É só uma coisa implícita

44 Capítulo 44 – Senti sua falta


Notas iniciais
Bastante Starmora nesse capítulo. Me desculpem pela demora. Ando bem sobrecarregada com questões pessoais e profissionais, e além dessa fic tenho outras que precisam ser atualizadas também. Espero que continuem acompanhando e que gostem do capítulo. Boa leitura! ;D

Capítulo 44 – Senti sua falta

— Tem certeza que você só não bebeu demais e isso é uma grande brincadeira? Ou eu morri e isso é o céu?

Peter gargalhou.

— Todos nós também achamos que estávamos ficando loucos quando achamos Meredith perdida na feira de peças.

— Vovô, vocês têm mesmo uma nave gigante?

— Temos sim, lindinha – Yondu sorriu, claramente maravilhado por descobrir que tinha uma neta, e que agora sua traição contra Ego tinha um significado ainda maior – Depois que seus pais terminarem de resolver tudo que falta dessa bagunça, vamos até lá pra escolher um quarto pra você. Ficamos todos juntos lá quando estamos por aqui.

— Oba!!

— Lá é enorme – Kraglin disse à sobrinha – Parece um labirinto pra quem não conhece. Os idiotas que já tentaram nos roubar ficaram perdidos zanzando por horas enquanto nos divertíamos deixando-os pensar que não sabíamos de nada.

— E o que aconteceu com eles?

— Quando nos cansamos de vigiá-los pelas câmeras, pegamos eles de surpresa, e largamos no primeiro terminal espacial que encontramos.

— Por que não chamaram a polícia?

— Nós também fazíamos coisas erradas nessa época. Iam nos pegar junto. Seu pai é que nos convenceu a não fazer mais isso – Yondu lhe disse – E hoje nosso esquema de segurança é melhor. Nunca mais invadiram. Então você vai poder dormir tranquila lá, e vamos dar um monte de passeios com você pela nave toda até que conheça cada caminho e passagem secreta melhor do que o seu pai que cresceu lá.

Peter e Gamora não conseguiam tirar o sorriso do rosto ao ver o amor imediato dos Saqueadores por sua filha, e a alegria enorme de Meredith a cada palavra que trocava com eles. Essa era mais uma coisa que herdara de Peter. Era impossível não amá-lo quase que de imediato. Os dois eram ótimos com gestos, palavras e expressões.

— É ótimo ter você de volta. Essa equipe não tem vida sem você – Kraglin falou de repente para Gamora – E em alguns momentos nós realmente ficamos com medo de que você não seria a única que perdemos – ele disse, olhando rapidamente para Peter.

— Obrigada – Gamora respondeu – Estar de volta é o que eu mais queria no mundo depois de sobreviver e fugir dos soberanos.

— Nós espalhamos cartazes seus até nos lugares mais remotos da galáxia – Peter lembrou – Foi tão difícil te ver em todo lugar e ao mesmo tempo você não estar lá.

Gamora segurou sua mão por baixo da mesa.

— Mas finalmente estamos aqui, e logo vamos deixar tudo isso pra trás.

Peter concordou. Meredith claramente não tinha muita ideia do que eles estavam falando, mas sua empolgação de ver o mundo de verdade pela primeira vez estava longe de acabar, e ela guardou suas dúvidas para mais tarde.

— O que vamos fazer hoje? Ainda temos que contar um monte de histórias pra Dey e Nova Prime?

— Algumas, amor – Gamora brincou com uma mecha de cabelo da filha, que estava sentada no colo de Yondu.

— Eu e a mamãe ainda temos algumas histórias pra contar pra eles, mas antes precisamos resolver umas coisas sozinhos, entender melhor algumas das coisas que aconteceram quando nos separamos antes de você nascer. Vamos sair um pouco pra conversar. Você vai ficar com seus tios e tias e voltamos na hora do jantar.

— O que vamos fazer quando terminarmos tudo?

— Tem muita coisa pra resolver ainda, Mere – Peter lhe disse – Quando nossa nave ficar pronta e todos estivermos bem descansados de novo, vamos voltar a trabalhar, ajudando pessoas pela galáxia. Mas vamos pensar em um jeito de te manter segura sempre, e vamos te ensinar outras formas de lutar além de tudo que você já aprendeu com a mamãe. Seu avô me ensinou a atirar, ele vai adorar te ensinar também.

Yondu sorriu.

— Fui eu quem deu esses blasters ao seu pai quando ele tinha dez anos. E ensinei ele a pilotar também. Vamos nos divertir muito.

— Ela só tem quatro anos, vamos esperar ela crescer um pouco antes de começar a prática – Gamora interferiu.

— Quanto antes ela começar, melhor. E vocês mesmos disseram que ela atirou naquela sacerdotisa maluca. É um grande começo.

— Antes de qualquer outro treinamento ela precisa saber da responsabilidade que é empunhar uma arma – a zehoberi argumentou – Só teoria e treinamento com brinquedos por enquanto. Prática real só daqui alguns anos.

Meredith riu da cara indignada do avô.

******

O casal esperou que Adam, Alia, Natasha e os outros Guardiões saíssem de mais uma manhã de depoimentos para leva-los até os Saqueadores, o que rendeu mais uma boa hora de apresentações e conversas, e deixaram Meredith com sua família, para então saírem, decidindo ir até o Quadrante. Peter deixou bem claro que era uma conversa importante, e que não queriam ser incomodados, a menos em caso de emergência, e agora eles estavam caminhando pelos vários corredores até a ala dos quartos onde os Guardiões costumavam dormir quando estavam ali. Peter abriu a porta facilmente, e o lugar parecia intocado há anos, apesar de limpo, exatamente como Gamora se lembrava. Ela estava ansiosa para revisitar o restante da nave também, mas este era o cômodo mais importante para ela.

— Sempre venho aqui organizar e limpar. Às vezes os outros me ajudam. Mas só eu, Mantis ou Nebulosa mexemos nas suas coisas, só pra constar. Só que eu nunca mais dormi aqui desde aquele dia. Quando vínhamos pra cá eu dormia no quarto de Kraglin. Não consigo ficar aqui sem você.

Gamora levou a mão do amado aos lábios, e o puxou para se sentarem na cama. Ela deu outra boa olhada em volta, quase sentindo o mesmo aperto emocionado no peito de quando foi ao quarto deles na Benatar. Peter estava certo, tudo estava exatamente como ela se lembrava, menos a aura de tristeza e silêncio que parecia ter se impregnado no local ao longo dos anos.

— Sobre o que você quer falar?

— Tudo que consegui me lembrar enquanto dormia no caminho de volta.

Peter assentiu.

— Quando a batalha acabou, Nebulosa me pediu pra ficar, mas eu não sabia o que fazer.

— Na Terra? – Peter perguntou com expectativa.

— Sim... Eu roubei uma nave aleatória e fugi. Parei em alguns planetas pra conseguir dinheiro e suprimentos. Não sei porque segui na direção dos soberanos. Eu não lembrava qualquer coisa sobre eles, mas senti algo muito forte. Parecia que algo no planeta principal me chamava. Parte de mim tinha esperanças de conseguir algumas respostas, parte achava uma péssima ideia, e outra que talvez fosse um bom lugar pra negócios. Então aterrissei no palácio, e lutei com um grupo enorme de guardas. Quando vi a torre das baterias anulax, isso me paralisou. Eu senti que havia algo muito importante que não conseguia me lembrar sobre ela, e foi tempo suficiente pra me desarmarem e prenderem. Isso nunca tinha acontecido antes. Fiquei ainda mais desorientada. Devo ter ficado três horas na prisão até Adam aparecer lá. Ele era muito doce, educado, gentil, empático. Mesmo sem minhas memórias, era evidente como ele era totalmente diferente de todos os outros. Ele me interrogou, aparentemente sob ordens de Ayesha, mas sem hostilidade. E disse que conseguia sentir uma energia muito forte em mim. Eu temi uma aproximação física, mas ele segurou meu braço num momento de distração, e nos transportou pra Joia da Alma. É estranho lembrar de dois pontos de vista diferentes a partir daí. Eu não lembrei de tudo quando acordei na prisão, mas agora...

— Nat estava com você?

— Sim e não. Nessa hora uma luz dourada muito forte me fez fechar os olhos, tanto eu quanto a outra Gamora, e ela e Adam chegaram até mim. Nat tinha desaparecido. Quando eu e ela demos as mãos, sentimos tudo uma da outra. Me lembro que fechamos os olhos e choramos juntas. Ela sentiu tudo, até o seu amor por mim, o bebê no meu ventre, seu cuidado comigo na noite em que concebemos Meredith, o amor de cada um dos Guardiões. Ela quis muito todo esse amor. E eu senti todo o desespero, angústia e conflito dentro dela. Nós nos completamos com nossas memórias. Acho que foi nesse instante que nossas almas se uniram.

— Adam também sentiu tudo isso?

— Não. Ele nem sabia que era telepata nessa época, ainda não tinha descoberto ou usado essa habilidade, só a empatia.

— Como é voltar?

— Parece que não é o mesmo pra todo mundo. Nat continuou alerta e ativa por um bom tempo antes de dormir. Eu me senti flutuando até aterrissar em alguma coisa, e de repente eu estava deitada no chão frio de uma cela, tonta, abatida e cansada. A primeira coisa que pensei foi no bebê, e fiquei com medo. Nesse momento não me lembrava do que tinha acabado de acontecer, e não tinha energia pra lutar com Adam ou obriga-lo a me dizer o que tinha feito comigo. E ele consegue sentir vida. A Gamora de 2014 ficou bem surpresa quando ele sentiu de longe que eu estava grávida.

— Você já sabia que era uma menina?

— Não. Só descobri quando ela nasceu.

— Como ela reagiu?

Gamora levou um instante para entender que era da outra Gamora que Peter estava falando. Pessoas demais numa única história.

— Acho que no começo pareceu uma brincadeira pra ela. Mas sei que ficou tão revoltada quanto eu pelo que aconteceu... Depois, quando acordei, Adam entrou na cela e me colocou no banco, me disse que eu precisava descansar, e eu apaguei. Quando o vi de novo eu estava acordando outra vez, tinha travesseiro e cobertor, e ele me disse que eu ainda estava grávida, que não tinham feito nada de mal conosco. Ayesha apareceu depois, irritada e planejando vingança contra nós como sempre. Perguntei sobre vocês, mas ela queria saber o mesmo de mim, uma achando que estava sendo vítima de uma armadilha da outra. Não gostou de Adam ter me oferecido melhores condições de descanso, e ele usou a própria lei deles contra os argumentos dela.

— Qual?

— Eles não podem punir ou fazer mal a inocentes comprovados. Uma criança que ainda nem nasceu não pode ser uma criminosa. Ela ficou bem interessada nisso. Nunca tinha visto uma mulher grávida, ainda mais em seu reino. Tenho certeza que ela sempre viu isso como um experimento. Mesmo no parto fiz tudo que pude pra não deixar amostras de sangue ou tecidos pra trás, e nunca deixei nenhum deles chegar perto de Meredith. Demorou muito pra que eu soubesse do que Adam e Alia estavam fazendo pelas costas de Ayesha, e pra que eu tivesse certeza que podia confiar neles. Eu também tive muitos sonhos nessa época. Talvez fosse um mecanismo de defesa pra sobreviver a tudo aquilo. Ou quem sabe todos possam sair do corpo como Adam e nos encontrar por aí, mas não conseguimos lembrar.

— Que sonhos? – Peter perguntou, sentindo seu coração acelerar um pouco ao se lembrar de seus próprios pesadelos.

— Nos momentos em que me sentia mais vulnerável é quando mais acontecia. Eu sempre sonhava com você. Com todos, mas você principalmente. Sonhei que você estava lá quando Mere nasceu, cuidando de nós. Foi horrível descobrir que tinha sido só um sonho quando acordei. Antes disso sonhei com Nebulosa. Ela tinha me encontrado na prisão dos Soberanos, mas só ela podia sair. Eu queria que ela avisasse a você sobre o bebê. Faltava pouco tempo. Eu tinha procurado por saídas nas poucas vezes que Adam me levava pra fora da cela, mas todas pareciam fortificadas demais, protegidas demais ou perigosas pra o bebê. Eu sei que você já ouviu meu depoimento na Tropa Nova, mas queria falar disso só com você, e com detalhes. Eu pensei em fugir pela entrada principal, pelo teto, pelos outros andares, por algum lugar com falha de construção ou segurança, mas nunca achei um assim. E se eu errasse, se caísse ou fosse atingida no ventre... Podia perder nosso bebê. Não sei o quão mais resistente minha espécie é do que as outras numa situação como essa.

Peter respirou fundo, e soube quando Gamora se calou que ela tinha sentido seu batimento cardíaco acelerar.

— Peter...?

— Uma vez... Nebulosa foi ao meu quarto de manhã, me dizendo que tinha sonhado com algo estranho. Que não queria me dar esperanças vans, mas como eu estava tendo pesadelos tão reais com você morrendo e com um bebê, talvez significasse alguma coisa que eu sabia e ela não, pra nos ajudar a encontrar você. Mas eu não fazia ideia do que podia ser. Ela sonhou com você num lugar cheio de salas, escuro e vazio, e você queria desesperadamente que ela me avisasse sobre alguma coisa e que o tempo ia acabar. Mas ela acordou antes que você dissesse.

Gamora desviou o olhar para o chão, quase em transe sabendo que ela e sua irmã tinham sonhado a mesma coisa, provavelmente na mesma noite.

— Eu nunca acreditei cegamente nessas coisas. E Thanos contribuiu muito pra isso.

— Nós também não. Mas... Aqui estamos. Antes disso eu vinha sonhando muito com... Você morrendo em Vormir. Eu vi tudo. Eu senti sua dor, sua tristeza, seu medo, sua dor física. Tinha tanto sangue, e doía tanto. E às vezes tinha um bebê. Às vezes você morria depois de eu te encontrar, ou depois de me entregar o bebê e pedir que eu cuidasse dele. Na primeira vez foi quando deixamos a Terra e demos uma carona pra Thor. Eu acordei de madrugada depois desse pesadelo. Fiquei tão transtornado que acabei acordando todo mundo sem querer. Passaram a noite comigo depois que parei de andar desorientado e em pânico pela nave.

Gamora ficou angustiada ao saber disso. Nebulosa havia lhe contado, como ele correu sem rumo pela nave nessa noite em questão, repetindo incessantemente que ela tinha morrido grávida. Mas ouvir Peter contar era bem mais pesado.

— Eu conseguia saber dos seus pensamentos e das suas emoções. E como você descobriu. Mas foi um pesadelo ainda pior acordar sabendo que você foi levada de nós grávida, sem sabermos de nada, e que aquele psicopata matou brutalmente vocês duas! Me diz que foram só pesadelos...

Gamora o encarou, e Peter sabia que a resposta não era a que queria ouvir.

— Quando ele me levou, o Caveira Vermelha sabia de tudo como eu te disse. Ele e Thanos falaram alguma coisa sem que eu pudesse ouvir. Ele ficou algum tempo pensativo e depois me arrastou à força pra o precipício. Achei que eu tinha quebrado a coluna, ou alguma das minhas modificações, ou que um osso tinha perfurado um dos meus órgãos, mas as contrações e a dor no meu ventre eram lancinantes, e eu estava sangrando muito pelas pernas. Não era uma hemorragia comum. Nunca o odiei tanto quanto nesse momento. E quando eu comecei a cair. Tudo que eu queria era saber voar pra voltar e tortura-lo até que ele estivesse mais humilhado do que todas as vítimas dele. Talvez seja isso que minha irmã passou a vida quase toda sentindo. Foi uma das piores coisas que senti na minha vida – sua voz falhou nessa última frase.

A mão quente e gentil de seu Senhor das Estrelas afagou seu rosto, e Gamora olhou para ele, vendo as mesmas lágrimas queimando em seus olhos, e o deixou abraça-la. Ambos sabiam que remoer o passado não era a forma mais saudável de transformar o que aconteceu em algo melhor, mas suas vidas tinham sido tão difíceis, e ainda era tudo tão recente. Eles precisavam falar sobre isso agora. O terráqueo a apertou contra ele, beijando sua testa e afagando suas costas, como se quisesse lhe dar de uma só vez todo o carinho que não pode por quase uma década, ainda que ambos tivessem vivido apenas parte desse tempo.

— Você não tem que me contar nada que não te deixe bem agora. Lembra disso, certo? – A voz gentil dele era como mais um afago.

— Se eu não te contar agora, não sei se terei coragem depois.

— Você escolhe, meu bem.

Dessa vez foi Gamora quem o apertou com mais força, inalando o cheiro dele e querendo nunca mais soltá-lo. Ela respirou fundo e deixou que o silêncio ficasse entre eles por um instante antes de continuar. Peter não precisava que ela dissesse. Ele sabia como sua morte devia ter sido seu momento mais tenebroso e humilhante perante aquele monstro, que já havia destruído sua vida de incontáveis formas. Aquele momento da vida pelo qual provavelmente qualquer ser vivo inteligente já deve ter passado ao menos uma vez, em que tudo está tão ruim, tão amargo e doloroso, que você deseja simplesmente nunca ter existido, por mais bençãos que você já tenha recebido no passado. Peter sentiu isso quando a guerra contra Thanos acabou, mas a custos irreparáveis para muitos dos envolvidos, inclusive o próprio Peter Quill. Mas antes que pudesse aprofundar sua reflexão interna sobre isso, Gamora voltou a falar.

— Depois que pensei nisso quando Adam me trouxe de volta, me lembrei de sintomas que eu não tinha notado quando aconteceram. Algumas dores no corpo, sono... E doeu tanto ter te obrigado a me prometer aquilo... Por você e por ela.

Gamora ficou quieta outra vez, parecendo finalmente cansada de falar por enquanto. Peter beijou o topo de sua cabeça, e afagou suas costas.

— Acho que você tem história pra nos contar por anos, querida. Descanse um pouco.

Ela assentiu, grata pelos dedos de Peter acariciando o comprimento de seu cabelo, e o coração dele batendo sob sua bochecha.

— Quanto tempo ainda temos até o jantar?

— Umas três horas. Quer sair um pouco? – Peter perguntou.

— Não.

Gamora se afastou para olhá-lo nos olhos e acariciar seu rosto, sem nada dizer, como se quisesse parar o tempo por um instante e gravar essa visão para sempre. E Peter obviamente faria o mesmo se isso fosse possível. Enquanto tentava decifrar o que a amada estava sentindo, ele a deixou tomar uma de suas mãos e brincar com seus dedos, acariciando sua pele e deixando um beijo ali como se derramasse toda a saudade dos últimos anos nesse contato singelo.

— Você é tão bonito...

Peter sorriu, apesar de ainda não saber o que ela estava pensando agora.

— Vindo da mulher mais linda da galáxia isso é um elogio e tanto.

Ela riu, realmente feliz, e claramente emocionada.

— Que bom que não esqueci de nada disso.

— Do que?

— De cada detalhe do seu rosto. Quando Ayesha me disse que vocês estavam mortos... Mesmo acreditando profundamente que não era verdade, tive medo de ser, de nunca mais nos vermos, de esquecer de tudo que vivemos conforme os anos passassem. Principalmente se nosso bebê fosse mais parecido comigo do que com você. Tive medo de você não existir mais, pra que eu pudesse te mostrar a filha linda que nós tivemos.

Peter a olhou por um instante, sua mão segurando a bochecha da noiva, deixando-a saber que ele tinha sentido tudo que ela estava expressando, e que agora estava aqui de verdade. Então Gamora o deixou beijá-la, e fechou os olhos por tempo suficiente para se sentir perdida no universo. Os dois continuavam abraçados quando sua consciência ficou ciente sobre estarem no quarto de novo.

— Podemos ficar aqui mais um tempo?

— Tudo que você quiser. Está cansada?

Peter puxou sua amada jaqueta vermelha para tirá-la e deixa-la num canto da cama, mas Gamora a tirou da mão dele e a deixou em cima da cômoda, junto com seu próprio sobretudo. Peter a questionou erguendo uma sobrancelha, um olhar divertido brincando em seu rosto.

— Eu acho que isso é um não – ele falou com carinho e surpreso quando a zehoberi voltou até e ele e sentou em seu colo, fazendo-o estremecer e segurá-la pela cintura.

— Certamente nossa filha ainda vai nos obrigar a mostrar todos os lugares divertidos da cidade a ela pelos próximos anos. Eu sei que ela está bem e segura com nossa família agora, e eu senti muito a sua falta, de todas as formas, meu Senhor das Estrelas.

Os olhos verdes do terráqueo brilharam, suas mãos apertaram um pouco a cintura da amada, e Peter respirou fundo quando a deixou puxar sua camisa para cima e tirá-la. Os dedos da zehoberi apertaram suavemente seus ombros nus, ajudando a desfazer a tensão acumulada dos últimos dias.

— Eu também, querida! Eu também!

Gamora segurou seu rosto com as mãos, e beijou a testa dele.

— Eu sei que você estava esperando por mim.

— Sempre.

— Mas eu estou aqui agora, e o que você sente também importa. Estamos no nosso quarto do Quadrante, sem ninguém por perto, e ainda temos três horas. Tenha certeza que eu teria emboscado você antes se houvesse uma oportunidade.

Peter riu.

— Se eu soubesse que ia ser emboscado teria me preparado melhor, deixado o quarto mais aconchegante, ou emboscado você antes.

Gamora gargalhou junto com ele, sentindo outra vez a leveza da vida que fora roubada dela em Vormir.

— O quarto está perfeito. Tudo está perfeito aqui e agora – ela lhe disse.

Os dois se abraçaram mais forte dessa vez, por bastante tempo, seus corações acelerando um contra o outro. O ruivo sentiu seus olhos se encherem de água mais uma vez. Gamora era muito mais para ele do que sua parceira em momentos íntimos, ela era todo o seu mundo. Mas assim como ela, ele também sentira sua falta em todos os sentidos. E estar desse jeito com ela agora fazia seu coração explodir, de todas as emoções e momentos perdidos por quase dez anos. Ele acariciou seu corpo com carinho, começando a remover seu cinto e as armas escondidas em suas roupas escuras, feliz em ver que isso também não havia mudado, e que cada arma da qual ele se lembrava ainda era guardada ou escondida nos mesmos locais, e embora isso fosse irrelevante para o que estavam fazendo agora, ainda era algo sobre Gamora, algo que era só dela, e ela era o que Peter melhor conhecia no universo. Ele se afastou ao reconhecer a textura e o formato de uma faca em particular, observando bem o objeto de duas lâminas em sua mão. Gamora a segurou junto com ele por um tempo.

— Estive pensando em me livrar disso. Quando ensinar a Meredith sobre equilíbrio, não quero que seja do mesmo jeito que foi comigo, equilibrando essa arma em um dos meus dedos enquanto eu era impedida de ver meus pais sendo mortos. Tentei tirar minha vida com ela quando chegamos a Vormir. Mas aquele miserável a transformou em bolhas.

Peter afagou sua bochecha, fazendo-a olhar para ele, e ver a dor em seus olhos verdes por essa nova revelação.

— Nunca mais faça isso. Eu...

— Eu sei... Eu sei – Gamora respondeu, acariciando a bochecha do amado.

— Eu odeio tudo sobre aquele roxo feioso. E eu odeio o que veio na minha cabeça agora, mas se ele não tivesse feito isso... Talvez nunca tivéssemos você de volta. Se você tivesse morrido antes... Pra onde sua alma iria? Se ele não tivesse feito o mesmo com meu blaster... – Peter falou, a dor transbordando em sua voz – E nossa filha.

Gamora tremeu, e segurou o choro por um instante, deixando finalmente as lágrimas caírem quando Peter envolveu seu rosto com ambas as mãos.

— É muito difícil admitir que aquele monstro fez algo de melhor entre todos os caminhos possíveis – ela disse.

— Eu sei. E não vejo nada de melhor entre qualquer uma das opções que você devia ter. Mas... De alguma forma, a joia guardou sua alma, e a da nossa garotinha, e ironicamente Ayesha nos concedeu um milagre. Mas... Me perdoe por dizer isso, querida. Eu...

— Isso não é somente sobre mim – ela o abraçou com força, sentindo Peter retribuir o gesto com a mesma intensidade e molhar o tecido escuro de suas roupas com as próprias lágrimas – Mas eu voltei. Estou aqui com você agora.

A zehoberi conseguiu rir junto com ele, que tinha os olhos tão molhados quanto os dela. Peter assentiu, e beijou-a nos lábios, lenta e demoradamente até continuarem a troca de palavras.

— Quando e como você quer destruir isso?

— Ainda não sei. Mas eu direi a você – ela prometeu, respirando fundo e secando o rosto com a mão livre.

Peter assentiu, deixando o objeto cuidadosamente sobre a pilha de armas no chão, e puxando a noiva para outro abraço, longo e calmante, acariciando suas costas por baixo da roupa até que ela se acalmasse e parasse de soluçar.

— Me desculpe.

Peter acenou com a cabeça, deixando-a saber que estava tudo bem.

— Sempre aqui – ele a lembrou, levando a mão dela aos lábios para beijar seus dedos – Eu ainda sou mais interessante pra você do que nossos dilemas do momento? – Ele sorriu, brincando com uma mexa de seus cabelos enquanto isso.

Gamora riu, sabendo que ele estava querendo sondá-la, saber se ela queria seguir em frente. E tinha certeza que caso sua resposta fosse negativa, Peter estaria bem com isso. Mas a zehoberi respondeu secando as lágrimas do rosto do terráqueo com a mão e voltando a beijá-lo enquanto o empurrava para o colchão.

******

Peter envolveu as costas dela com um braço e ergueu a outra mão para acariciar a parte de trás de sua cabeça, quase sentindo vontade de chorar novamente ao perceber como sentira falta de afagar os cabelos dela com os dois sozinhos num momento como esse. Gamora suspirou suavemente em contentamento, e se aninhou mais no peito do terráqueo, aproveitando o calor agradável do contato com a pele dele e o cobertor sobre os dois.

— Gam, você está bem? – Ele perguntou com legítima preocupação.

— Sim.

— Depois de todo esse tempo...?

Gamora virou o rosto para encará-lo, e ergueu uma das mãos para acariciar sua bochecha.

— Eu estou bem. Como não estava há muito tempo – disse com um sorriso – Você continua cuidando de mim, como sempre.

Os olhos verdes brilharam de emoção, e ele sorriu. Por alguns minutos ficaram apenas se olhando e brincando com os cabelos um do outro.

— Você não devia consultar um médico? Saber se está tudo bem com sua saúde? Foram quatro anos, Gam. A Tropa Nova cuidou de nós depois da batalha, mas não é a mesma coisa.

— Tenho pensado nisso. Também precisamos pôr a saúde de Mere em dia. Você virá conosco?

— Claro. Você sabe que nem precisa me perguntar.

Os dois mudaram de posição, para deitarem de frente um para o outro e se abraçarem melhor.

— Temos tanto pra conversar ainda. E precisamos voltar daqui a pouco – Gamora lhe disse – Mas eu gostaria de só ficar aqui com você por enquanto.

Peter riu baixinho, a abraçando mais forte e beijando sua testa.

— Tudo que você quiser, meu amor. Você é quem continua mandando nessa família.

Dessa vez foi ela quem riu, e o beijou nos lábios.

— Eu te amo – ela sussurrou.

— Eu também. Mais do que tudo, minha vida.

— Temos mais uma hora e meia das nossas três horas. Vamos tomar banho.

Peter respondeu rolando sobre ela e beijando sua bochecha, depois seu pescoço.

— Peter – ela riu – Temos uma filha nos esperando agora.

— Eu sei... Só me deixa te abraçar mais um pouco – ele implorou, envolvendo seus braços ao redor dela, e descansando a cabeça a em seu peito enquanto Gamora brincava com seus cabelos e acariciava suas costas.

— Eu também quero continuar sentindo você assim mais do nunca, mas por hoje... Vamos continuar nos abraçando no chuveiro.

— Amo as duas opções.

Gamora riu novamente, invertendo suas posições e lembrando-o de como ela era mais forte do que ele.

— Amo estar assim com você – ela beijou seus lábios – Mas me lembro que provavelmente vamos nos distrair e perder a hora, ou pegar no sono se ficarmos aqui por mais tempo. Então temos que contar com a paciência agora, e não nos atrasar pra o jantar.

Peter acariciou sua pele, indo da cintura até seu rosto, e a puxando para outro beijo antes de se levantar junto com ela. Peter juntou suas roupas usadas para levarem e lavarem em seus aposentos na Tropa Nova, enquanto Gamora escolhia roupas limpas para os dois no guarda-roupas. O terráqueo a abraçou contra ele quando já estavam debaixo do chuveiro e fechou os olhos enquanto deixavam que a água morna caísse sobre suas cabeças. Gamora parecia sentir tanta falta do contato tanto quanto ele, ainda que não fosse a primeira vez que faziam isso desde que tinham se reencontrado.

— Eu senti tanta falta disso.

— Eu também.

— Eu senti tanto a sua falta, tanto... – falou baixinho para ela – Eu nunca mais fui o mesmo sem você, Gam. Nem a nave. Nem a Benatar e nem essa.

— Eu sei.

Ela sabia. Mantis havia lhe contato como tristemente tinham visto Peter mudar do alegre e dançante Senhor das Estrelas para um capitão triste e silencioso, como o ouviam chorar sozinho em seu quarto ou no convés, como a nave havia ficado silenciosa e quase sem música alguma, como já não se divertiam como antes ao comemorar o fim das missões em algum bar, como ficaram com medo de que Peter adoecesse em algumas vezes que ele chegou a ficar febril durante a noite, e como o terráqueo pareceu renascer das cinzas quando encontraram Meredith.

— Nunca mais – ela falou baixinho, não sentindo a necessidade de completar a frase.

— Nunca mais – Peter concordou quando segurou seu rosto com as duas mãos e a fez olhá-lo antes de unirem seus lábios.

A zehoberi deslizou as mãos por seu abdômen, subindo para o peito e os ombros, e por fim o enlaçando pelo pescoço, sentindo atentamente todos os músculos sob suas mãos, e notando que ele continuava como ela se lembrava, mas aparentava ter perdido um pouco de peso, como ela certamente perdera nos anos de cativeiro, fazendo tudo a seu alcance para manter ao menos Meredith saudável. Ela respirou aliviada ao pensar que eles poderiam cuidar um do outro agora, como sempre foi, como deveria ter continuado a ser. Peter a puxou para mais perto pela cintura quando se separaram e respiraram juntos, unindo suas testas e aproveitando o silêncio por enquanto. Gamora intensificou seu aperto em seu pescoço, mas não o suficiente para machucá-lo.

— Eu quis tanto você, Peter. Esse tempo todo. Todos os dias. Uma vez Meredith me perguntou porque ela não nasceu verde. Depois que ela dormiu eu chorei por horas.

Peter apertou os olhos e suas mãos a abraçaram com um pouco mais de força.

— Eu sei, querida. Eu sei. Eu te quis tanto, Gam, todos os dias, cada segundo. Eu nem consigo dormir bem sem você. Eu te amo tanto.

— Eu também te amo.

Peter abriu os olhos e os dois se encararam profundamente. O amor em seus olhos sendo capaz de afogar qualquer dor nesse instante. Beijou a bochecha da zehoberi demoradamente antes de trocar mais um olhar com ela e unir seus lábios mais uma vez. Se entrelaçaram em mais um abraço e Gamora o retribuiu com o mesmo amor, a intenção de tomar banho completamente esquecida pelos próximos instantes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.