É por isso que eu odeio o futuro!
7 Capítulo 7- Eu realmente odeio festas.
Notas iniciais
Eu não sei como isso realmente foi acontecer. Sério. Eu estava em completos sentidos e não havia um bom motivo para eu ter feito aquilo, certo? Não que realmente precise de um motivo pra se beijar alguém. Mas foi uma coisa tão espontânea que não dá nem pra explicar. Foi algo meio “acho que vou beijar esse cara, porque... Ah, porque sim. Tem nada pra fazer mesmo...” Sabe?
Talvez essa seja a hora pra dizer que fiquei corado e morrendo de vergonha, mas pra ser sincero, não foi isso não. Eu meio que me limitei entre me sentir culpado e pensar “cara, que merda foi essa?”.
Quando eu me separei dos lábios do Beto, nem me dei o trabalho de olhar para cara dele. Eu não queria saber o que estava passado em sua mente. E achei que o mínimo que o cara merecia era uma explicação. O problema é que eu não tinha nenhuma.
—Sabe – Comecei, usando o tom de voz mais firme que eu encontrei no fundo do meu pâncreas. – Acho que aquele vinho era mais forte do que eu pensava. Eu meio que perdi a noção das coisas por um tempo. E eu não ia realmente beijar você, que dizer, eu não sei se ia, mas a ideia simplesmente pipocou aqui e quando eu me vi já estava lá, e eu nem me dei conta do que eu estava fazendo até alguns segundos atrás. Eu não sou do tipo que faz essas coisas do nada, mas sei lá, aconteceu, e...
Eu comecei a despeja palavras em cima do Beto como se ele tivesse pressionado um botão “informações”.
Eu sabia que bravo ele não estava. Chocado também não me pareceu o certo. Então resolvi arriscar e olhei pra ele, esperando algo.
Ele não teve nenhuma reação que eu esperaria.
Porque ele começou a rir!
Coisa que eu realmente não gostei. Quer dizer, depois de uma cena dessas, você não espera que a pessoa comece a rir da sua cara, certo? Pois foi o que eu disse a ele, mas aí que ele começou a rir ainda mais. E ficou lá, rindo enquanto eu o fuzilava com os olhos.
Quando eu acho que nem ar pra rir mais ele tinha, ele bagunçou meu cabelo. Não foi um ato nem um pouco legal, visto que havia penteado meu cabelo com gel e agora estava parecendo mais que eu havia levado um choque ou tomado um susto. Na verdade, deveria está parecendo aqueles médicos loucos de filme. Imagine aquela coisa desgrenhada e despenteada? Era meu cabelo no momento.
—Desculpa rir de você, Alex. – Ele falava meio rouco e meio buscado ar de tanto rir. Eu realmente queria dar um soco nele neste momento– É por que você começou a falar tão rápido e você sempre faz isso quando fica muito nervoso. Eu não entendi nada do que você falou, pra ser sincero. E meu Deus! Você está assim por simples selinho?
Se ele começar a rir de novo vou jogar ele no lago. Sério. Acho que ele notou pela minha cara que a graça havia ficado toda com ele porque de repente ele se forçou a apenas cobrir a boca com a mão tentando conter as gargalhadas.
—É realmente tão engraçado assim?
—Não estou caçoando de você. –Ele respondeu na defensiva. Mais sério agora. – Mas você estava parecendo um gatinho perdido agora a pouco. O que você esperava que eu fizesse?
E foi ali que aquela pergunta me pegou de jeito. O que exatamente eu queria que ele fizesse? Eu deveria está dando graças a Deus por não ter ficado um puta clima estranho depois daquilo.
Àquela altura eu já estava muito bem. Até minha fome havia passado e tudo que eu mais queria era sair de perto do Beto. Aquilo estava ficando perigoso demais para eu lidar.
—Aonde você vai? – Ele perguntou vendo que eu começava a me afastar.
—Vou entrar. Está frio aqui fora.
— Não vai comer?
Virei-me para ele. Certas aquelas coxinhas era as culpadas de tudo isso. Fiquei certo tempo olhando pra aquela embalagem até decidir o que fazer.
— Vamos levar pra casa. – Disse por fim.
—Sério? – Ele me perguntou outra vez com aquele tom debochado.
—O quê? Eu não vou comer nada aqui mesmo! Pelo menos podemos levar pra casa, certo?
Ah, vai me dizer que você nunca leva nada pra casa quando vai a alguma festa?
Como eu ia dizendo, estar com Beto era muito perigoso. Era como resolver soltar todos os passarinhos de estimação da sua mãe por simples capricho de não querer vê-los presos. O problema é que probabilidade de você se lascar depois é imensa.
Foi aí que caiu a ficha.
Meu Deus... Eu acabei de beijar um cara, e pior: foi tão natural que estou assustado.
Ainda bem que arrependimento não mata. Porque nem se eu morresse todos os dias por um ano inteiro iria compensar a minha fantástica ideia de ter vindo a essa festa.
Sabe aquela do “a curiosidade matou o gato”, pois bem. Eu queria saber como eram as festa de hoje em dia. Como eram a festas de pessoas importantes. Festas de adultos. E caramba, elas são um tédio.
Até entendi porque os garçons servem tanta bebida. É porque ninguém aguenta ficar neste tipo de ambiente, sóbrio. Simplesmente não dá.
Já te contei que eu sou péssimo em ser social? Bom agora imagine quando você meio que é “O centro das atenções”.
Fiz a minha cara de boneca Barbie. Com aquele sorrisinho de “eu poderia está em casa dormindo”, sorria e concordava com tudo que as pessoas me falavam.
Eu estava tão alheio à conversa que tenho certeza que um senhor estava me contando como foi parar no hospital após quase enfartar e eu acho que respondi com um débil “que divertido”.
Pior foi quando minha mãe chegou. Atrasada, como sempre. Mas a cara que ela fez a me ver foi muito parecida com a de quando ela me viu passando maquiagem no cachorro da vizinha. E vai por mim, não é uma cara muito legal. E ela estava com o senhor Burk. Eu ainda estava engolindo o fato da minha mãe ter se casado com ele. Eu não sei como marido, mas como professor aquele homem é o demônio em pessoa. Não, tenho quase certeza que até ele ensina matemática mais delicadamente do que o senhor Burk...
— Boa noite a todos!– Mamãe disse sorrindo.
A mãe do Beto passou voando pelo salão dando um grande abraço nela. Eu que havia passado resto da noite inteira evitando ela mais do que a própria peste em pessoa, achei melhor pegar o bonde e sair de fininho.
O que não deu muito certo porque acabei dando de cara com o filho dela. Que era outro que eu estava me esforçado muito pra evitar. Pelo menos por um tempo.
E pior que ele me viu antes que eu pudesse sair dali.
— Venha, Alex! Há uma pessoa que eu gostaria que você conhecesse!
Revirei os olhos e arrastei os sapatos-sim! Na maior birra- até lá.
— Alex, veja, está é Letícia! Ela quem assumiu o cargo de Gerente de Marketing após o... Seu acidente.
Olhei para a mulher que estava em pé ao lado de Beto. Ela não podia ter mais do que vinte e cinco anos. Tinhas cabelos castanhos meio ondulado e olhos castanhos claros. Até que ela é bem bonitinha.
— Prazer em conhecê-la. – Estiquei a mão para ela e lhe dirigi um sorriso a qual ela respondeu, apertando de volta minha mão.
— Prazer em conhecê-lo, Alexander! Você muito mais bonito pessoalmente. –Ela sorria com os dentes impecavelmente alinhados. Quanto os pais dessa garota não gastaram com dentistas?
— Pessoalmente?–Perguntei.
— Sim. Já o tinha visto por foto. Na sala do Roberto.
Olhei o homem ao meu lado e sussurrei mudo “Tem foto minha na sua sala?”. Ele apenas sorriu. Ok né...
A tal Letícia até que era legal. Quero dizer, conversava animadamente sobre assuntos alheios, pelo menos eu fingia entender do que ela falava. Até ela cansar e pedir licença para ir ao banheiro. Deixando-me SOZINHO-Não exatamente, visto que estávamos em uma festa-com o Beto.
— Pensando bem, acho que eu vou ao banheiro também... –Falei já pronto pra ir embora.
— Está me evitando agora, Alex? O que é isso?– Ele perguntou. Muito. Muuuuito perto mesmo do meu ouvido.
— Não estou... Evitando ninguém. Talvez a sua mãe, mas...
— Ah! Então você realmente gosta de ouvir sobre os problemas de saúde do senhor Ward? –Ele me perguntou levantando uma das sobrancelhas,
— Quem?– Franzi o cenho pra ele.
— Imaginei que não. Escute Alex, eu não sei o que está passando dentro dessa sua cabeça. Mas aquilo foi algo muito trivial. Não precisa ficar com vergonha por aquilo. Eu sou seu namorado.
Deixei que um suspiro cansado escapasse dos meus lábios e olhei para ele.
— Não é isso... É só que...
— Algo vem te deixando estranho ultimamente, certo? – Ele segurou meu rosto pra que olhasse pra ele. – Aqui não é local, mas você precisa me falar o que é. Não fique pensando de mais sobre as coisas. Você não é bom em fazer isso.
Já disse o quanto eu odeio que ele aparentemente me conheça bem demais?
Ele soltou meu rosto e eu pensei que ia se afastar, mas sabe o que ele fez? Ele beijou o meu pescoço. E meu Deus... Se havia alguma chance dos meus cabelos-De todo o corpo- ficasse arrepiados, aquela foi à deixa...
E depois me deixou lá, paralisado, olhando o com os olhos pra saltar pelas orbitas.
Eu nem sei quanto tempo fiquei ali olhando o nada até sentir a mão de alguém no meu ombro. Dei um pulo me livrando de quem quer que fosse.
E advinha? Era o senhor Burk, tentando entender porque eu me livrei da mão dele como se tivesse sido tocado pela morte.
— Desculpe te assustar, Alex. Está tudo bem? Você está meio vermelho?
— Eu não estou vermelho!– Falei na defensiva mais rápido que eu pude perceber. –Quer dizer, eu só... Estava com calor.
— Mas estão fazendo uns 17° graus...
Homem pare de discutir comigo! Se eu estou dizendo que eu estou com calor, é porque está calor! E não porque certa pessoa beijou o meu pescoço. Jamais seria por algo assim. Imagine só!
Era isso que eu queria responder, mas acabou saindo um simples “pois é”.
— Alex, eu queria conversar com você... Seria possível?
Repararam que TODO mundo de repente resolveu conversar comigo? Então, né? Achei que seria muita falta de educação correr pra bem longe dali, então eu aceitei. Não que eu gostasse, porque até onde eu me lembro, a última conversa que eu tive com o senhor Burk foi ele gritando comigo e dizendo que eu ia reprovar na matéria dele se não ficasse inteligente da noite para o dia. Eu falo sério quando digo que sofri na mão desse homem, mas acham que estou brincando, então ok...
— Senhor Burk... – Comecei um tanto quanto incomodado quando voltei a aquele jardim. Já havia tido experiência o suficiente naquele lugar, e não estava fim de outra. Não que eu fosse beijar o senhor Burk. Jesus! Isso nunca! Preferia dançar tango pelado no Alasca a ter que fazer aquilo.
— Pode me chamar de David!– Ele disse, simpático. Simpático!
— Certo... David, por que me chamou para conversar?
— Meu rapaz... Eu me preocupo com você. – Eu tenho certeza que vai chover gatos depois dessa. Certeza!– E sua mãe, ela anda ainda pior. Vem me dizendo que não sabe o que fazer em relação a você. Eu entendo que sua situação atual é complicada, então me diga, você está bem?
Naquela hora um nó se formou em minha garganta. Outro homem- cujo eu jurava que me odiava- estava ali, em pé, preocupado comigo e com a minha mãe. Algo que o meu pai deveria fazer. Mas não. Papai estava em Las Vegas com uma loira do lado porque resolveu se separar da incrível esposa que tinha por não aceitar o filho gay. E vou ser sincero, aquilo doeu de verdade.
— Eu... – Eu queria responder que estava bem.
— Alex, não se force demais. Você é muito importante pra tanta gente.
Fiquei olhando para David. Ele havia envelhecido bem pouco desde a última vez que eu o vi. Não me parecia mais tão demoníaco. Já devem ter notado, mas sou muito bom em mudar meus pensamentos a respeito das pessoas de acordo com suas atitudes, certo?
— Eu estou bem! Beto é muito paciente comigo. Acho que até demais...
— Mesmo? Fico feliz com isso. Carla também ficará. Ela estava meio preocupada com vocês dois.
— Ah... –Apertei meus lábios antes de perguntar. – A mamãe... Está feliz?
— Bom, ela anda muito preocupada com você Alex, como eu disse. E isso já vem se arrastando por vários meses...
— Não. Não sobre mim. Sobre o casamento. Ela está feliz?
Ele me pareceu chocado com a minha pergunta. Depois relaxou o rosto e me deu sorriso.
— Acredito que sim, Alex! Somos muitos felizes juntos. Já lhe disse isso uma vez, mas posso repetir quantas vezes for necessário. Eu amo sua mãe e faria tudo para vê-la feliz. Sempre!
— Obrigado! –Disse com a voz um tanto quando falha. – Por cuidar dela. Obrigado por cuidar da minha mãe. Realmente.
Eu percebi que não importava se a minha mãe estava casada com o senhor Burk ou o presidente de Cuba, desde que ela estivesse feliz, isso era tudo que me importava. Afinal ela provavelmente pensou o mesmo de mim.
Já estava cansado de tanta falação. Estava cansado, com sono e a fome havia voltado. E pra completar o pacote: Beto havia se enfiado em algum buraco que nem um bussola pra encontrar aquele homem. Eu já até tinha me perdido de tanto rodar pela casa procurando por ele e nada de encontra-lo.
Eu ia passando direto por uma biblioteca se a voz daquele que eu procurava não tivesse falado algo exatamente na hora.
Caminhei em direção à porta, pronta pra pedir pra gente ir embora, quando vi que ele não estava sozinho. E sério, eu dou um prêmio pra que descobrir com quem ele estava.
E se você disse que era a tal da “Letícia”, meus parabéns!
Eu não gosto de ouvir a conversa dos outros, pra que fique claro. Mas eu realmente não soube o que fazer. Não achei que deveria sair dali e nem queria interrompe-los. Então fiquei apenas observando.
— Eu estou falando isso porque você vai precisar ficar por mais um tempo na empresa... –Dizia Beto para ela. Ele estava encostado na beirada da mesa como se estivesse pronto para se levantar.
— Tudo bem, Roberto. Eu não me importo de ficar mais um tempo. Até gosto muito da empresa e de todos, mas deve ser frustrante, não é? Quer dizer, seu namorado, aquele que você tem quase uma devoção. Não se lembra de você. Isso é muita... Ingratidão da parte dele. – Como é?
— Não diga isso. Alex me parece realmente está se esforçando. Na verdade ele está muito lindo desse jeito... Mesmo que eu sinta muita falta do MEU Alex. Porque eu sinto como se eu nunca mais fosse o ter novamente. Mas talvez eu já soubesse disso.
— O que quer dizer?– Ela perguntou.
— Promete guardar um segredo?– Beto perguntou.
— Claro! Sou sua amiga. Sabe disso.
— Sabe o que Alex me disse na noite em que ele sofreu o acidente?– Seu tom de voz era ríspido. Quase como se estivesse cuspindo as piores palavras da terra.
— O que seria?
— Ele me disse... Que queria terminar o nosso relacionamento.
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