Ótimo, queria respostas e tenho mais perguntas.
Olhei em volta, a ruína era uma companhia agradável. Pelo menos ela me via como eu realmente era quebrada.
Uma sombra na igreja me fez ficar de pé em um pulo, a sola do tênis afundando na grama. Mirei a minha moto, certo, consigo alcança-la caso algo lá dentro de errado. O dia já estava quase terminando, com passos rápidos tentei ser o mais quieta possível.
Por favor, não queira me matar...
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