Âncora

1 Capítulo único


Ele não estava bem, ela já sabia, não era de hoje que Sasuke estava fora de seu normal, mas hoje era o dia que ela teve a certeza que tudo era mais grave que ela imaginava.

—Você está me traindo. – ele afirmou sem desviar os olhos. Ela respirou fundo, Naruto já tinha dito a ela sobre esse pensamento dela, porém era muito mais dolorido ouvir isso pessoalmente.

Ela respirou fundo. Não ia chorar agora, tinha que ser forte.

—Por que está me dizendo isso? – sua voz saiu mais firme do que pensava ser possível, contudo sentiu os olhos se umedecendo.

—Porque eu sei que está. – ele afirmou novamente, seus olhos negros mostravam que ele estava convicto, mas também mostravam que não era ele, era outra pessoa. – Sakura, por que você ficaria com um merda como eu?

Ela respirou fundo novamente e sentiu uma pequena lágrima rolando a bochecha. Sasuke já falava em ser um merda a pelo menos um mês e pedia ajuda médica para a família a pelo menos duas semanas.

Como ele não se sentiria um merda se o próprio pai fazia questão de lembra-lo o tempo todo? Até ela já havia se irritado com o endeusamento de Itachi e como Sasuke nunca conseguia alcançar o irmão aos olhos do pai, para piorar, os dois escolheram fazer o mesmo curso de faculdade!

—Sasuke, seu boletim da faculdade, por favor. Itachi me mostra o dele no fim de cada semestre. – Fugaku falou com a voz imponente.

O rapaz mostrou o boletim animado, suas notas em calculo tinham sido praticamente perfeitas, terminando com um média de 9,9. Ele sabia que Itachi tinha passado com 9,2 e esperava pelo menos uma vez na vida, o reconhecimento do pai.

—Sasuke. – o pai falou com tom de cobrança. –O que significa esse 7 em física? Itachi passou em física com 8,8, não é uma nota difícil de superar. Se não perdesse tanto tempo com aquela namorada...

O garoto revirou os olhos e apenas concordou com o pai com a cabeça. O pai nunca iria valorizá-lo? Era tão difícil ver que ele havia passado direto em todas as matérias, com uma das maiores médias da turma? Quantos não haviam ficado reprovados em Física? Fugaku estava errado quanto 8,8 ser uma nota fácil de se superar.

E claro, a implicância com Sakura. Como sua família não conseguia enxergar que ela não era um problema? Os dois estavam juntos desde a metade no ensino médio, ela estudava medicina numa excelente faculdade do país, mas aos olhos do seu pai, ela não passava de uma inútil.

Depois disso, Sakura apenas observou o desanimo de Sasuke para estudar e suas notas caindo. Até que no semestre anterior, ele reprovou em metade das matérias que cursava. Era tão difícil para família notar que isso não era normal? Como alguém com um CR de 8,5 cai para um de 6,0 e a família não enxerga que tem algo mais do que falta de estudo?

—Eu acho que não deveria ter ido fazer engenharia como Itachi. – ele confessou a ela um dia. –Não tem como! Meu pai só fala com as notas de Itachi são perfeitas e ignora como tem matérias com índice de reprovação maiores que 70%. Eu não sou Itachi!

E então, um belo dia ele pediu ajuda. Ele percebeu que não estava bem quando viu que mal escreveu o próprio nome numa prova para a qual tinha estudado. Ele tinha medo do que o pai pensaria sobre ele e, ao mesmo tempo, ele não conseguia escrever nada naquele pequeno pedaço de papel. Ele sabia que sua nota não seria nada maior que um zero redondo.

Ele já não dormia a dias, tinha crises de insônia uma atrás da outra e por mais que tentasse, não conseguia estudar. Como o pai sempre dizia, ele era um merda. E olhar para Sakura com boas notas e sendo pupila de uma das maiores médicas da cidade, só o fazia constatar que ele era um merda.

Então veio o pânico de chegar na faculdade e não conseguir nem chegar em sua sala. Ele era uma vergonha e não merecia estar ali. Voltou para casa no primeiro ônibus que viu a sua frente e ouviu as pessoas comentando o quanto ele era um merda, o quanto o irmão mais velho era tão melhor.

Chegou em casa e ouviu reclamação sobre como ele deveria estar em aula. Quantas vezes era necessário falar para o pai que precisava de ajuda? Que ele não estava bem?

Rumou ao seu quarto e olhou a janela algumas vezes. Será que doeria demais se jogar pela janela e dar fim aquilo de vez?

Olhou para o porta retrato em seu criado mudo, na foto, estava ele, Sakura e Naruto na época do ensino médio. Ela estava no meio entre os dois e seu sorriso era lindo como sempre. Como uma garota tão incrível poderia gostar de alguém como ele? Olhou a proximidade entre ela e Naruto na foto e descobriu: ele não era o único. Contudo, tinha certeza que Naruto era passado, quem seria o atual?

Tudo apontava para Sai, um amigo que Naruto fez na faculdade e se tornou próximo ao trio. Fazia sentido ser Sai, ela parecia se importar bastante com ele. É, era isso, ela só estava com Sasuke por pena, seu amor verdadeiro era de Sai.

—Sasuke. – ela falou o trazendo de volta ao presente. – Se eu realmente te achasse um merda, por que estaria aqui durante todo esse tempo?

Ele refletiu um pouco a encarando, viu as lágrimas rolarem pelas bochechas da garota, contudo sua expressão era firme. Ele nunca a vira chorar desse jeito.

—Pare de teatro, Sakura, eu sei que essas lágrimas são falsas. – ele disse a encarando, isso apenas a machucou mais, mas sabia que aquele olhar não era dele.

—E eu sei que não é você falando isso, Sasuke. – ela falou calma aproximando a mão da face dele, esperava que ele a afastasse, contudo, o Uchiha aceitou a carícia na bochecha.

E então olhou novamente para ela e ela o reconheceu. Sasuke Uchiha estava de volta e ele começou a chorar.

—Não consigo dormir bem a pelo menos um mês. – ele confessou, nunca tinha dito a ela pois sabia o quão enrolada ela estava com seus próprios problemas. – Em todas as provas estou tendo crises de ansiedade e sei que das seis matérias que faço, já estou reprovado em quatro. Enquanto isso, Itachi está lá desfilando com uma namorada que meu pai adora e com seu boletim perfeito.

Ela o abraçou deixando que ele chorasse tudo o que quisesse, e quando ele reergueu a cabeça, já não era mais ele.

—Sakura, por que até seu coelho das neves está dizendo que eu sou um merda? – ele perguntou apontando para o bicho de pelúcia que ela tinha desde os seis anos de idade.

Ele estava alucinando e ela tinha estudado na faculdade que insônia e ansiedade poderiam trazer esse sintoma. Seu coração desapertou um pouco ao saber que sua suposta traição também poderia ser fruto de uma mente desconexa. Ela o acalmou falando de coisas aleatórias para distrai-lo, trouxe de volta algumas lembranças do tempo e escola e então, ele estava de volta. Ele o mandou para casa antes que alguma outra alucinação o acometesse e ligou para Fugaku, ele ignorava tanto o filho que nem deveria ter percebido o quão fora de si o garoto estava.

Ela contou para o Uchiha mais velho sobre a insônia e as alucinações enquanto ao mesmo tempo mandava mensagens para sua tutora Tsunade perguntando sobre como deveria proceder.

Sasuke abrira um quadro clássico de psicose, provavelmente provindo da ansiedade e estresse pela faculdade. Tsunade não era psiquiatra, mas sabia que a medicação deveria ser feita o mais rápido possível ou o quadro poderia ser irreversível. Ela indicou pelo menos cinco psiquiatras de sua confiança e Sakura encaminhou tudo para Fugaku.

Naquele dia, Sasuke demorou o triplo do tempo para voltar para casa, pois acreditava fielmente que o ônibus havia trocado de numeração apenas para afasta-lo de casa. Sabendo de todo o episódio, Fugaku o levou para um psiquiatra no dia seguinte, nenhum dos médicos recomendados por Tsunade.

Sakura estava uma pilha de nervos. Sasuke deveria ter ido para o médico logo após sair de sua casa, sua mestra havia frisado que deveria a medicação deveria ser tomada de imediato. Além disso, era um médico que ela não conhecia, não sabia do potencial. Qual era o problema de a escutarem?

Mas pouco importava no fim das contas, Sasuke estava medicado.

No dia seguinte, ele ainda tinha alucinações, mas falava menos sobre querer morrer. Os melhores amigos o visitaram, porém ele ainda acreditava na traição de Sakura. Ao saírem da casa dele, Naruto ficou mais de meia hora na portaria apenas deixando que a rosada chorasse abraçada com ele.

Na semana seguinte, ele já era ele 95% do tempo e tinha consciência de quando não estava bem. Ele pediu desculpas por todos os comentários ruins que havia feito e contou que parte das memorias no período de surto, ele não conseguia lembrar.

No mês seguinte, ele já não tinha mais nenhum episódio de alucinação e já conseguia sair de casa sem ter vontade de voltar correndo para casa. A medicação foi reduzida e o semestre da faculdade trancado.

No terceiro mês, as consultas com o psiquiatra haviam diminuído a frequência, a medicação ainda estava sendo mantida, mas ele não se importava mais, conseguia viver normalmente. Já saia com os amigos para o bar nos finais de semana, mesmo que não pudesse beber. Já planejava retornar a faculdade logo e Sakura passara a ser melhor aceita dentro de sua casa, mesmo que o tratamento fosse diferente ao dado para a namorada de Itachi.

Ela estava deitada junto com ele na cama, ele lhe fazia um cafuné na cabeça enquanto ela digitava algo no celular murmurando com tom de mal humor, Tsunade a estava cobrando algo que ele não entenderia se perguntasse.

Afagou a cabeleira rosa a observando com cautela. Ele sabia que durante todo o seu tratamento, ela estava ali. Sabia que ela gritara no telefone com Fugaku para correr para trata-lo. Ele sabia que ela sabia da gravidade do que estava passando, e ela se cobrava por não ter se intrometido antes. Ele também sabia que tudo tinha acontecido próximo as provas dela e não sabia como ela tinha lidado com tanto estresse ao mesmo tempo, mas ela sempre esteve ali por ele.

—Eu te amo. – ele murmurou baixo beijando o topo da cabeça dela. Sakura arregalou os olhos um pouco impressionada, nunca fora do estilo de Sasuke se declarar com palavras. –Obrigado por ter sido minha ancora quando pensei que seria arrastado para fora do porto.

Ela se virou para ele e abriu um sorriso sincero, aquele pelo qual Sasuke era apaixonado. Ela não precisou dizer nada, apenas juntou os dedos indicador e médio e cutucou de leve a testa do Uchiha. Ele sabia o que vinha por trás daquele gesto, aquela era a expressão máxima de amor para um Uchiha e significava que ela sempre estaria ali.

Notas finais
Primeiramente, gostaria de agradecer a leitura de quem chegou até aqui.

Quem me conhece, sabe que essa fic é um desabafo e felizmente, estamos no quinto mês e o "Sasuke" em questão voltou a vida normal, retornará a faculdade nesse semestre, porém os remédios continuam, mas acreditamos que seja questão de tempo até que ele se livre totalmente.

Em segundo lugar, agradeço de todo o coração as meninas do grupo ShikaTema que me ajudaram a segurar essa barra, meninas, eu amo vocês.

Essa fic é um desabafo extremamente pessoal, então acho que vocês podem imaginar o quão dificil está sendo para mim postá-la. Então, em terceiro lugar, gostaria de espalhar o pouco de conhecimento no assunto que eu adquiri. Ansiedade e qualquer outro transtorno psicológico não são besteira ou palhaçada como muitos pensam, são coisas sérias. Se em algum momento alguém próximo a vocês, seja namorado, filho, irmão, pai ou amigo, pedir com todas as letras "Preciso de um psiquiatra", não hesitem em levá-lo! Façam isso o mais rápido possível antes que o quadro agrave.

Apesar de parecer esquizofrenia, um quadro de psicose pode ser aberto por pessoas em depressão ou com ansiedade. E as pesquisas mais recentes afirmam que quando mais rápido o paciente a medicação, maior são as chances de reverter o quadro, por isso a necessidade de ir a um médico o mais rápido possível.

Em quarto, sempre se lembrem que cada pessoa é uma pessoa, você não pode pedir para que ele seja igual a A ou B, ele é ele mesmo.

E, finalmente, em quinto, obrigada novamente pela historia, e, se puder, deixe comentário
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!