Mia

Anos depois...

— Lola, vem aqui, garota! — chamo depois de um assovio estridente.

Ouço um latido em resposta e, em segundos, a Bloodhound caramelo surge correndo em meio as árvores, as enormes orelhas balançando ao vento.

Firmo os pés no chão, pernas separadas e joelhos ligeiramente flexionados, para segurar o tranco quando ela pula em mim, as patas da frente deixando marcas de sujeira em meus ombros. Lola é uma gigante gentil, mas não tem noção alguma de sua força. Já me derrubou algumas vezes, mas não hoje.

Hoje estou preparada para tudo.

— Vamos lá, querida. É hora de ficar limpinha e cheirosa para as visitas.

Aponto para a tina que Den construiu para darmos banho nos cachorros e, assim que a vê, Lola se prepara para fugir. Se Lenny estivesse aqui agora, provavelmente pularia na água morna e me pouparia qualquer esforço, meu menino cavalheiro. Mas ele está na carpintaria com Den e, por isso, decidi começar com sua irmã arteira: essa garota rústica, mais afeita a banhos de rio do que ao cheiro de shampoo.

O olhar e a postura dela me prometem dificuldades, contudo eu realmente vim preparada para tudo e saco da manga — ou do bolso, na verdade — o velho truque de oferecer um petisco.

Ela hesita, dividida entre a corrida e a comida, mas finalmente, como eu previa, a gula vence a aversão à água e ela me segue até bem perto da banheira para receber sua recompensa.

Claro que eu preciso fazer um esforço hercúleo para levantar minha cachorra e colocá-la na tina, mas pelo menos ela não oferece mais qualquer resistência quando já está molhada. Ao contrário, parece até relaxar.

Enquanto lavo seu pelo curto e denso, fico pensando no quanto os amo. Lola e Lenny, os filhos de Sammy, minhas maiores companhias além de Den.

Lola com sua personalidade bonachona e aparência igual à do pai. Lenny com sua imponente pelagem preta e castanha e o mesmo temperamento empático de Sammy.

Há cinco anos, Den conheceu outro fazendeiro em uma loja de produtos agrícolas. Naquele dia, estava acompanhado de Sammy e o homem contou que tinha uma cadela da mesma raça. A cachorra Maggie era muito amada pela família dele e há tempos consideravam continuar a linhagem dela. Aquela parecia a oportunidade perfeita.

O resultado do “casamento” foram cinco lindos filhotes. Um macho para cada filho do fazendeiro, uma fêmea que ficou como companhia para Maggie e um casal que foi entregue a Den, para completar nossa família.

Foi amor à primeira vista para mim.

Obviamente, só pude acompanhar o processo por fotos e filmagens, não pude conhecer Maggie e os três outros bebês que teve com Sammy. Mas quando Lenny e Lola chegaram, eu senti meu coração se expandir.

Levo uma vida maravilhosa. Sou saudável e amada. Estou livre de meus vícios e mágoas. Tenho até mesmo amigos, no plural.

Tempos depois de Notas Invisíveis entrar em nossas vidas, ele acabou trazendo alguém consigo. A Confortadora Lírio do Sol, aquela de quem eu tive ciúmes, desconfiou das perguntas do Buscador enquanto ele nos investigava e, mais tarde, quando os dois se envolveram romanticamente, Note pôde confiar nela o suficiente para contar. Desde então, ela também passou a compor a minha tríade de protetores, tão ferrenhos e tão acostumados a mim que posso dizer que formamos uma família.

Uma família completa e uma vida calma e feliz. É o que tenho.

Mas os filhotes — ah, meus bebezinhos — vieram para me mostrar que ainda podia haver mais. Eles preencheram algo em mim que eu nem sabia que faltava.

Cuidar dos animais da fazenda já ocupava boa parte do meu tempo, e eu sempre apreciei demais tê-los por perto. De forma inegável também, amava Sammy muito além do que imaginei ser possível, mas ter os pequenos para cuidar me fez querer saber mais. Eu queria ir além do necessário, além do dia a dia. Então descobri que queria aprender o máximo. Descobri uma vocação.

Com ajuda do material que meus amigos conseguiram, passei os últimos anos estudando tudo o que pude sobre veterinária e isso me fez sentir reinventada. Uma mulher nova, capaz de ajudar e fazer o bem, para variar. Não apenas aquela que precisava de ajuda.

Nunca pude ter aulas práticas, tudo o que aprendi foi através dos livros, mas meu conhecimento foi útil em momentos importantes. Por causa dele, pude dar o máximo de conforto ao nosso amado Sammy nos últimos anos de sua vida.

A tecnologia das almas o manteve jovial e saudável por mais tempo do que seria possível, mas o fato é que ele já era um adulto começando a entrar na velhice quando Den o conheceu. Desde então, uma década e meia se passou. Sammy tinha 23 anos quando seu doce coração resolveu descansar.

Ele estava dormindo no colo de Den, aquecido diante da lareira, cercado de todo amor que semeou e colheu.

Nós o enterramos perto do rio, no lugar em que o vi pela primeira vez. Eu até mesmo fiz uma oração e coloquei flores. Lenny e Lola choramingaram e lamberam nossas mãos, tentando nos consolar.

Den chorou o tempo todo, mas agradeceu a Sammy por tê-lo ensinado o que era amar. Eu complementei, dizendo que talvez eu até soubesse amar, mas por causa dele agora era capaz de fazê-lo sem reservas, e que por isso nunca seríamos capazes de esquecê-lo. E isso parece ainda mais verdadeiro agora, seis meses depois de sua partida.

Ainda pensamos nele todos os dias, mas hoje, com a dor do luto um pouco arrefecida, esses pensamentos são cheios de um amor tranquilo e infinito. Um sentimento que continua a nos unir e inspirar.

Estou sorrindo ao lembrar de Sammy quando vejo Den se aproximar. Lenny, que se tornou praticamente sua sombra nos últimos meses, está caminhando bem ao lado e vem correndo me encontrar. Ao vê-lo, Lola se chacoalha e molha nós dois.

— Ei! — reclamo, mas Lenny parece se divertir e começa a provocá-la com latidos.

— Acho que você pode perder seu serviço. Ainda temos algumas horas até eles chegarem. É bastante tempo para esses dois aprontarem e se sujarem de novo — diz Den, alcançando uma das toalhas e se abaixando para enxugar Lenny, já todo encharcado pelas brincadeiras com Lola.

— É, talvez você tenha razão. Vou deixar os dois dentro do chalé quando acabar. Se bem que... Ai, meu Deus, eles vão fazer uma bagunça lá dentro e acabar com a faxina! — Solto um suspiro exasperado.

Den solta uma risadinha e se agacha ao meu lado, me puxando para perto.

— Você está nervosa, o que é normal. Mas não precisa, sabe? Vai dar tudo certo.

— Não, eu só... apenas... — Meus ombros caem quando percebo que não consigo completar a frase e negar o nervosismo. — Eu quero que seja tudo perfeito. Nunca pensei que isso fosse acontecer. Conhecer outras pessoas...

— Todos vão amar você. Não como eu, mas... com certeza vão amar! E não é pela limpeza da casa ou pelos bolos que você fez, embora estejam deliciosos. — Ele ri e me lança uma piscadela.

— Você é fofo — declaro, sorrindo para ele. — E eu espero que saiba que você, nossos amigos e nossos filhos peludos são mais do que suficientes. Desculpe se pareço meio enlouquecida com essa visita, mas é que...

— Eu sei. Outros humanos e tudo o que este encontro significa. Também estou meio enlouquecido com isso. Já fico imaginando como vai ser.

Há alguns anos, os Buscadores e Curandeiros começaram uma espécie de movimento. Foi algo bastante espontâneo no início, sem planejamento ou pretensão, mas começou a se espalhar.

Quando a colonização já estava consolidada, alguns Curandeiros se permitiram sentir para além da urgência. Eles já sabiam que os humanos que restavam eram inviáveis como hospedeiros e não suportavam a ideia do “descarte”. Então começaram a implorar aos Buscadores que deixassem de sair à caça de sobreviventes e, por incrível que pareça, a maioria concordou.

As buscas pareciam óbvias e necessárias no início, tinham a ver com a proteção da própria espécie, o que era função dos Buscadores, mas eles também passaram a sentir empatia. Assim como aconteceu com Notas Invisíveis, muitos entenderam que os sobreviventes não eram mais uma ameaça significativa. Não tinham como ser. Por isso trocaram as buscas por uma vigilância discreta, que fazia vistas grossas aos roubos de roupas e comida, principalmente.

E então havia as crianças.

Muitas almas optaram por manter seus filhos, nascidos depois da invasão, humanos. Não tinham coragem de entregar seus frágeis corpinhos para uma inserção. Não conseguiam abrir mão da inocência e das descobertas que se pode enxergar nos olhos de um bebê. Assim, havia todos aqueles pequenos humanos sendo criados em um mundo totalmente novo.

Lentamente, as mentalidades foram mudando. E alguns fizeram mais do que aceitar o novo. Decidiram lutar por ele.

Há algumas semanas, uma dessas pessoas, um buscador de Phoenix, entrou em contato com Notas Invisíveis. Um ex-buscador, na verdade. Tempos atrás, ele e sua companheira, seguindo outras almas, se juntaram a uma célula de sobreviventes. [1]Eles têm uma filha agora, uma linda bebê humana, e laços familiares com aqueles que os acolheram.

Laços de carinho como os que Den, Note e Lírio têm comigo. E essa aliança não é nem de longe um caso isolado, ao que parece.

Por isso hoje vamos receber outra família mista, como passamos a chamar. Eles vêm aqui pedir nossa ajuda para abordar humanos que, por medo, permanecem afastados. Nós nos juntaremos a eles para que nosso amor demonstre, mais do que quaisquer palavras, que há outro futuro possível. E eu não poderia estar mais ansiosa para começar.

Quando finalmente chegam, no começo da tarde, estou praticamente quicando de emoção. Lola já tem um pouco de barro seco preso nos pelos, enquanto Lenny permanece impecável, mas deixou o sofá meio babado. Não sei se os refrescos estão gelados o suficiente e acho que Den trouxe um pouco de poeira nas botas quando se esqueceu de descalçá-las ao entrar em casa. Mas ele tem um sorriso enorme no rosto, o seu melhor sorriso. E nada mais importa além disso e das batidas altas do meu coração.

O carro branco, moderno e reluzente se aproxima devagar. Ou talvez seja minha impaciência falando. Quando estacionam, reconheço imediatamente os ocupantes dos bancos da frente. Note e Lírio saem felizes e esperam pelas pessoas no banco de trás.

Um homem alto sai primeiro e dá a mão para uma mulher que, apesar de pequena e frágil, combina com ele de maneiras que não consigo explicar. Os dois riem alto de prazer quando os cachorros se aproximam para recebê-los, e isso por si só já me conquista. Como se precisasse de mais alguma coisa para me encher de uma felicidade ansiosa.

Não sabia que sentia tanta falta de pessoas, mas aparentemente sinto.

Depois de alguns segundos brincando com Lola e Lenny, o homem vem até nós sorrindo.

— Me desculpem, esqueci minhas boas maneiras. É que fazia tanto tempo que eu não via um cachorro! Eu nem sei se Peg já tinha brincando com um — ele diz, olhando rapidamente para a mulher que se levanta e o acompanha. — Meu nome é Ian O’Shea. E esta é minha esposa Peregrina.

— Ou Peg, se preferirem. — A voz doce da moça soa pela primeira vez.

Ela é linda. Não só por sua aparência angelical, mas pelas eras que posso ver em seus olhos serenos, onde o cinza se mistura com o prata. Quanto aos de Ian, há somente um azul profundo ali, e um toque de perfeita imperfeição que achei que nunca mais fosse ver.

— Sou Corrente Ascendente, mas minha companheira Mia me chama de Den. É um prazer conhecê-los, Ian e Peg. O que acham de entrarmos? Certamente temos muito a conversar. Note e Lírio já nos esclareceram algumas coisas, mas vai ser bom ouvir de vocês.

— Claro — diz Peg, que já tem todos os movimentos seguidos pelo olhar apaixonado de Lenny, o conquistador de almas. — Sua casa é linda. Os cachorros vêm junto?

— Mia não aceitaria de outra maneira. Ela ama animais mais do que se importa com qualquer inconveniente que possam causar. — Den solta uma risada. — Nossos amigos comentaram que ela é uma veterinária? Aprendeu tudo sozinha — comenta com um orgulho que me aquece o coração.

Quando ele segue adiante com Peg, Note e Lírio complementando suas observações, Ian e eu ficamos para trás um pouquinho.

— Os nomes são longos, não é? Notei que você abreviou todos eles — brinca. — Fazemos isso lá em casa também.

— É muito pouco prático ficar o dia todo chamando Corrente Ascendente, ou mesmo pensando nele nesses termos. Den parece mais íntimo.

— É verdade.

Ficamos nos encarando por um tempo, o assunto bobo esgotado, mas muitas coisas no ar ainda por dizer.

— Eu nem sei por onde começar — confesso. — Den já viveu em dois outros mundos, mudanças são naturais para ele, mas eu nunca participei de uma coisa nova como essa. Reconstruir tudo, quero dizer. Parece uma tarefa monumental.

— Não é tão monumental se pensar na quantidade de braços envolvidos. Mais do que isso, na quantidade de corações.

— Principalmente nos corações. — Tenho que concordar.

— O amor ajuda. E amar é a parte mais fácil.

— Antes eu achava que era o mais difícil.

— Não neste mundo — ele diz suavemente.

— Não neste mundo — repito sorrindo.

Então nós dois entramos no chalé para nos juntar às almas que amamos e que fazem o novo valer a pena.

[1] A história de como o buscador Logan se junta ao grupo de Jeb e Peregrina é contada em uma outra fic minha chamada Coração Deserto. E quanto ao futuro dos humanos no novo mundo, essa parte se desenrola em Coração Deserto 2 – O Futuro o Espera. Se gostarem da ideia, deem uma olhada.

Notas finais
Aqui termina a história de Mia e Den, mas fica o convite para conhecer as minhas outras fics de A Hospedeira, especialmente Coração Deserto e Coração Deserto 2, que ajudarão a entender o melhor os caminhos que trouxeram a este Epílogo. Em breve, uma shortfic meio angst no ponto de vista da Mel. Vou adorar a sua visita.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!