Ímpar
1 Com ódio, Sam.
Notas iniciais
Não-querido nerd,
Estou escrevendo algo porque eu nunca teria coragem de dizer tudo isso sem gaguejar ou chorar e, então, aqui estão minhas palavras como você talvez nunca tenha visto.
Preciso te dizer que eu gosto de você e eu me odeio todos os dias por isso. Porque se passaram cinco anos. Porque você é nerd. Porque somos diferentes. Porque eu sou completamente apaixonada por cada diferença sua e isso, nerd, isso te faz tão incrível.
Eu odeio o seu cabelo sempre bem penteado e com um topete milimetricamente no lugar. Eu odeio listras, e as odeio ainda mais quando é você que as usa. Eu odeio o fato de que cada vez que você sorri de lado, sinto que minhas pernas são feitas de gelatina de cereja. Eu odeio nunca ter conseguido te tirar realmente do sério e você ter sempre se preocupado comigo de um jeito extraordinário — mesmo eu, que por tantos anos te perturbei, você sempre esteve lá por mim. Eu odeio quando você começa a falar das suas nerdices sem perceber, com aquele sorriso e aquele tom tão infantil quanto o de uma criança quando começa a falar do seu desenho favorito. Eu odeio o jeito como você subestimava minha força, sempre que eu te carregava. E, porra, nerd! Eu me peguei olhando pra tudo isso e gostando tanto.
E, aparentemente, você nunca reparou.
Talvez, você nunca tenha reparado ou gostado de mim realmente.
Talvez... Você só tivesse ficado comigo porque era isso o que tínhamos que fazer, não é? Você não queria decepcionar sua amiga que acabou beijando-o, né?
Mas, agora, eu resolvi abrir o jogo com você porque eu cansei de rolar os dados sozinha, de me sentir segunda opção.
Desde o meu primeiro beijo compartilhado com você, seu desperdício de espaço, eu realmente me sentia atraída por você tanto quanto eu me sentia atraída por bacon. E aí teve o baile aonde as garotas convidam os garotos e eu passei dias imaginando o que faria para te convidar.
Mas, você parecia estar diferente, pensativo. Talvez imaginando o que fazer para que a Carly te convidasse.
Aí você apareceu com aqueles bacons grátis e, nerd, eu nunca me senti tão maravilhada. Pensei em te convidar, mas, e se você dissesse não? Claro que você diria não.
Quem é que diria “sim” para Sam Puckett?
Porque eu não tenho cabelos macios como os de Carly e nem olhos tão doce como os dela. Não tenho bons modos como Melanie e não tenho uma ficha limpa como a Valerie. Não tenho uma beleza extraordinária e passei a maior parte da minha vida insultando você e chamando sua atenção. Porque esse era o nosso jogo, não era?
Esse sempre foi nosso jogo.
E dói demais – mesmo pra mim, mesmo depois de tudo, mesmo depois de cinco anos – saber que você parou de jogá-lo.
Eu te elogiei pela primeira vez, tentando disfarçar com o presunto e você pareceu constrangido. E então eu disse que quem quisesse ir para o baile comigo, teria que me convidar, porque eu tinha certeza de que você entenderia isso.
Mas, você não entendeu.
Não me convidou.
Nem eu te convidei.
E mesmo assim, nerd, lá estava eu a caminho do Groove Smothie, esperando estar em seus braços e dizer o quanto eu gostava dos seus olhos castanhos, do seu sorriso de lado, do seu coração nobre.
E lá estava você com a Carly em seus braços, sorrindo para ela enquanto ia dois pra lá, dois pra cá. Lá estava ela abraçando-o e você com as mãos na cintura dela.
Eu fui tão tola, Fredaluppe. Eu tinha certeza de que você gostava de mim, nerd. Certeza.
Eu vi minha certeza indo por água abaixo e eu nunca me senti tão desnorteada assim.
Nunca me senti tão insegura em relação a alguém, e, por Deus, tinha que ser justo em relação a você?!
Aí você começou a me tratar melhor, mas é claro que foi para agradar a Carly. Porque ela sempre pediu isso, não é mesmo?
E nós jogávamos. Eu te odiava, você me odiava e lá estávamos nós nesse viciante jogo de quem repararia e pensaria mais em odiar o outro.
E, nerd, eu me ofereci para te ajudar em um projeto do viradão! E tudo o que você fez, foi dizer que eu estava apaixonada pelo Brad e tentar me jogar pra ele.
Você, mais uma vez, não tinha percebido que eu estava apaixonada por você.
Eu fui ao cinema com vocês e me sentei do seu lado, dividindo minha pipoca com você e não com o Brad. Eu ajudei no projeto e não reclamei de ter que fazê-lo durante um dia inteiro sozinha com você, porque o Brad estava ajudando a avó e eu não sentia falta dele. Eu fiquei lá te ajudando, durante todo o tempo em que eu poderia estar fazendo algo mais útil (como comer, por exemplo).
Claro que você não entendeu.
Mas, você tem um coração tão lindo que, mesmo eu te ameaçando, você insistiu que eu deveria abrir meu coração e falar sobre os meus sentimentos (parar de ter medo). E eu fiz isso.
Nerd, eu te beijei e tenho certeza de que seus lábios tinham o mesmo gosto que eu me lembrava.
Aí você ficou assustado, como se estivesse sendo infectado ou que esperasse que aquilo não tinha acontecido.
Decepcionado, talvez?
Espera, o que eu tinha feito? Céus, eu tinha beijado você, Frednerd!
Mesmo sabendo que você ama a Carly, mesmo sabendo que sua mãe é louca, mesmo sabendo que você sofre de nerdice aguda, mesmo sabendo que você é fã de Guerra nas Galáxias, mesmo sabendo que você é amigo do Gibby... Eu nunca estive tão apaixonada por você.
E foi por isso que eu me internei naquele lugar de gente sem miolo.
Você apareceu no hospital no dia seguinte e tudo o que eu mais queria era que você esquecesse que eu tinha feito aquilo, porque era certo, não é? Você tinha que esquecer para que voltássemos a ser como éramos antes. Você voltar a correr atrás da Carly. Porque você merecia a Carly. Porque ela é o certo.
E você me beijou. Eu senti todas aquelas coisas estranhas que a Carly dizia sobre o Griffin: pernas de gelatina, barriga de borboletas e meu coração... Ele não acelerou, não diminuiu o ritmo e nem parecia pular para fora... Ele só bateu. Nerd, ele só bateu e pela primeira vez, eu senti ele batendo.
Senti mesmo, sabe? Senti o que é ter um coração forte, batendo e aquecido.
Nós continuamos brigando e aquilo parecia tão errado e cada vez tão certo. Nerd, você era tudo o que eu tinha e eu faria de tudo por você, tudo mesmo. Eu tenho certeza de que escolheria você ao invés de frango frito, se fosse necessário.
Mas, não era certo.
Porque você é par, nerd. E você merece alguém que seja par como você, e não ímpar como eu.
Porque eu não sou certa e com certeza você não era certo comigo.
Nos beijamos depois do “eu te amo” e eu nunca me senti tão feliz como naquele momento. Tivemos nossa primeira e ultima vez juntos e eu senti que você me amava tanto quanto eu te amava. Que eu era bonita para você. Que eu era perfeita para você. Que eu era o seu par.
Mas, 00h, você apenas disse que me deixaria em casa e assim você fez.
Nos despedimos como velhos amigos e eu entrei em casa, e ela nunca pareceu tão solitária. Minha cama nunca pareceu tão gelada. Tudo nunca pareceu tão... Escuro.
E todos os dias depois, eu queria te dizer que eu ainda sou completamente apaixonada você.
Mais uma vez, você não viu.
Não viu quando eu comentei que já fomos namorados e que você era completamente apaixonada por mim.
Não viu todas as vezes em que eu deixei de te socar.
Não percebeu que eu não usava mais aquelas bermudas de homem.
Você só não percebeu.
Até que Carly foi embora e eu chorei como um bebê, porque meu anjo estava indo embora e eu ficaria para trás. A pessoa que durante anos foi minha mãe e pai, estava indo embora. Mas, eu ainda tinha você, não tinha?
Subi no estúdio e vi que algumas das suas câmeras ainda estavam ligadas, céus, você ficaria furioso se visse isso! E eu, como sempre a errada, fui lá desligá-las e ver qual tinha sido a ultima cena entre nós três que tinha sido gravada.
E você estava lá, beijando a Carly.
Pouco depois de você perguntar pelo telefone se iríamos voltar a namorar. Pouco depois de eu imaginar um futuro inteiro com você e com presunto.
E você comemorou, afinal, é a Carly e não a Sam.
Afinal, é a direita e não a esquerda. Ela é o par, não é?
Eu nunca achei tão certo ir embora, e por quê, nerd, que pareceu tão errado ficar longe de você?!
Por que cada quilômetro que eu me via longe de Seattle eu me sentia tão livre e, ao mesmo tempo, tão amuada de estar me distanciando de quem eu mais amava?
Sério, você nunca percebeu? Eu amo marrom e não é só porque é a cor do molho de carne, mas porque marrom é a cor dos seus olhos. Eu odeio listras porque ninguém fica tão incrivelmente lindo como você. Eu odeio você porque você é tudo o que eu não sou, você é tudo o que falta em mim.
Porque, mesmo eu sendo ímpar, eu sei que cada partícula do meu corpo ama você. Ama tudo em você. Porque eu conseguia ler sua alma através dos seus olhos (dos seus lindos olhos), porque você conseguia terminar uma frase minha antes mesmo de eu concluí-la.
E você nunca reparou e nem percebeu, porque eu sou a Sam.
A Puckett que nunca chora, nunca ama, nunca é bem educada e nunca está satisfeita.
A delinquente, a esfomeada, a preguiçosa, a valentona, a insensível... Eu sou a Sam. A demônio. Só a Sam que sempre esteve lá por você e que, até hoje, não consegue passar um dia sem continuar pensando em como eu queria que você visse que eu estava lá.
Só a Sam que ama frango frito, bacon e presunto.
E que se fosse preciso, ficaria sem comer os três só para te ver feliz.
Porque eu te amo mais do que tudo isso.
Porque, mesmo depois de tudo isso, eu só queria que você tivesse visto – só por um minuto – que eu estava lá.
Que eu sempre estive lá.
E talvez, sempre esteja.
Com ódio, Sam.
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