Harry se acomodava no banco do carona, enquanto senhor Styles mantinha seu olhar fixo na estrada. Os fones do iPod se embolavam, apesar disso não o impedir de ouvir Blink no volume máximo. Sua cabeça estava em outro lugar. Segunda-feira seria o inicio das aulas na polêmica Highgate High School, berço dos alunos mais problemáticos e misteriosos de toda cidade londrina. Harry gostava da escola. Gostava dos colegas, apesar de não conviver com as pessoas julgadas ‘certas’. Estava a caminho do aeroporto pra receber a prima brasileira, que não via desde a infância. Ela moraria com eles na casa branca da Oxford Street, conseguindo uma bolsa de estudos pra Highgate School – que podia ser o lar de alunos problemáticos, mas não deixava de ter um ensino exemplar e de abrigar os filhos dos mais ricos empresários da cidade. Harry suspirou contra o vidro, vendo o pai estacionar o carro bem a tempo de pegar a garota saindo da sala de embarque. Seu coração acelerou por um momento. ‘Como ela estará?’ perguntou-se, com medo de não reconhecê-la. O pai fez sinal pra que ele saísse, e os dois seguiram até o lugar de onde saiam os passageiros dos vôos que tinha pousado. Ela com certeza estaria lá. — Chachi! – o pai disse empolgado, abraçando a garota com uma calça de moletom cinza. Harry não pôde ver seu rosto direito, mas esboçou um sorriso. Talvez ele sentisse mais saudades dela do que imaginava. — Tio John! Que bom vê-lo. – sua voz era suave. – Harry! – se desvencilhou dos braços do tio, indo abraçar o primo, que a olhou estático. — Chachi? – disse deixando os lábios entreabertos e sentindo um leve tremor passar pelo corpo. Aquilo não ia prestar. Ah, se não ia. Beleza não era o problema da prima. Tinha um rosto angelical um tanto infantilizado, mas atraente ao mesmo tempo. Seu corpo e suas curvas eram proporcionais: Não muito chamativos, mas delicados. Os cabelos mais escuros caíam sobre os ombros, exatamente como a... Evitou pensar o nome. Droga. Talvez incentivá-la a ir pra Highgate School não tivesse sido a melhor ideia. Talvez não, não tinha sido uma boa ideia. Esperou que a impressão que sua prima lhe passou tivesse sido apenas pra ele. Rezou mentalmente pra que ninguém percebesse... Ou se lembrasse.
Londres; Cemitério West Norwood; Sexta-feira; 3:15 da tarde.
Colocou o buquê de lírios amarelos em cima da grama, na frente da lápide. Seus olhos já começavam a arder, enquanto se sentava por ali mesmo. — Ei, Iv. – abraçou os joelhos, dando um suspiro pesado e sentindo o coração bater apertado. – Hoje faz um ano que eu não a vejo. Triste, não? Eu também acho. – o vento batia frio contra os seus cabelos. Ele não se incomodava. – Eu venho pensado muito em você... Todos os dias. Não sei se eu te contei, ontem, mas meu pai viajou pra França. Provavelmente vai passar uns seis meses lá, como da última vez. – encarou o vazio. – Eu comprei um apartamento só pra mim. Nada muito luxuoso. Você iria adorar. Spike sente sua falta também. Ele ainda chora olhando pra porta, achando que em alguma hora você vai entrar por ela. – uma lágrima quente desceu pelo seu olho, seguida de outras. – Eu faço o mesmo. – no momento seguinte, já estava chorando compulsivamente, apesar de ser o que tentava evitar. Mas o cemitério estava vazio, então não teria problema. Ninguém o veria. Ficou um tempo da mesma forma, lutando contra as lágrimas descontroladas, até que, por fim, o choro cessou. Enxugou os olhos com as costas das mãos, tirando os óculos escuros presos na camisa preta e colocando-os. Niall levantou-se e foi na direção do Audi A8, estacionado a metros dali.
Londres; Lowden Avenue; Sábado; 1:37 da manhã;
- Wow, wow, gatinho. – Bianca disse embolando a boca, com um copo de bebida na mão. – Calma lá. — Vamos entrar aqui, Bi. – Vinicius disse tão afetado pelo álcool quanto a garota, segurando sua cintura e a pressionando contra a parede. Estavam no meio da festa de confraternização de um dos capitães do time de futebol da escola. A casa estava lotada, apesar de ser bem grande. Não existia mais nenhum sóbrio no ambiente, e aqueles que não se beijavam como loucos ou utilizavam os quartos e banheiros pra outros fins, estavam vomitando pelos corredores. — Não sei não, hein. – respondeu emaranhando seus dedos nos cabelos dele. — Eu sei que você quer isso tanto quanto eu quero. – deu um sorriso tarado, apertando a sua coxa. — E se eu quiser? – ela mordeu o lábio inferior, fazendo uma cara inocente. Isso o fez desejá-la ainda mais. Vini juntou seus lábios rápida e intensamente, abrindo abruptamente a porta na qual estavam escorados e jogando a menina pra dentro. Bianca sorriu ao vê-lo fazer isso, já se preocupando em desabotoar a blusa azul xadrez que ele usava. Vini puxava pra baixo a saia da garota, fazendo-a arrepiar e dar mordidas leves em seu lábio. Minutos depois o quarto já estava inundado por gemidos e risadas baixas.
Londres; Oxford Street; Sábado; 10:30 da manhã;
- Ai, desculpa acordar só agora. – Chachi disse chegando à sala com uma camisola curta de mangas compridas. — Tudo bem, querida. – tio John disse dando um sorriso terno e se levantando. – A viagem deve ter sido cansativa. — E foi. — Vou a cozinha preparar algum lanche. Harry está no quarto de estudos. – dirigiu-se pro lado contrário do que ela, enquanto ela decidia subir as escadas e bater a porta branca do quarto de estudos.‘Harry, estudando? Ah, essa é boa. ’ Pensou. Abriu-a (a porta) devagar, vendo o primo em frente ao computador e segurando um violão. Olhou-a ainda com os olhos um tanto arregalados. Mesma reação que teve no dia anterior. Chachi andou devagar e sentou-se em uma cadeira de balanço, na frente do garoto, que acompanhava seus movimentos como se estivesse vendo uma aparição. — Tudo bem, Harry. O que foi? – arqueou uma sobrancelha. — O que foi quando? – fez-se de desentendido, voltando a olhar o violão e a tocar algumas notas. — Por que está me olhando assim? — Assim como, Chachi? – permaneceu concentrado em seus dedos nas cordas. — Olha pra mim. – pediu, vendo o primo virar seu olhar devagar em sua direção. — O que eu tenho? Você está me olhando esquisito desde ontem. – colocou o cabelo pra trás da orelha. Podia ser ingênua, mas nunca fora boba. — Nada. É só que... Você mudou. Muito. – permaneceu olhando pra ela fixamente. Depois chacoalhou a cabeça. — Eu cresci, bobo. – riu leve. – Você também não é mais o mesmo pirralho. — É. Eu fiquei gostoso. – balançou os ombros fazendo a garota rir. – Seu inglês é bom. — Depois de dez anos em um curso, tinha que ser, não é? – sorriu. Harry sentiu novamente um tremor passar pelo seu corpo, vendo o jeito da garota. – Ai, droga. – olhou o computador. – Será que você pode me deixar mandar um recado pra alguém, rapidinho? — Claro, a casa é sua. – levantou-se da cadeira na frente da escrivaninha, permitindo que a prima sentasse. – Quem é esse ‘alguém’? — Meu namorado do Brasil. – ela enrolou o cabelo colocando-o pro lado, enquanto sentava-se e digitava algumas palavras. — Não sabia que você tinha namorado. — Há muitas coisas que você ainda não sabe sobre mim, priminho. – mandou um beijo no ar. – Também, é claro. Não nos vemos desde os doze anos... — Aham. – concordou na cadeira de balanço. – E como está o pessoal lá no Brasil? — Lindos e fortes. – respondeu sorridente, fazendo-o rir baixo. – Senti sua falta. – comentou. — Eu também senti a sua, minha baixinha. – Harry levantou-se abraçando a prima sentada, que o abraçava pela cintura.
Londres; Lowden Avenue; Sábado; 11:02 da manhã;
- Bi? – Vini perguntou sentindo a garganta arder ao falar. Estava deitado na cama de um dos quartos da casa de Bennet, capitão do time de futebol. – Bi? – chamou novamente, levantando a cabeça e abrindo os olhos. Bianca vestia a calça rapidamente, com as mãos e as pernas trêmulas. Estava sentada do outro lado da cama. — Bi? O que foi? – Vini escorregou no colchão até aproximar-se dela, preocupado. — Tire a mão de mim, Stasiak. – disse com a voz embargada pelo choro. — O que aconteceu? Ontem foi tudo tão perfeito... – olhou-a sem entender. — Ethan aconteceu! – cobriu os olhos molhados com uma das mãos. — Aquele babaca do time de natação? – juntou as sobrancelhas. – Ele é um idiota, Bi. Você merece coisa muito melhor. — O quê, por exemplo, Stasiak? Você? – deu uma gargalhada em sinal de deboche. — Qual o problema comigo? — A gente já tentou uma vez, e viu que não deu certo. – colocava a blusa igualmente apressada. – Você não é cara pra uma só. — Eu já disse que aquela história da Kim foi um engano... – ele disse se assentado e tentando uma nova aproximação. — E a fada dos dentes existe. Stasiak, conta outra. – começou a colocar os tênis. – Você me trairia com a primeira vagabunda que aparecesse. — E você acha que o idiota do Ethan faz o quê? – revoltou-se. — Vai à merda, Vini. – Bianca elevou seu tom de voz, ainda com algumas lágrimas rolando. – Eu vou embora. Saiu do quarto rapidamente, batendo a porta logo em seguida e deixando o garoto sozinho, sem reação. Vinicius colocou as mãos nos cabelos e deu um gemido abafado, sentindo o coração apertar: ‘Como eu fui perder essa garota?’, repetiu a si mesmo mentalmente, várias vezes. Bianca descia as escadas o mais rápido e silencioso que podia, tentando não acordar nenhuma das pessoas que dormiam pelos cantos. Primeiro porque isso seria desagradável, e segundo porque não queria causar problemas com Ethan. Não mesmo.
Dockland; Londres; Sábado; 2:30 da tarde;
- Bom dia, Bela Adormecida. – o garoto loiro dos olhos verdes dizia abrindo a cortina do apartamento, permitindo que a luz invadisse todo o ambiente. — Puta que pariu, dude! – Niall balbuciou, tampando o rosto com o travesseiro. – Me deixa em paz. — O dia já clareou, margarida. – sentou-se na cama, com um sorriso largo estampado no rosto. – Esqueceu do showzinho no Mark’s é? — O show é hoje? – abriu um dos olhos, dando de cara primeiramente com o cachorro Spike lhe encarando, depois com os olhos verdes de Duan. — Daqui a seis horas, pra ser mais claro. – olhou o relógio. – Temos que repassar as músicas. — Me espera lá embaixo então. – Niall sentou-se, coçando a cabeça. Seus olhos estavam pesados, circulados por olheiras. — Ok, só não demora, seu gay. – Duan disse bem humorado, fazendo com que Niall mostrasse o dedo do meio, antes de fechar a porta. O garoto se levantou um pouco pálido. Depois de treinar com os The Lumps (sua banda) até as nove horas da noite, tinha afogado as mágoas em copos e copos de cerveja no Pub mais próximo. Olhou-se no espelho antes de entrar para o chuveiro. A aparência pálida e doente de seu rosto com certeza já tinha se espalhado por todo o corpo. Estava mais magro, também. Tudo desde aquele dia... Aquele maldito dia. Tomou uma chuveirada rápida enquanto escovava os dentes, se arrumando quase mecanicamente pro ensaio.
Londres; Wimbledon; Sábado; 3:17 da tarde;
- Como foi lá, Nic? – Bru disse vendo a garota sair pela porta branca do hospital. – O que ele disse? – observou a namorada com o olhar baixo e carregado, com o rosto um pouco vermelho. — Ah, Bru... – ela suspirou pesadamente, abraçando o rapaz. O médico saiu logo em seguida, fazendo sinal pra ele, como se o cumprimentasse. — O que foi, meu bem? Qual o diagnóstico? – estava realmente preocupado, enquanto sentia sua blusa molhar devagar, com as lágrimas quentes dela. — Eu queria me lembrar. Mas eu... — Ele disse que você não vai recobrar memória? – apertou ainda mais seus braços contra ela. — As chances são... Difíceis. – soluçou. – Eu não consigo me lembrar de mais nada que aconteceu aquela semana. Eu preciso lembrar...

- Não se force, amor. Talvez seja melhor mesmo você não se lembrar...

- Bruno! – ela disse esganiçado, virando os olhos pra ele. – Você diz isso porque não foi um dos dudes. Imagina você saber a resposta pra tudo e simplesmente não se lembrar...? – voltou a chorar e a encostar a cabeça em seu peito.

-Você não tem certeza se realmente sabe de alguma coisa, Nic... – afagou seus cabelos.

- Eu sinto que sim.



Notas finais
Foi bem longo este primeiro capítulo,espero que gostem.Beijos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.