O meu cabelo é cinza. A culpa é da genética, deixo claro. Um dia foram negros, mas agora só existem fios grisalhos. O cabelo dela é cor de abóbora. Alaranjado mesmo. E natural... vê se pode uma coisa dessas... Tanto cabelo no mundo e a minha pequena parece um fósforo. Mas tudo bem, acho que dá certo, ela contrasta comigo. Temo que não dure muito tudo isso, mas não tem problema... Eu sou tão feliz com ela.

Feito avarento, conto os meus minutos... Cada segundo que se esvai. Não me leve a mal, sou uma pessoa ocupada. Meu tempo é curto, o tempo dela sobra. O dia passa, o sol se põe... e ela nunca acorda. Minha pequena anda noutro mundo, pouco ligando pra mim. Eu tento fingir que não ligo, juro. As vezes ela pinta a boca e sai... Fique á vontade, é o que eu sempre digo, Take your time. Minha boca é uma linha fina enquanto ela rebola até a porta, balançando os cachos alaranjados. Cíumes pouco é bobabem.

Nas tardes de quinta, ela fala sobre coisas estranhas. Explica sobre budismo, tatuagens, sonhos e cinema. Discursa sobre mitologia, política, signos e qualquer bobagem dessas... Ela esbanja suas horas ao vento. Se vou até a esquina, ela quer ir pra Flórida. Eu nem entendo muito do que ela fala, mas... Sou tão feliz com ela.

É que se eu vejo o sol, penso nela.

Se vejo a lua, penso nela.

Se vejo o mar, penso nela.

Mas se eu vejo ela, eu não penso.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!