Notas iniciais
Boa leitura! Link para a música: http://www.vagalume.com.br/my-chemical-romance/helena.html

A terça-feira passou rápida e monótona. As mesmas aulas, os mesmos professores, os mesmos alunos. A única coisa diferente era que Ivy parecia ter resolvido dar uma pausa nas provocações, mas eu não acreditava que isso fosse durar muito tempo.

Quarta-feira chegou e com ela o último treino antes da semifinal. Por incrível que pareça, eu não estava nervosa. Talvez um pouco ansiosa, no máximo. Fui para a aula naquela manhã e combinei com Jessie e Lauren que eu passaria na casa delas para irmos juntas.

– Podemos ir de bicicleta — sugeriu Jessie.

– Apoiado — concordou Lauren.

Eu também apoiei a ideia. Sempre gostei muito de andar de bicicleta e sempre que possível trocava o carro pelas pedaladas.

Depois da aula, voltei para casa, fiz uma refeição leve, peguei minha bicicleta e pedalei rumo à casa de Jessie. Ela já estava pronta, mas demorou mais uns 15 minutos procurando seu pingente da sorte.

– Jessie, é só um pingente, não tem nada de "sorte" nele.

– Mas tem um significado para mim. Eu o ganhei da sua mãe e para mim ele simboliza não só nossa amizade, mas também a amizade de nossas mães! E pode ser coisa da minha cabeça, mas quando eu não uso ele as coisas dão errado.

Eu fiquei sem palavras. Eu sempre vi Jessie com aquele pingente e sabia que minha mãe tinha dado a ela, mas nunca soube o significado nem por que ela fazia questão de usar sempre.

– Desculpa Jes — eu disse e fui abraçá-la. Localizei o pingente em cima do Quem É Você, Alasca? na escrivaninha de Jessie e apontei para que ela visse também. Ela pegou e então fomos para a casa de Lauren.

Lauren já estava esperando por nós, jogada no sofá pulando de canal em canal quando chegamos. Estávamos quase saindo da casa de Lauren quando a mãe dela chamou:

– Ragazze! Eu fiz lanches para vocês.

– Grazie, Madre.

– Não precisava se incomodar, Dona Eleonora — disse Jessie.

– Vocês podem sentir fome.

– Muito obrigada, Dona Eleonora — eu disse sorrindo em agradecimento.

Lauren pegou os lanches, agradeceu, se despediu e então partimos em direção ao ginásio.

Chegando lá, encontramos Robert, nosso treinador, e algumas poucas outras pessoas. Fomos para o vestiário nos trocar e começamos com os aquecimentos enquanto o resto do time ia chegando.

Demos início ao treino, que naquele dia seria mais focado na estratégia de jogo e nas jogadas. Todo o resto nós já deveríamos saber de cor e salteado àquela altura.

Depois de duas horas de treino exaustivo mas produtivo, no qual todos deram o melhor de si e prometeram fazer um ótimo jogo na sexta, fomos finalmente dispensados. Todos foram imediatamente em direção ao bebedouro, o que fez com que tivéssemos que enfrentar uma fila. Depois, para o vestiário e depois ficaram conversando na quadra, inclusive eu, Jessie e Lauren.

Depois de mais uma hora de conversa, me dei conta de que começava a escurecer e chamei as meninas para irmos embora. Fomos novamente ao bebedouro, pois depois de tanto bate-papo minha boca pedia por mais hidratação.

– Droga, acabou a água – constatou Lauren.

– Ah, que merda! – esbravejou Jessie.

– Já tá na hora de arrumarem uma caixa de água maior pra esse lugar. Devíamos falar com o Rob sobre isso – disse.

– Tem uma mercearia ali na frente, não tem? Vamos lá comprar água, é o jeito – Lauren sugeriu.

Na esquina de frente ao ginásio, que também ficava numa esquina, havia de fato uma mercearia. A mercearia provavelmente só não falia por causa dos skatistas que ficavam na pista ao lado do ginásio e das pessoas que alugavam DVDs na locadora ao lado da mercearia, pois uma das ruas onde se encontrava a mercearia era sem saída e tinha um grande terreno baldio logo no fim da rua; definitivamente não era um bom ponto comercial. Quase aos fundos da mercearia havia um daqueles suportes para bicicletas – enferrujado, mas dava para guardá-las por algumas horas – e por ser um local pouco movimentado, não havia risco de as roubarem.

Estávamos na porta da mercearia quando Lauren sugeriu que somente ela entrasse para comprar a água, por conta das mochilas que carregávamos. Então, entregamos o dinheiro a ela e fomos para junto das bicicletas, onde paramos para aguardar Lauren. Eu e Jessie ficamos conversando, e seu rosto parecia transmitir uma certa melancolia, que eu notei o dia inteiro. Mas, como ela não falou nada sobre isso, e se fosse algo grave ela me contaria, não mencionei o assunto.

Estávamos falando sobre como o último ano poderia ser o melhor de nossas vidas, quando uma mão segurou a minha boca e começou a me arrastar para os fundos da mercearia. Tentei gritar, mas não produzi som alto o suficiente para que alguém me ouvisse. Larguei as mochilas que carregava e tentei me desvencilhar de suas mãos, mas a pessoa que me segurava era extremamente forte. Olhei para o lado e vi que um homem também arrastava Jessie para os fundos. O homem que arrastava Jessie estava encapuzado, então concluí que o que me arrastava também estava.

O homem jogou Jessie no chão. Ela fez menção de gritar, mas ele sacou uma faca e disse:

– Se você ousar abrir a boca, as coisas ficarão mais difíceis para você, lindinha.

Eu conhecia aquela voz! Tinha certeza que conhecia! Mas no momento eu não conseguia me concentrar para me lembrar de quem era. Jessie corria perigo bem na minha frente e eu precisava dar um jeito de nos salvar. Ela estava sentada, pelo seu olhar dava pra saber que estava tentando conter a raiva, mas entendi que ela não gritaria. Ela não poderia fazer isso e nos colocar em risco. Não agora.

Eu estava em desespero. O homem andava em círculos com Jessie no meio, como um leão que acabou de conseguir carne para os filhotes. Eu tentava chutar o que eu deduzi ser o homem que me segurava, mas isso só fazia ele me apertar mais.

Então o homem que estava com a faca se aproximou de Jessie. Ele a olhou nos olhos e segurou sua boca bem na hora que ela começara a gritar.

– Tão jovem e tão linda para morrer – ele disse, fazendo aumentar o nojo que eu sentia dele.

Ele riu e fez um corte no rosto de Jessie, que ia do lado do olho direito até o queixo. Eu comecei a gritar, mas ninguém podia me ouvir com aquela mão que tampava metade do meu rosto colocada sobre minha boca. Eu tentei morde-lo, e deu certo. Ele tirou a mão da minha boca e eu gritei o mais alto que pude:

– SOCO... – ele tampara minha boca novamente, mas desta vez com tanta violência que me fez morder a língua.

– Por que não matamos esta daqui também? – tive a confirmação de ser um homem.

– Eu preciso dessa daí viva.

– Então chega de enrolar. Daqui a pouco a ruivinha vai sentir falta das princesas aqui.

O que estava com a faca lançou-lhe um olhar fuzilante:

– Quem manda aqui sou eu. Não é, lindinha?

E então, sem cerimônia alguma, cravou a faca no estômago de Jessie. Meu mundo caiu. Talvez tivesse doído menos se fosse em mim. Ver o sangue jorrando da minha melhor amiga foi a pior coisa que poderia ter acontecido comigo, não há palavras que descrevam o que senti. Ela se contorcia, mas o homem era mais forte que ela e a segurava. Eu estava chorando incontrolavelmente, tentando gritar, tentando reagir, tentando dar um jeito de livrar Jessie daquela dor. Ele tirou a faca e eu finalmente consegui “dar um coice”, o mais forte que pude, no joelho do homem que me segurava. Ele se desequilibrou, mas nem assim ele me soltou. Fomos os dois ao chão, e tive o azar de cair de cara em uma pedra. Se bem que a dor da pedra rasgando meu rosto não era absolutamente nada comparada ao que eu já estava sentindo.

Quando ele se recuperou e me segurou novamente depois de se levantar, pude ver seus olhos. Havia naqueles olhos negros e gélidos como uma noite sem estrelas nem luar, um brilho de maldade, que fez meu corpo todo arrepiar de pavor. Era como se seu olhar exalasse tanto frio que você pudesse sentir sua alma estremecer.

O homem com a faca se aproximou de Jessie novamente, enterrando novamente a faca em seu corpo, mas se levantou rapidamente quando ouviu passos ao longe.

– Vamos embora! – gritou ele para o comparsa, que antes de sair correndo junto com ele me empurrou, mas consegui reestabelecer o equilíbrio.

Eu quis correr atrás deles, mas o que eu poderia fazer contra aqueles caras? Eles tinham pelo menos o dobro do meu tamanho, uma faca, e sabe-se lá se não teriam mais comparsas ou armas.

Ajoelhei-me ao lado de Jessie, ela ainda vivia. Segurei sua mão e olhei nos seus olhos. Não sabia o que dizer. O que dizemos para as pessoas quando elas estão prestes a morrer? “Você vai para um lugar melhor”? “Sentirei saudades”? Não acho que houvesse uma boa coisa para se dizer, mas também não podia ficar apenas olhando para ela.

– Ei Jessie, calma, vai ficar tudo bem, eu vou chamar ajuda! – disse, em meio às lágrimas. Tentei esconder toda a dor que eu estava sentindo naquele momento, mas foi em vão. Fiz menção de me levantar para buscar socorro, mas ela segurou meu braço, parecendo fazer um grande esforço para isso.

– Eu te amo – eu disse.

– Eu sei – ela respondeu com a voz rouca e sorriu em meio a todo aquele sangue em seu rosto. – Eu também te amo. Você vai ser sempre a irmã que eu não tive.

Tentei limpar seu rosto com as mãos e beijei-lhe a testa. Fiquei lá, acariciando sua cabeça quando Jessie levou a mão livre ao peito e puxou a correntinha da sorte. Ela me entregou e disse:

– Quero que você fique com isso... – ela estava com dificuldades para falar e respirar – para se lembrar de mim.

Eu peguei a correntinha e segurei-a. Nesse momento eu chorei tanto que foi a vez de Jessie me pedir para ficar calma.

Logo depois Lauren apareceu correndo com as garrafas de água nas mãos. Quando ela viu Jessie, largou tudo e veio correndo até nós.

– Ai meu Deus, Jessie! Você... – ela não completou a frase. As lágrimas não deixaram.

– Lauren... – Jessie sussurrou, com um brilho no olhar, com menos forças do que antes e percebi que seria uma de suas últimas palavras em vida, isso se não fosse a última.

E então, Lauren fez a última coisa que eu esperaria dela naquele momento. Ela se abaixou, a cabeça próxima à de Jessie. Seus lábios se encontraram por alguns segundos, e, quando Lauren se afastou, aquele brilho nos olhos de Jessie já não existia mais.

Notas finais
Não fiquem bravos comigo .-.