Capítulo III: Sobre elevadores e pessoas aparentemente desconhecidas.


Eu não sei ao certo o porquê, mas nunca fui fã de elevadores. Que me chamem de claustrofóbico, mas por algum motivo eu simplesmente não consigo passar muito tempo dentro de um cubículo carcerado entre quatro paredes, esperando que ele suba e desça conforme a vontade dos outros. Obviamente, seria uma escolha muito melhor eu apenas ter descido até o térreo do prédio empresarial pelas escadas, não nego, se meu escritório não fosse no décimo segundo andar. Décimo segundo andar – deve ser um bocado de atividade física.

Então não é de se surpreender que, chegando ao térreo, eu estou odiando profundamente o maldito novato (e o praguejando mentalmente) que nem ao menos sabe se localizar dentro de um simples prédio. É com uma carranca no rosto que eu me aproximo da recepção do prédio, onde Mary Shelley (a recepcionista) está, detrás de um balcão de mármore, digitando algo em seu computador. Ela torce o nariz comprido de vez em quando por algo e nem ao menos percebe que eu estou ali parado há mais de três minutos, em silêncio, apenas ouvindo ao seu "tec-tec" interminável.

"Mary...", a chamo finalmente depois de passar os olhos pelo saguão. Ela finalmente ergue os olhos da tela de seu computador.

"Ah, sim, a Srta. Kilmore já me comunicou sobre a chegada do–"

Impaciente, eu a corto antes que ela possa dizer mais qualquer coisa.

"Apenas me diga onde ele está."

Mary Shelley me lança um olhar ultrajado (provavelmente pela minha grosseria gratuita) antes de apontar com uma caneta para uma direção aleatória, por entre várias pessoas desconhecidas que cruzam pelo saguão da H&M. Com os olhos espremidos, eu esquadrinho o local ainda sem saber ao certo o que deveria procurar. Mary Shelley provavelmente percebe a minha confusão e, depois de se curvar sobre o balcão de mármore, aponta novamente para uma direção qualquer.

"É aquele sentado na poltrona de couro", diz ela em uma entonação sonhadora, apoiando um dos cotovelos no balcão e o queixo na palma da mão. "Parece um garoto, huh?"

Eu não consigo deixar de concordar com ela – mentalmente, é claro – porque ele de fato parece ser apenas um garoto. Os meus olhos são logo arrastados para a sua figura meio contorcida entre a poltrona e eu, involuntariamente, me vejo torcendo o corpo um pouco para o lado para conseguir ter uma visão mais propícia de seu rosto (apenas por curiosidade). Ele olha para um lado e depois para o outro, coça a lateral do pescoço, bufa impaciente e começa a bater apressado o pé contra o piso cinzento do saguão. Revirando os olhos, me encaminho finalmente até ele.

"Você é o novato, eh?"

"Aparentemente", ele responde sem qualquer tipo de entonação aparente antes de erguer o olhar para mim. Por um instante, eu me pego o observando por tempo demais, apenas porque eu tenho uma sensação esquisita de já ter o visto antes em algum lugar.

E assim nós ficamos por alguns imutáveis segundos. Ainda com uma sensação estranha a atacar a boca do meu estômago, eu me limito a lhe lançar um olhar meio inquisitivo meio surpreso enquanto os seus olhos azuis o devolvem na mesma intensidade. Por algum motivo, eu me vejo na necessidade de quebrar o silêncio e dizer algo, mas aparentemente há uma falta de espírito de equipe entre o meu cérebro e a minha boca, já que eu apenas continuo a observá-lo feito um babaca.

O barulhinho de seu pé contra o piso do saguão há algum tempo se perdeu dentro da minha cabeça, assim como o falatório e passos apressados de todas as pessoas à nossa volta. Há algo de quase errado na forma em que ele me devolve o olhar, mas eu simplesmente não consigo definir o quê. Ele entreabre a boca para dizer algo (a argola presa ao seu lábio inferior balançando ligeiramente à medida que ele fala) embora eu ainda não esteja escutando nada.

Como em uma epifânia muito esquisita, eu me recordo de respirar – o que acarreta em uma crise absurda de tosse.

"Você 'tá legal?", pergunta o novato com as sobrancelhas franzidas, entoando a pergunta quase em preocupação enquanto faz menção em matar um pouco mais o pouco espaço entre nós dois.

Eu ergo e chacoalho as mãos em frente do corpo para sinalizar que está tudo OK, apesar de ainda estar tossindo e resfolegando feito um louco. Eu tenho um pequeno vislumbre de um dos punhos do garoto sendo levantado para logo depois sentir os ossos da sua mão chocarem com muito mais força que o necessário contra as minhas costas. Me empertigando em pé, o lanço um olhar mortal, apanhando seu pulso pelo caminho e o dando um belo apertão como aviso para nunca mais fazer algo parecido antes de soltá-lo.

A tosse finalmente parece passar. O garoto me olha culpado enquanto esfrega o pulso machucado.

"Me desculpa pelo murro. Você tem asma ou alguma coisa assim?"

"Vamos logo", resmungo, o ignorando, ligeiramente mal humorado.

E sem mais nenhuma palavra, nós nos encaminhamos em silêncio até o elevador mais próximo – porque, pior do que descer doze lances de escada, seria subi-los. As portas automáticas logo se fecham e lá estamos nós dois, sozinhos, enquanto o elevador se arrasta até o 12° andar. Eu me sinto plenamente satisfeito com o silêncio dentro do cubículo, mas aparentemente o novato não se sente da mesma maneira, porque logo ele está abrindo a boca de novo.

"Você está fedendo a cigarro", vem a sua brilhante conclusão. Ele tenta se afastar de alguma maneira, se escorando em um canto qualquer do elevador.

"Não me diga."

"Você não deveria fumar, faz mal à saúde."

"Sério? Eu não sabia disso. Por favor, me diga mais alguma coisa, estou morrendo de vontade de saber."

"Bem, você pode ser irônico, eu só estou comentando. Fumar é um vício nojento."

O meu instinto não me deixa não virar o rosto para o lado para encará-lo com desdém após escutá-lo dizer. Ele está checando as próprias unhas, em pé em um canto, com as pernas cruzadas uma sobre a outra.

"Me desculpe, Sr. Careta, por estragar a sua visão tão maravilhosa de mundo", em um grunhido, eu rebato, me escorando à parede contrária a ele apenas para poder continuar a olhá-lo. Com um sorriso ordinário, continuo sarcástico, apontando para suas unhas (que aparentemente estão ganhando uma atenção tremenda). "Quer uma régua para medi-las e ver se elas não ultrapassam o padrão europeu exigido para unhas?"

O novato ergue ultrajado o olhar de suas unhas para mim e está pronto para me retorquir quando o elevador treme em um solavanco e pára no 11° andar. E para.

"Me diga que eu não fui o único que senti isso", murmuro receoso.

O garoto logo corre até o painel do elevador, retirando o telefone ali pregado do gancho depois de apertar um ou outro botão. Tudo fica silencioso por um instante. A luzinha do elevador ameaça se dissipar uma ou outra vez, mas, para o meu alívio, ela apenas falha algumas vezes. Ainda escorado à parede de aço, eu me ponho a me acalmar, porque ter um ataque de claustrofobia nesse instante definitivamente não seria boa coisa.

Depois de poucos minutos, o garoto se vira para mim, enganchando o telefone, e simplesmente diz, como se aquilo fosse a situação mais comum de todo o mundo:

"Disseram na recepção que estão mexendo em alguns fios na rua ou algo assim. Obras. Garantiram que daqui a pouco o elevador volta a funcionar."

"Mas que maravilha!", e com um soco dolorido os ossos da minha mão se juntam à parede metálica do elevador, que dá mais uma sacudidela ameaçadora (péssima ideia). "Quase duas horas da tarde e eu preso num elevador, passando fome e com má companhia. É simplesmente perfeito! Fantástico! Nós vamos ficar presos nessa merda de cubículo para sempre e aí teremos que aderir ao canibalismo para podermos sobreviver, o que é um tanto nojen–"

"Me desculpe interromper as suas divagações tão pertinentes, mas você está realmente fedendo a cigarro. Tem como chegar um pouco mais para lá?"

"Jesus Cristo, você é realmente inconveniente!", o comentário sai aborrecido (e em um tom muito mais alto que o normal) e eu, ligeiramente irritado, puxo o maço de cigarros e isqueiro com tanta força dos meus bolsos da calça jeans que eles quase se rasgam no processo. Com uma tragada rápida, jogo a fumaça – de birra – para cima do novato. "Não gosta do cheiro, garoto? Vou carbonizar os meus pulmões e os seus, de quebra. Mundo injusto."

"É, claro", concorda ele, sacudindo as mãos sobre a cabeça para afastar de alguma maneira a fumaça, quase desesperadamente, antes de irromper em um ataque de tosses. "Se você está tentando acabar logo com o nosso sofrimento e nos matar asfixiados, está no caminho certo."

"Oh, cale a boca, garoto", e com mais uma tragada, solto a fumaça pela boca, dessa vez a mirando para cima.

Sem ter mais o que fazer, eu me ponho então a analisar o novato através da pequena nuvem de fumaça que começa a se formar entre nós. Ele está metido em uma camiseta azul e xadrez por baixo de outra, uma preta, de mangas curtas. As mangas da camiseta xadrez foram dobradas até seus cotovelos, deixando os antebraços à mostra. Não há nada de mais neles, mas aqueles malditos braceletes prateados em seus punhos fazem um barulhinho irritante e metálico toda vez que ele resolve mexer os braços. A calça jeans está quase escorregando pela sua cintura, mas ele de alguma forma a manejou, sem cintos, para ficar parada em seu lugar. Os tênis estão quase completamente cobertos pelas barras da calça, mas eu posso vê-los ainda: brancos de cadarços vermelhos.

A observação final está em seu rosto. Angular, o nariz apontado para cima, os lábios cheios cortados por uma argola de prata, as orelhas furadas com dois alargadores, um alfinete e um transversal. Os cabelos loiros estão lhe caindo bagunçados sobre o rosto e a sensação de conhecê-lo de algum lugar me volta à mente simplesmente, como em uma bofetada na cara.

"Vê algo que te agrada?", pergunta ele em uma entonação divertida.

Eu finalmente percebo o que estou fazendo tão deliberadamente e logo desvio o olhar, soltando a fumaça do cigarro pelo ar antes de mudar de assunto o mais rápido possível.

"Essa bosta não vai funcionar nunca? Bacana ficar preso aqui com você e todo o resto, mas algumas pessoas simplesmente precisam trabalhar!", e com essas palavras mágicas, o elevador treme em um novo solavanco antes de terminar de subir, milagrosamente, até o 12° andar. Eu suspiro aliviado quando as portas automáticas se abrem e digo, entre o alívio e a ironia, depois de saltar para fora do elevador rapidamente. "Bem, certamente isso foi interessante."

"Sem contar a tentativa de homicídio ali dentro, sim, foi ótimo!", o novato concorda no mesmo tom de ironia enquanto me segue pelo escritório coletivo.

Nós passamos por um lote de mesas ao canto do aposento antes de pararmos a uma quase ao centro do escritório, entre as mesas de Sharon Willis e Bob Joe, aonde obviamente trabalhava Collins.

"E essa é a sua mesa, garoto", explico desinteressado antes de começar a me afastar para voltar ao meu trabalho. "É bom você passar pela sala de Sam, ela deve querer falar contigo. No final do corredor, a porta com a etiqueta escrito Samantha Kilmore. Boa sorte."

"Ei, qual é o seu nome?", ele pergunta simplesmente às minhas costas. Eu não me viro, ainda andando, para respondê-lo.

"Harry. Harry Judd."

Faz-se silêncio durante um bocado de minutos. Ao chegar à minha mesa, me sento quietamente e, vagamente curioso, ergo o olhar à procura do novato. As pessoas em volta nem ao menos parecem perceber a sua presença, no entanto.

Ele está me olhando de uma forma estranha. Chegando quase a mastigar um dos cantos da boca por um aparente nervosismo, ele caminha até mim, desviando de um ou outro pelo caminho, até parar à minha frente.

"Você sabe, eu tenho um nome também", comenta ainda mastigando seu lábio inferior. As suas bochechas estão estranhamente vermelhas de vergonha e eu simplesmente não consigo identificar o porquê.

"Sim, isso faz sentido, garoto."

"É Dougie", ele murmura quase tímido e eu não preciso nem olhá-lo espantado por uma segunda vez para finalmente entender o porquê de ele estar tão envergonhado. "É Dougie Poynter."

E então, enquanto ele se afasta sem mais nenhuma palavra e se encaminha para a sala de Sam, eu só consigo pensar em uma coisa: "o que ele está fazendo por aqui?".