É só uma coisa implícita

18 Capítulo 18 – Acordo


Capítulo 18 – Acordo

— Depois de todo esse tempo eu ainda não entendi o que saiu errado no seu bom senso, mas é interessante como consegue encontrar argumentos plausíveis – Ayesha respondeu a Adam enquanto os dois e Alia estavam sentados na sala de reuniões, além do jovem conselheiro de Ayesha que costumava auxiliá-la nas batalhas espaciais e protocolos de segurança.

— Com todos os bloqueadores de rastreamento que temos nos planetas aliados e nas naves, seria seguro. Ela já viajou por muitos locais da galáxia, tem experiência em lidar com vários tipos de pessoa. Acho que seria mais vantajoso ao tesouro do reino aproveitar as habilidades dela do que mantê-la presa apenas consumindo recursos – Adam lhe disse.

— Faz sentido – Ayesha comentou, ficando um bom tempo em silêncio enquanto refletia – Mas isso seria um insulto à honra de nosso povo. Os Guardiões devem, e vão pagar.

— Suma Sacerdotisa... Se me permite – o jovem que analisava vários papeis relativos a um novo modelo de naves não tripuladas blindadas ergueu o olhar para os três – Eu acho que a ideia pode ter um bom fundamento e quem sabe um bom resultado. Incluir uma prisioneira nas missões seria algo inédito e estranho a nossos meios de lidar com esse tipo de situação, mas se ela gerar algum retorno financeiro, ou simplesmente parar de gerar despesas sem retorno, seria uma boa forma de compensar os recursos que perdemos anos atrás nas duas batalhas contra os Guardiões da Galáxia. Não estaríamos perdoando um deles, mas oferecendo um meio de compensação pelo ato cometido. E como consta em nossas leis, não podemos fazer nada contra a criança. Se é mesmo tão dependente da mãe como me relatou, morrerá facilmente se nós a eliminarmos. Não temos nenhuma ideia se é possível alguém tão pequena e dependente sobreviver sob os cuidados de outra pessoa que não seja a que a gerou.

— Expandir a fronteira dela pode nos trazer outros riscos? Como um encontro inesperado com os que ainda não capturamos? – A sacerdotisa questionou.

— Dificilmente. A entrada é controlada em nossos planetas aliados, embora qualquer um com permissão possa ir e voltar. Além dos sistemas que bloqueiam os rastreadores. Seria um acordo. Serviço em missões pela vida dela e a permanência com a criança.

— Quem cuidaria desse bebê nesses períodos? – Ayesha perguntou – Não temos qualquer conhecimento sobre como fazer isso. E ela tem se mostrado bastante arisca para proteger a criança.

— Eu não acho que ela aceitará se separar do bebê. Vai querer levá-la junto – Alia falou – Nossas missões são apenas diplomáticas ou pra coleta de recursos ou informações, não haverá como ela ou o bebê se machucarem.

— Alguém tão dependente poderia atrapalhar o andamento do trabalho.

— Ela não ficará à frente de nenhum pelo que sei, não é? Isso não vai ser um problema – Adam lhe disse – E o bebê ainda é muito pequeno. Não tem mais de um mês. Acho que seria arriscado colocá-la nisso agora.

— E quanto tempo você acha que seria necessário para a criança viajar com segurança?

— Eu não tenho a menor ideia. Talvez possamos perguntar a ela.

— Não é bom deixá-la sentir que tem controle sobre isso – a mais velha respondeu – E deve ficar claro que fugas não serão toleradas. E nem o acesso dela a qualquer dispositivo ou circunstância que a permita tentar comunicação.

— E como vamos controlar isso? – Alia perguntou.

— Qualquer tentativa será considerada uma nova transgressão, e voltaremos ao acordo antigo.

— Se voltarmos... O que vai acontecer com o bebê?

— Antes da execução será levada a algum tutor ou família disposta a criá-la. Em algum local livre da presença de mais Guardiões da Galáxia. Especialmente porque pretendo encontrar os que faltam e condená-los todos juntos.

— Não disse a ela que estavam mortos? – Alia questionou.

— Eu disse que não deram sinal de vida. O que é verdade. Mas tão logo os sistemas de comunicação interplanetários estejam com reparos melhores para compensar danos e falta de atualização aqui e em outros sistemas, será mais fácil descobrir.

— E se tudo ficar bem? A manteremos como membro para sempre?

— Até onde for viável – Ayesha respondeu – Deixo em suas mãos acertar esses detalhes – disse a Alia – E talvez você consiga convencê-la a se tornar mais pacífica diante de outros membros da nossa comunidade – falou para Adam – O que você tem a dizer? – Perguntou ao conselheiro que vez ou outra parava o que fazia para observá-los.

— Acredito que o conselho estará bem com isso. Mas o que será feito a respeito dos outros quando forem encontrados?

— São rebeldes ao extremo. Por hora proponho que o plano inicial seja mantido para os demais, especialmente para aquele animal estranho que os acompanha.

— Mas... Se um deles for realmente o pai da criança? – Alia lhe disse – E provavelmente é. A menina se parece muito com o senhor Quill. Manterá isso até mesmo para ele?

— Até agora a criança parece bem com apenas um dos progenitores. Não há razões para incluí-lo nesse novo acordo.

— Ao menos temos alguma ideia de onde eles estão? – O jovem perguntou, erguendo os olhos dos papéis mais uma vez.

— Os sistemas de comunicação de muitos lugares ainda estão sendo restaurados como falei – Ayesha falou – Não temos certeza ainda.

******

— É verdade que alguns de nós continuam curiosos pra ver o bebê?

Alia sorriu.

— Sim. Apesar do quão aterrorizados todos ficaram com os gritos dela e com tudo que vimos no dia do nascimento... Mas toda vez que alguém chega perto da porta pra tentar ouvir ela joga alguma coisa lá e espanta todo mundo. Ela não nos contou nada sobre a alimentação da criança – Alia lembrou de repente.

— Quando eu perguntei ela só disse que até os seis meses de idade o bebê não precisa de nada além dela mesma.

Adam viu a expressão da amiga demonstrar a mesma confusão que a dele quando Gamora lhe disse aquilo, mas logo voltou ao normal e continuaram o caminho até o quarto onde Gamora estava presa.

— Acha que ela vai aceitar isso?

— Não sei...

Adam acenou para os dois guardas, que acenaram de volta e se afastaram do local. Então ouviu sons de água em movimento e murmúrios do bebê ao se aproximarem da porta. Por alguns minutos os dois ficaram apenas ouvindo, por encanto e curiosidade. Ouviram Gamora rir baixinho e responder algo para a criança suavemente, embora não fosse possível entender o que ela dizia do lado de fora. Adam sorriu, e finalmente bateu.

— Shh... – ouviram Gamora sussurrar para a bebê quando o barulho na porta a fez emitir um gritinho agudo de agitação.

— Gamora – Adam chamou – Somos nós. Temos uma mensagem da Suma Sacerdotisa.

Alguns segundos de silêncio se seguiram.

— O que ela tem a dizer? Que decidiu se livrar de mim com antecedência?

— Não. Acho que você pode gostar da proposta.

Os dois ouviram a zehoberi emitir um suspiro de descrença e cansaço.

— Podemos entrar?

— O que eu poderia fazer pra impedi-los se eu dissesse não?

Os dois soberanos se entreolharam e Adam girou a maçaneta, olhando para dentro e vendo Gamora ajoelhada na frente da cama enquanto secava o cabelo louro da bebê, vestida apenas com o que Gamora chamava de fralda. A banheira de bebê estava em cima da mesa, ainda cheia, e os dois esperaram pacientemente que a guerreira vestisse a filha com o macacão cor de rosa que Alia havia trazido de uma das lojas de um planeta próximo.

Gamora colocou a toalha de bebê no cesto de roupa suja, cujas peças eram sempre recolhidas, lavadas e devolvidas a ela no dia seguinte, e acomodou a filha no centro da cama junto aos travesseiros para que pudesse esvaziar a banheira.

— Deixe-me ajudar – Adam pediu.

Ela pareceu pensar por um momento, mas o deixou levar o objeto para o banheiro e esvaziá-lo, deixando-o lá para secar. Quando voltou ao quarto, Gamora tinha a filha encolhida contra o peito, enquanto a segurava protetoramente e se movia lenta e suavemente com ela no colo. Os olhinhos castanhos continuavam abertos e alertas, mas a criança ficou visivelmente mais calma.

— Está na hora dela dormir? – Alia perguntou.

— Não. Ela dorme nos mesmos horários que nós, embora ainda tenha dificuldade em diferenciar dia e noite. E ela já cochilou hoje, dificilmente vai dormir agora.

Os dois encararam a pequena enquanto ela os olhava com curiosidade.

— Ela não parece muito com você – Adam falou, finalmente sentindo o mínimo de segurança para fazer tal comentário para Gamora.

Ela não pareceu zangada, apenas... Alegre, e depois triste. Muito triste. Mas em instantes escondeu isso e retomou sua expressão neutra.

— Ela se parece com o pai.

— Ela pode entender o que você diz? – Alia quis saber.

— Ainda não. Muito pouco. Ela entende mais o tom de voz do que as palavras agora. O que tem a me dizer? – Gamora perguntou antes que fizessem mais perguntas.

— Bem... Nós andamos pensando sobre algo e fizemos uma sugestão à Sacerdotisa sobre você. Ela aceitou.

Gamora respirou fundo para esconder qualquer traço de apreensão que pudesse deixar evidente, e decidiu sentar-se na cama com Meredith, apoiando as costas nos travesseiros e estendendo as pernas, permitindo que a pequena ficasse deitada sobre ela enquanto Gamora a segurava e acariciava seu cabelo, uma posição que a bebê parecia gostar desde o primeiro dia de vida, e algo que Peter também amava que ela fizesse por ele de vez em quando. Ela parecia muito mais com seu Senhor das Estrelas do que Gamora poderia imaginar, e ainda não conseguira decidir se isso lhe causava consolo ou tristeza em tais condições.

— Achamos que você poderia ser de maior utilidade contribuindo em missões simples de coleta de informação e reposição de suprimentos em planetas aliados próximos do que sempre presa aqui.

— E o que haveria de melhor nisso? Seria apenas uma extensão disso aqui. E me recuso a deixar minha filha.

— Poderá levá-la sempre com você – Alia falou – Se ela puder viajar sendo tão pequena. E seu benefício nesse acordo é sua vida. A Sacerdotisa está disposta a retirar a sentença se você concordar. Mas deixou claro que irá retomá-la se você cometer alguma transgressão.

Gamora ergueu uma sobrancelha interrogativamente.

— Você ainda não poderá circular pelo reino ou sair daqui, mas pode nos acompanhar nas missões, desde que não tente fugas, comunicação ou ameaças.

— Como eu disse, apenas uma extensão. E Meredith é muito pequena ainda.

— Esse é o nome dela? – Adam perguntou – Você nunca nos disse. Não lembro de já ter ouvido, mas tem uma bela sonoridade.

Gamora o encarou enquanto analisava a sinceridade em suas palavras, por fim lhe mostrando um leve sorriso.

— Obrigada.

— Quando ela poderá viajar? – Ele perguntou.

— Acredito que seis meses seria o tempo mínimo para ela estar segura.

— Se for conosco evitará a sentença. E poderá você mesma procurar itens que precisa pra vocês duas.

Gamora ficou bastante tempo em silêncio enquanto acariciava os cabelos da filha.

— Eu posso pensar sobre isso?

— Acredito que não há mal em lhe dar tempo. Ela tem apenas um mês agora de qualquer forma – Alia falou.

A zehoberi assentiu, e olhou para a filha quando a bebê se moveu e murmurou, tentando chamar atenção.

— Se me derem licença, eu preciso alimentá-la. E gostaria de estar sozinha com ela pra isso.

Os dois levaram um instante para responder.

— Tudo bem. Era só isso que tínhamos a dizer – Alia falou, já se dirigindo à porta.

— Você está bem? – Adam perguntou mais uma de tantas vezes – Isso machuca você?

Gamora olhou dele para a filha, que a encarava enquanto abria e fechava a boca, claramente com fome, e conseguindo ser tão fofa quanto sempre, fazendo Gamora sorrir.

— Não.

Adam assentiu, e seguiu Alia para fora do quarto, fechando a porta quando os guardas retomaram suas posições e ele seguiu junto com Alia pelo corredor.

— Acha que ela estava falando a verdade?

— Por que não estaria? – Ele respondeu enquanto se afastavam.

— No dia do nascimento ela nos mandou sair porque seria algo aterrorizante, e vimos as provas depois. Talvez alimentar um bebê também cause algum sofrimento, mesmo se não for suficiente pra que ela grite.

— Pode ser... Ela tem uma boa resistência à dor. Mas espero que tenha dito a verdade. Devíamos ter perguntado sobre o que será preciso pra acomodar o bebê numa nave.

— Temos tempo. Ela nem nos respondeu ainda. E ainda há cinco meses pela frente caso ela aceite.

******

— Faz tempo que não ouvimos música enquanto trabalhamos – Drax comentou enquanto caminhavam para dentro da Benatar após mais uma batalha vencida contra bandidos comuns em Xandar – Acho que perdemos uma boa oportunidade de ver suas performances patéticas hoje, Quill.

Peter sorriu, apreciando a tentativa do amigo de tentar animá-lo e um dos raríssimos momentos que Drax parecia fazer algum comentário normal.

— Pode ser – respondeu num tom triste, apesar de gentil, completamente diferente do Senhor das Estrelas que todos conheciam.

Os demais se entreolharam, apesar de não dizerem nada, não deixando de notar a mudança, que vinha se tornando cada vez mais evidente. A cada mês que passava, tanto a Benatar quanto o Quadrante quanto suas batalhas se tornavam mais silenciosos e estranhos. Apesar de ainda carregar o zune para todos os lados, Peter raramente era visto realmente escutando música com ele. Ainda que o desempenho dele como capitão e nas missões não parecesse diferente, a sensação pesada de preocupação atingia todos eles.

Ninguém falou mais nada enquanto se dirigiam para o convés e até adentrarem o Quadrante novamente, indo a seus aposentos na Benatar para se recomporem antes de seguirem para a outra nave. Rocket se deteve ao passar pela porta aberta do quarto de Peter e Gamora, e Nebulosa não pode evitar também parar para descobrir o que deixara o olhar do Guaxinim tão tenso. O zune estava largado em cima da cama, Peter sequer o levara para a batalha dessa vez. Isso era preocupante.

Os dois se entreolharam, não precisando dizer nada para expressar o que pensavam.

Notas finais
Créditos da imagem para o pessoal/artistas do "Mundo Mágico Reborn". Sei que a cor da roupinha da diferente da que Meredith usa nessa capítulo, mas não resisto a essa foto.