Óculos Escuros
2 Prólogo Segundo - Ódio
Notas iniciais
Dentro do universo da história agora...
The Unnamed diz: Achado no mesmo local onde estava o motoboy. Estão faltando pedaços, e os diálogos parecem terem sido mudados para ocultar algo... Uma busca melhor poderá dizer.
Brasil, 9 de novembro de 1937. 15:43
— Hahaha, você nem corre tanto assim!
— Vai contando com isso!
— Ah, mas eu conto. — (aqui vale aquela frase dos tempos atuais, “Toda brincadeira tem um fundo de verdade”)- Garota, eu quero falar com você, volta aqui...
— Vai ter que me pegar primeiro!
— Será que ela não vê que é essa a intenção? – ele falou consigo.
— Eu escutei, hein? — ela virou para trás, parando de correr. Sorriu pra ele marotamente, um sorriso que rapidamente tornou-se malicioso. Ele retribuiu o sorriso, e quando viu a dose de segundas intenções nele, entendeu que o que sentia era recíproco. Ela entrou no beco ao lado direito. O belo rapaz branco, loiro, dos olhos claros entrou logo atrás. Ela parou encostada na parede, e ele foi até ela.
— Legal essa brincadeira de pique, não? – disse ela, naquela mistura de inocência e malícia que deixava ele louco. E ela sabia disso. Ele riu. Mas desfez logo o sorriso. A bela garota ruiva já estava se fazendo de difícil faz tempo. E quando mandava indiretas ficando fácil, fazia questão de deixar dúvidas no ar quanto a seus verdadeiros interesses no garoto. Ele adorava isso, mas agora tinha que dar um basta. Ele tinha que tomar uma atitude, mesmo que isso significasse o fim da amizade. Pois não era a amizade que ele queria dela. Ele estava disposto a arriscar tudo por ela.
— Será que você não vê que eu não quero mais brincar? Ele se aproximou, com uma expressão de tristeza no olhar. Estava agoniado por chegar perto daquela boca sem poder beijá-la.
— Sim, eu vejo. Só que antes de me entregar por inteira a você, e deixar você fazer o que quiser comigo... – ele arregalou os olhos agora- eu quero ter certeza disso.
— Então –ele a abraçou contra a parede- que tal silenciarmos um pouco, e deixarmos nossas atitudes falarem por nós? –ele sorriu maliciosamente, apertou mais seus braços em volta do corpo dela.
Então agora, acho que devemos dar um pouco mais de privacidade ao casal.
***
— Ei, acho que devemos ir com calma, mesmo estando num beco, estou em frente à porta de minha casa.
— Acho isso engraçado. Geralmente, existem aqueles estereótipos de beco, dos quais não vou falar aqui -(com esse tom formal, ele estava ironizando seu agora sogro)- mas mesmo assim, podemos encontrar uma família rica e recatada morando aqui.
— Ah, ironizar meu pai não irá ajudar as relações que virão. E sim, é muito legal morar aqui, parece que tenho um espaço só meu.
— Sim, deve ser legal, – ele começou a abotoar o blusão – agora eu tenho que ir, meus pais e eu temos que resolver algumas coisas com a fonoaudióloga.
— Ah, eu sempre quis ver isso, posso ir? – ela endireitava as roupas e o cabelo agora – parece interessante.
— Ahhh, não sei não... Já é perigoso pra você saber destas coisas. Mas, já que você já sabe... Pode sim! – ela puxou levemente seu pescoço, e o beijou leve e lentamente, nada muito ousado (desta vez). Apenas romântico.
— Obrigada...
— De nada, ruivinha... Tenho que ir. Encontre-me às 19:30 em frente à minha casa.
Após um último e apaixonado beijo, ele se foi. Ele passou a tarde refletindo no que aconteceu. Finalmente, a garota dos seus sonhos era sua. E ele era dela.
OBS.: Ele NÃO É GAGO!
***
As horas se passavam, e ele observava seus pais, com certo espanto. Eles estavam estranhos, correndo de um lado para outro. Até que ele viu sua mãe com uma mala na mão. Estranhou, mas se lembrou de que ver seus pais com malas nas mãos era normal.
— Pai, ela vai junto com a gente.
— O quê? Não acho esta uma boa ideia. Pra dizer a verdade, não era para ela saber de nada! Nunca entendi esse seu envolvimento com ela. Vocês andam juntos, mas... Não acontece nada! Cadê o mulherengo lá da...
— Eu...
— Ah deixa ele amor, eles são amiguinhos e só isso... Até parece que você não se lembra de nós dois quando éramos apenas dois jovenzinhos lá da...
— Mãe!...
— Calma filho! Eu entendo que não há nada...
— Mãe! – ele interrompeu novamente. Ela parou de falar e olhou para o seu filho. Ele estava sorrindo um sorriso que ela já não via há muito...
— Filho...?
— Sim... – Neste instante até seu pai parou para olhar.
— Então quer dizer que...?
— Sim, pai!
— Aêêêêêê filhão! Este é o meu garoto! –ele fez um cafuné no filho.
— Ah, meu filho, que bom...
— Ah, quase que me esqueço, pra onde vocês vão, pai? – O pai olha preocupado pra mãe, e depois olham os dois pro filho.
— Dessa vez não vamos só nós, filho. Você vai conosco.
— O quê?! Como, digo, por quê?
— Por motivos de segurança parecidos pelos quais saímos da...
— Não! Não! Vocês não acabaram de me ouvir?! Eu estou com uma garota, e dessa vez é pra valer! Eu não consigo viver sem longe dela, quero viver com ela pra sempre! – ele tirou um anel do bolso – Vejam! Vejam o que eu estava planejando!
— Filho você é jovem demais pra um compromisso desses, e como o seu próprio pai disse, você era um mulherengo lá na...
— Se você está dizendo que eu não iria “enfrentar” um compromisso, fique sabendo que eu aguentaria muito bem, eu amo esta garota, e já estava na hora de eu sossegar! Eu planejei todo um futuro ao lado dela, e não, eu não a pediria em casamento agora, até porque nem terminamos a faculdade.
— Filho, precisamos ir, é uma questão que envolve a segurança da família inteira! É perigoso demais! Se ela te amasse, viria atrás de você aonde você fosse!
— Chega amor, não de falsas esperanças a ele. Ela não pode sair daqui, o futuro dela está aqui. Vir conosco seria muito perigoso pra ela.
— E ela não abandonaria a família e a faculdade pra nos seguir sem destino fixo.
— Nem eu pai! Eu vou ficar ao lado dela!
— Então morra ao lado dela! – ele berrava agora — Você nem parece que a ama! Será que não percebe, que se ficar ela correrá sérios riscos só por estar ao seu lado?!
— Já chega pai! Eu não quero mais pagar pelas atitudes que vocês tomam!
— Está cego e surdo! Você não ouviu o que acabei de dizer?
— Ouvi, mas...
— Mas nada! Você a ama? Quer ela em segurança?
— Mais do que tudo...
— Então virá conosco e ponto final.
O rapaz foi ao seu quarto derramando lágrimas demais, como nunca havia feito desde, desde... Nunca. Ele nunca havia chorado tanto. De repente um mau de família que se acreditava extinto retornou, ele estava derramando lágrimas de sangue. Nunca havia sentido tanta amargura em seu âmago, era um rapaz de sentimentos extremamente fortes. Só de pensar que suas previsões de chamar a sua desejada ruivinha de esposa haviam falhado, ele sentia que tudo à sua volta havia falhado também. Ele agora tinha de se preparar para dar a notícia a ela, mas não sabia como. Até porque, no fundo de sua alma, algo lhe dizia que sua família não se mudaria daquela casa naquela noite.
***
Brasil, 9 de novembro de 1937, 19:30
A ruiva dele estava lá, linda, como sempre. Veio, com todo o seu charme, usando uma roupa que causava efeitos adversos no rapaz. Ela sabia disso, e era proposital. Estava vestida pra matar, digo, digo, pra provocar. Ele teve de se controlar muito bem pra não agarrar ela ali mesmo. Mas ele estava se preparando para dar a notícia. Havia combinado com seus pais de não dizerem nada a ela, o deixarem dar a notícia. Ele a pegou pelo braço, (daquele jeito que se pegam quando estão indo pro altar) e a levou até o carro. Em alguns momentos desesperados, ele não aguentava e a beijava. Não encontrava palavras para dar as notícias certas a ela. Mal sabia ele que não precisaria.
***
Brasil, 9 de novembro, de 1937 22:30
- Ah, isso foi cansativo. – Disse a ruiva.
— Imagine pra mim, -ele riu- Eu vou ali comprar um suco, quer um?
— Sim, quero, por favor.
— Já volto. – ele a beijou, como fazia a cada momento. E se foi.
***
Brasil, 9 de novembro de 1937, 22:45:17
— Aqui está seu preferido, de uva, amor...? Amor?! Onde você está? Pai? Mãe? “Eles devem estar no carro.” – pensou.
Ele andou até o estacionamento onde estavam seus pais, mas a cena que viu o impediu de prosseguir.
***
22:46:11
- Cala a boca! Vambora, entra filha da pu... – o que se seguiu foram um bando de xingamentos, socos e pontapés. Ela já devia estar toda cheia de hematomas quando os dois homens armados a empurraram pra dentro do carro. Tendo de dividir o pequeno espaço com os dois avariados e muito machucados sogros, ela chorava assim como eles, implorando misericórdia daqueles carrascos com suas armas apontadas e engatilhadas. Quando olhou para o lado e viu o namorado se aproximando sorrateiramente com uma arma na mão –embora estranhando isso- tentou gritar para ele se afastar, um esforço inútil, porque o que saiu de sua boca amordaçada com foi um ganido de dor, que chamou a atenção dele, mas não do jeito que deveria. Ele fez alguns sinais abstratos demais para uma leiga, ainda mais naquele estado, dos quais ela só conseguiu entender que ele estava vindo. Desolada, a última coisa que fez foi acenar que não com a cabeça. Digo última, porque ela não contava que seu grito chamaria também a atenção dos algozes elegantemente arrumados. A última coisa que ela viu naquele instante foi a coronha do fuzil que lhe acertou com uma pancada aguda no rosto.
***
22:46:11
No início, ele estava paralisado. Não conseguia entender o que estava acontecendo ali.
- Cala a boca! Vambora, entra filha da pu...
Ele ESTAVA paralisado. Até que viu sua amada e seus pais apanhando covardemente de um baixinho borra-botas de merda. Pegou o objeto em seu bolso, que seus pressentimentos o levaram a pegar antes de sair de casa. Começou a atravessar o estacionamento altivamente com a arma na mão. Ele iria matar os dois peõezinhos do tabuleiro de xadrez. Até que viu que os dois portavam fuzis. Recuou rapidamente, e se lembrou dos perigos que seus pais o alertaram nesta tarde.
- Não posso chamar a atenção e nem chegar na agressividade, e a minha arma não permite mira de tão longe. O que devo fazer... Ah se eu prestasse mais atenção no treinamento que meus pais e aquela professora (“formosa” demais pra eu prestar atenção na aula) me deram antes de nos mudarmos pra cá... Lembre-se!
Então ele se lembrou. Começou a botar seus conhecimentos em prática. Se aproximando sorrateiramente repetindo um mantra “frio, e seco, avanço em direção ao alvo, até que minha mira enfraqueça o corajoso carmesim, transformando-o no medroso mais alvo ”, com os seus olhos fixos no pequeno carro até que...
- Ahhhhh! MMMMHMMMMHMMM!
Ele reconheceu a voz. Era de sua amada. Aquilo era um ganido de dor. Ele olhou para focalizá-la no carro, e viu um movimento meio indistinto na escuridão, que ele tomou como um acenar de cabeça dizendo “SIM”. Para logo depois um dos soldados levantar de seu lugar na frente do carro que parecia não pegar, e dar uma coronhada nela.
***
22:47:59
Ele estava a alguns metros do carro agora. “Por que não saem daqui? O que falta?”. Embora ele devesse agradecer por isso – e ele agradecia – ele estranhava a falta de ação dos homens. Na verdade, ele estranhava muita coisa, mas toda a raiva que ele sentia naquele momento o impedia de pensar nisso. Não que ele perdesse o raciocínio, não. Na verdade, aquilo era uma tática. Raiva para não perder a objetividade, não se distrair. Não, ele também não se distraía com a raiva. Ele sabia exatamente como externar sentimentos. Prova disso, ele não tirara a virgindade de sua ruiva. “Argh” só de pensar na sua amada apanhando... Ele nem queria pensar nisso. Tinha medo do que a sua raiva munida de seu treinamento e uma arma podiam fazer.
22:49:47
Estava do lado do carro agora. Mirou na cabeça do motorista. Inclinou a pistola na medida certa. Destravou a arma. Começou a deslocar o gatilho. E chega uma lambreta para interrompê-lo. Depois de se recuperar do susto, mudou a postura, para ouvir. Só ouviu uma palavra, que bastou para aumentar ainda mais suas motivações:
“MATAR”
***
22:52:59
O carro já havia saído, ele já tinha certeza de que não conseguiria impedir isto. Mas havia como segui-lo. Pois a alguns metros à sua frente, estava uma lambreta vazia.
22:53:29
-Pra quem tu trabalha? Fala seu merda!
-Eu não sei de nada, só sou um motoboy...
-Ah, então a questão é a obviedade, agora, não é? Fala logo filho da...
-Eu não to entendo nada! –ele interrompeu berrando exasperadamente.
-Olha só, quem berra aqui sou eu, e claro tu não intende né babaca borra-botas, eu não uso saia, né? Quando tu ali falando com as prostitutas — ele aponta com a arma pra duas mulheres assustadas e rindo ao mesmo tempo. Elas riam do cara que antes prometeu ser dominador estava dominado. A verdadeira fera ferida. – você entendia muito bem! Deixa eu te dar uma aulinha de estudos sociais. Existem os....
— Eu não sei de nada, se eu abrisse o envelope eu seria morto! Eu só sei da ordem, e presumo que os motivos e especificações estejam no envelope! Eu não sei de nada, só entreguei...
No fundo no fundo, ele já sabia a resposta, mas não queria acreditar em tal coisa.
— Calma rapaz... Não falei que ia ser fácil falar? Então, qual era a ordem?
— Era pra matar...
— Tão vendo, meninas? Ele até que é bonzinho haha... –elas riram também- Então você não sabe de nada, não é? – começou a sorrir e largou o rapaz. Este, ainda com medo, se manteve imóvel no escuro, encostado no muro onde antes estava prensado, e um pouco mais anteriormente, estava flertando (um costume bobo, já que iria pagar pelo serviço – talvez, quisesse manter sua masculinidade intacta em seu subconsciente). Mais relaxado, endireitou um pouco mais a postura, e não saindo ainda do muro, relaxou um pouco os músculos do rosto.
— Ah, então, você não tem culpa de nada, não é? –ele continuava rindo. Passou um braço no ombro do rapaz como se fossem grandes amigos... O boy, de início teve receio quanto a um novo contato físico com aquele jovem, mas ao lembrar-se de que o outro estava armado, procurou se acalmar e forçou um sorriso.
— Não, não tenho... – disse ainda sorrindo.
— Pode ficar calmo então. Não sou um assassino. E você não me é útil. – dito isto, o próprio loiro pareceu relaxar ao abaixar um pouco a arma.
— Ah, obrigado...
— Sim, sim claro, eu te disse que não sou um assassino. Ainda.
E após escutar um estrondo oco, a última coisa que o boy sentiu com clareza foi a dor da bala perfurando a região da virilha.
***
22:55:08
— Fiz um favor a quem te contratou seu inútil. Perdendo tempo com garotas de programa? Os boys já foram uma classe melhor... – dito isto, deu o último tiro no pescoço do já agonizante e desnorteado boy para apressar um pouco a Dona Morte em seu trabalho da noite. Ele continuou a falar, mas já estava procurando a chave em seus bolsos, não podia perder tempo. – Morte rápida, mas nem tanto. Uns minutos ainda, pro senhor aproveitar ao máximo esta dor, certamente, a sensação mais intensa que sentiu ou iria sentir em toda a sua vida patética. Onde está a chave? – perguntou em vão para o catatônico garoto. De certa forma era cruelmente hilário. Um insignificante morto no próprio instrumento sexual, e no pescoço, onde estava amarrado um lenço com uma marca de batom — provavelmente da última noitada. Era só um garoto inútil, como o próprio loiro era outrora. A dor era tanta que o boy não conseguia parar de gemer para responder as ameaças armadas do loiro. E até que seria bom morrer logo, e ele sabia que mais um tiro acabaria com a dor. Mas o loiro percebeu o raciocínio suicida do boy a tempo de voltar a procurar, esbarrando com o cotovelo na ensanguentada calça, mas especificamente na encharcada de sangue região peniana do garoto, arrancando um gemido de dor que gelaria a alma do mais insensível esquimó ou executor de hipoteca. Mas entre este gemido, ouviu se um ruído metálico. “Que tipo de idiota leva a chave dentro da cueca?” pensou alto. Com nenhuma delicadeza ou preocupação com a dor do boy, desabotoou a calça de couro dele, abriu o zíper, abaixou um pouco a cueca e pegou a chave (quase irreconhecível no meio de tanto sangue, mas por sorte, intacta, não tinha sido atingida pelo tiro). Ao segurar pelo chaveiro, viu logo a explicação do local onde era guardada. O chaveiro era uma caixa pequena, mas não muito, o loiro limpou para ver do que se tratava. Era um produto inovador para sua época. “Aumente seu ‘amiguinho’ e satisfaça sua parceira!” – leu. Ele riu. Abaixou ainda mais a cueca do boy, e se levantou rindo.
— Se antes você já tinha que aumentar, amigo, fique tranquilo, porque agora não tem nada mais aí. – ele gargalhou agora. E depois de pisar com seu pesado sapato e toda a sua força no que um dia já fora um sistema reprodutor masculino (a ponto de ouvir ossos sendo esmagados e deixar uma massa vermelha indistinguível no chão), arrancando do boy o possível pior gemido já clamado na face da terra, seguiu até a lambreta.
***
22:57:03
Ele sabia dirigir perfeitamente carros e motos, mas não havia dirigido uma lambreta ainda. Embora sua mente lhe dissesse que a mecânica e dinâmica das motocicletas e lambretas eram um pouco diferentes, ele soltou um palavrão que equivale a “dane-se” e ligou a moto com a chave do agora finado boy. Ele sabia fazer ligação direta (um macete usado para ligar o veículo sem a chave) em qualquer tipo de veículo, mas presumiu erroneamente que roubar a chave seria mais rápido já que ele tinha que interrogar o boy. Se arrependimento matasse... “Mas mata.” – pensou. Ele ligou a moto. Antes de perguntar pra quem o boy trabalhava, “docilmente” (com uma coronhada no rosto, chutes e socos nos olhos, apenas para deixa-lo com dor, não inconsciente) conseguiu o endereço para onde sua família e amada estavam sendo levadas. Após dar umas manobras não conhecidas e nomeadas na época (hoje conhecidas como cavalo-de-pau, empinar, entre outras) para testar a máquina que estava usando, parou em frente à mesa e bancos de cimento na praça, onde as duas prostituas conversavam normalmente, como se não tivessem presenciado um assassinato grotesco. Sim, ele tinha consciência da brutalidade do que havia feito. Mas com tamanha raiva, isso não fazia a menor diferença. “Devem estar acostumadas.” Pensou. Começo a agir normalmente também, como que, como se diz hoje mesmo... “entrando na delas”. Usou sua melhor forma de jogar charme de mulherengo para encostar o dedo indicador nos lábios dizer:
— Schhhhh... Não contem nada a ninguém, vocês não viram nada, hein? – e piscou para elas. As duas sorriram.
— É claro gostosão... Você não quer nossos serviços? Pra um deus grego desses, nós duas não cobraremos nada. Só aparece um assim poucas vezes na vida.
— Não, não. Ainda tenho esperança de não precisar nunca deles. É sério que não estão com medo?
— Sim, é. – elas riram — Estamos acostumadas com situações assim. Nos oferecemos de graça pra você por que queremos. O que aconteceu não faz a mínima diferença.
— Nossa. –ele arregalou os olhos- Que triste.
- Vai querer ou não? – sorriu provocante.
- Novamente, não, pois tenho esperança de não precisar nunca deles. Mas obrigado pela gentil oferta. – Dito isto, partiu acelerado para seu destino.
***
23:02:45
Uma das coisas que o loiro trouxe na mala, quando saiu de seu antigo lugar, era o amor pelas motocicletas. Conhecia todos os modelos existentes, era um fanático. Era como se garoto e máquina se conectassem. Ele conhecia cada aspecto mecânico delas desde bem novo, e como alguns aspectos são iguais em quaisquer veículos, isso lhe dava um bom entendimento da mecânica dos carros. “Ele é muito novo pra saber destas coisas” dizia sua preocupada mãe. “Isto nos ajuda de certa forma” dizia o pai calmamente, a confortando e enervando ao mesmo tempo – acalmando pelo aspecto de ele estar preparado, enervando por que a estava lembrando os perigos em que a família estava envolvida. Mas o que ele realmente amava era andar de motocicleta. Era como se o mundo todo parasse ao seu redor, e por mais que houvesse o barulho do atrito do vento golpeando suas desprotegidas orelhas – o capacete estava na mão do cadáver do antigo dono da moto – parecia que o mundo estava em silêncio. Em cima de uma moto, ele finalmente podia parar para pensar. Mesmo que adorasse a sensação do vento no rosto, sentir quando a moto acelerava ou freava, suas curvas, quando ele tinha que pensar, nada disso o distraía. Não tinha idade suficiente para dirigir, mas sempre que surgia uma oportunidade ele o fazia. Acontece que naquela noite, qualquer garoto de sua idade, iria preferir se distrair com qualquer coisa, a pensar nas coisas que giravam em sua mente. Mesmo se ele quisesse (e ele não queria) se distrair, seria impossível. Como você já leu antes, ele era um garoto de sentimentos fortes, e no momento, o sentimento mais forte, o que dominava sua mente indiscutivelmente, era o seu desejo de vingança. Lembro-me de poucas ocasiões onde pessoas tão jovens tiveram pensamentos e planos tão terríveis.
***
23:03:07
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