Capítulo II: O caso de Thomas Fletcher.


"Olá, bom dia!", é a primeira coisa que eu ouço após tomar o elevador da editora Hughes & Mavor (ou simplesmente H&M) e rumar para o escritório coletivo onde geralmente trabalho. Um homem (com mais aparência de garoto) está ao lado das portas de vidro que separam o corredor do 12° andar do escritório e, aparentemente, ele está se incumbindo de abrir as portas e dar passagem para qualquer pessoa que queira entrar ou sair dali.

Após o cumprimento, ele sorri um sorriso cheio de dentes brancos e ligeiramente tortos antes de me dar passagem, inclinando o corpo minimamente para frente em algum tipo de referência. Eu, meio abobado, apenas aceno com a cabeça em retribuição antes de passar pela porta de vidro e me encaminhar até minha mesa. Poucas pessoas me cumprimentam pelo caminho (as que eu julgo serem mais bem educadas, por tabela) antes de desabar sobre a minha cadeira e recliná-la o mínimo para trás. Com um gemido satisfeito, eu olho em volta do escritório.

São poucos aqueles que parecem estar ocupados com algo; a maioria apenas aproveita o tempo para conversar e fazer fofoca. As divisórias de madeira que separam as mesas uma das outras, obviamente, me dificultam o trabalho de olhar para os outros, mas o falatório geral e as pessoas, em pé, que passam de lá para cá pela minha mesa me dão uma boa ideia do que estão fazendo: nada.

Com menos peso na consciência, checo a minha caixa de entrada de e-mails e jogo um pouco de paciência (pensando em fumar um cigarro) antes de começar a, de fato, trabalhar. A mochila jogada aos meus pés é logo erguida por um momento e dali eu retiro os três manuscritos – ainda inacabados de corrigir – para deixá-los sobre a minha mesa com um ruído oco. A caneta vermelha também é deixada sobre algum lugar perto da pilha de folhas enquanto a mochila desgastada é jogada de volta para perto dos meus pés. Endireito as costas, empurro o teclado do computador para o lado e a cadeira para trás por um momento (para entreabrir a janela atrás de mim), empunho a caneta e sigo para o primeiro manuscrito.

Honestamente, eu não faço a mínima ideia de quanto tempo passo na mesma posição, revisando página após página, até alguém me tocar um dos ombros e consequentemente me fazer perder a concentração. Com um grunhido cansado, olho por cima do ombro apenas para ver Thomas Fletcher parado atrás da minha cadeira com uma expressão aborrecida no rosto.

"Ei, Tom", cumprimento antes de me virar na cadeira enquanto ele dá alguns passos para o lado e apoia um dos braços numa das divisórias de madeira. "O que você está fazendo aqui?"

"Acertando umas últimas coisas com o MacKinnon antes de poder começar a ilustração da capa de um livro..."

Eu apenas concordo com a cabeça, em silêncio. Tom (o maior workaholic que eu já conheci em toda a minha vida) trabalha no quinto andar, na seção gráfica, onde as capas dos livros – já revisados – e todas as suas ilustrações são desenvolvidas e impressas. Eu admito, no entanto, que sinto uma leve inveja de seu trabalho, já que ele é pago para desenhar e apenas isso.

Usando a caneta para marcar a página do manuscrito antes de fechá-lo, me viro por completo para Tom, que parece aborrecido com algo e um tanto impaciente. Ele ajeita os óculos na ponte do nariz, coça a lateral do pescoço e olha para o lado, apreensivo, antes de voltar o olhar para mim. Mordendo um dos cantos da boca, ele comenta, em um tom mais baixo de voz:

"Eu fui assaltado nesse final de semana."

"...Você O QUÊ?", eu não me contenho em perguntar, bem mais alto que o necessário, saltando para frente na cadeira. "Mas o que aconteceu? Você está bem?"

"Você quer calar a boca apenas por um instante?", ele murmura, voltando a olhar para os lados apenas para se certificar de que ninguém está prestando atenção em nós.

Em questão de segundos, eu volto a me recostar na cadeira e ergo as mãos em sinal de trégua.

"Hey, cara, relaxa."

Tom apenas concorda com a cabeça e se empertiga em pé depois de desapoiar o braço da divisória. Impaciente, ele cruza os braços e olha para os lados mais uma vez (o que faz com que eu o ache ligeiramente neurótico com alguma coisa), checando o horário logo em seguida. Eu, meio que por instinto, olho também para os lados, com medo de algo que possa pular sobre nós ou nos atacar de alguma forma, porque a atitude de Tom é tão estranha que ela atualmente me faz ficar com um pé atrás.

"Está tudo bem?", murmuro com receio de dizer algo, qualquer coisa, alto demais. Ele concorda com a cabeça rápido demais. "Foi alguma coisa que aconteceu no assalto?"

"Ah, não, não!", ele começa, balançando o corpo de um lado para o outro enquanto fica dividindo o peso do corpo entre as pernas. "Não foi nada, na verdade. Eu estava entrando em casa quando um cara chegou por trás de mim e me ameaçou. Eu obviamente lhe dei tudo o que tinha com algum valor e ele foi embora logo em seguida. Sem agressões, arranhões, nada."

"E então...?"

"Então que os meus pais ficaram sabendo, é claro", ele geme alguma coisa e descruza os braços para poder esmagar as suas têmporas com as pontas dos dedos. "Isso nem é a pior parte, cara."

Eu me ponho a sorrir de uma maneira ordinária. Os pais (e toda a família) de Tom sempre tiveram uma ótima condição de vida, já que eles, sim, são montados na grana. Thomas poderia, é claro, estar trabalhando em um lugar muito melhor – e com um salário terminado em milhares de zeros em sua conta bancária – se quisesse, obviamente por causa da condição e status de sua família, mas ele sempre me dissera que queria construir a sua vida através de seu próprio suor (talvez seja por isso, aliás, que ele tenha se viciado tanto em trabalhar, trabalhar e trabalhar). Apesar de Tom já ter lá os seus 26 anos, seus pais sempre foram bastante protetores para com ele. E é exatamente por isso que eu estou o olhando e sorrindo feito um babaca, porque, conhecendo ao menos um pouco os pais de Tom, eles provavelmente fizeram algo a respeito disso.

"O que eles fizeram dessa vez?"

Ele bufa para cima (fazendo com que a franja loira caia por sobre os seus olhos por um momento) antes de enterrar derrotado o rosto entre as mãos, falando alguma coisa tão baixo que eu não sou capaz de escutar nem sequer uma só palavra.

"O quê?"

"Isso é tão humilhante...", Tom comenta em um murmúrio, erguendo os seus olhos para mim depois de afastar as mãos do rosto. Ele entreabre a boca para continuar, mas alguém o corta antes que ele possa dizer qualquer coisa.

"Mestre Tom! Está no horário do seu almoço!"

Em questão de segundos, o homem que antes tomava conta das portas do escritório – com o seu sorriso cheio de dentes e os cabelos castanhos ou ruivos (eu ainda não consegui me decidir) – está parado em pé ao nosso lado. Ele dá uma pequena palmada num dos ombros de Tom, sorri um pouco mais e se vira para mim, que provavelmente estou o olhando com uma expressão sonsa no rosto.

"Olá de novo!", e me estica uma das mãos – a mesma que usou para tocar Tom, já que a outra está ocupada com algum tipo de embrulho – para me cumprimentar por uma segunda vez. Antes de aceitá-la, divido meu olhar entre o estranho e Tom, que parece estranhamente constrangido com toda a situação. Abrindo um sorriso engraçado, eu finalmente aperto a mão do estranho enquanto ele faz questão de sacudi-la para cima e para baixo em um ânimo admirável.

"Jones, por favor!", Tom o repreende em um murmúrio depois de coçar a nuca e desviar o olhar. "Harry, esse é Danny Jones, o meu... Segurança particular."

E então há um curto espaço de tempo (que eu julgo durar um pouco mais de três minutos) de mais puro silêncio. As minhas sobrancelhas devem estar erguidas até o meio da minha testa, provavelmente, enquanto eu apenas olho para os dois com uma expressão vazia e ao mesmo tempo surpresa no rosto. Danny está ainda sorrindo por algum motivo desconhecido e Tom apenas se limita a olhar para o lado, o seu rosto tomando gradualmente uma cor rosa-choque.

"Oh", solto eu em compreensão e não me contenho: uma gargalhada logo explode pela minha garganta, impossível de refreá-la a tempo. "Jesus Cristo, eles fizeram mesmo isso com você?"

Tom simplesmente responde com um ruído nasal, ainda aborrecido. Danny, que parece estar rindo por alguma coisa que eu simplesmente não consigo entender o quê, dá uma nova palmada em um de seus ombros e lhe estende o embrulho que antes segurava.

"É lanche de atum. Já são meio-dia e meia, você precisa se alimentar direito, Mestre Tom."

"É, claro, obrigado por se preocupar com a minha saúde", Tom retorque em um tom mal humorado antes de apanhar com algum desdém o lanche das mãos de Danny, fazendo com a mão livre um gesto para ele se afastar ou algo assim. "Nós vamos sair para comer, vá indo na frente. E pare de me chamar dessa maneira."

"Como você quiser, Mes–", Tom lhe lança um olhar intimidador e logo Danny troca o vocativo, ainda sorrindo alegre. "Quero dizer, Tom. Até mais, Harry!"

E sem mais uma palavra, Danny Jones se afasta enquanto cumprimenta a todos que vê pela frente, sempre com um sorriso enorme no rosto. Eu ainda estou olhando esquisito pela porta de vidro a qual Danny acabara de passar, dividido entre a vontade de rir e a de simplesmente voltar a conversar com Tom. Nós ficamos quietos alguns poucos minutos (Tom ainda olhando fixo para o lado) até eu decidir finalmente quebrar o silêncio, divertido:

"Então quer dizer que eles contrataram uma babá para tomar conta de você?", pergunto depois de me afastar, ainda sentado na cadeira, da mesa para poder erguer os pés e apoiá-los ali. Dobrando os braços atrás da cabeça, eu me acomodo melhor na cadeira e me ponho a sorrir cada vez mais abertamente ao reparar no crescente rubor pelo rosto de Tom. "Hey, eu estava achando que ele era um novo porteiro ou algo assim..."

"Eu sei, eu sei, é ridículo! Eu fiquei tão irritado quando subi aqui pela primeira vez, porque ele ficava me seguindo para lá e para cá, e então simplesmente disse para ele arranjar alguma coisa pra fazer – e me deixar em paz."

"E ele arranjou, aparentemente. Mas, me diz, ele tem algum problema ou é mesmo feliz assim o tempo inteiro?"

Tom atualmente solta uma risada nasalada antes de responder.

"Infelizmente, é só felicidade contida."

"Ah... Ele parece ser um cara bacana, de qualquer maneira", respondo depois de um tempo apenas por não saber mais o que dizer. Desapoiando os pés da mesa, eu procuro pelos bolsos da minha calça o isqueiro e o maço de cigarros que joguei ali dentro pela manhã. Enquanto procuro sem muito sucesso pela minha dupla de câncer compactado, ouço meio distante um ruído de papel sendo amassado. Curioso, ergo a cabeça apenas para reparar em Tom experimentando uma primeira mordida de seu lanche.

"Isso aqui está, surpreendentemente, bom!", ele comenta surpreso, de boca cheia, e logo limpa a boca com as costas da mão. "Você não vai almoçar? São quase uma da tarde."

Em resposta, eu apenas solto um ruído com os lábios em negação, finalmente achando e apanhando o meu maço de cigarros e isqueiro. Acho que Tom diz algo parecido com "típico" antes de se despedir e se afastar e, então, eu me volto ao meu cigarro, já preso entre a boca e meu dedo do meio e indicador. Com uma tragada lenta, eu reposiciono a minha cadeira para soltar a fumaça em direção à janela atrás da minha mesa. Aos poucos, ela vai se dissipando pelo ar carregado.

"Judd!", ouço alguém gritar às minhas costas e eu nem preciso de fato me virar para saber que Samantha Kilmore está ao lado da minha mesa, o cabelo castanho-claro levemente desgrenhado e os braços cruzados sobre o peito.

"Ei, chefia", eu me vejo respondendo depois de rapidamente atirar o cigarro 12° andar abaixo pela janela e finalmente me virar. O seu rosto fino está contraído em uma expressão séria, as suas sobrancelhas quase juntas, enquanto ela me olha fixamente.

"Já que você é tão dedicado ao trabalho, tendo em vista que sequer sai para almoçar, vá buscar o novato no térreo e lhe mostre a sua nova mesa. Agora. Mary Shelley já foi avisada sobre."

"Novato?", repito meio surpreso antes de finalmente entender. "Oh, por causa da demissão do Collins?"

Sam apenas concorda antes de, impaciente, fazer um movimento expansivo com as mãos que claramente quer dizer "ande logo!". Ela continua a me observar depois de eu me erguer, desligar o computador e ajeitar a cadeira rente à mesa. Com um sorriso no mínimo forçado no rosto, eu a cumprimento vagamente antes de sair dali o mais rápido possível, porque, honestamente, eu não estou nem um pouco afim de receber bronca. E, sendo dessa maneira, logo estou eu descendo o elevador atrás do maldito novato.