Notas iniciais
Novamente, desculpas pela demora :( link da música: http://www.vagalume.com.br/beyonce/halo.html Capítulo especial pra Carol :3 Obrigada por ser uma leitora fiel e paciente! ❤ Boa leitura!

Não me lembro que horas eram quando adormeci, mas sei que acordei somente no outro dia. Parecia que todo o cansaço dos últimos dias tinha vindo se acumulando e não iria embora nunca mais.

Passei o domingo todo deitada na minha cama, com a tv ligada. Eu estava olhando para a tela, mas não estava realmente assistindo. As imagens passavam e não ficavam gravadas em minha mente, que estava muito longe dali. Nem sei ao certo onde.

No final da tarde resolvi que seria melhor conversar com Ben a respeito do acontecido no dia anterior, então liguei para ele. Da primeira vez, o telefone tocou até cair na caixa postal por falta de resposta. Das vezes seguintes, o telefone nem se deu ao trabalho de chamar e ia direto para os “tu tu tus” repetitivos. Desisti. O que quer que ele estivesse fazendo, parecia ser mais importante do que eu. Por sorte, meu estado emocional de somente existir naquele domingo não me deixou criar especulações sobre seu paradeiro. Aquilo não me ajudaria em nada.

Estava voltando para o meu estado vegetativo quando Tom chegou para me lembrar de que eu não era a única residente daquela casa e que por mais que eu estivesse ignorando a existência de todo mundo, talvez nem todo mundo estivesse ignorando a minha.

–Oi, Han, Tá tudo bem? – ele disse, depois que bateu na porta e eu o mandei entrar.

– Oi, Tom. Tudo sim. O que você quer? – eu perguntei, tentando não ser rude, mas sem conseguir conter meu desejo de ser engolida pelos cobertores e levada para algum lugar longe e vazio, sem pessoas, sentimentos, e principalmente pensamentos.

– Eu queria saber quando a Lauren vai vir aqui de novo. Faz tempo que ela não vem.

– Eu não sei quando ela vem, por quê?

– É que eu queria entregar uma coisa pra ela. Você não pode chamar ela pra vir aqui qualquer dia desses?

Considerei a questão. Eu estava ali, me afogando em apatia, e em que isso iria me ajudar? Em nada. Se Lauren estivesse ali, existiam duas hipóteses para o que aconteceria: ou ela me tiraria daquele estado deplorável e meu dia não seria um desperdício total ou ela só me traria mais lembranças e tornaria tudo pior.

– Eu vou ligar pra ela. Vou ver se ela pode vir aqui hoje, está bem? – decidi, e Tom pareceu apoiar. Afinal, sentir qualquer coisa ainda é melhor do que não sentir nada.

Peguei meu celular e não precisei fazer muito para que ele ligasse para Lauren, já que seu número estava na discagem rápida. Ela atendeu no segundo toque.

– Oi, Han! Como você tá?

– Estou bem, e você?

– Estou bem também.

– Você está muito ocupada?

– Não, por quê?

– É que... bem, faz um tempo que você não vem aqui, Tom disse que queria falar com você.

– Sério? O que será que ele quer? – mesmo pelo telefone, soube que ela sorria. Sorri também, ao imaginar. Ela sempre adorou meu irmão. Ela e Jessie, na verdade.

– Eu não sei. Ele veio aqui agora a pouco perguntando de você. Acho que quer te entregar alguma coisa, sei lá.

– Bom, então eu vou só trocar de roupa e logo chego aí. Estou curiosa.

– Tudo bem. Até daqui a pouco.

– Até.

Desliguei e percebi que também precisava trocar de roupa. Minha mãe não gostaria de me ver atendendo Lauren usando pijamas, mesmo que ela já não seja mais considerada visita nessa casa e com certeza não se importaria.

Coloquei a primeira roupa que achei no guarda roupas e desci. Louis estava arrumando a cozinha e Tom brincava na sala.

– Oi, Han! Que bom te ver, não saiu do quarto hoje. Estava começando a ficar preocupado – Louis me disse, assim que me viu, acenando com um sorriso.

– Oi, Louis. Eu estava com um pouco de dor de cabeça, mas já passou. Cadê minha mãe?

– Está no escritório, resolvendo algumas coisas do serviço. Daqui a pouco ela desce pra jantar com a gente.

– Ah, falando nisso, a Lauren está vindo aí. Espero que não se importe.

Ao ouvir isso, Tom abriu um grande sorriso, e subiu correndo as escadas, provavelmente pra pegar o que quer que ele quisesse entregar a ela.

– Sem problemas, você sabe que ela é sempre bem-vinda aqui! – Louis respondeu, e eu sorri pra ele. E então a campainha tocou, anunciando a chegada de Lauren.

Corri até a porta e a vi. Estava do mesmo jeito de sempre, mas só então reparei que parecia alguns anos mais velha, quase cansada. Me perguntei se eu também não estaria assim e tive medo da resposta. Estava evitando espelhos desde a morte de Jessie. Ainda haviam resquícios dos machucados que sofri aquele dia, e eu os evitava porque evitava lembrar daquele dia. É covardia minha, eu sei, mas era uma dor que eu não conseguia suportar. Me chame de fraca, se quiser, eu não ligo. Até concordo.

Sorri para Lauren, que sorriu de volta. Não eram sorrisos grandes e largos. Eram sorrisos tímidos, cansados, cúmplices dos últimos eventos da vida. Sorrisos que no fundo diziam “Eu sei que você está sofrendo porque eu estou sofrendo também, mas eu estou aqui pra você, mesmo com toda essa dor”.

Eu a abracei e a convidei para entrar. Assim que ela entrou e cumprimentou Louis, ouvimos os passos apressados de Tom descendo as escadas.

– Lauren! Que bom que você veio! – ele estava com as mãos para trás, escondendo o “objeto”.

– Tom! Que bom ver você! Eu estava com saudades! A Hanna disse que você queria falar comigo, é verdade?

– Sim! Então, você lembra aquela vez no meu aniversário de 8 anos que vocês fizeram uma festa surpresa pra mim?

– Lembro sim! – ela respondeu. Eu me lembrava também. Nós havíamos enrolado ele o dia inteiro, fingindo que havíamos nos esquecido do aniversário dele. Mas quando ele voltou da casa do vizinho, estávamos todos aqui, esperando por ele. A família toda, os amiguinhos mais próximos, Lauren e Jessie. Mas não conseguia imaginar o porquê de ele estar relembrando isso.

– Você sabe que eu coleciono miniaturas de carrinhos, né? Naquele dia você e a Jessie me deram um fusca muito legal. Foi a minha primeira miniatura de fusca! Você lembra? – Tom continuou.

– Lembro, claro que lembro! – Lauren sorria, provavelmente lembrando das imagens daquele dia, assim como eu. Seus olhos pareciam marejados e eu já começava a imaginar o rumo que aquela conversa tomaria.

– Vocês me deram o fusca e eu decidi que ele precisava de um nome, já que era o meu primeiro fusca – ele prosseguiu. – Mas eu não sabia que nome colocar, e você sugeriu que eu colocasse o nome de Jessie, porque a Jessie adorava fuscas e assim eu nunca ia esquecer de quem tinha me dado.

– Foi mesmo! – à essa altura as lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto e pelo de Lauren. – Eu tinha falado isso pra irritar ela, mas não deu certo porque ela gostou da ideia. Ela ficou muito feliz por você ter aceitado esse nome, Tom.

– Depois que a Jessie... você sabe, teve aquele acidente, eu fiquei muito triste porque eu sempre gostei muito dela. E de você também. Eu tava no meu quarto e eu olhei pra Jessie-fusca e eu lembrei de tudo isso, e lembrei também de como vocês gostavam uma da outra e pensei que você devia estar muito triste também. Então eu resolvi dar a Jessie-fusca pra você, pra você ter sempre um pedacinho da Jessie-pessoa com você – Tom disse, tirando de trás de si a “Jessie-fusca”, numa caixinha de vidro, em perfeito estado, e entregando à Lauren, que chorava muito.

Eu tentei controlar minhas próprias lágrimas, mas não consegui. Tom parecia meio envergonhado por estar nos fazendo chorar, mas ele não sabe o quanto aquele gesto era bonito da parte dele. Naquele momento, eu senti uma imensa saudade e tristeza, mas senti também orgulho do meu irmão.

Mio Dio, Tom, eu não sei nem o que dizer! Muito obrigada, de verdade! – ela pegou a caixinha das mãos dele e o abraçou forte. Ela estava realmente emocionada com a situação.

Di niente! – ele respondeu, nos fazendo rir.

– Parece que alguém anda se esforçando nas aulas de italiano – Lauren brincou, secando as lágrimas.

– Estou aprendendo algumas coisas, italiano é uma língua muito bonita – ele disse, sem jeito.

– Isso é verdade. Se quiser, eu posso te ajudar a aprender!

– Sério?? Poxa, muito obrigada! Ia ser demais! Já pedi pra Hanna me ensinar mas ela diz que você é melhor nisso do que ela – Tom se empolgou.

E foi assim que nós passamos o resto da noite. Ficamos na sala falando em italiano e eu aprendi algumas palavras que não conhecia. Louis nos chamou para jantar e minha mãe finalmente apareceu e se juntou à nós. Jantamos e conversamos mais um pouco, até que Lauren disse que tinha que ir embora, então fui acompanha-la até a porta.

– Foi muito bonito o que seu irmão fez. Fiquei muito feliz de poder levar a “Jessie-fusca” pra casa – ela me disse, enquanto nos despedíamos.

– Eu também achei – respondi. Após algum tempo, acrescentei: — Eu sinto a falta dela, Lauren. Nada parece ser mais do jeito que era. Eu sinto falta dela, sinto falta de como as coisas eram, de como nós éramos.

– Eu sei, Han. Eu também sinto a falta dela, o tempo todo, você sabe disso. Dói o tempo todo aqui dentro. Mas não há nada que nós possamos fazer, a não ser seguir em frente.

– É, você tem razão.

– Eu tenho que ir agora. Tchau, Hanna, boa noite. Fica bem, ok? – disse, enquanto me abraçava.

– Ok, eu vou ficar. Fique bem também, L. Eu te amo.

– Também te amo, Han.

Ela se foi e eu entrei, me despedi de todo mundo e fui para o meu quarto. Apesar de a noite ter sido agradável e tudo o mais, ali, na solidão do meu quarto, a realidade voltava pra me assombrar. Ali, longe de todos, não havia ninguém para me distrair e afastar a sensação de vazio que insistia em voltar sempre. Ali, eram somente eu e meus pensamentos.

***

No dia seguinte, não tenho certeza se foi mais difícil ter de ouvir as condolências daqueles que vieram falar comigo, a capitã do time, ou me fazer de indiferente aos olhares piedosos que via pelo corredor. Como se a voz na minha cabeça não fosse o suficiente pra me lembrar o tempo todo do fracasso que eu era, haviam os olhares. E eles estavam em todos os lugares, nos corredores, nas salas de aula, na cantina. Em todo canto. Eles não me deixariam em paz tão cedo.

Me sentei com a mesma turma de sempre na hora do intervalo, mas não vi Ben. Chris me disse que ele estava com o treinador, preparando as jogadas para o próximo jogo. Lauren agiu normalmente, apesar de também estar incomodada com os olharem em volta. Mas ela disfarçava muito melhor do que eu, sem dúvidas. Peter falou bastante como sempre, sempre procurando nos distrair e evitar assuntos negativos e pesados. Talvez esse fosse um dos motivos pelo quais eu gostava tanto dele, era ele o responsável por não nos deixar abater, sempre que possível. Meu caso era um pouco mais grave, mas ele estava se esforçando. Não era culpa dele.

Depois da aula, fui direto para casa. Estava cheia de tarefa de casa e isso seria bom para ocupar meus pensamentos. Fui para o meu quarto, fechei a porta e fiquei ouvindo música alto no meu iPod. Algumas horas depois, senti sede e resolvi descer e buscar um copo de água, mas assim que tirei os fones de ouvido ouvi sons na parte de baixo. Abri a porta do quarto devagar, já que àquela hora não era esperado que houvesse ninguém em casa. Minha mãe estaria no trabalho, Louis estaria no restaurante e Tom estaria na escola. Me aproximei da escada silenciosamente, até que reconheci a voz um tanto quanto alterada de minha mãe falando no celular.

– Não, Louis, ela tá no quarto. E é melhor assim, não quero que ela e o Tom saibam, pelo menos por enquanto. Eu não sei, vamos cortar gastos. Você tem alguma ideia melhor? Calma?? COMO VOCÊ QUER QUE EU FIQUE CALMA? EU FUI DESPEDIDA E NÓS ESTAMOS À BEIRA DA FALÊNCIA E VOCÊ ME PEDE PRA FICAR CALMA? – achei que já tinha ouvido o suficiente, então tão silenciosamente quanto saí, voltei para o meu quarto e tranquei a porta com chave.

Notas finais
Até o próximo capítulo!