Óculos, Aparelho e Rock and Roll
3 E Rock and Roll
Notas iniciais
Há muito tempo atrás eu conheci uma menininha. Seu nome era Katie Gardner e ela tinha, curiosamente a mesma idade que eu. Só que, diferentemente com as outras campistas, eu tinha um problema com ela: nossos chalés eram os mesmos. Claro que, chegando um dia, ela foi reclamada para o de sua mãe, Deméter, mas mesmo assim continuamos com alguns problemas.
Antes eu a amava por ela amar rock and roll. Hoje já a odeio pelo mesmo motivo.
Enquanto eu gosto de Nirvana, ela gosta de Guns and Roses. Enquanto eu gosto de Beatles, ela curte Rolling Stones. Enquanto eu enlouquecia ao som de Linkin Park, ela preferia deitar ouvindo Nickelback. Enquanto eu gostava de AC/CD, ela preferia Green Day. Ela Oasis e eu Kansas.
Só que um dia achamos a nossa banda em comum: Three Days Grace. Mais especificadamente a música “I Hate Everything About You”. Aquela música tinha tornado a trilha sonora da nossa vida, sem nem mesmo nos tocarmos disso.
Em todas as nossas brigas, aquela música incendiava nas nossas veias. Era como a mais forte melodia existente tocando sempre nos nossos corações.
Na verdade não sabíamos da existência dessa música até que nos encontramos na aula de música, que na época era patrocinada por Apolo. Eu na guitarra e ela no baixo, ambos tocando a mesma melodia por compassos diferentes.
E também quando, naquela briga, ela gritou nos meus ouvidos com todo o ar de seus pulmões: “Eu odeio tudo sobre você”. Tudo o que eu queria era fazer uma pegadinha com as suas plantas, mas sua agressividade foi exagerada.
Katie Gardner, ao contrário do que muitos pensavam, não era frívola, ou mesmo uma jardineira maníaca. Sabia o que precisava saber do seu passado para nunca mais abrir a boca e julgá-la. Éramos isso: inimigos que podiam encontrar no outro uma válvula de escape das merdas que a sociedade nos impunha.
Eu era alto demais, ela baixa demais. Eu muito forte, ela muito magra. Quando passo nas ruas, as pessoas escondem suas carteiras. Quando ela passa, mal podem notar que ela está lá. Eu sou o extremo e ela o mínimo. Por isso podíamos nos entender como se fossemos uma só pessoa.
O meu único problema é que, dentre todas as pessoas, ela era a que eu queria que menos me entendesse. Quando a vejo nos corredores, tudo o que eu mais quero fazer é puxá-la para mim e toma-la com os meus lábios. Mas quando estava sozinho na minha cama, apenas queria que ela sumisse do mundo, me deixasse em paz.
Talvez, pela primeira vez, Afrodite ou mesmo Eros tiveram um engano. Não sabiam se queriam que o que tivéssemos fosse ódio, mas também não aceitavam amor. E por isso somos o que somos: eu, insano por seus olhos verdes; ela, raivosa pela minha “falta de senso”.
Mas, mesmo assim, eu nunca, nunquinha mesmo, ia perder uma boa oportunidade de tirá-la a sanidade.
— Hey, Kit-Kat. — falo me sentando na cerca na frente do pedaço da plantação de morangos que ela cuidava.
— Hey, Stoll. Ao que devo o desprazer de te ver? — ela responde olhando através dos ombros.
— Depende. O que faz?
— Cego ou simplesmente idiota? Se alguém passar por aqui e não ter pelo menos uma noção confirmada de que o que eu faço é plantar morangos, tem a minha permissão de se jogar do oitavo andar.
— Dane-se. Apenas sei que, desimportante o que esteja fazendo, vim te atrapalhar. Qual seria a graça da sua vida se eu não tivesse o custo de fazer isso todos os dias? O seu e o meu mundo seriam completamente sem graça.
— Acredite, de acordo com os meus cálculos, ganharia um dia da minha vida se você não passasse tanto tempo me atazanando.
Olhei bem para as suas mãos habilidosas e na forma em que ela as mexia, fazendo com que crescessem ramos enormes que seguiam seus movimentos.
— Ouvindo alguma música ultimamente?
— “Carry on my Wayward Son”, Kansas. É quase impossível ouvir sem se lembrar de Supernatural. E você?
— “Back in Black”, AC/DC. Outra que lembra Supernatural.
— Que bom que temos ao menos uma coisa em comum então, Stoll. Não que eu me interesse no seu gosto musical, mas ser uma pessoa gentil nunca se é demais.
— Me poupe da sua TPM, Gardner. Só porque você está em um ciclo menstrual complicado, não significa que eu seja obrigado a aturá-lo.
— Que eu me lembre, nunca o chamei para me encher o saco. Veio por vontade própria, então não me responsabilizo por exatamente nada. E, só pra acrescentar, nada sobre o meu ciclo menstrual é de seu real interesse.
Sorri para ela, e a mesma me devolveu um sorriso lateral enquanto fingia ainda ter raiva. Senti um punhado de areia sendo jogado na minha direção. Não, cara, ela não devia ter feito isso.
— Ops. — disse com um sorrisinho inocente.
— Você não devia ter feito isso, não mesmo.
Puxo-a para cima e a levo para o lugar que qualquer filho de Deméter odiaria ficar: nos estábulos. A ironia é que a nossa música tocava como música de fundo, bem ao lado de onde ficavam a maioria dos cavalos especialmente treinados.
— Pra que você me trouxe aqui? — ela resmungava nas minhas costas.
— Você vai ter um dia com o Escrúpulos.
— Não! Imploro, mas qualquer coisa menos isso!
Escrúpulos era um eterno pesadelo. Um pégaso velho e pegajoso, mas que ainda conseguia dar os maiores coices de todos. Não que ele fosse perigoso, mas ele poderia matar uma plantação inteira se caísse encima dela, apenas por causa do seu peso elevado.
Essa era a minha oportunidade. Finalmente poderia saber qual era o real sabor dos lábios de Katie Gardner. Era isso ou nada, como uma eterna aposta.
— Me beija.
Ela ficou confusa e acabou por perder a noção do que estava fazendo. Pude ver que as suas pernas fraquejaram, mas não queria falar nada sobre isso.
— Não.
Tudo bem, acho que as coisas ficaram um pouco mais confusas do que eu esperava.
— Hein?
— É exatamente o que você ouviu, Stoll. Não vou estragar a nossa inimizade, muito menos ser uma das suas garotinhas. Não vou ser descartada como um brinquedinho, querido.
Queria poder puxar ela pra mim e explicar que não, eu não escolhia as garotas. Elas só eram a minha segunda opção quando notava que jamais poderia tê-la. Katie Gardner é e sempre seria a minha primeira e única.
— Sabe, é que... não sei. Talvez eu sinta algo por você, ou algo assim.
Ela me olhou, arqueando as sobrancelhas. A Gardner sempre parecia ser superior, com aquele ar de roqueira inconsequente que ela sempre emanava.
— Qual é, eu não caio nessa sua, Stoll. Eu não devo ser a primeira pra quem você diz que “sente algo”.
Cheguei mais perto pra ela. Tinha que revelar a verdade. Talvez a minha tática não fosse ser a melhor, mas ainda sim era a mais bem bolada que um ser como eu poderia fazer.
— É, você está certa. Eu não “sinto algo por você”. — vi a sua feição surpresa. — Eu te odeio com todo o meu ser. Merda, cara. “Eu odeio tudo sobre você! Por que eu ainda te amo?”. — traduzi o trecho da nossa música.
Talvez eu ainda não saiba o que sejamos: amigos ou inimigos. Mas eu sei que, hoje e agora estou sendo beijado pela menina que eu amo. E, bem, é só isso que importa.
Tudo bem que ela não gostava das mesmas bandas que eu, mas ela ainda era a minha roqueira predileta.
Fale com o autor