É por isso que eu odeio o futuro!

13 Capítulo 13- Depois da tempestade.


Notas iniciais
Eu não sei, mas talvez eu esteja me apaixonando por você tão rapidamente que talvez eu deva guardar isso para mim. (Colbie Caillat - Fallin' For You) Então minha gente, mais uma vez estou aqui! Milagre,néh? Pra quem passou um mês e tanto sem dar sinal,até que estou indo rápido. E depois de 3 seminários,um projeto de modelo anatômico, duas feiras e mais umas quinhentas apresentações de trabalho, eu ainda tive tempo para escrever Espero que gostem desse cáp. tanto quanto eu. E perdoem os erros.Olha a hora que eu estou postando,e estou morrendo de sono.Juro que depois eu reviso e conserto tudo que estiver errado.

Primeiro um cara estranho aparece na minha porta. Agora, meu pai resolver dar o ar de sua graça e me chama para um bate-papo. Só faltou o Papa me convidar para jantar.

— Veja bem, Alex, você não precisa ir se não quiser... – Camila tentou me consolar. Não que tenha sido de grande ajuda, porque acredite, não foi.

Eu estava me sentindo verde, meu estômago estava embrulhado, e parecia que tinha um coração na minha cabeça de tanto que ela latejava.

Eu fico me perguntando onde eu assino a minha carta de demissão do cargo “eu”. Porque sério, eu queria ser uma jaguatirica, mas não queria ser eu. Não queria ser eu no futuro, nem no passado, nem no presente, nem em nenhum tempo qualquer. Assim como eu também não estava fazendo muita festa para encontrar meu pai. Quer dizer, tudo que eu consigo imaginar é que ele vai soltar os cachorros pra cima de mim se eu for, e caso eu não vá, ele talvez resolva me jogar uma bomba nuclear.

De repente a dor de cabeça aumentou ainda mais.

E lá vamos nós de novo. Atrás de conselhos. O pior é que aquele ditado “se conselho fosse bom não se dava, vendia” me parecia ainda mais verídico a cada situação que eu passava.

— Caramba, Camila. Eu venho aqui buscando respostas para resolver um problema e saio daqui ainda pior. Minha irmã, nunca mais eu volto na sua casa. Eu só me lasco quando piso os pés aqui.

— Calma Alex. Não é o fim do mundo. Você vai ver. Papai ainda é um homem muito maleável; você só não tinha muito jeito com ele. Talvez as coisas possam melhorar...

Acabei mordendo o lábio.

Será? Quem sabe...

— É... Talvez eu possa. Bom, não custa nada tentar. Quebrar a cara ainda é de graça mesmo... – Dei de ombros. – Acho que eu vou.

Camila abriu um sorriso.

— Isso mesmo, Alex! Vai fundo. Papai estará em um cafeteria no sábado de manhã. – Ela anotou em um pequeno papel o endereço e eu coloquei no bolço da calça. – Hã... Alex, será que dá pra isso ficar só entre a gente? Se mamãe souber, ela vai ficar muito chateada... De verdade.

E eu concordei. Não apenas com não contar pra mamãe. Mas em contar ao Beto.

Eu até tinha conseguido driblar a visitinha nada agradável do Vitor de hoje de manhã, mas não ia dar pra esconder do Beto o fato do meu pai ter resolvido retornar da volta dos que não foram.

E de qualquer jeito, nada adiantaria guardar segredo. Eu sabia que Camila ia acabar dando com a língua nos dentes uma hora ou outra. Então achei que seria melhor que ele soubesse por mim mesmo.

E eu não demorei muito pra contar. Quer dizer, depende do quão literal se pode considerar o “não demorei”, porque foram mais de cinco horas só para eu conseguir tocar no assunto.

Mas assim que terminei de contar, a coisa desandou. E feio. Tudo começou com um:

—Não! Absolutamente não. Eu te proíbo completamente, Alexander. Você não vai. – E aí, Beto começou a andar de um lado para o outro no meio da sala igual a um maluco.

Revirei os olhos.

—Mas por que não? É só meu pai, Beto. Não é como se eu fosse me atracar com um homem-bomba.

Para convencer Beto, eu precisava primeiro convencer a mim, e olha que eu não estava obtendo muito sucesso.

—Alex, você não tem estrutura psicológica o suficiente para enfrentar aquele homem agora. Você não vai e ponto final.

—Olha, eu sei muito bem que o tipo de imagem que meu pai andou passando não foi uma das melhores, mas posso garantir que eu consigo muito bem lidar com ele. E não é como se eu nunca tivesse falando com meu pai. Então talvez se eu sentar pra ter uma conversa saudável com ele, eu possa...

—Não, não e não. – Ele interrompeu – Por favor, agora não. Depois, quando as coisas... Melhorarem, aí quem sabe...

— Caramba! Eu te contei sobre isso porque achei que no mínimo você poderia me ajudar a resolver isso de uma vez, mas já que você não está muito disposto a colaborar, eu vou ter que ignorar completamente a sua birra e ir mesmo assim. Você concordando ou não.

Ele fechou os olhos e passou a mão pelos cabelos.

— Você e a sua maldita teimosia. – Ele suspirou. – Escute Alex, eu não sei exatamente que tipo de coisa você está tentado provar e nem para quem você quer provar, mas para de agir como se nada te abalasse.

— Elas me abalam sim! Eu não sou um muro de concreto como todos vocês acham. Mas sei reconhecer que eu não posso ficar sentado chorando pelos cantos e deixando a vida simplesmente acontecer. – Falei em voz alta. Será que dá pra ele notar que eu não sou a droga de uma mocinha indefesa presa em um melodrama?

—Alex, o homem que você quer encontrar não é o mesmo do qual você se lembra. Ele fez coisas e disse coisas cruéis a você. Não sei o que ele quer voltando depois de tanto tempo, mas estou te avisando, isso não vai te fazer bem.

—Não ache que eu sou um completo ignorante, por favor. Eu sei bem o que está dizendo. E também sei que eu estava tendo problemas com meu pai. Mas é isso que ele é, Beto. O meu pai. O único que eu conheço. Eu até entendo que você não confia muito nele, mas será que não tem nenhum pouco de fé em mim?

— Eu estou preocupado com você. Não é que eu não tenha fé, mas não acho que isso acabará bem. Por que você não pode me escutar uma única vez? – Ele balançou a cabeça.

De repente e por algum motivo eu ouvi a voz do Vitor na minha cabeça dizendo: “acho que seu namoradinho está te moldando de acordo com o mundo que ele quer que você viva.”.

Com certeza eu não deveria estar lembrando isso e muito menos deveria estar concordando, mas estava.

— Eu entendo que você esteja preocupado. Mas poxa, eu só queria que você entendesse que isso é importante para mim. – Acabei fitando o chão sem muito interesse.

Beto segurou meu rosto e me fez olhar para ele.

— E você é importante pra mim, Alex.

—Eu sei. – Comentei baixinho.

— Não. Você não sabe. – Ele suspirou de olhos fechados. – Eu nunca te vi sorrir como nas últimas semanas. Eu só não quero que tudo isso seja destruído por nada e nem ninguém. Porque se esse que está aqui agora era quem você realmente deveria ser...

— Eu sou apenas eu, Beto – Interrompi– E sou muito melhor que meu eu do futuro. Consigo fazer tudo que ele nunca fez até duas vezes mais rápido. – Acabei estalando os dedos no final.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Como o que, por exemplo?

— Por exemplo, te tirar do sério ao ponto de você querer me empurrar escada abaixo.

Consegui faze-lo rir.

— Eu não quero te jogar de uma escada.

— Mas aposto que considerou a ideia de me trancar em um sótão.

— Também não ia te trancar no sótão. Na casinha do zelador talvez, mas não no sótão.

Agora foi a minha vez de rir.

Mas a verdade é que só disse aquilo para mudar de assunto. Porque era fato que eu conseguia fazer outra coisa muito mais rápida do que meu eu do futuro. Mas eu não estava muito a fim de comentar sobre isso no momento.

—Então... Será que não poderíamos entrar em um acordo?

— Não tem acordo, Alex. – Ele disse pacientemente. – Você não vai encontrar o seu pai sozinho desse jeito.

Levei a mão até atrás da cabeça e segurei em meus cabelos.

— Na verdade, eu não estava pretendendo ir sozinho não. Quer dizer, eu tinha esperança de que você solicitasse para ir comigo, mas você não fez... – Abaixei o tom de voz até um pequeno murmuro.

— Ir com você? Encontrar o seu pai? – Ele riu sem humor algum. – Isso é ainda pior.

— Ah, qual é, Beto? Não precisa sentar e tomar um cafezinho com ele. É só pra não me deixar jogado na sarjeta em uma hora dessa. – Ele continuava impassível – Por favor! Eu faço o que você quiser.

Isso sempre funcionava com a minha mãe.

O problema é que eu não lembrei que o máximo que a minha mãe poderia me pedir era para limpar o quarto ou lavar a louça o mês inteiro. Beto por outro lado tinha um campo vasto e inexplorado de possibilidade para pedidos. Mas já era tarde demais para voltar atrás.

— Qualquer coisa? – Ele apertou os olhos.

—Sim. Qualquer coisa. – E eu sou um homem de palavra. Mesmo que eu me ferre depois, eu vou cumprir.

Ele balançou a cabeça.

— Tudo bem, Alex. Mas esteja preparado para manter sua palavra e fazer “qualquer coisa” .

Abri um sorriso gigantesco para ele. Juro, eu senti aquele sorriso nas minhas orelhas. E acabei esticando a mão para ele.

— Temos um acordo então?

— É. Temos um acordo. – Ele a apertou de volta.

E pra resumir, foi tudo isso que aconteceu em uma simples quarta feira.

Agora, o “X” da questão era aguardar o tão fatídico sábado e saber se eu ia conseguir sobreviver ao meu pai ainda com a sanidade em dia.

E por incrível que pareça, os dias passaram voando. Talvez pelo fato de eu não estar com tanta pressa ou algo do tipo.

E devo confessar que estava me sentindo como se fosse fazer contato com um alienígena pela primeira vez. Mas na cara e na coragem, eu fui. E Beto foi comigo. Com cara de pouquíssimos amigos, mas foi. Eu sei que ele não queria mesmo que eu visse meu pai. Não era só uma birra boba e egoísta. Ele estava mesmo preocupado, e bom, eu também estava.

Ele até mudou de ideia e disse que dependendo do rumo que as coisas tomassem, ele não ia se conter em entrar no meio da coisa.

— Primeiro preciso ver o que ele tem a me dizer. Só por cinco minutos. Poderia me dar cinco minutos pelo menos? Depois você aparece e salva o dia, Batman.

Lá estava eu, de braços cruzados, em pé, em um estacionamento, repetindo a mesma conversa chata de três dias atrás.

— Tudo bem, Alex. Eu não vou te impedir de fazer o que você quiser. Mas depois, por favor, não se esqueça de dizer “você tinha razão”.

Revirei os olhos e olhei para o céu. Estava cinza e pesado. Exatamente como eu estava me sentindo aquele dia. Cinza e pesado.

Acabei caminhando até uma pequena cafeteria de esquina. Fiquei com receio de não reconhecer meu pai. Mas tudo isso se dissipou quando eu o vi sentado, com um café no canto da mesa e um jornal aberto.

Acho que já disse várias vezes o quanto eu puxei a aparência física da minha mãe. Simplesmente não me parecia em nada com ele. Nem mesmo na personalidade. Porque até isso eu tive que herdar de mamãe.

Meu pai estava idêntico a quando eu o vi pela última vez. Apenas com algumas rugas a mais em volta dos olhos e da boca, e o cabelo também estava mais grisalho, mas tirando isso, para mim, ele estava à mesma coisa.

Aproximei-me lentamente e parei a alguns centímetros de distância. Ele nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça.

— Há quanto tempo, papai. – E quando digo tempo, quero dizer tempo mesmo.

— Não me chame assim, Alexander. – Ele respondeu sem nem ao menos levantar o olhar.

— E como eu deveria chama-lo, Senhor Leon de Bragança? – Puxei a cadeira em frente a ele e me sentei. – Se bem me lembro, foi o senhor que me chamou aqui.

Ele finalmente dobrou o jornal e me fitou com a testa franzida. E eu fiquei me perguntado se havia algo de errado com a minha cara.

— Mas o que aconteceu com você?– Ele inquiriu.

—Muitas coisas aconteceram comigo nos últimos dias. Preciso que seja um pouco mais específico para que eu possa responder a sua pergunta.

— Há quanto tempo voltou a se vestir assim?

Dei uma olhada básica em como eu estava. E para mim, estava tudo normal. Estava de jeans, camiseta e tênis.

— Hãm, desde que eu acordei no hospital. – Abaixei o olhar e fiquei brincando com o guardanapo da mesa.

Meu pai suspirou e se remexeu inquieto.

—Eu soube do seu acidente. Por terceiros na verdade. – Seu tom ainda era duro. Mas ainda consegui captar um pouquinho de preocupação. – Mas... Como está agora?

Levantei a cabeça e nossa, eu deveria estar com um sorriso enorme.

Eu sabia! Sabia que meu pai não havia virado esse monstro que todos diziam que ele era!

— Estou bem. Graças a Deus não tive nenhum dano permanente.

— Isso é bom. Por que precisamos conversar. – Ele disse sem muitas delongas.

Ok. Isso me deu um frio na espinha que eu não vou nem comentar.

— Tudo bem. Pode falar.

Papai cruzou os braços sobre a mesa e me olhou.

Já contei que ao contrário de todos na família os olhos do meu pai são de um azul esverdeado muito claro? Eu seria tipo, muito mais bonito se eu tivesse os olhos dele, mas como a vida é injusta, sabe?

— Confesso que fiquei muito incomodado quando soube que meu único filho estava entre a vida e a morte e que eu só soube disso depois, Alexander. – Ele começou. – E por isso achei que essa seria uma boa oportunidade para colocarmos todos os pingos nos i’s.

Concordei silenciosamente.

— Bom, você com certeza não se tornou nada do que eu planejei. E não menti pra você quando disse que te considero o meu maior fracasso...

Demorei um tempinho até entender aquelas palavras.

— Espera... O que?

— Você sabe muito bem que eu jamais irei entender essa sua vida imoral e essas escolhas nojentas que você fez consigo mesmo e com toda a nossa família. Mas saiba, que mesmo assim, eu tenho a esperança que você um dia melhore...

Franzi a testa para ele.

— Eu não estou doente! Mas afinal o que exatamente está acontecendo aqui? Você está me ofendendo ou está preocupado comigo?

Papai suspirou e apertou a ponta do nariz.

— Alexander, você vai fazer trinta anos. Já não é mais um garoto que pode viver a vida desse jeito. Principalmente depois desse acidente. Não acha que já passou da hora de você se torna uma pessoa normal? Ter uma família como alguém normal? E se você tivesse morrido ?

— Bom, eu teria morrido. Fim. Mas só pra constar, eu sou uma pessoa normal, eu tenho uma família normal, que caso o senhor não esteja lembrando, faz parte dela. Agora, posso saber exatamente a que ponto quer chegar me dizendo essas coisas?

— Eu quero que você se case, Alexander. Com uma mulher. Eu quero que você tenha filhos. Eu quero que você seja um chefe de família. Como eu fui. Como seu avô foi.

— E como você desistiu de tudo isso? Porque você sabe que foi isso que fez, não é? Desistiu da gente. Desistiu da mamãe e da Camila. Desistiu de mim. – Praticamente cuspi as palavras. Como se nem fosse realmente eu falando.

Era inacreditável. Eu estava tão chocado que eu simplesmente não tinha ação.

— Eu não desisti da sua mãe. –Ele rosnou. – Foi ela quem preferiu apoiar você e seus atos imundos.

— Que atos imundos?

—Você sabe muito bem do que eu estou falando. – Ele respondeu incomodado.

—Anhã. Eu sei. É porque eu sou gay. –Balancei a cabeça e sorri. – Só não entendi onde foi que eu te ofendi tanto ao ponto de você me tratar desse jeito.

— Alexander, você deveria saber que isto não é algo natural. Você precisa virar um homem.

— Papai, acho que você está precisando estudar um pouco. Caso não tenha notado, eu sou um homem. – Eu ainda brincava com o guardanapo da mesa.

—Então porque não pode agir como um?

Fechei meus olhos. E foi como está em uma daquelas lembranças estupidas. Como se a coisa nãos estivesse realmente acontecendo. Como se a coisa não fosse comigo.

Mas era.

— É, você com certeza tem toda razão. Eu deveria me tornar um homem igual a você... – Disse a ele.

— Viu? Está começando a pensar com clareza...

— Eu deveria me tornar um babaca ignorante, igualzinho a você. – Interrompi. – Que define as pessoas pelas escolhas delas. Escolhas estas que não vão mudar de forma alguma a minha vida. Apenas querendo me intrometer na vida alheia...

Não sei o que aconteceu logo em seguida na verdade. Apenas parei de falar quando percebi a forte pancada no meu rosto e logo em seguida o ardor.

Primeiro fiquei desnorteado sem nem me lembrar de quem eu era ou que estava fazendo.

Depois percebi que todos no restaurante me olhavam. Uns cochichavam sobre algo, outros me olhavam com pena e outros pareciam completamente horrorizados.

Eu tinha acabado de levar um senhor tapa na cara. Literalmente.

Quer dizer, isso foi o que eu notei. O que todo mundo na verdade olhava horrorizado era para o homem em cima do meu pai, enforcando ele.

Não sei como Beto agiu tão rápido. Mas em um minuto ele apareceu e em outro tinha a garganta do meu pai nas mãos e o prensava contra a parede. Não sei que tipo de expressão nenhum deles fazia, visto que eu ainda estava paralisado na cadeira. Mas só de olhar para a nunca de Beto percebi que ele estava vermelho.

— Nunca mais toque um dedo no meu namorado. – Vociferou ele. –Eu não me importo se você é o pai dele ou presidente da república. Se fizer algo pra machucar ou apenas chegar perto do Alex, centímetros que sejam, eu juro que...

Toquei o Braço de Beto antes que ele terminasse a ameaça; Sabe? Não pega muito bem ficar ameaçando um senhor no meio de um monte de testemunhas... Em um beco escuro talvez, mas no meio dessa galera, melhor não.

— Já chega... – Minha voz saiu fraca e em um sussurro rouco. – Solte-o.

Beto soltou o pescoço do meu pai bruscamente ele acabou caindo. Não senti nada ao ver aquilo.

Senti os dedos de Beto se fechando com força no meu pulso e ele me arrastando com passos largos para o meio da rua. E eu debilmente me deixava se arrastado.

Ele só parou de andar quando já estávamos em uma praça em não sei aonde.

Abaixei meu olhar para minhas mãos. E não havia percebido como elas estavam tremendo, até aquele momento.

— Vá em frente. — Murmurei para ele. –Vá e diga “eu te avisei”. Eu bem que mereço isso agora.

Beto parou na minha frente e levantou a minha cabeça. Seu rosto era de uma expressão fechada.

— Exatamente. Você merece. Porque eu te avisei. – Sua voz era impiedosa. E eu tentei a abaixar a cabeça novamente, mas ele segurou ainda mais firme meu queixo. – Mas eu estou orgulhoso de você.

Ele beijou o alto da minha cabeça e eu mais uma vez paralisei. Senti meu corpo todo tremer com toda a raiva e frustração que eu nem havia notado que estava guardando.

Então tudo desabou. E quando eu digo tudo, me refiro a tudo mesmo.

Eu simplesmente comecei a chorar. Igual uma criança. Eu estava-me sentindo tão mal. E as minhas pernas apareciam gelatinas. Meu corpo era pesado demais para eu sustentar. Eu realmente ia cair. Mas Beto fechou seus braços ao meu redor, colocando meu rosto na sua curva de pescoço e me segurou. Ou eu me segurei nele. Não lembro direito. Apenas sabia que estava agarrado com tanta força ao tecido da blusa dele que os nós dos meus dedos estavam ficando brancos.

O céu pareceu se compadecer com a minha choradeira e resolveu engatar nos berros junto comigo, visto que começou a cair uma tempestade gelada e escandalosa. E aos poucos, todas as pessoas que estavam na rua desapareciam, e eu continuava ali, chorando por tudo que não havia chorado nos últimos dias.

No final, eu estava encharcado, soluçando, com a cara vermelha e inchada. E Beto continuava me abraçando como se nada tivesse acontecido.

Afastei-me um pouco e tirei o excesso de água dos olhos.

— Podemos ir pra casa? – Foi tudo que consegui proferir naquele momento.

Beto podia ter milhões de qualidades, mas a minha favorita sempre seria o fato dele se manter em silêncio em certos momentos. E aquele era um deles.

Eu afundei no banco da janela, ainda que completamente congelado e molhado, e fiquei olhando os pingos de chuva no vidro. Até chegar em casa.

E quando cheguei, Beto me aconselhou a tomar um banho quente, e eu não discuti.

Acabei tomando um demorado banho. A verdade é que eu estava bem pra baixo, e tudo que queria era ficar quieto, sem falar com nada e nem ninguém. Então acredite, quando eu digo que o banho foi demorado é porque realmente foi.

Vesti uma calça de moletom e uma blusa azul de mangas compridas. E tentava em vão secar meu cabelo com uma toalha de rosto, mas não estava ajudando muito.

Beto estava na sala falando no telefone com alguém, completamente exasperado. Mas a me ver, sua expressão mudou de furiosa para compadecida em instantes.

E ele ainda estava com as roupas encharcadas.

— Você vai acabar ficando doente se não tirar essa roupa. – Comentei.

Ele me deu um pequeno sorriso.

— Está realmente preocupado com uma possível gripe ou só quer que eu tire a roupa pra você?

Acabei retribuindo o sorriso. Era notável que ele estava tentando fazer eu me sentir melhor.

— Bom, estou preocupado com a possível gripe. Não quero que fique doente por minha causa.

Ele tocou de leve meu rosto com as costas da mão.

— Não vou ficar doente, mas vou trocar de roupa. Tá bom?

Eu apenas assenti e ele desapareceu corredor adentro.

Eu desisti da luta entre a toalha e meu cabelo e a deixei pendurada no meu pescoço. Acabei me sentando no sofá e abracei meus joelhos e assim fiquei até Beto sair do banheiro e me tirar dos meus devaneios.

— Você estava certo. – Falei para ele.

— Estava. Mas não queria estar. Não gosto de te ver assim. E já vi você desse jeito milhares de vezes. – Não respondi. – Você está bem?

— Não, eu não estou. Mas vou ficar. Apenas... Me de um tempo, tá legal?

Ele se levantou.

Pensei que ia me deixar sozinho no meu momento depressivo e talz, mas é claro que não. Ele fez foi ligar o som e colocar uma música pra tocar.

Na verdade, demorei um pouco para perceber que eu conhecia a música. Conhecia o toque do piano e a melodia lenta. E não demorou muito para que a voz da Céline Dion cantasse a primeira parte de It's all coming back to me now e ecoasse por todo o apartamento.

Beto parou na minha frente e me estendeu a mão.

— Dança comigo?- Ele estava sorrindo.

E eu até pensei em rejeitar. Mas quando vi, já havia aceitado.

Suas mãos envolveram minha cintura e eu passei meus braços pelo seu pescoço. A musica se tornou ainda mais lenta. E nossos passos também.

— Como sabia sobre a musica?– Sussurrei para ele.

—É a sua musica favorita, não é? Acha que eu não saberia?

— É uma musica irônica, se quer saber. – murmurei – E agora ela vai me fazer lembrar de você.

Ele riu. Seus lábios estavam próximos a minha orelha.

— Isso é bom. Você ama essa música. Talvez um dia seja eu.

— Sim. Talvez seja... – Eu disse baixinho.

Nós continuávamos dançando no ritmo da musica.

—Alex?

— O que?

— Eu te amo. – Ele sussurrou. – Mas você poderia ser feliz comigo? – Sua voz parecia nervosa. – Perdeu sua memória, não sabe se é isso que realmente quer. Eu reconheço que as coisas mudaram...

— Sim... Elas mudaram. Tudo mudou. – Concordei. – Principalmente depois que te conheci. A minha vida virou de ponta-cabeça...

— Eu sei... – Ele lamentou. – Eu só não quero mais te ver triste. Mesmo que eu tenha que me afastar...

Afastei-me o suficiente para olha-lo nos olhos. Vi como era intenso e claro o que ele sentia por mim.

Eu não sei o que você fez com esse cara, eu do futuro, mas ele está completamente de quatro por você.

Assim como eu estava ficando por ele. Que grande porcaria. Quem eu estava tentando enganar?

Sem pensa muito no assunto fui em frente e o beijei. Foi como uma explosão de sensações por todo meu corpo. Acho que dessa vez eu o assustei, vendo que não foi apenas um toque de lábios como da primeira vez. Não foi, porque eu queria beija-lo. E queria muito.

O beijo foi completamente lascivo e desesperado. E Beto me correspondia com a mesma intensidade. Ele apertou ainda mais seus braços ao meu redor e nossos corpos ficaram completamente grudados.

Ainda com os olhos fechados acabei soltando um suspiro longo e demorado no final do beijo.

— Acho que você está um pouco atrasado pra querer se afastar de mim, porque acho que eu estou me apaixonando por você...

Notas finais
Eeeeee é isso! Espero mesmo que tenham curtido. E já vou logo fazer o próximo. Por favor, cometem! Eu realmente adoro os comentários e todos os incentivos que recebo. Eles estão me dando vontade de postar cada vez mais rápido A musica do capítulo é essa aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ACvP6r10KS8 Alem de ser cantada pela diva da Céline, tem uma letra maravilhosa