Áurea
2 Capítulo 2
2º
Na manhã seguinte, ainda haviam vestígios do “incidente”, mas nada que desse ensejo a catástrofe da noite passada. Mesmo assim, aqueles estranhos acontecimentos não deixaram de surtir efeito nas protagonistas.
Anna, milagrosamente, tinha se levantado mais cedo. Correu para o quarto da irmã, agoniada para lhe contar as centenas de teorias que haviam passado por aquela impetuosa cabeça. Estava saindo um pouco de neve da fechadura, mas ela nem notou. Aliás, não deve ser ter notado é nada. A menina nem bateu na porta, já foi logo a derrubando.
Assim que ela entrou a temperatura caiu vertiginosamente. O quarto parecia um pedaço de Polo Norte. Paredes congeladas, o chão coberto por neve e ainda tinha uma corrente de ar glacial circulando por lá.
—Elsa!- Anna foi a chamando enquanto se aproximava da cama. Mesmo com todo o barulho daquela ventania, o sono de Elsa continuava inabalado.- Acorda logo!- E jogou uma bola de neve nela.
Quando viu que não era tão genial acordar a Rainha da Neve com neve, ela apelou para a gravidade, empurrando ela da cama.
—Jesus!- Elsa acordou sobressaltada. A ventania acabou imediatamente.
—Desculpa, mas não teve jeito.- Disse Anna em cima da cama- Você está bem?
Anna estava estranhando o estado abatido da irmã. Aquilo era demais até para o “despertar de Anna”.
—Só tive uma noite ruim- Elsa sentou na frente do espelhou depois de ter livrado o quarto do inverno.
—E pelo visto não foi só isso que ficou ruim.- Anna começou a pentear a irmã enquanto falava suas mirabolantes especulações.
Embora o falatório da caçula não tivesse o menor fundamento, pelo menos ela estava a ajudando a se arrumar, uma vez que a Rainha parecia relapsa demais para esse ritual.
Até que Anna se silenciou.
—O que houve, Anna?- Elsa levantou o olhar para o reflexo de um rosto nublado pela tristeza- Por que você está assim?
—Por que você está assim?- Anna lançou um olhar determinado para irmã enquanto trançava o cabelo dela- O que te chateia me chateia também! Então por que você continua guardando tudo para si?
Havia um pouco de mágoa em sua voz. Talvez ela estivesse se lembrando da época em que nunca chegara a entrar naquele quarto. Quando ficava diante daquela porta sempre fechada, tão ansiosa para falar com a irmã. E então. O silêncio, como o de agora.
Elsa ia falar, mas então ouviram batidas na porta.
—Pode entrar, Kai- Disse Elsa
—Não será necessário, Majestade- Disse o empregado, só se ouvia a voz dele através da porta- Só vim avisar que o Rei de Blumon já está aqui.
—Ai meu Deus! Eu me esqueci!- Elsa se levantou de repente e foi correndo trocar de roupa- Rápido, me dê um vestido e já procura os sapatos e...
—Gente! Que desespero é esse? Só para receber esse cara.- Depois Anna pareceu ter percebido- Por um acaso ele é bonito?
—O que?- Elsa saiu já pronta- Anna, não é possível que você já se esqueceu dele.
Elas foram caminhando para a sala de reuniões.
—Como assim eu esqueci? A Rainha é você. Eu vou lá saber dos seus conta....Ahhhh!!!
A menina quase derrubou o homem com a empolgação do seu abraço.
—Hahaha! Também é bom te ver Princesinha.- Ele voltou seus olhos para Elsa- E o mesmo vale para você, Digníssima.
Princesinha e Digníssima, era como ele costumava chama-las quando morava lá. Aldos, atualmente Rei de Blumon havia sido companheiro de infância do pai delas e antigo amigo da família. Ficou a serviço de Arendelle até seu irmão falecer sem deixar herdeiros, isso um pouco antes do reino se “isolar”. Mesmo despreparado para o trono ele fez com que , em apenas 15 anos, seu país se tornasse um verdadeiro gigante entre os pequenos reinos. Tornando-o o parceiro comercial mais cobiçado da Europa. O que tornava o ponto mais relevante da conversa esse aqui:
—Bom, mais indo direto ao ponto, Majestade. Eu que gostaria de lhe fazer uma proposta. – Ele abriu um largo sorriso. “Só pode ser coisa boa!” pensou Anna- Uma proposta bastante promissora, ainda mais agora que Wesenton (Wesentown!) não está mais na sua lista de parceiros comercias.
—Ora, não faça cerimônia.- O sorriso de Elsa ia de uma orelha a outra. Desde que seu pai havia restringido as relações do reino, só haviam feito negócios com lordes e duques. Mas nunca com um rei.
—Quero que Arendelle seja a sede da nova Aliança!
Os dois monarcas não se aguentavam de tão contentes. Não haviam palavras para o momento, mas Anna as arranjou:
—E o que é a Aliança?
—É uma espécie de comitê, Anna.- O Rei começou a explicar- Onde os membros elaboram estratégias de apoio econômico mútuo. Assim todos saem beneficiados. E como esse grupo cresceu, estamos a procura de uma nova sede.- Ele se voltou para Elsa- E quem sabe, um novo membro. Então, Majestade, o que me diz?
—Isso seria...
— Incrível!- Interrompeu Anna animada- Deve ser nossa melhor oportunidade em anos.
— E essa não foi a única razão da minha indicação. A localização de Arendelle é idealmente insular, vocês ainda não estão politicamente envolvidos com ninguém. Mas....- Ele mudou de expressão.- Mas eles não foram convencidos.
—O que?!
—Suponho que seja por minha causa.- Elsa ficou serena, mas era perceptível sua decepção.
—Não. É por pura ignorância e falta de bom-senso deles. Francamente!- Ele parecia frustrado- Dou a eles uma lista de motivos, ótimos motivos para escolher esse país e me invalidam com uma dedução: ‘Lá não é seguro”. Tudo por causa de um pequeno acidente!
Acidente sim, pequeno não. Por mais que a Coroação não tivesse reunido tanta gente, os boatos sobre o incidente se espalharam mais do que a neve daqueles dias. E por mais que no final tudo tivesse corrido bem, a reação dos demais reinos só poderia se dividir entre o receio e a descrença.
—Mas não se preocupem.- O rei falou confiante- Eles virão hoje a noite e provaremos o quanto estão errados.
—Hoje a noite?!- Elsa quase chegou a berrar.
—Me desculpe, Majestade. Eu sei que devia tê-la consultado.- Ele ficou embaraçado com a reação dela.- Mas era a melhor forma de provar que esse reino é tão seguro quanto qualquer um. Não importando a ocasião...
—Não... Quero dizer sim. Claro, o senhor está certo. Eu só fiquei.... Surpresa.- Para não dizer perplexa.
—Eu lhe asseguro. Não há com que se preocupar.- Ele tentou reconforta-la- Eles só desejam te conhecer.
E a conversa ficou oscilando entre a relutância dela e as tentativas de convencimento por parte dele. Vendo que em tal empasse não haviam brechas para sua intervenção, Anna lançou um olhar entediando no ar. E percebeu que havia algo errado. Muito errado por sinal, já que o teto estava queimando! Alarmada, a princesa tenta fazer contato visual com a irmã. Mas a moça estava tão envolvida com as palavras do rei e tão imersa em sua própria indecisão , isso sem contar com o fato de que ela já não havia amanhecido “muito bem” para notar o que ocorria ao seu redor.
— [...] E como eu não estava presente....- O rei percebeu- Estão sentindo isso? Cheiro de queimado.
—Não!- Os dois se assustaram com o grito de Anna- Não....Não precisa se preocupar. É que essa sala é tão perto da cozinha.
Elsa olhou para ela como quem diz: “O que essa menina está falando? Ela sabe melhor do que ninguém que a cozinha fica a meio mundo daqui”. Então, finalmente, Anna consegue passar o recado fazendo uma “discreta” mímica com o olhar.
—Mas isso parece... tinta?- Ele ficou confuso
—Er....- Anna não estava conseguindo pensar em nenhuma boa desculpa.
—É um absurdo!- Disse Elsa autoritária- Nunca vamos nos concentrar nessas condições. Anna, leve o rei para outro lugar enquanto...enquanto eu vejo o que raios está acontecendo nessa cozinha.
Elsa nem precisou fazer menção de se levantar, Anna já havia praticamente corrido com o convidado para fora da sala. E assim que eles se foram, ela tratou de congelar o que estava queimando. Imediatamente o fedor sumiu, e o teto caiu.
—Ai!...- Disse Enzo com as costas esfumaçando e o pijama parcialmente queimado depois de despencar com o teto e tudo em cima da mesa.- Ah! Bom dia, Majestade.
Os vaga-lumes caíram matando em cima dele.
***
Enquanto isso no corredor
—Ouviu isso?- Perguntou o rei sobre o estrondo de teto caindo.
—Deve ter sido....- Barulho de paredes sendo violentamente batidas e coisas quebrando — O vento?
—Talvez....- Disse meio desconcertado- Ainda mais por não ter janelas.- Todas tinham sido quebradas pelos mosquitos- Aliás o que aconteceu com elas?
— Reformas!- Finalmente ela havia pensado em algo razoável- Sabe como é, reinado novo castelo novo. Por isso toda essa barulheira.
Ela olhou para uma das armaduras espelhadas decorativas e viu o reflexo da sala se incendiando e depois sendo congelada. Por sorte isso tudo em silêncio.
—Mas sabe de uma coisa velha que podíamos fazer? Corrida!- E apetou o passo e o velho junto.
—Acho que não... não tenho mais coluna para isso, Alteza.- Ele ofegava tentando a acompanha-la.
— E eu estou correndo de salto.- Disse Anna, também com dificuldade, era como se tivesse arrastando um armário (e olha que estamos falando de Anna)- Então nada mais justo.
E foi corre, corre, corre, corre....Pausa, por conta da taquicardia do Rei. Depois mais corre, corre, corre, pula. E pausa, pelos pés de Anna “Deus! Como doíam!”. E volta o corre, corre, desvia e então escorregam pelo corrimão. Enfim no pátio. Os dois estavam sentados no último degrau, exaustos.
—Como nos velhos tempos.- Disse o rei sorridente embora ainda muito cansado- Mas eu não me lembrava que cansava tanto.
—Ou que doía tanto.- Anna nem olhava para os pés, que segundo ela haviam virado carne moída.
—Acha que lá na cozinha teve um incêndio?
—Ainda dá para sentir?!- Anna estava indignada.
Era o cúmulo! Ah, mas ela que não ia dar mais nem um passo. Depois daquela correria toda e com salto! Só tirariam ela dali flutuando.
—Não, só falei por ela está demorando.
—Ah, sim!- Só de saber que não ia ter que levantar ela já até mudou de humor— Mas mesmo se for ,acho que não deve ser nada que ela não possa resolver.
***
Enquanto isso, a sala de reuniões é detonada. A leva de pragas voadoras tinha envolvido Enzo de um jeito que o tirou do chão. E agora o infeliz estava sendo espatifado em tudo quanto é canto e de todo quanto é jeito. Elsa fazia o que podia mas não conseguia acerta-los, o rapaz quicava mais do bolinha de bimball. Então ela conseguiu! Um, ela acertou um. Mas já adiantou, porque os insetos e a vítima perderam o equilíbrio e foram direto para a lareira.
A lareira explodiu.
***
Voltando para a princesa e o rei. Eles já tinham recuperado o fôlego o suficiente para rirem de antigas lembranças e apreciarem a fina neve que os refrescava. Ainda bem que Elsa tinha enfeitado aquele pátio com uma nevasca particular.
—Estou vendo que sua irmã fez um belíssimo trabalho.- Ele admirou os detalhes arquitetônicos esculpidos no gelo que decoravam o teto, e isso combinado com os flocos simétricos que caiam ritmicamente dando ao recinto um beleza ímpar.
Anna, já com entusiasmo no olhar, ia falar sobre o castelo de gelo e todos as coisas magnificas que Elsa podia fazer. Mas foi parada pelo olhar sério do monarca.
—Mas é só para isso que servem, Anna. Ser belo. E enquanto as pessoas verem esse lugar como um mero espetáculo, o reino pode até ser deixado em paz, mas sua irmã nunca terá o devido respeito. Entende o que digo? Os poderes são só detalhes.
—Os poderes fazem parte dela.- Rebateu Anna incomodada
—Mas não precisam fazer parte do reino.- A rigorosidade de sua voz mudou para um tom mais ameno- Sei que não testemunhei pelo o que vocês passaram, o pouco que eu sei vieram de cartas escassas. Ainda assim, quero ajudar, devo isso ao seu pai. Só que para isso preciso do consentimento deles. Portanto, pelo menos para eles os poderes tem que ser irrelevantes.- Fez uma pausa e então concluiu.- Afinal de contas, magia não tem utilidade em nosso mundo tão comum.
Nesse aspecto ele tinha um ponto. Mas a sensação incômoda de Anna ainda continuou no ar acrescida de uma indagação. “Para quê então Elsa teria nascido assim?”
Ouviram os passos de Elsa se aproximando.
—Ué, como chegou aqui tão rápido?- Perguntou Anna saindo do seu estado reflexivo.- E você já acabou?
—Sim. E tem mais uma coisa eu queria terminar- Ela parecia mais séria de quando a tinham deixado.- Majestade, já tomei minha decisão. Infelizmente terei que recusar.
—Mas o que?!... Com licença, Majestade. Eu só vou... Ai, ai meu pé ... ter uma palavrinha com ela.- Anna mancou até Elsa, se apoiou em seu ombro e a puxou, aos pulinhos, para um canto.
—Para faze-la mudar de ideia, leve o tempo que precisar.- Ele disse isso, mas não tinha esperanças que ela voltasse atrás.
Em um canto mais reservado.
—Como assim recusar?- Anna não acreditava que tinha rodopiado aquele castelo todo, e de salto, a toa. Só de pensar nisso seus pés doíam, por isso sentou logo no chão e levou a irmã junto.
—O que aconteceu com você?-Elsa tirou o braço de Anna de seu ombro.
—E com você?- Anna passou a mão no queixo negramente manchado de Elsa
—Os insetos...
—Voltaram?!
—É, mas já acabou. Eles foram pulverizados no fogo junto com o Enzo...
— Enzo foi pulverizado?!
—Não! Deixa eu terminar!...Os insetos e o Enzo caíram na lareira e teve um fogaréu. Mas ele está bem.- Seu rosto ficou aflito- Viu, Anna? É por isso que não podemos recebe-los! Não sabemos o que aconteceu, o que está acontecendo ou o que pode acontecer!
E quanto mais Elsa falava mais atormentada ficava, e mais a temperatura caia. Mais uma vez ela experimentava uma aflição que achou que jamais voltaria a sentir. Anna colocou a mão em seu ombro, mesmo com o frio cortante que se exalava de lá. Se sentiu incômodo ou dor não demonstrou, aliás nem se importava.
—E se não acontecer?- O sinais de ar quente saíram de sua boca, só assim Elsa começou a moderar o seu tom, trazendo o clima ao normal.
—Como pode saber se não vai?
—Como pode saber que se vai? Viu? É meio a meio. Qual é! E mesmo se acontecer....- Foi só Anna falar isso para Elsa fechar a cara.- O que não vai acontecer. Vamos dar conta. Pelo o amor de Deus, podemos distrair....O que? Meia dúzia de nobres?
***
Muitas centenas de nobres depois.
As irmãs estavam pasmas. Nunca haviam visto tanta gente na vida, ainda mais em um lugar só. As pessoas estavam literalmente se espremendo uma nas outras no salão lotado. Só as duas estavam a salvo daquele mar de gente, paradas perto de onde ficava o trono. Isso até elas avistarem o rei Aldos fazendo sinal para Elsa, ele estava cercado (provavelmente todos estavam) por um grupo de distintos cavalheiros. Anna, que não ia entrar no meio daquela muvuca, foi logo saindo de cena com a desculpa de que ia verificar a varanda. Já para Elsa não teve jeito, teria que atravessar aquela furupa. Mas foi só ela dar o primeiro passo, para a multidão se abrir como o Mar Vermelho. E ainda reverenciando-a, apesar do aperto, com um respeitoso silêncio enquanto ela passava. Afinal, devia ter alguma vantagem em ser a anfitriã.
—Majestade, esses distintos cavalheiros são os meus parceiros- Começou Aldos- Esse é...
— Um desses companheiros. – Interrompeu um senhor comprido com óculos de altíssimo grau. De todos os presentes ele era o único que não estava sorrindo amigavelmente para a moça.- E embora eu seja distinto, não mereço o título de cavalheiro. Uma que vez a descortesia dessa visita inesperada....- Olhou ao redor- e as proporções que ela tomou tenham sido ideia minha.
—Não precisa se preocupar...
—Sim, eu sei. Mas espero que o mesmo se aplique a senhorita.- Olhou-a de soslaio só para acentuar seu cinismo- Como nenhum de nós estava presente em sua coroação achamos que seria justo tentar fazer uma pequena reprodução da ocasião.
—Quando ele fala “achamos”, na verdade significa “achei”- Rebateu Aldos irritado mas ainda mantendo a compostura.
—Ao contrário dele, Majestade- Retribuiu com um tom também irritadiço- Não tome isso como algo pessoal. É só uma avaliação neutra e racional. Livre de favoritismos, assim como deve ser qualquer decisão.
O rei de Blumon estava prestes a abaixar o nível daquela conversa, mas era a vez de Elsa falar:
—Obviamente, senhor...
—Lorde Dmitri.
— Então, Lorde. Como eu estava dizendo, se as condições geopolíticas do meu país e as palavras de uma pessoa que trabalhou aqui por décadas não lhe bastaram. Não entendo como o testemunho dos senhores pode acrescentar em algo.
O Lorde ficou, no mínimo, surpreso. Aldos nem disfarçou o sorriso e o demais membros se olharam perplexos. Ninguém esperava que ela devolvesse na mesma moeda. E ainda tinha mais:
—Mas...- Fez uma pausa para acentuar seu recalque- Talvez a estadia dos senhores me ajude a compreender esse arranjo. E de qualquer forma fico feliz em recebe-los e todos os seus convidados. Eles certamente darão um clima festivo a essa avaliação.
—Vejo que aprecia festas, Majestade.- Dmitri teve dificuldade em pensar em uma represália, mas estavam todos olhando, ele tinha que alfineta-la de alguma forma.- E embora eu tenha um filho da sua idade, ele sempre foi mais inclinado ao trabalho do que a diversão. Mas, é irrelevante falar de exceções. São só os reflexos da juventude.
—Não sei que tipo de juventude o senhor está espelhando, mas na minha eventos sociais que tem como finalidade avaliações políticas não são necessariamente uma diversão. No entanto eu, particularmente, gosto mais da política do que da celebração.
—Então não se importaria de participar de uma de nossas reuniões...
—De forma alguma! Até faço questão. Pode ser amanhã?
—Claro que pode.- Disse Aldos bem-humorado- Ouviram senhores? Reunião amanhã!
Os demais cavalheiros, que particularmente nunca tiveram opinião própria restringindo sua utilidade em concordar com quem estava ganhando, concordaram enfaticamente. Dmitri estava indisfarçadamente desconcertado, experimentando a sensação de pela primeira vez na vida estar contrariado.
—Com certeza...- Ele perdeu seus poderes- Será bastante instrutivo.
—Ou profético. – Acrescentou Aldos malicioso.
Enquanto a festa acontecia lá dentro, do lado de fora só era silêncio. Os guardas haviam sido instruídos a rondarem pelo vilarejo avisando para as pessoas se manterem dentro de casa. Outra parte deles estava nos mirantes vigiando as fronteiras da floresta. Entre esses vigias estavam Kristoff e Sven, vasculhando com binóculos o céu de Arendelle, que sempre fora muito lindo.
Nada de importante aconteceu, apenas Kristoff teve uma discursão acalorada durante seu monólogo/diálogo com Sven. O assunto pelo visto orbitava sobre quando ele iria perguntar certa coisa para Anna. A briga devia estar tão feia que até os guardas dos mirantes vizinhos se divertiram com aquela esquisitice e comentavam que a princesa era de fato uma mulher de proezas. Tinha conseguido achar alguém mais louco que ela.
E falando em loucura, Olaf e Enzo estavam fazendo uma. Eles deviam estar de butuca nos mirantes próximos ao castelo, mas ao invés disso tinham ido assaltar a cozinha. O boneco de neve convenceu o rapaz de que isso não era uma falta tão grave, aliás era parcialmente culpa das circunstâncias. Afinal de contas, como iam vigiar direito de barriga vazia e ainda por cima sentido o cheiro do rango?
— Mas príncipe Olaf- Enzo tinha colocado na cabeça que o boneco era filho de Elsa- Você nem tem estômago.
—Mas tenho nariz!
—Justo.
E com esse justíssimo argumento foram para a cozinha. Olaf saiu de lá com todos os salgadinhos que conseguisse cheirar e Enzo com um balde gigante de chocolate quente, desde o café-da-manhã ele bebia aquilo como água. Estavam passando pelo o pátio externo, aquele lugar onde a ralé ia festejar as celebrações reais e de vez em quando patinar.
— Então o céu fica todo riscado por conta da queda dos meteoros, mas eles não caem aqui....Peraí! Ouviu isso?
Enzo estava ocupado demais secando aquele galão de chocolate e ainda tinha a coceira terrível nas costas.
— Disse alguma coisa?
O rapaz olhou para um lado depois para o outro. Pronto, tinha perdido o Olaf. E naquele escuro não seria nada fácil encontra-lo. Então um sapo muito esquisito apareceu. E esquisito significava que ele era azul e brilhava no escuro. O rapaz até tinha pensado em falar com ele, estava em uma terra em que bonecos de neve falavam, pedras falavam, então por quê não pedir informação para o sapo. Mas o bicho o olhava de um jeito tão bizarro que ele resolveu dar meia-volta. Então veio um puxão que quase o fez largar o balde. Olhou para trás, e só tinha o sapo esquisito e imutável. Se virou de novo e veio outro puxão. O mais estranho foi que depois desse ele sentiu que sua coceira tinha aliviado um pouco. Olhou para o seu ombro e viu com espanto que tava sem ombro um pedaço da camisa tinha sido arrancado. De súbito veio o puxão que o arrastou em definitivo.
***
Na varanda do castelo, Anna apreciava a paisagem e principalmente o espaço. Não entendia porquê aquele povo preferia se enlatar naquele salão abafado ao invés de ficarem no ar fresco. Mas enquanto a burrice deles pendurasse mais a tranquilidade dela duraria. Olhou despretensiosamente para o pátio abaixo dela. Viu um sapo. Mas não era qualquer sapo, era “aquele” sapo. Com a pele azulada e fosforescente acompanhada de olhos grandes e nojentamente vermelhos. Era diferente, mas não suficientemente suspeito. Isso até ele lançar sua língua numa estátua e a engolir por inteiro.
Anna nem havia tido tempo de assimilar o que ocorrera quando o bicho sumiu de vista. O pensamento de alertar a irmã lhe veio de imediato. Mas assim que ela virou a cabeça se deparou com essa cena: o sapo no parapeito há centímetros de alguém e olhando fixamente para essa pessoa. A garota correu em disparada, e conseguiu derrubar o sapo a tempo. Mas não deixou de topar violentamente com a quase vítima.
— Me desculpe, senhor...- Anna ficou impressionada com o tamanho dele, era tão alto que ela teria que deitar no chão para tentar conseguir ver o seu rosto.
— Não desculpo, não!- Vociferou a “montanha” que se inclinava para encara-la. — É por conta dos meus olhos, não é?!
— O...o que?- Ela não sabia se ficava mais confusa com a reação do homem ou com o fato dele perguntar isso estando de óculos escuros.
Ele tirou os óculos com impaciência mostrando dois olhos esbugalhados que saltavam pelas orbitas. A menina não sabia como reagir.
— Eu sabia!- Ele parecia se lamentar mas ainda com aquele tom de voz grosseiro- “Ninguém vai notar” ele sempre diz! “É coisa da sua cabeça” ele sempre diz!. Mas como não iam notar isso?!- Ele conseguiu arregalar ainda mais os olhos- Céus... Que maldição!.. — E estourou a taça de vidro, nas próprias mãos!- Ah, perdão...- Ele mudou radicalmente de tom- Eu a assustei?
“Sim. Muito” Anna pensou em dizer mas depois daquele ataque dele, achou melhor ficar quieta.
—Hum... — Ele olhou para mão que tinha esmagado a taça- Parece que o vinho acabou. Vou pegar mais, com licença- Já estava indo embora mas voltou- Ô inferno! Esqueci de perguntar!... A senhorita também vai querer?
—....
—Vou trazer dois de qualquer forma.- Saiu tranquilamente da varanda mas entrou esbravejando no salão.- Garçom! Ô garçom!!!
Anna ainda estava.... assimilando o que tinha acontecido. Se é que havia algo para se assimilar daquilo. Talvez aquilo tenha sido no mínimo esquisito. Esquisito de um jeito que ela nem conseguia explicar. Então ela lembrou das palavras de Elsa:
“[...] era muito, muito irritante e tinha os olhos...”
“Isso! Ele só pode ser o Enzo Esquisito! Nossa, Elsa não vai nem acreditar... Meu Deus! Elsa!” Anna já ia correr para o salão mas viu um garoto a encarando com espanto. Ele apontou para baixo com o olhar. Os sapos estavam engolindo tudo!
Anna olhou para o menino, o menino olhou para Anna. Nesse instante ela só teve um pensamento: “Eu tenho que correr mais rápido que esse moleque!”.
Saíram em disparada com a princesa contornado a multidão e o menino rastejando pelos pés da nobreza. Ao mesmo tempo que faziam essa corrida de obstáculos não desgrudavam olhos um do outro. Até Anna o perder de vista, mas encontrar Elsa.
—Elsa!- Anna foi a puxando por trás.
— Ah, sim. – Elsa tirou Anna detrás dela -Senhores, essa é a minha irmã Anna.
Eles a cumprimentaram, ela desleixadamente retribuiu e já estava se retirando com a irmã quando o Rei de Blumon apareceu.
— Um instante, Majestade. Deixe-me lhe apresentar logo o meu filho Alexsei. Do jeito como ele é curioso e fujão, talvez essa seja a única ocasião para o faze-lo — E mostrou o garoto da varanda, que parecia muito contrariado.
—Pai, é sério! Eu vi sapos comendo estátuas!
Anna e Elsa ficaram lívidas.
— Me desculpe, Majestade. Ele é obcecado pelo extraordinário. Mas ele veio aqui só para poder conhece-la. Não parava de se lamentar por termos perdido a sua coroação.
— Pai!- Ele protestou constrangido.
—Desculpe.- Disse para ele e olhou para ela- Mas é verdade.
— Sendo assim. Muito prazer Alexsei.- Ela o reverenciou
Seu corpo se enrijeceu , seu coração acelerou e seus olhos se perderam na eternidade daquele momento, admirando a sobrenatural beleza diante dele. Aqueles olhos azuis cristalinos, a pele branca como a neve e o louro dos cabelos beirando o prata, o fizeram voar em líricos devaneios....Isso só na cabeça dele, porque no mundo real parecia que o moleque tinha entrado em estado de transe.
Aproveitando a atenção que a viagem cósmica dele atraiu, as protagonistas conseguiram conversar a sós. E quando estavam indo embora, ouviram Enzo Esquisito brigando com o sapo azul comendo-de-tudo, bem no centro do salão. O animal estava por um triz de acabar com sua paciência e liberar sua língua, até que o Enzo(só Enzo mesmo) o pegou.
—Te achei ! Por onde você andava, meu filho?- Enzo tentou o cariciar mas o sapo se debatia violentamente irritado.- Olha...- Ele segurava o bicho com dificuldade- Ele está até.... se sacudindo de alegria.
—O seu animal me ofendeu!- Atacou o Esquisito colérico
—Mil perdões, senhor. É que Satã tem problemas em fazer amigos. Veja só o que ele fez nas minhas costas- Ele mostrou sua camisa toda picotada- Isso só por ansiedade em estar em uma festa....
— Coitadinho!- O Esquisito agora estava comovido- Eu entendo como se sente. Deixe-me olha-lo.- Ele se aproximou do sapo, mas Enzo o recolheu.
— Melhor..
—EU DISSE DEIXE-ME OLHA-LO!
O berro dele assustou até o sapo. Enzo que não ia contrariar. Assim que mostrou o bicho, a criaturinha pegou a taça da mão do Esquisito e a engoliu por inteiro. Todos olharam aquilo assombrados, e se os convidados estavam assim a reação anfitriã era indescritível.
—Tcharam! Muito bem Satã! Do jeitinho que ensaiamos. Parabéns, senhor. Ele aceitou a sua amizade. E a bebida.- Falou Enzo sem o menor o embaraço.
Todos riram e aplaudiram o pequeno espetáculo. Enzo levou a brincadeira a diante e fez do sapo- comedor-de-tudo a atração da festa enquanto Elsa e Anna finalmente saiam de fininho.
As garotas rodaram quase todo o castelo a procura dos bichos, e nada. Já estavam descendo frustradas para o pátio até se depararem com a estranha visão de uma pilha de esferas luminosas, que lhes parecia familiar.
— Oi, meninas!- Disse Olaf trazendo mais daquelas bolas.
—De onde foi que você tirou isso?- Indagou Anna
— O que, isso? Foi dele.- Ele apontou para o sapo que tinha acabado de aparecer- Chega mais, amigão!
—Olaf! Fica longe dele....
Mas antes que Elsa sequer terminasse de falar o bicho a tinha partido para cima de Olaf, e ele já o esperava de braços abertos. Assim que tocou no boneco virou uma bola instantaneamente.
Desvendado o ponto- fraco restava agora acabar com a fonte
***
As bizarras criaturas azuladas saltitavam pelos telhados do vilarejo em sinistra sincronia. Rumando para o cada vez mais próximo castelo. Mas uma silencioso tempestade branca lhes eclipsou o alvo e apressou a marcha. A chegada daquela névoa era calma e sorrateira, serpenteando brechas e envolvendo as casas. Isso até a atingir o primeiro sapo e assim devorar violentamente todo o exército de uma só vez.
E foi desse modo simples e rápido que a ameaça fora contida. Até então o muito trabalho que se teve foi recolher os bichos, o que também não demorou muito já que contou com a ajuda tanto dos guardas quanto dos súditos.
— Ufa!- Disse Anna colocando na enorme gaiola de gelo o que devia ser o último dos sapos- Essa até que foi fácil.
— Fácil até demais....- Elsa mirava as imóveis esferas com desconfiança.
—Merda!
—O que foi?
Uma estranha, porém conhecida nuvem vermelha se aproximava, e dentro dela familiares insetos a formavam. Elsa desfez a gaiola e removeu qualquer resquício de neve ou gelo, na tentativa de reanimar os prisioneiros. Mas nada. Não havia fogo, batida ou pedrada que acordasse aquelas bolas. Sem esperança de recorrer a algo mais discreto, Elsa estava prestes a fazer a tempestade. De repente houve uma explosão. Felizmente ninguém estava perigosamente perto, só os sapos foram as vítimas. Mas eis que da volumosa fumaça, os esquisitos anfíbios “pipocaram” veloz e sequencialmente. Fizeram jus a sua ressurreição, indo imediatamente atrás de suas presas.
A fumaça da explosão baixou, mas havia outra muito mais tênue e fraca que ainda não tinha se apagado. Elsa foi ao seu encontro, à procura da fonte.
— Cof, cof.... Majestade?- Enzo se levantou das cinzas. Suas costas esfumaçavam e em seu quadril haviam pedaços queimados do que uma vez fez parte de uma camisa.- Como é...- Ele olhou ao seu redor em evidente confusão.- Que eu vim parar aqui?
A resposta dela foi olhar para ele como se não pudesse estar mais confusa. Mas surgir das chamas sem mais nem menos seria o menor das esquisitices perante ao que estava começando a acontecer. As mãos dele tremiam com uma agitação que quase chegava sacudi-las, mas também com uma involuntariedade que impedia o dono de nota-las. E, se até então, as coisas já não estavam de fácil entendimento, depois daquilo haviam alcançado o surreal.
Um som de galope e uma voz surgida ao longe se aproximaram.
— Elsa!- Kristoff chegou as pressas montado em Sven- Parece que o baquete acabou. Nenhum vaga-lume para contar história.
— E nem sapo- Anna pareceu, também cavalgando. Elsa nem tinha notado que ela tinha indo embora juntos com os sapos- Olha só, o estado dessa criatura- E jogou para ela um sapo nauseado com o bucho enxado.- Ué, Enzo?
—Ah....Oi, Alteza- Ele jogou as mãos para trás.
— Oi uma ova! Você não tinha que estar distraindo os convidados?
—Então vamos acelerar o processo.- Kristoff ajudou Elsa a subir e foram petrificar de novo os sapos.
—É, Enzo não fica parado aí, não.- E a princesa o levou junto.
Enquanto cavalgavam, Enzo observava suas mãos, agora normalmente quietas, com um misto de curiosidade e preocupação.
De volta ao castelo, mais especificamente na gigantesca mesa de jantar, com tudo definitivamente resolvido.
—Eu gostaria de propor este brinde a toda família real. Em especial a nossa Digníssima Rainha-Anfitriã por sua hospitalidade para conosco. Além da presteza e pontualidade, já que como manda as velhas tradições o jantar vai ser servido as exatas 22:00 horas. Por isso serei breve com esse dois minutos restantes.- Aldos a reverenciou e todos o seguiram — E em nome de todos agradeço pelo o entretenimento que nos foi dado. — Ele sorriu para Enzo, — Isso sem mencionar das 500 libras que ganhei na aposta dessa noite, graças ao senhor Digníssimo! Não vou citar nomes, Majestade. Mas a verdade é que todos acreditaram que o truque dele houvesse fatalmente falhado. Só eu me mantive favorável e apesar de tudo....- O estado do rapaz era pior do que saiu, mas um pouco melhor de quando voltou- Eu estava certo. Oh, Deus, o jantar já chegou? Enfim, para finalizar, é por todos que eu digo: Muito Obrigado.
Após os aplausos gerais, a refeição começou a ser servida. E enquanto as bandejas pousavam na mesa, os guardas passavam despercebidos pelo o corredor periférico camuflados pelas cortinas. Levavam silenciosamente a grande gaiola cujo o conteúdo fora velado com um manto. Apenas a jovem soberana acompanhava o trajeto com um discreto olhar. Tranquilizada com a calmaria das coisas, dirigiu os olhos para o grande relógio de madeira. Marcavam as exatas 22:00 horas. E então logo a quietude foi perturbada e a gaiola começou a tremer e a brilhar insistente. Por sorte já estavam na saída, conseguiram a conduzir com certa dificuldade e desaparecer do recinto. Mas a apreensão da jovem não tinha indo embora, e de novo seus olhos foram parar no relógio, dessa vez com uma diferente atenção.
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